A cobra Norato: lenda do folclore brasileiro – versão de José Coutinho de Oliveira

31 08 2011
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Antigo vaso grego, aproximadamente século V aC com a imagem de Cecrops, fundador da cidade de Atenas.
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A cobra Norato

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                                                              José Countinho de Oliveira

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– Ainda no tempo colonial, veio para o Pará um português riquíssimo e, desejando aumentar seus haveres, fundou no Tocantins, perto de Mocajuba, uma fazenda para o cultivo do cacau.  Além do grande pessoal que consigo trouxe, acompanhou-o um seu filho de nome Honorato, rapaz de seus quinze anos, muito bonito e dado a conquistador.

Um dia este moço desapareceu sem que pessoa alguma pudesse dele dar mais notícias.  Dizia então uma velha índia que havia visto o moço Honorato andas nos dias anteriores triste, passeando pelas praias do Tocantins, atraído, sem dúvida, pela beleza de Iara e que esta o havia levado para o fundo do rio.

O que é certo é que alguns anos depois, quando há alguma grande festa, à meia noite aparece este moço, que dansa, diverte-se e às três para as quatro da madrugada, quando a aurora começa a despontar, ele some-se sem que ninguém saiba para onde vai.  Muitas vezes já se tem procurado sitiá-lo, colocando vigias por todos os lados para vê-lo sair e apenas uma vez muitos rapazes o viram atirar-se n’água do alto da ribanceira.

– Mas, coronel, isto é um absurdo, uma tolice.

– Não falemos assim; há tanta coisa na natureza que nós não compreendemos, de que não sabemos a causa e, no entanto, não podemos negar.

– Mas este fato tem uma explicação natural.  O Tocantins é continuamente navegado por canoas de regatões, por vapores e lanchas.  Ora, não é de admirar que, uma ou outra vez, um desses viajantes apareça em uma festa e de repente se vá embora, para continuar viagem.  Ninguém o conhece e a imaginação popular começa logo a criar mistérios.

– Não é assim.  Ouça: há dois anos houve uma grande festa no engenho do capitão Pinheiro, no distrito de Abaeté, na véspera do Natal, e na mesma noite outra na casa do Manuel Francisco, que o senhor bem conhece, chefe político de  nomeada em Bião.  Pois bem, à meia noite em ponto, o Honorato aparecia no baile do Pinheiro, em Abaeté, desaparecia às duas horas, para surgir às duas e meia em casa do Manuel Francisco. Qual a canoa ou vapor, ou balão capaz de, em meia hora, percorrer a distância que vai de uma a outra casa? Nem em oito horas!

– E o senhor poderia me dizer se conhece alguma cobra grande capaz de fazer esse percurso em meia hora? 

– O Honorato, porque é encantado.

Em:  Criança Brasileira: admissão e 5ª série,  Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1949.

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José Coutinho de Oliveira, (Brasil, ? – ? ) escritor, linguista e folclorista da Amazônia.  Membro da Academia de Letras do Estado do Pará.

Obras:

Lendas Amazônicas, 1916

Folclore Amazônico, 1951


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