O intocável, de John Banville: retrato do homem, do espião e de uma era.

3 02 2013

-

-

tinker-tailor-soldier-spy-nop-briex

O espião que sabia demais [Tinker Taylor Soldier Spy]

Nop Briex (Holanda, 1965)

óleo sobre tela

www.briex.eu

-

Há muito eu tinha curiosidade sobre o duplo espião britânico, Anthony Blunt.  Conheci-o como historiador da arte especializado na pintura européia do século XVIII; diretor de um dos mais sérios centros de pesquisa da arte, Courtauld Institute of Art.  Mas antes mesmo de eu me formar em história da arte, o escândalo no qual ele  foi figura central — agente duplo do serviço secreto britânico MI5  para a Inglaterra e agente para a União Soviética dos anos 30 ao início dos anos 50, membro do chamado  Cinco de Cambridge [Cambridge Five]  ainda era debatido e questionado.  Nada poderia ter surpreendido mais o mundo dos museus e da pesquisa acadêmica do que a descoberta de que o pacato mundo das bibliotecas e dos porões de museus poderiam ter servido de disfarce para tal profissão.  A partir de 1979 Anthony Blunt passou a ter uma nuvem de mistério a sua volta.  Como?  Porque?   Não que a vida particular de qualquer historiador de arte seja de interesse público mas espionagem era algo completamente fora da norma. E vez por outra, na atividade comum de perda de tempo à volta de uma mesa de bar, nós, estudantes de pós-graduação tentávamos  imaginar como uma pessoa de tamanho porte acadêmico,  tão chegada à Rainha da Inglaterra, poderia ter se imiscuído na espionagem e contra-espionagem?

John Banville responde a todas essas questões e a muitas outras nesse romance biográfico  baseado na vida de Anthony Blunt, retratado sob o pseudônimo de Victor Maskell.   Fazem parte do enredo também  Guy Burgess e Donald Maclean, (todos com pseudônimos) do grupo ‘Espiões de Cambridge’.   Banville preenche lacunas e satisfaz nossas dúvidas.  Este é o estudo profundo de uma personalidade.  Talvez um dos personagens mais tridimensionais  da literatura atual.  É  vívido. Parece real.  A história é sedutora  e Banville nunca deixa de entreter e acima de tudo de mostrar a pessoa complexa e coerente do homem e do espião,  dentro dos parâmetros sociais e de época.

-

O_INTOCAVEL_1248718648P-

Mas, parafraseando Tom Jobim, “A Inglaterra não é para principiantes”.  Para uma compreensão mais apurada do texto,  um bom conhecimento das nuances da sociedade inglesa certamente ajudará na leitura; uma boa dose da história do enlace das classes altas inglesas com a política nazista, também.  Por fim, um conhecimento superficial, mas coerente do estoicismo e da posição ética de Sêneca podem ajudar a entender a percepção que Banville tem de Blunt.  Será interessante lembrar também os preconceitos da sociedade, numa época anterior à Segunda Guerra Mundial –  homossexualismo, conflito de classes, a questão irlandesa — tudo isso  adicionará uma pitada de interesse.   E o mundo da década de 30 estava enamorado do socialismo,  ato que justificou ditaduras de direita e de esquerda do período:  Itália (Mussolini), Espanha (Franco),Portugal ( Salazar),  Nicarágua (Somoza), Brasil (Vargas), Grécia (Metaxas), Cuba (Batista), Rússia (Stalin), sem mencionar a Alemanha de Hitler. Fica evidente através do texto que  Anthony Blunt não se sentia parte nem da sociedade inglesa, nem de nenhuma outra.  Era um verdadeiro estranho no ninho: irlandês, pobre mas com nome de família – primo distante da rainha — , homossexual, com acesso ilimitado à corte – não é de surpreender, portanto, seu solipsismo, sua visão única do mundo como uma projeção de suas próprias fantasias.  A tendência seria desgostar dessa personalidade dúbia, inconseqüente, com uma atitude tão blasé em  relação à vida, como Anthony Blunt é retratado.  Mas, pelo contrário, talvez porque a narrativa seja na primeira pessoa, talvez porque estamos rodeados dos detalhes que fazem o personagem crível,  ficamos com a justa dimensão de um homem de grande conhecimento. John Banville não o retrata menor do que era.

