O boi do Melchior, texto de Viriato Corrêa

1 05 2013

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Zacharias Wagener

Cidade Maurícia em Pernambuco, c. 1640

Zacharias Wagener (Holanda, 1614-1668)

Aquarela sobre papel, fonte para a:

Prancha 107 do Thierbuch

Kupferstich-Kabinet  em Dresden

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O boi do Melchior

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O boi do Melchior Álvares foi, naqueles primeiros tempos do governo de Nassau, um dos  seres mais célebres de Pernambuco.

Talvez nunca tivesse havido no mundo um boi mais manso, mais dócil, mais vagabundo e mais garoto.

Por onde o dono andava, andava ele também. Se o Melchior entrava em uma casa, lá ficava o boi à porta, à espera, como um cachorrinho.

As crianças amavam-no, as moças davam-lhe guloseimas à janela. Um mimo! Se alguém lhe pronunciava o nome, lá ia o bicho muito contente a seguir quem lhe fazia agrados.

O boi do Melchior devia ter nascido boi por engano; havia na sua maneira de ser os traços característicos de um legítimo rafeiro.

E foi realmente um escândalo no Recife e na cidade de Maurícia quando a notícia rebentou. Anunciava-se que , na noite da inauguração da ponte que Nassau concluía, ligando Maurícia ao Recife, haveria um número do programa absolutamente sensacional – o boi do Melchior voaria das janelas de um sobrado para outro sobrado fronteiro.

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Tereza Costa Rego, Boi voadorBoi voador, 1992

Tereza Costa Rêgo (Brasil, 1929)

acrílica sobre madeira, 440 x 160 cm

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A gente de Pernambuco conhecia o bovino afamado como uma figura amável e boêmia. Mas todo mundo o tinha como boi; ninguém podia acreditar que, de uma hora para outra, tivesse ele adquirido virtudes de andar pelos ares como os pássaros. Seria algum milagre, algum truque ou logro?

O  príncipe Maurício de Nassau foi realmente o homem mais extraordinário que pisou no Brasil.

Com aquela imensa cultura que se pode dizer superior à época, aquela penetração de espírito que nenhum homem público teve ainda, com uma lucidez acima do tempo, o gosto pelas artes e por tudo o que era idéia avançada, nascera evidentemente para reformador de povos.

Ao chegar a Pernambuco para cuidar dos negócios da Companhia das Índias Ocidentais, ferviam os ódios dos brasileiros contra os holandeses. Os partidos traziam ainda as armas nas mãos.  Nassau teve a felicidade de compreender o momento. E compreendeu-o colocando os interesses populares acima dos interesses da empresa mercantil a que servia.

Em pouco tempo Pernambuco era seu até o fundo do coração.

Alma de artista, fibra de homem de estado, fidalgo até o âmago da alma, a sua ação em Pernambuco foi a mais generosa e rutilante.  A terra dos heróis do arraial de Bom Jesus deu a impressão de que a tocara a varinha de uma fada. Tudo se fazia como nas mágicas e nos contos azuis.

Era uma febre de crescer. Nos areais e nos pântanos da ilha de Antonio Vaz o bom gosto do príncipe erguera, como por encanto, a suntuosidade do palácio das Torres. Em pouco tempo, a ilhota até então imprestável, cresceu e brilhou como a mais linda cidade holandesa do Brasil.

Desde os tempos de Petrônio que sempre foi prova de inteligência dar festas ao povo. Nassau era homem de uma suprema agudeza de espírito.  O parque magnífico do palácio das Torres vivia aberto ao público em festas fulgurantes. Dentro daquele pomar cheiroso em que se erguiam mais de setecentos coqueiros, com um laranjal trescalante, romãzeiras e flores, aves vistosas, regatas e esguichos de água, o povo esquece de que estava sendo explorado por uma companhia mercantil, para lembrar-se apenas de que tinha a governá-lo a alma generosa de um grande artista.

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andre-cunha-LENDA DO BOI VOADOR

Maurício de Nassau e a lenda do boi voador, s/d

André Cunha (Brasil, 1972)

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Erguido o palácio das Torres, florescendo da noite para o dia a cidade de Maurícia, era necessário uma ponte que ligasse o Recife à nova cidade. O transporte por meio de canoas era um sinal de atraso.

A ponte é orçada em 240.000 florins. O engenheiro mete mãos à obra mas só três pilares consegue erguer. Antes de chegar ao maio do caminho desanima. Parece-lhe inexeqüível a ponte pela imensa largura do braço de mar que separa as duas cidades. Para Nassau não há impossíveis. A engenharia fizera-se justamente para vencer dificuldades. E, ele próprio toma conta dos trabalhos. Em dois meses a armadura da ponte estende-se e avança unindo a velha cidade à nova.

