Ellen van Deelen e a ética dos treinos de animais

30 07 2009

rato no pianoEllen van Deelen, Rato ao piano.

 

Num dia de poucas notícias, algumas coisas diferentes aparecem nos portais dos grandes jornais.  Este foi o caso da BBC Brasil que hoje trouxe aos olhos do leitor brasileiro o trabalho da fotógrafa holandesa Ellen van Deelen, em que ratos com pequenos instrumentos musicais são fotografados como se estivessem de fato fazendo solo numa pequena orquestra. 

 

rato flautista

Ellen van Deelen, Rato fautista.

 

O trabalho de Ellen van Deelen, que mora em Roosendaal na Holanda,  já é bastante conhecido aqui e fora do Brasil, como atestam as dezenas de fotografias, de sua autoria, encontradas na web.  Reconheço que há algo interessante e por uma fração de segundo, talvez até menos, a mente do observador possa se interessar.

 

rato sax

Ellen van Deelen, Rato saxofonista.

 

No entanto, esses animais retratados não passam de pequenos roedores.  Ratos propriamente ditos que não podem nem se classificar como camundongos porque são grandes demais.  E eu me pergunto:  onde estão os defensores dos direitos dos animais quando alguma coisa como essa é engendrada?

rato acordeão

Ellen van Deelen, Ratos com acordeão.

 

Quando por muitos anos tive um antiquário nos Estados Unidos, minha companhia era uma das companhias contribuintes para a SPCA, [sociedade de proteção de animais].  Minha loja tinha um cachorro dentro da loja, (lá é permitido) todos os dias.  Eles eram cachorros dos funcionários, que faziam o rodízio de segunda a sábado de comum acordo com a administração.  Meu antiquário era conhecido por seus membros caninos:  Garth, um fox-terrier, por Max, um sheltie, e por Pebbles, um spaniel King Charles.  Outros membros da companhia tinham gatos, mas esses não faziam rodízio, já que não eram treinados para ficarem quietinhos.  Dou esta relação toda de antemão, para dizer que gosto de animais.  No entanto, acho a personalização de animais de estimação: o vestir, as botinhas, as sainhas, os laçarotes, uma anomalia do comportamento de um dono de animal de estimação.  Como o conhecido Cesar Milan, do programa de televisão O Encantador de Cães, não se cansa de dizer, cães, cachorrinhos de estimação, não são bonecos com os quais brincamos de vestir e fantasiar.

 

Cesar Milan e um monte de cachorros

Cesar Milan, O Encantador de Cães, e alguns de seus cachorros.

 

Daí, aparece Ellen van Deelen, que é uma excelente fotógrafa.  Basta ver suas fotos de insetos, pessoas, pássaros para perceber.  Mas que explora este tênue caminho entre o fotógrafo que como ela mesma diz testemunha a natureza e a obra divina: “Como sou cristã, espero que minhas fotos mostrem um pouco da linda criação de Deus“.  

 

joaninha

Ellen Van Deelen, Joaninha.

 

Há um apelo muito grande para o marketing nessa carreira profissional de fotógrafa que me desagrada profundamente, porque extrapola o mundo natural e cria à custa de um treinamento à base de premiação com comida, animais que mudam o seu comportamento para que agradem às nossas fantasias.  Animais que não tem nada a ver com um saxofone ou um carrinho de bebê, ou qualquer outra característica humana, são obrigados a se comportarem de uma maneira esdrúxula ao seu  mister.  Para isso, existem os ilustradores, que, esses sim, sem abusar da relação homo sapiens e animal, podem dar largas à imaginação e colocar um coelho com um relógio na história de Alice ou pato vestido de marinheiro como Donald.  

4 gatinhos felizes elizabeth webbe 1956

Quatro gatinhos felizes, ilustração de Elizabeth Webbe, 1956.

 

Isso tudo me parece mais um desrespeito à obra da Natureza, do que uma reverência.  E antes que me perguntem: não, não acho esses ratos engraçadinhos.