-

John_BanvilleJohn Banville

-

No entanto, há sempre, e aí está parte do charme deste romance de suspense, a dúvida: será que Victor Maskell está nos dizendo tudo o que sabe?  Há algum motivo para acreditarmos na realidade que ele nos descreve?  Espião, agente duplamente inconfiável, Victor Maskell [será que o nome vem de Mask, máscara?] é o anti-herói por excelência, figura trágica, cuja vida é passada em pequenos compartimentos e se equilibra, desde os primeiros dias da juventude entre mostrar e viver o que não é: da vida de espionagem à vida sexual.

Como um mestre John Banville também brinca com o leitor ao desenvolver como tema o amor que Maskell tem por um quadro de Poussin:  A Morte de Sêneca [fictício]. E dúvidas quanto  à  sua autenticação só intensificam o eco das perguntas que fazemos sobre a narrativa, é verdadeira ou falsa?  O pintor francês do século XVII Nicolas Poussin foi de fato objeto de estudo de Anthony Blunt como historiador da arte. Mas, a presença de um quadro inexistente, cuja autenticação depende de Maskell é um paralelo magistral ao jogo de espelhos que a vida do espião reflete. Victor Maskell assim como Anthony Blunt, têm o fim que merecem: são traídos.  Um pouco de justiça poética arrematando uma vida de fantasias.





A alquimia do amor, em As Avós de Doris Lessing

6 09 2011

Mad dogs… [ Loucos...] 

Jack Vettriano (Escócia, 1951)

óleo sobre tela

www.jackvettriano.com

-

-

Fiquei surpresa com a persistência das imagens dançando na minha imaginação dias após a leitura de As Avós de Doris Lessing [Cia das Letras: 2007].  Por um tempo não sabia exatamente o que dizer sobre o livro além de recomendá-lo enfaticamente.  Tudo tem seu tempo.  Às vezes as idéias precisam amadurecer.  De repente, ZÁZ!, veio o ponto de encaixe: uma conversa sem agenda, com uma amiga.  Entre um cafezinho e outro ela disse que lia para ser apresentada a mundos e pessoas que jamais conheceria na vida real.  Sentia-se assim enriquecida pela leitura.  A meta era expandir seu conhecimento sobre outros seres humanos. Nada de extraordinário, mas foi a chave, para a introdução a esta resenha.  Sim, isso me aconteceu com a leitura de As avós: uma ligeira mutação da norma comportamental e fiquei intrigada o suficiente para não deixar o tema de lado.

A sinopse do romance, que na verdade não é nada mais do que um conto alongado, ou uma novela, é simples, e reproduzo-a aqui como aparece nos sites de venda para facilitar a resenha.  “Roz e Lil são amigas inseparáveis desde a infância. Cresceram, casaram, tiveram filhos, e vivem na paradisíaca bacia de Baxter, um lugar cercado de rochas por todos os lados. O ambiente protegido, “bocejante”, além do qual o “verdadeiro oceano rugia e roncava”, é o cenário ideal para uma relação cada vez mais simbiótica. Morando em casas vizinhas, elas criam os filhos por conta própria – e eles se tornam adolescentes encantadores.Tão encantadores e próximos, que Roz e Lil não tardam a se envolver uma com o filho da outra. Num efeito ambíguo e desconcertante, típico da grande literatura, o que poderia parecer repulsivo é tratado com naturalidade e bom-humor, fazendo a quebra de tabus soar como regra, e não como dramática exceção. Temas como a amizade, maternidade e sexualidade ganham novos contornos enquanto Doris Lessing esmiúça as complexidades e armadilhas da forte ligação entre essas duas mulheres, e retrata a força com que elas confrontam as convenções familiares e sociais de sua época.”

O romance gera perguntas cujas respostas são difíceis de encontrar.  Estamos diante de diversos tipos de amor.  Há o amor narcisista:  Roz e Lil — que até se parecem fisicamente, ainda que, quando adultas, tenham personalidades e profissões diversas — vêem a si mesmas na outra, desde pequenas, desde os bancos da primeira escola.  E nos questionamos:  estaremos sempre à procura de nós mesmos nos nossos pares?  São os pontos em comum que temos com eles o que nos une?  É o narcisismo a força vital do amor fraternal?  Você gosta de seus amigos pelo que eles refletem de você neles?   E na paixão o mesmo acontece?