Pernambuco inteiro preparava-se para a grande festa da inauguração. O Brasil flamengo estava em paz. A habilidade do príncipe tinha feito o milagre de congraçar os dominados  e os dominadores. Os mais altos vultos da resistência pernambucana viviam já no Recife em contato e uma boa amizade com os membros do Conselho Administrativo. No palácio das Torres, Nassau recebia à sua mesa, os mais heróicos defensores do arraial de Bom Jesus. Já o bom bendizia a ocupação holandesa na figura fidalga e gentil do príncipe.

Nassau queria dar à festa um cunho de intensa popularidade. A sua maior preocupação em Pernambuco foi ser bem querido do povo.

Aquele anúncio de que o boi do Melchior iria voar era justamente para interessar o grande publico.

E interessou. O recife encheu-se da gente dos arredores e dos engenhos longínquos.

Seria possível um boi voar?! O boi do Melchior era um boi diferente dos outros bois e quem sabia lá se o demônio do bicho não tinha a habilidade das aves?

A festa da inauguração da ponte que ligava a cidade nova `velha tivera o brilho que sempre caracterizara as festas de Nassau.

Tanta gente passou de uma margem à outra que, só naquela tarde, a ponte rendeu 1.800 florins ao preço de dois soldos – ida e volta, por cabeça.

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Bruno Matos, Boi voador, 2010, xilogravuraBoi voador, 2010

Bruno Matos (Brasil, contemporâneo)

Xilogravura, 15 x 20 cm

Bruno Matos

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À beira da  praia ergueram-se palanques para as damas e gente grada; músicas tocavam em coretos; sob toldos multicores distribuíam-se refrescos e guloseimas. O Capiberibe fulgia, refletindo as luminárias.

O vôo do boi do Melchior era o último número do programa.

Às dez horas da noite sentia-se o rumor da ansiedade do povo.

– O boi, o boi!!

E o boi não aparecia.

Eram quase onze horas quando se ouviu na multidão um longo clamor.  Era o Melchior que aparecia seguindo o bovino manso.

A onda popular deslocou-se fervilhando.

O Melchior parou à porta de um sobrado. A multidão acompanhou-o. Era dali que o boi ia voar.

O povo acotovelava-se. O Melchior entrou. O animal, a um sinal do dono, entrou também. A porta fechou-se.

Lá em cima, na janela do sobrado o Melchior surgiu olhando para o alto, como que a sondar os ares em que o seu boi ia voar.

E sumiu-se.

Embaixo a multidão silenciosa esperava premida.

Passam-se muitos minutos. Nas varandas do sobrado não aparece mais ninguém.

O povo inquieta-se.

– O boi! o boi !!

O Melchior tornou a vir à janela, espalmando a mão direita para baixo. Que esperassem, era um instante!

Momentos depois o chavelhos de um boi surdiram na janela e depois do chavelhos o pescoço e depois do pescoço o resto.  Toda a gente reconheceu:… era o bovino do Melchior. E o diabo do bicho foi subindo, subindo e caminhando devagarinho no ar, como se tivesse voando na direção do sobrado fronteiro.

A multidão, de olhos erguidos, silenciara num estatelamento.

Mas de súbito, uma gargalhada estalou. Uma outra e outra, num segundo toda a rua e toda a gente era um gargalheiro desabalado.

Todos tinham compreendido o truque. O boi voador o do Melchior. Era um boi empalhado, admiravelmente feito, imitando na cor e no tamanho do boi garoto e boêmio. Voava, mas preso por arames invisíveis à noite.

E foi uma pândega. Não houve um desgosto naquela noite. Nassau teve o prazer de ter dado uma festa tão ao sabor do povo, o povo a alegria de a ter gozado, o Melchior a ventura de passar à história com o seu boi.

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Em: Terra de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, de Viriato Corrêa,  Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1956





Quadrinha do tropeiro

2 04 2013

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henry chamberlain, tropeiros no rj

Tropeiros no Rio de Janeiro

Henry Chamberlain (Inglaterra 1796-1844)

Gravura  em Views and costumes of the city and neighbourhood of Rio de Janeiro, 1822

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O tropeiro viajante
que em nossa terra surgiu,
foi marco muito importante
no progresso do Brasil.