FONTE: Portal Terra, BBC Brasil


Ações

Informação

6 respostas

30 07 2009
Lígia

Ladyce,

Falando em ‘musicalidade’, como são as cores do ‘eclipse’ lunar?

Beijo!

2 08 2009
Luiza

Acho que você tem que tomar cuidado insinuar que uma pessoa “explora” seus animais. No caso da fotógrafa, segundo ela, o treinamento a base de premiação com comida. Qual é o grande problema nisso? Aliás, o grande Cesar Milan também se uitliza dessa técnica.(e todo adestramento) Me parece mais uma falta de assunto e necessidade de ser do contra. E pode ter certeza de que, se fosse o meu nome aí no seu blog, acusado de falta de ética profissional, você teria problemas.

2 08 2009
peregrinacultural

Luiza, aprecio a sua opinião. Mas não preciso “tomar cuidado”. Este é meu espaço e nele estão as minhas opiniões. Como já as tornei claras. E, certamente, quem segue este blog sabe que não há falta de assunto.

4 08 2009
Ana

O fato deles modificarem seu comportamento fazendo gracinhas por comida é igual ao dos cachorros e outros animais adestrados. Até aí, não vejo mal tão grande assim.

4 08 2009
peregrinacultural

Pois é Ana, você acertou na mosca. É como treinar o elefante para colocar suas patas juntas e se equilibrar num banquinho de 50cm de diâmetro; de fazer o tigre abrir a boca enquanto o domador coloca sua cabeça lá dentro; ou pular dentro de um aro pegando fogo; é semelhante também aos cachorros dançarem e pularem corda. Aos poucos, fomos deixando de lado este tipo de comportamento. Hoje em dia muitos circos já não têm animais fazendo este tipo de truque. Esses comportamentos não têm nada a ver com o comportamento dos animais no seu habitat. Há um site na California que explica isso muito bem: http://www.idausa.org/facts/circusfacts.html

O que me preocupa com os ratos da Ellen van Deelen é o princípio da exploração dos animais. Ela é uma excelente fotógrafa. Todos nós sabemos disso. Essa coleção de fotos– que hoje estão entre as que ela tem de maior sucesso — pertencem a uma espécie de “sonho” — de “revelry” — que só existe para o prazer — e, a meu ver, de gosto dúbio — dos humanos do lado de cá da câmara. A razão de eu ter mencionado o Cesar Milan, — que aliás nunca vi treinar seus cachorros com comida — é que ele acredita que cachorro é cachorro, e que deve ser tratado como tal. O que eu espero de Ellen van Deelen e de outros é o mesmo: rato é rato. Tratemos os ratos como tal. SE as fotos tivessem registrado com a mesma perfeição de luz e de detalhe o rato no seu habitat, que tenho certeza seria tão engraçadinho quanto estes ratinhos, não estaríamos aqui discutindo o trabalho. Estáriamos todos simplesmente nos deliciando… Mas acho importante questionarmos estes assuntos. Sem a troca de idéias e esclarecimentos, não há como melhorarmos o nosso ambiente. Um grande abraço, Ladyce

6 08 2009
Gabriela (Bee)

Tenho que discordar de você…
Sei que muitas vezes nos casos de animais adestrados em circos, para shows ou touradas, há toda uma ocorrência de maus tratos. Mas aparentemente não é iso que Ellen Van Deelen faz com seus ratos, então não há como comparar as duas situações.
Se a fotógrafa trata bem os ratos, qual o problema em oferecer comida pra que eles apresentem determinado comportamento? Os animais não estão sofrendo com isso; muito pelo contrário. Mesmo que seja algo feito para alimentar as fantasias humanas, se não há sofrimento para os animais, não vejo nada condenável nisso.
Trabalhei com treinamento de ratos na faculdade (e tudo é regulamentado pelo Comitê de Ética); apresentar comportamentos baseados no reforçamento pode ser algo verdadeiro tanto para humanos quanto para ratos. Agimos como esses ratos o tempo todo e nem por isso vivemos infelizes.

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