-

-

-

-

As vidas de Roz e Lil são de um paralelismo impressionante, mas não raro entre amigos.  Observo à minha volta: amigos se casaram em datas próximas, tiveram filhos mais ou menos ao mesmo tempo, permaneceram, quando puderam, nos mesmos bairros, trocaram de casa à mesma época e assim por diante.  O paralelismo no romance, no entanto, é tão perfeito que de fato as vidas retratadas parecem mais especiais, porque são como imagens refletidas num espelho.  

No mundo das artes e das antiguidades, há uma diferença considerável de valor no par de objetos considerados  “ par verdadeiro”.  Paga-se mais, muito mais, quando, por exemplo, num par de vasos – cada vaso aparece com a decoração invertida (da direita para a esquerda e/ou vice-versa), como se girassem num eixo vertical imaginário.  Esses são chamados “pares verdadeiros” , ao contrário de um par simplesmente  composto por dois vasos exatamente iguais.  Aqui também.  O par, formado por Roz e Lil parece muito mais interessante porque elas são diferentes, têm gostos diferentes, maridos diferentes, e até seus filhos têm um comportamento diferente.  E no entanto, são iguais, são simbióticas, elas se completam a tal ponto de não considerarem morar longe uma da outra.

Através do romance o tema da homossexualidade permanece palpável, endereçado aqui e ali, sem compromisso, mas latente.  Tão forte é a simbiose entre as amigas que um dos maridos se divorcia porque se sente em segundo plano.  Mas elas escapam dessa identificação, relacionando-se, ao contrário, com seus respectivos filhos.   E de novo, temos o espelho.  Narciso mete sua cara…  Saturno comendo seus próprios filhos também…  Mas não há nada de imoral nesse relacionamento, nada saturnal, no sentido de orgia.  Longe disso, a implicação de imoralidade está com o leitor apenas, deparando-se com um comportamento fora dos padrões.  Amoral?  Não há incesto.  Não são seus filhos…  E voltamos à questão do amor, de Narciso: será que elas gostam de ver nos rapazes aquilo de que gostam nas amigas?   

-

-

Doris Lessing

-

-

O mundo se fecha para eles, ou melhor, eles se fecham para o mundo, como se o amor fosse hermafrodita, auto-devorador, auto-consumido.  Vivem numa realidade hermética, como num processo alquímico.  Respiram, ganham novas vidas, vicejam no ambiente fechado que criaram, cegos para o mundo exterior.  Os quatro se bastam, se saciam, se fartam.   Por quanto tempo?   Anos.  Muitos anos.  Mas a natureza é entrópica e os rapazes, quase ao mesmo tempo, se casam…  Não se casam com qualquer jovem.  Eles, que são melhores amigos, se casam com duas melhores amigas.  E o processo parece poder continuar.  Parece cheio de possibilidades infinitas…   Espelhos refletindo espelhos. 

Não há como não se tentar definir o amor depois da leitura de As avós.  As experiências extremas retratadas na novela nos são familiares e por isso mesmo têm tanto efeito no leitor.  Quem já teve um amigo de infância chegado, aquele ou aquela com quem dividia todos os segredos, pode ter beirado uma situação semelhante à descrita no texto.  Quem já se apaixonou, reconhece, no círculo fechado dos amantes alheios ao mundo exterior, a sensação de saciedade que acompanha a paixão consumida.  Talvez seja por causa da familiaridade dessas emoções que essas 104 páginas de prosa consigam permanecer vivas por tanto tempo…  Consigam parecer tão relevantes.  Tenham tanto impacto.





Um dia, romance de David Nicholls, uma excepcional viagem pela vida

8 08 2011

Regent Street, Londres, 2009

Keith Hornblower ( Inglaterra, contemporâneo)

aquarela

http://keithhornblower.wordpress.com

-

-

Quando uma amiga sugeriu que eu lesse Um dia de David Nicholls e descreveu esse romance como uma história que se passava no mesmo dia de diferentes anos, pensei imediatamente no filme de Robert Mulligan, Tudo bem no ano que vem,  [Same time next year], [1978] sucesso comprovado como filme e peça teatral. Lendo na orelha do livro [Intrínseca:2011] o envolvimento do autor britânico com o teatro comecei a leitura desconfiada de que estaria me envolvendo com uma alusão, uma paródia, uma re-adaptação da peça do autor canadense Bernard  Slate.  Erro meu!  Este romance é completamente diferente.  E, tem mais, é mais profundo, significativo do que a comédia a que me referi.  Como na peça teatral, este romance também tem um humor inerente.  Como na peça teatral, vemos os mesmos personagens crescerem, se desenvolverem: atores de comédias urbanas que se desenvolvem através do trabalho, dos casamentos, das desventuras amorosas. Mas estas são as únicas semelhanças.