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(Alda Lopes Rezende)





A visita à escola, texto de Mário Sette

25 03 2013

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Escola em 1879, Morgan Weistling, ost,100x150cm

Escola em 1879, s/d

Morgan Weistling (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 100 x 150 cm

www.morganweistling.com

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O pano de fundo da semana que passou foi a inépcia do ENEM e de todos os nossos dirigentes quanto ao estado desastroso da educação no país.  Não fugindo a um dos objetivos desse blog (auxiliar a quem se dispõe a melhorar o ensino no Brasil) hoje posto um texto, talvez folclórico, talvez não, escrito por um escritor brasileiro que também se preocupava com a educação.  Além de ser um bom texto escolar, ele lembra aos nossos governantes que um pouco de humildade e de consideração para com o povo brasileiro estão entre as menores das requisições que ainda fazemos deles.  Que visitem as suas escolas e que se lembrem da confiança que depositamos em suas mãos quando os elegemos. A melhoria da nossa educação não é para o futuro, nem para hoje.  É para ontem…

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A visita à escola

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Mário Sette

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Era uma escola humilde de arrabalde: sala ligeiramente caiada, movéis toscos, um desbotado mapa na parede, um crucifixo sobre a banca do professor.

As crianças, filhas de gente humilde, algumas descalças haviam chegado,tomando seus lugares, abrindo os livros, dispondo os cadernos e as canetas.

A manhã nascera ensolarada e bonita.

Pouco depois, o mestre, um senhor esguio, de maneiras calmas, batera palmas como sinal do início dos trabalhos escolares.

Um menino veio dar sua lição de leitura. Outros faziam contas nas pedras.

E, como sempre, o tempo ia passando naquela suave tarefa de aprender, no doce silêncio do arrabalde, raro a raro quebrado pelo pregão de um vendedor de frutas, pelo tropel de um cavalo.

Inesperadamente um carro parou à porta da escola. Aberta a portinhola, desceu primeiro um velho de fardão, e em seguida um homem de sobrecasaca  e cartola, de barba loura, com ares muito simples.

O professor, que o vira pela janela, ergueu-se surpreso, exclamando:

– É Sua Majestade o Imperador!

Sabia, como toda gente, ser Pedro II hóspede de Pernambuco, havia dias; não ignorava que o monarca andava visitando os estabelecimentos de ensino, sempre interessado pelo estudo.  Mas supor que fosse a modesta escola que regia também honrada com aquela visita, isso nunca supusera. Um recanto de subúrbio, tão longe da cidade, tão pobre!

O Imperador, de chapéu na mão, seguido pelo  ministro, entrara na sala, cumprimentara  ao mestre e fizera questão de se sentar ao seu lado, como simples inspetor, a fim de assistir a um pouco da aula.

Mostrava-se atento a tudo e balançava a cabeça, risonho, quando os alunos se saíam bem.

Depois, ele próprio, chamou o menino, perguntou-lhe:

– Qual o rio maior do Brasil?

E a outro:

– Faça-me esta conta de dividir.

Ainda a outro:

– Quais são os mandamento da lei de Deus?

Obtidas respostas certas, o monarca, passeando entre as bancas, examinara os cadernos de exercícios, corrigira uma letra, gabara um cursivo, acarinhara as cabeças das crianças que o olhavam cheias de espanto.

Um rei era assim tão bom e tão amigo dos pobres?! Faziam uma idéia diferente da realeza!

Afinal, o Imperador despediu-se, elogiando o professor,  prometendo-lhe melhoramentos para sua escola.

Ao sair, o professor quis beijar a mão do soberano, em sinal de respeito, mas o Imperador, com ar de bondade, dispensou-o daquela homenagem dizendo-lhe:

– Os mestres é que precisam de que os alunos lhe beijem as mãos.

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Em: Encantos Literários: antologia, organizado pela Professora  Deomira Stefani,  São Paulo, Ática: s/d

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Mário Rodrigues Sette (Recife, PE 1886 — 1950) professor, jornalista, contista, cronista e romancista.  Veja: www.mariosette.com.br

Obras:

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Ao clarão dos obuses, contos, 1914
Rosas e espinhos, contos, 1918
Senhora de engenho, romance, 1921
A filha de Dona Sinhá, romance, 1923
O vigia da casa grande, romance, 1924
O palanquim dourado,  romance, 1921
Instrução Moral e Cívica, didático, 1926
Sombra de baraúnas, contos,  1927
Contas do Terço, romance, 1928,
A mulher do meu amigo, novela, 1933
João Inácio, novela, 1928
Seu Candinho da farmácia, romance, 1933
Terra pernambucana, didático, 1925
Brasil, minha terra! , didático, 1928)
Velhos azulejos, parábolas escolares, 1924
Os Azevedos do Poço,romance, 1938
A moça do sítio de Yoyô Coelho, contos, s/d
Maxambombas e maracatus, crônicas, 1935
Arruar, crônicas, 1948
Anquinhas de Bernardas, 1940
Barcas de vapor, 1945
Onde os avós passaram, s/d
Memórias íntimas,s/d





Um exemplo a ser seguido no Congresso Nacional

23 03 2013

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“Old King Cole”, Ilustração de Roberta.

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Franqueza e Prudência

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Salvador de Mendonça – Artigo no O Imparcial, 1913

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Professor das princesas, filhas de D. Pedro II, Joaquim Manuel de Macedo, o célebre autor de A Moreninha, desempenhava o seu mandato de deputado geral, quando o conselheiro Francisco José Furtado, organizador do gabinete Liberal de 31 de agosto de 1864, o convidou para a pasta dos Estrangeiros.

Recusada a honra, mandou o Imperador chamar o escritor à sua presença, e indagou o motivo do seu gesto, quando possuía tantas qualidades para ser um bom ministro.

– Admita-se que eu tenha as qualidades que Vossa Majestade me atribui, — respondeu Macedo: — mas eu não sou rico, requisito indispensável a um ministro que queira ser independente.

E decidido.

– Eu não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!

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Em: O Brasil anedótico, Humberto de Campos, São Paulo, W. M. Jackson: 1941





O casamento de meu tio — texto das memórias de Anna Ribeiro de Goes Bittencourt (1843-1930)

11 05 2012

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Despedida dos noivos, 1958

Antônio Gonçalves Gomide (Brasil, 1895-1967)

aquarela, 36 x 52cm

Coleção Particular

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Hoje vou dar uma idéia das razões do meu gosto pela leitura de memórias ou diários.  É neles que temos uma visão mais pessoal do que era a vida na época em que essas pessoas viviam.  As memórias de Anna Ribeiro de Goes Bittencourt (1843-1930) são uma maneira deliciosa de se adentrar pelo fim do século XIX no Brasil.  Vejamos a descrição desse casamento:

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Capítulo VI — Tomo II

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Pouco depois realizou-se o casamento de meu tio Manoel José no Sítio, fazenda de D. Ziza. Minha mãe apesar de mostrar-se já conciliada com a sociedade, não foi, não sei porque, ao ato a que só assistiu meu pai.  Não se recusou, porém, a ir esperar os noivos na residência de meu tio.  Uma irmã da noiva, D. Guilhermina, foi preparar a casa para a recepção, não só dos noivos, como dos parentes que os precediam.  Foi uma das festas mais movimentadas a que na minha infância assisti. A chegada foi animadíssima, tornando-a ruidosa o espocar de numerosos foguetes. A família do Lisboa e outros amigos acompanhavam os noivos. Os homens vinham a cavalo, bem como a noiva e Sinfronia, filha do Lisboa. Ostentava-se então certo luxo não só na qualidade dos cavalos como nos arreios e trajes cavaleiros, o que tornava mui luzida a cavalgada.

Vinham em carro de boi a mulher do Lisboa, sua segunda filha e as meninas do meu tio Manoel José. As filhas do Lisboa e um seu irmão aspirante a padre cantavam e tocavam flauta e rabeca. Um senhor do Catu cantava e tocava violão. Eram as modinhas brasileiras então muito apreciadas: foi a música a principal diversão daquela festa familiar. Logo após a agitação da chegada, iniciou-se o pequeno concerto musical. Sinfronia não era dotada da melhor voz, o que era compensado pela graça e pela boa vontade com que acedia aos pedidos dos circunstantes, embora fossem às vezes bem exigentes. A outra tinha bela voz, mas se fazia muito rogar, o que, em certas ocasiões, aborreceu até o próprio Sr. Lisboa, vaidoso de exibir as prendas das filhas.

Seguiu-se o jantar ainda com a luz do dia, e pareceu-me muito mais lauto do que aqueles a que tinha eu até então assistido. Havia até um luxo relativo na confecção dos pratos, enfeitados com papéis recortados e fitas. Neste e em outros jantares, lembro-me de ver as senhoras modificarem o arranjo dos pratos para introduzir mais alguns que julgavam lisonjear  o paladar dos comensais e merecer elogios, manifestados ingenuamente. Esta refeição, sem cerimonial, foi bem aproveitada por estômagos sãos, como costumam ser os dos homens de trabalho. Logo depois da sopa, fez-se o primeiro brinde, não muito palavroso, como os que se seguiram, sem dúvida por um tácito acordo: era preciso satisfazer as necessidades do estômago. O primeiro brinde fora feito pelo noivo, que declarou atender a pedido da noiva: solicitava a alguns parentes com os quais tivera atritos para ser lançado um véu sobre tudo aquilo.

Guiomar, já muito simpatizada por toda família, exigira do noivo convites para aqueles parentes com o intuito de uma conciliação. Estes não se negaram ao convite porque tal recusa seria olhada como uma grosseria, e creio mesmo que estariam desejosos de voltar à antiga harmonia familiar. Houve abraços comovidos, tocaram-se os copos entre os conciliados, e alguns, trançando os braços que empulhavam as taças, esvaziavam-nas ao mesmo tempo. Tudo isso simbolizava a amizade duradoura, o que não evitava que esta fosse, tempos depois, alterada. Esta bela qualidade de Guiomar, o empenho de harmonizar os parentes do marido, jamais se desmentiu.