Hoje são raros os livros que me emocionam de uma maneira profunda, que me levam às lagrimas como esse fez em seus capítulos finais.  Muita leitura, a dose normal de descontentamento, experiência acumulada têm contribuído para que seja difícil encontrar um autor que me comova, sem que eu sinta que minhas emoções foram manipuladas inescrupulosamente.  Mas esse romance, que parece sem pretensões,  com uma narrativa entremeada por diálogos corriqueiros, com grande dinamismo, removeu barreiras à minha sensibilidade e se tornou pessoal.  Com um desenrolar inesperado ele atinge o leitor como um soco no estômago.  E essa leitora, se encontrou ao final, depois de reler o último capítulo, como Dexter, um dos personagens da trama, controlando um pequeno ataque de pânico, como se meus pés estivessem se apoiando numa fina camada de gelo prestes a se partir.  O abismo está aqui, em qualquer lugar, a qualquer hora.

-

-

-

-

É possível que com esse romance, David Nicholls possa vir a ser considerado o retratista de uma geração.  Mas acredito que ele seja mais do que isso, pois sua mensagem: Carpe Diem é universal e não tem prazo de validade.  Mas, afinal, o que é este romance?  É a vida de dois personagens, através de vinte anos.  Passa-se na Inglaterra.  Um homem e uma mulher, que se conhecem no dia da colação de grau na faculdade, têm um mundo de possibilidades, um horizonte aberto, um número irrestrito de escolhas a fazer.  Eles se conhecem e mantêm um relacionamento ora estreito, ora distante através dos anos.  Aos poucos, no passo da vida, testemunhamos suas opções, o aproveitamento que fazem do que lhes é ofertado, o que procuram e o que ignoram.  Acompanhamos o desenrolar de suas vidas e nos afeiçoamos a eles, mesmo que o retrato de Emma e Dexter, a cada passagem do dia 15 de julho, data da formatura universitária, seja feito com candura fotográfica.

-

-

David Nicholls

-

-

Torna-se impossível, no entanto, para o leitor não refletir sobre sua própria vida, suas escolhas, oportunidades e medos.  Ler Um dia pede um exame de consciência, um exercício de terapia psicológica.  Temos que encarar nossa cronologia, nossos passos.  E depois ainda perguntar:  E agora?  Por esses questionamentos, esse é um romance a ser lido e pensado.  Conversado e debatido.  Será a minha sugestão para o meu grupo de leitura no próximo mês.  Imperdível.





O oficial dos casamentos, de Anthony Capella: as muitas formas de sedução

17 05 2011

Ilustração de capa de revista, Coby Whitmore (EUA, 1913-1988)

-

-

O oficial dos casamentos, de Anthony Capella [Record: 2011] em primeira leitura parece mais um livro feito para as férias, para ser lido na praia, sob a sombra de uma barraca, maresia salgando a pele e um copo de mate gelado na mão.  Parece leve, cheio de humor, quase inconseqüente.  Sua narrativa é rápida, ritmada e transporta o leitor facilmente pelos aromas da culinária italiana [um perigo ler esse livro se você está de dieta], e também evoca com facilidade a paisagem napolitana, assim como o charme e a beleza das mulheres nativas. Chega perto de poder ser lido, simplesmente assim, sem compromisso.  Afinal, o tema central, parece ser o romance entre a italiana Lívia Pertini e o oficial inglês James Gould.  

A narrativa faz jus à tradição literária inglesa iniciada no século XVIII em que o narrador descreve as observações de um estranho quer na cidade de Londres, quer num país até então desconhecido.  Suas observações do povo local, dos costumes e hábitos que lhes são caros, interpretados pela perspectiva do visitante são fonte de grande entretenimento, humor e surpresa quanto aos costumes locais levados a sério pela população.   Um dos mais radicais exemplos desse gênero literário está exemplificado nas Viagens de Gulliver do irlandês Jonathan Swift, cuja primeira publicação data de 1726.  