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Bolo de noiva, 1943

Lula Cardoso Ayres (Brasil, 1910-1987)

aquarela, 49 x 71 cm

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Voltemos ao jantar de que tratávamos. Após o brinde no noivo, seguiram-se outros, todos breves. Como já disse, creio que por um tácito acordo exigido pelos estômagos, nenhum dos convivas se estendia muito nas saúdes ao princípio do jantar. Depois, levantaram-se todos para ser arranjada a mesa dos doces. A este arranjo, presidiu Sinfronia, auxiliada pelas outras senhoras.  O Lisboa tinha parentas num convento. Nessas casa religiosas é que eram confeccionados os melhores doces, apreciados não só pelo sabor como pela beleza dos enfeites – ramos de flores e frutos de alcorce e papel, trabalhos na verdade delicadíssimos. Sinfronia recebia presentes que lhe serviam de modela, pedia receita e, muito curiosa, como então se dizia, tornou-se perita nesses trabalhos, o que lhe valia elogios do seguinte teor: “nos conventos não se faz melhor!”  A mesa, muito larga, ficou repleta. Seu aspecto vistoso e florido muito agradou a todos segundo os comentários que ouvi.

Entre os convidados, havia lavradores e agregados que mereciam a estima do proprietário para ter lugar à sua mesa. Havia diferença entre o lavrador e o agregado. O lavrador era o que, possuindo escravos e carros, tinha meios de plantar canas e dava lucro ao senhor de engenho, que lhe outorgava certas garantias; o agregado era sempre gente pobre que trabalhava com seu braço, para si e sua família, e não pagava renda. O proprietário tinha direito de exigir dele algum serviço, o que raras vezes sucedia, pois todo o trabalho era feito pelo escravo. Alguns desses agregados, que se distinguiam por seu caráter ou serviços prestados, eram convidados e tratados com atenção.

Houve muitos brindes. Era de praxe que todos os recebessem. Seria uma desatenção não fazer uma saúde a um qualquer, que ficaria triste, julgando-se desconsiderado. Lembro-me de ver em jantares subsequentes, algumas senhoras segredarem ao cavalheiro mais próximo: “faça uma saúde a fulano; olhe que ele ainda não foi lembrado.” Alguns homens do povo mais desembaraçados, abalançavam-se a levantar brindes em português estropiado e frases disparatadas, o que às vezes era comentado, porém de modo que não fosse percebido pelo autor do brinde, porque o dono da casa bem como os parentes empenhavam-se em que todos os hóspedes saíssem satisfeitos, sem o menor vislumbre de queixa. Terminada a mesa, repetiu-se o pequeno concerto musical que tanto havia agradado a todos. Aquela festa durou dois dias, e até meu pai, que era um dos primeiros a retirar-se, não o fez desta vez. Ele era doido por música, principalmente por modinhas.

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Em: Longos Serões do Campo; infância e juventude, Anna Ribeiro de Goes Bittencourt (1843-1930), volume II, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:1992.





Formigas históricas, texto de Viriato Corrêa

2 05 2012

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São Luiz do Maranhão, s/d

Fernado Castelo Branco (Brasil, contemporâneo)

Pintura

http://casteloartes.blogspot.com.br/

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Formigas históricas

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Viriato Corrêa

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Naquele primeiro decênio do século XVIII os frades capuchinhos do Convento de Santo Antônio de S. Luiz do Maranhão estavam de um azar horrível.

A horta, a linda horta que cultivavam na gorda e vasta terra do quintal do convento, não dava positivamente nada. A couve era pouca para a sopa e os cozidos, o repolho não chegava sequer a arredondar, o cebolinho não medrava, a alface, o nabo, a bertalha — uma miséria.

E tudo isso por que? Porque as malditas saúvas, as infernais formigas, proliferavam assustadoramente por todos os cantos do terreno dos frades.

Era uma canseira aquilo. Quando a plantinha ia começando a viçar, quando os tomates, os pepinos, a alface, o coentro, a celga, tudo ia dando os primeiros sinais de vida, zás!  lá vinham as formigas e, numa noite, inutilizavam o trabalho de um mês inteiro. Um inferno.

O superior dos capuchinhos fez tudo que era humanamente possível fazer contra formigas: regos em roda dos canteiros de plantas, figi à boca dos buracos, água abundante na “panela mestra” dos formigueiros, mas tudo foi inútil. As formigas desapareciam por uns dias, por semanas, mas voltavam sempre, cada vez mais numerosas e cada vez mais daninhas.

Da horta já tinham passado para o pomar. As laranjeiras ficavam peladas de dia a dia, os tamarindeiros não tinham mais folhas, as jaqueiras já não vingavam uma carga. Um pavor!

Os frades reuniram-se, conferenciavam, tramavam, rezavam à beira dos formigueiros, mas tudo baldadamente. O demônio das formigas voltavam, voltavam sempre, às fieiras, aos milhões, destruindo e devastando.

Uma manhã o irmão dispenseiro acordou alarmando o convento.  Estava tudo perdido para a comunidade capucha de S. Luiz do Maranhão!  As formigas agora já se não satisfaziam com o pomar e a horta.  Tinham invadido (parecia incrível, mas tinham!) a despensa da ordem e estavam (que raios de formigas!) a furtar, rigorosamente a furtar, a farinha com que os frades faziam os seus ricos pirões!

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Ilustração: desconheço a autoria.

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A fradalhada pôs as mãos na cabeça.  Aquela perseguição dos diabólicos himenópteros iria até à destruição total da Ordem no Maranhão. Era o cerco com todos os característicos, era o assédio da fome.

E os frades vieram à despensa verificar o estrago.  Um deles solta um grito aterrador.  A desgraça não estava somente no furto da farinha: as formigas cavavam os seus buracos, afundavam as suas “panelas” debaixo dos alicerces do convento, e as paredes abaladas nos fundamentos, acabariam por vir abaixo, mais tempo menos tempo.

Aquilo era uma invasão de propriedade!  aquilo era o esbulho de um direito!  Para as situações extremas as extremas medidas.

E qual o remédio? Processar as formigas, e processá-las judicialmente. Talvez que a autoridade do juiz desse um remédio aquele abuso.

E os frades capuchos propuseram a ação no foro eclesiástico de S. Luiz. Quanto à data da propositura da demanda não há nenhuma segurança histórica. João Francisco Lisboa*, que teve o processo nas mãos e que dele tirou uma cópia, não lhe encontrou as primeiras folhas.

O processo segue a marcha regular dos processos comuns. Os frades oferecem a acusação e testemunham-na. São pobres, vivem de esmolas e estão sendo insistente e irremediavelmente lesados pelas formigas “animais de espírito contrário ao Evangelho”. As formigas não só os roubavam, tirando-lhes o pão da boca com a destruição da horta e do pomar e subtração da “farinha de pão guardada para o cotidiano abasto da Comunidade”**, como também os queriam expulsar de casa. E terminavam pedindo que fossem mortas as formigas.

O juiz nomeia um curador para as rés. Este, a 17 de janeiro de 1713, contradiz as testemunhas apresentadas pelos frades. As testemunhas são irmãos terceiros da Ordem de S. Francisco, ligados intimamente aos capuchinhos e, portanto, suspeitas de parcialidade.

A 24 do mesmo mês e do mesmo ano o juiz, o padre vigário geral, o licenciado José Teixeira de Morais, despreza os embargos de contradita oferecidos pelo procurador das formigas.

Antes, em dezembro do ano anterior, tinha havido a inquirição das rés.  Cinco testemunhas foram por elas apresentadas.  De uma delas conserva-se o nome – o capitão Urbano Rodrigues – que, no tempo, dizia ter 94 anos de idade. É uma testemunha a valer. Afirma que as formigas não podem ter malícia nenhuma no prejuízo que estão dando aos frades, pois que não há nelas o uso da razão, visto que são irracionais e, pelo que se sabe, os irracionais não conhecem a diferença do bem e do mal.  Afirma ainda que elas eram naturais da terra: sempre ali viveram, sempre se espalharam por todos aqueles lugares da cidade e dos matos e que (aí é que, segundo a gíria moderna, “matou os frades na cabeça”) quando os religiosos ali chegaram, já ali estavam as formigas.

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Ilustração do livro “Palestina Pitoresca”, sem notação de autoria.

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Começaram os debates escritos nos autos.  O procurador dos capuchos faz carga sobre as destruidoras dos haveres do convento; o procurador das rés defende-as rigorosamente.

A defesa citada pelo padre Manuel Bernardes é interessante. O Criador dera às formigas o benefício da vida, elas tinham portanto o direito de conservá-lo por aqueles meios que Deus lhes ensinara. Que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos das virtudes que acautelando os futuros, e guardando para o tempo de necessidade: “Formicae populus infirmus qui proeparat in messe cibum sibi”.

E mais: que o trabalho que elas punham na sua obra era muito maior, respectivamente, que o dos frades em ajuntar, porque a carga era muitas vezes maior que o corpo, e o ânimo que as forças. Que, apesar dos frades serem mais nobres e dignos do que as rés (para os autores da ação este argumento devia ter sido decisivo) diante de Deus não passavam eles de miseráveis formigas. As rés não estavam a usurpar direitos: quando os capuchinhos ali chegaram, já elas ali viviam e que, portanto não deviam ser esbulhadas e, se isso fosse tentado,  “apelariam para a coroa a regalia do Criador que tanto fez os pequenos como os grandes, e a cada espécie deputou seu anjo conservados”.

E finalmente: a terra era de Deus e não deles, os frades.

Passam-se seis meses.  Há como uma pedra em cima da demanda.

As formigas, ao que parece, teimam em destruir os cebolinhos, os nabos e os repolhos dos frades. Eles continuam a ação. Recomeçam-na requerendo a reinstauração da instância perempta. O vigário forâneo, o licenciado Manuel Homem, defere-lhes o pedido.  Procede-se a diligência. A certidão, João Lisboa fez conhecida:

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“ Eu, escrivão do eclesiástico, abaixo assinado, fui ao Convento de Santo Antônio dos Capuchos, e sendo lá na sua cerca, citei as formigas em sua própria pessoa por todo o conteúdo da petição e despacho acima, lendo-lhes tudo verbum ad verbum, havendo-lhes nesta forma a citação por feita, em fé do que passei a presente em S. Luiz 19 de junho de 1716 – Joseph Guntardo de Backmannz”.

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Pelo que diz o padre Manuel Bernardes, a demanda foi até a sentença final. O juiz determinou que os frades sinalassem dentro da cerca do quintal do convento, um lugar para as formigas viverem e que estas, sob pena de excomunhão, não mudassem de vivenda, “visto que ambas as partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo”.

“Lançada a sentença, é o autor da Nova Floresta quem escreve, foi o religioso, de mandado do juiz, intimar, em nome do Criador, aquele povo, em voz sensível, nas bocas dos formigueiros. Caso maravilhoso, e que mostra como se agradou deste requerimento aquele Supremo Senhor, de quem está escrito, que brinca com as suas criaturas: Ludens in orbe terrarum! Imediatamente: It nigrum campie agmen, saíram a toda pressa milhares daqueles animalejos, que formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo, deixando as antigas moradas e, livres de sua molestíssima opressão, aqueles santos religiosos, que renderam a Deus as graças por tão admirável manifestação do seu poder de providência.”

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Frade no jardim, gravura italiana 1416.

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Nada disso é verdade.  A demanda das formigas não foi até a sentença final.

João Lisboa, que estudou o processo, afirma no Jornal de Timon que a questão  parou a 20 de junho de 1714, quando é nomeado o novo curador ad litem para as formigas. Parou no termo de vista dado ao procurador dos frades.

E há uma circunstância interessante para mostrar a falsidade das afirmações do grande estilista português.

Em 1714, nos autos da demanda das formigas, ainda se escreviam termos de vista às partes e, a Nova Floresta, onde vem a narração do feito, impressa em Lisboa de 1706, já conta da sentença final.

A demanda das formigas houve.  João Lisboa teve-lhe os papéis nas mãos cento e cinquenta anos depois.

Por onde eles andam agora é o que ninguém sabe.

Em 1860, mais ou menos, frei Vicente de Jesus deu-os de mimo a um particular.***

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*           João Lisboa — Jornal de Timon.

**         Padre manuel Bernardes — Nova Floresta.

***       João Lisboa — Obra citada.

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Em: Terra de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, de Viriato Corrêa,  Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1956





Dia de Tiradentes, 21 de abril, quadrinhas para uso escolar

20 04 2012

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Liberdade ainda que tardia…

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Dia de Tiradentes

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quadrinhas para comemorar o Dia de Tiradentes

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Por ter sido descoberto

Por Pedro Alvares Cabral,

O Brasil, caros colegas,

Pertenceu a Portugal.

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Ouvi dizer que homens bravos.

Chefiados por Tiradentes,

Receberam nesse tempo,

O nome de inconfidentes.

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Os nossos inconfidentes

Nutriam um ideal:

Desejavam separar

O Brasil de Portugal.

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Joaquim Silvério dos Reis

Traiu os inconfidentes,

Destruindo dessa forma,

O sonho de Tiradentes.

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No dia Vinte-e-Um de Abril,

Sob vivas estridentes,

Foi, no Rio de Janeiro,

Enforcado Tiradentes.

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O exemplo que Tiradentes

Nos deu a Vinte-e-um de Abril

É a página mais linda

Da História do Brasil.

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Quadrinhas para uso escolar de Walter Nieble de Freitas.





Quadrinhas contando o Descobrimento do Brasil — uso escolar

22 03 2012

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Para firmar o comércio

Das Índias e Portugal,

Uma esquadra foi entregue

A Pedro Álvares Cabral.

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Eram treze embarcações

Com brancas velas de pano

Que iriam concretizar

Velho sonho lusitano.

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Ao chegar às costas da África,

Cabral ordenou que a frota

Desviasse das calmarias

Que estavam em sua rota.