-

-

 

-

-

No texto de Anthony Capella, acompanhamos as observações de James Gould sobre a Itália, a vida em Nápoles, os costumes locais.  Membro das forças inglesas que lutavam com os aliados contra os nazistas no sul da Itália, James Gould se encontra subitamente responsável pelas entrevistas que permitiriam ou não a oficiais ingleses se casarem com italianas.  A necessidade dessa função surge do enorme número de oficiais britânicos que se enamoram das belas italianas e pedem permissão para casar.  Por sua vez, as autoridades inglesas não vêem com bons olhos esses casamentos por acharem que um homem casado não iria lutar com o mesmo empenho que um solteiro. 

Eis que a viúva e maître de cozinha, Lívia Pertini entra em sua vida, como cozinheira de James.  E suas delícias culinárias, os aromas de sua comida, a textura de sua massa, a excentricidade de suas bebidas abrem, para ele, as portas de um mundo novo e inebriante onde todos os sentidos parecem se imiscuir em uma única e plena experiência sensual.  Nessa aventura culinária ecos de outro escritor inglês setecentista, Henry Fielding com seu A História de Tom Jones publicado em 1749 vêm à mente nas cenas em que Lívia ensina James a comer ervilhas ou escargots.

Mas, há uma mudança de tom e uma mudança de atmosfera mais ou menos a três quartos do fim.  Até então tudo parece uma comédia romântica.  De um momento para o outro, como aconteceu na vida real, com a explosão do Vesúvio, o romance dá uma virada, deixa de ser tão bem humorado.  A guerra chega ao primeiro plano e com ela vêm outras seduções.  Talvez melhor descritas como o lado negro, o reverso do que até então se apresentara.  E aparece a sedução pela exploração, a sedução por extorsão, a sedução como arma de guerra.

-

-

Anthony Capella

-

-

Não é surpresa saber que esse romance já está a caminho de se tornar um filme.  De fato, por ser uma história passada na guerra, por seu alto astral e bom humor, tudo nela lembra os filmes dos anos 40 do século passado – também de guerra – com Katherine Hepburn, Cary Grant e outras estrelas Hollywoodianas das telas em preto e branco, em que romances bem humorados com fox-trot na vitrola, aconteciam inesperadamente.   Há quem possa comparar esse livro a dois outros romances, também ingleses, da década de 90, O bandolim de Corelli, de Louis de Bernières, publicado em 1994  [no Brasil, Record:1998] e de Chocolate, de Joanne Harris, publicado em 1999 [ no Brasil, Record: 2001],  que também viraram filmes.  Mas acho essas comparações superficiais.  Porque nenhum desses dois títulos parece ter o cuidado de um subtexto como o que transparece no romance de Capella.

O Oficial de casamentos examina o tema da sedução de diversos pontos de vista e se torna até mesmo um curioso quebra-cabeças para o leitor atento diferenciar todos os tipos de sedução retratados no romance, tal como nos distraímos quando temos em frente de nós um desenho com a pergunta: quantos triângulos você vê na figura acima?   Este é um bom romance, de fácil leitura.  Bom entretenimento.  E a gente ainda aprende uma ou duas coisas sobre a história da Segunda Guerra na Itália.   Bem documentado.  Para maiores detalhes o autor também colocou documentos na sua página na web. [ www.anthonycapella.com]  Recomendo.





O Mar, de John Banville

3 01 2010

Marinha

Edgar Payne (EUA, 1883- 1947)

óleo sobre tela

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

 

O mar de John Banville

 

Só este mês pude me dedicar à leitura de O mar, de John Banville.  Eu estava à espera do momento próprio para lê-lo, um fim de semana quieto, talvez chuvoso, porque já conhecendo o estilo do autor por alguns de seus outros livros – de que gostei muito – eu sabia como seu tom reflexivo pedia pelo ambiente certo.   Eu estava certa ao imaginar que essa leitura iria exigir  a minha atenção e uma leitura cuidadosa.  Além disso, preciso dizer que cheguei a este livro com muita expectativa:  gosto imensamente da literatura inglesa e tenho sistematicamente concordado com as escolhas para o prêmio Man Booker, por diversos anos.   