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Assim procedeu a esquadra,

Para a Vinte e Dois de Abril

Chegar nesta linda terra

Hoje chamada Brasil.

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Esse fato aconteceu

No ano de mil e quinhentos:

Um grande feito na História

Dos grandes descobrimentos.

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Walter Nieble de Freitas

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Em: 1000 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1965.





O índio, poesia de Robert Preis

13 03 2012

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O atirador de arco, 1925

Vicente do Rego Monteiro ( Brasil,1899-1970)

óleo sobre tela, 108 x 137 cm

Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife

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O índio

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Robert Preis

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O índio, elemento

tão sensível e frágil

das matas tropicais!

Como poderia resistir

à legião de

conquistadores,

donatários,

donos de engenhos,

bandeirantes,

capitães de mato,

desembargadores,

grileiros,

coronéis,

generais,

parlamentares,

escritores românticos,

entre outros,

quando cada um destes grupos

já é de morte?

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4/9/97

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Em: Transpondo fronteiras, Robert Preis, Niterói, Ed. Muiraquitã:1999

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Robert Preis nasceu na Alemanha em 1934. Bacharel e licenciado em história, pós-graduado em língua alemã e doutor em linguística, todos cursos na Universidade de São Paulo.





Uma boa ação do Presidente Nilo Peçanha, texto escolar

6 03 2012

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No tempo das diligências, 1971

Haydéa Santiago (Brasil, 1896 –1980)

óleo sobre tela, 48 x 55 cm

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Uma boa ação do Presidente Nilo Peçanha

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Seja sempre patriota

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Nilo Peçanha foi um dos grandes vultos fluminenses. Natural de Campos, sua vida foi um exemplo de amor ao trabalho e de dedicação ao serviço da Pátria. De origem humilde, atingiu aos mais altos postos da política e da administração, pois foi deputado, senador, ministro, presidente do Estado do Rio, vice-presidente e presidente da República. E morreu pobre, mas cercado da admiração de seus conterrâneos.

Nilo Peçanha era um homem simples e bondoso. Vou contar-lhes um episódio, relatado por Assis Cintra, que bem exprime o quanto era generoso o seu coração.

“Indo ele, certa vez, presidir a uma solenidade, a sua carruagem atropelou um garoto imprudente, filho de uma lavadeira.

O presidente mandou parar a carruagem, desceu dela, apanhou o garoto nos braços, e deu ordens ao condutor que rumasse para uma casa de saúde. Lá chegando, entregou o pequeno ao gerente do Hospital e ordenou-lhe que chamasse com urgência um operador para cuidar da criança. Não poupassem despesas. E mandassem ao Palácio, diariamente, notícias do doente. Todas as despesas por sua conta.

Depois de curado, o menino foi com a mãe ao Catete.  Nilo Peçanha recebeu a lavadeira e o garoto:

– Este menino está na escola senhora?

– Não, Sr. Presidente.

–  E por que? É um garoto inteligente.  Deve ir para a escola.

– Sr. Presidente, o meu filho é que carrega a roupa que lavo, entregando-a aos fregueses.  Não o pus na escola por esse motivo.

– Pois o seu filho fica por minha conta.  O menino é vivo e aproveitável.

Assim, o Presidente pôs no Colégio Pedro II o garoto que muito prometia. Quando deixou a presidência da República, Nilo Peçanha continuou a custear a educação do filho da lavadeira. Terminados os preparatórios, já moço, o protegido de Nilo Peçanha procurou-o, pedindo que lhe indicasse uma escola superior: Direito, Medicina, Engenharia…

Nilo respondeu:

– Você escolha a carreira que quiser.  Não me deve nada.  Quis aproveitar a sua inteligência em favor da Pátria. Se me é grato, seja sempre patriota.”

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Em: Vamos estudar? Theobaldo Miranda Santos, para a 3ª série do curso primário,Rio de Janeiro, Agir:1957.

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O texto acima vem acompanhado dos seguintes ítens, para uso na sala de aula:

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Vocabulário:

Humilde = modesto

Postos = cargos, posições

Conterrâneos = pessoas que residem na mesma terra ou estado.

Episódio = fato, acontecimento

Relatado = narrado, contado

Solenidade = cerimônia

Vivo = esperto, inteligente

Em favor = em benefício

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QUESTIONÁRIO

Quem foi Nilo Peçanha? Que aconteceu quando ele ia presidir a uma solenidade? Que fez Nilo Peçanha?  Que aconteceu depois?  Que respondeu Nilo Peçanha ao seu protegido?

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Retrato de Nilo Peçanha, 7º Presidente do Brasil

Auguste Petit (França, 1844 — Brasil, 1927)

óleo sobre tela, 65 x 54 cm

Museu de História e Artes do Estado do Rio de Janeiro, Niterói.








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