Meu primeiro contato com John Banville foi na década de 80, quando tive a oportunidade de passar uns anos na Europa.  Naquela época John Banville não era muito conhecido como escritor e eu tive aquela sensação maravilhosa de se ter “descoberto um novo talento que ninguém mais conhecia”.  É claro que ele já ea conhecido, afinal de contas já publicara livros.  Mas nenhum de meus amigos o conhecia.  Ele era a minha descoberta.  Minha apresentação ao seu trabalho foi com o livro Newton’s Letter,[A carta de Newton, não publicado no Brasil], que ainda que um pequeno romance me deu a oportunidade de contar para meus amigos sobre as belezas do estilo do autor.  Ele havia me conquistado!  Depois li Kepler e mais tarde ainda, li The Book of Evidence.  Todos em inglês.  Já que nenhum dos dois últimos se comparava co A Carta de Newton, tirei umas férias do escritor com medo de ter simplesmente lido demais do mesmo autor e ter-me cansado.

 

—-

Então, fiquei duplamente desapontada depois de ler O Mar.  Primeiro, por discordar com a escolha do Man Booker de 2005.  Não que Banville não merecesse.  Claro que merecia, mas não por este livro.  Segundo, eu fiquei desapontada com o livro propriamente dito, cuja narrative achei manipulativa e indulgente, apesar da beleza da linguagem usada.  Da escolha do vocabulário.  Achei a história bastante comum, com conseqüências que são previsíveis, e achei que o narrador fez rodeios deliberados, seu estilo de pensamentos soltos uma mera  desculpa para transformar o que era um conto num pequeníssimo romance.

John Banville

 

Mas é claro que John Banville é um grande artesão da palavra, um mestre da língua inglesa, que ele sempre usa com precisão, e este romance mais uma vez demonstra isso.  Há através do texto frases preciosas, pérolas poéticas, observações astutas que podem facilmente ter uma vida muito mais longa do que este romance propriamente dito.  Conhecido por seus personagens nem sempre queridos, John Banville, neste romance deu a chance e mais espaço do que necessário a um personagem principal desprezível, o narrador.  Uma escolha literária que ainda me distanciou um pouco mais desse romance; algo que me roubou do puro prazer da leitura.  Ele é, sem sombra de dúvida, um excelente escritor apesar de todos os seus esforços de antagonizar o leitor com seus personagens quase sempre detestáveis.  Isto torna impossível para mim dar menos do que 4 estrelas para um total máximo de 5.  Mas eu não recomendaria este livro como o livro de apresentação ao autor.  Escolha um outro título.

30/03/2008

Esta resenha foi publicada anteriormente em dois locais:  Living in the postacard e na Amazon.





A última aventura de Rumpole

18 01 2009
Escritor Sir John Mortimer, 2006, The Guardian

Escritor Sir John Mortimer, 2006, The Guardian

Sir John Mortimer, um dos meus escritores favoritos, passou desta para a outra aos 85 anos.  O escritor inglês deixa para trás milhares e milhares de seguidores de seus livros e principalmente de seu mais conhecido personagem, Horace Rumpole, of the Bailey, o temível defensor de muitos Zé-niguéns, que só se calava frente à sua impagável esposa Hilda, — “a quem é preciso obedecer”.

 

 

A última publicação

A última publicação

 

 

Sir John Mortimer, escritor e advogado.  Teve uma carreira brilhante como advogado de defesa, em casos importantes, sempre defendendo a liberdade de expressão.  Formado pela Universidade de Oxford, trabalhou a vida inteira como advogado em tribunais britânicos.  Teve uma carreira brilhante.  Ficou conhecido por sua defesa de casos notórios que envolviam a liberdade de expressão.  Entre eles, defendeu a editora Penquin contra acusações de obscenidade, pela publicação de “O Amante de Lady Chatterley na década de 60. Mais tarde, ele representou a revista “Oz em um julgamento sobre obscenidade.  Sempre conciliou a vida de escritor com a de advogado.  Era conhecido por escrever seus livros de manhã, antes de sair para o trabalho no tribunal.

 

Coletânea, volume I

Coletânea, volume I

 

Seu nome passou a ser ainda mais conhecido fora dos círculos ingleses quando a televisão pública nos EUA, a PBS [ Public Broadcasting Service] levou a série inglesa, Rumpole of the Bailey, na televisão, caracterizado pelo ator Leo McKern.

Coletânea, volume 2

Coletânea, volume 2

Mortimer, morre depois de uma longa batalha contra um mal incurável.   Mas até recentemente ainda ia de cadeira de rodas a um grande número de eventos culturais, concertos e teatro na Inglaterra.   Uma de suas filhas é a atriz inglesa: Emily Mortimer.

 

 

Desconheço se seus livros foram alguma vez publicados no Brasil.








Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 792 outros seguidores

%d bloggers like this: