O vendedor de cocadas, texto de Marques Rebelo

7 05 2013

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artigos.imagens.A0110.I00173 O vendedor de cocada

Darcy Cruz (Brasil, 1931)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Ibac

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9 de fevereiro [1941]

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Cavalete ao ombro, grande baú pintado no cocuruto da cabeça pixaim, com uma folha de laranjeira contra os lábios, o doceiro emitia esperadíssimos sons anunciando-se à freguesia. Cocada brancas e pretas, quindins, bons-bocados, papos-de-anjo, pastéis de nata, bolinhos de cará, beijus, balas de ovo, de leite de coco, de guaco – ótimas para a tosse! Um universo de açúcar.

Era velho o preto, chamava mamãe de Iaiá, tinha sempre uma bala de quebra para Cristinha. Sua hora era pelo meio do dia, quando o sol ia a pino. Três vezes passava o padeiro empurrando a barulhenta carrocinha aprovisonadora. Deixava-se entregue à vigilância de um moleque e lá ia, peludo e bigodudo, de casa em casa, a cesta coberta com um pano braço que já fora saco de farinha. Pão francês, pão alemão, pão italiano (um pouco massudo), pão-de-provença, de milho, de forma, de ovo, pão trançado, pão-cacete e periquitos – a três por um tostão, obrigatórios nas merendas escolares – e roscas de barão, rosquinhas de manteiga, caramujos, tarecos, cavacos, joelhinhos, bolachas de água e sal. Tudo quente, cheiroso, estalando – a vida abundante, solícita, módica, vida provinciana para sempre extinta”.

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Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





Rudyard Kipling no Rio de Janeiro

4 04 2013

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Bruno Bronislaw Lechowski (1887–1941),Praia de Copacabana, 1936

Bruno Bronislaw Lechowski (1887-1941)

aquarela sobre papel

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Almocei hoje com um amigo vindo de uma Europa cheia de neve e frio, onde o tempo insiste em prolongar um dos piores invernos de que se teve notícias por aquelas bandas.  Sua alegria de voltar aos trópicos foi contagiante e me lembrei também do tempo em que morando fora do Brasil, chegava aqui de visita à família e me encantava até mesmo com o Galeão, porque reconhecia o colorido das folhas verdes da Ilha do Governador e o cheiro do material de limpeza do aeroporto.  Isso só acontece quando se tem muita saudade mesmo!  Voltei para casa e fui correndo dar uma olhadinha em um texto de Rudyard Kipling sobre o Brasil,  um escritor amante dos trópicos, da Índia e de outros lugares também abençoados.  Re-encontrei esse livro na semana passada quando passei em revista meus livros.  Sabe aquela crença: vamos nos desfazer de algumas coisas para dar espaço para outras melhores?  Pois ando nessa vibração, talvez seja a necessidade de contribuir para que o status quo desembeste, mude, saia da mesmice.   Não consegui achar o texto de que me lembrava, mas achei esta introdução ao Rio de Janeiro que considero charmosa.  Espero que vocês gostem.

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“Nos países sensatos, não há pressa, nem mesmo para a Saúde ou a Polícia do Porto. Por isso, embora houvéssemos entrado no porto do Rio no começo da tarde, já estava começando a escurecer quando nos aproximamos do cais e toda a cidade e as costas ao lado dela escolheram esse momento para acender constelações e vias-lácteas de desenfreada eletricidade.

Subiram então a bordo homens dispostos, como os homens do mundo inteiro, a mostrar a um estrangeiro a cidade que amavam. Dentro de dois minutos, as linhas escuras dos cais repletos tinham desaparecido e o carro corria por uma avenida cheia de luzes e fortemente quadriculada por filas duplas de folhagem das árvores e marginada e clubes, lojas e cafés iluminados e repletos. Esse mundo de luz cedei lugar de súbito, entre os topos de edifícios gigantescos, a espaços ainda mais vastos de avenidas de pista única, entre árvores, tendo a baía de um lado e franjadas de luzes elétricas que corriam para a frente aparentemente para sempre e se renovavam em colares de pérolas atiradas em volta de cantos indivisíveis. E sempre, acima de tudo, viam-se e sentiam-se os contornos das montanhas cobertas de matas. Todo o mundo estava conosco em carros todos cheios de gente sem chapéu, todos em velocidade máxima, mas não mais rápidos do que certos diabólicos ônibus cujos barulhos funcionais eu iria confundir depois com o trovejar de um aeroplano diante da minha janela no oitavo andar. À nossa direita, um morro cujas luzes profusas subiam e se interrompiam, indicando a meio curvas de caminho.  Conheciam-se bastante os velhos romances para saber que aquilo devia ser Santa Teresa, o bairro onde os funcionários virtuosos e os amantes exilados pelo destino costumavam viver para refazer as suas fortunas. É hoje, como sempre foi, um lugar de aprazíveis residências. Está diante exatamente da entrada da barra – dois lisos dentes de crocodilo de rocha nua que muitos olhos devem ter visto a fechar o caminho para a pátria no tempo em que os homens morriam entre o meio-dia e o crepúsculo. Há visões de casas brancas e cor de rosa com plumas de palmeiras sobressaindo ou, ainda com maior intimidade, frisos de bananeiras tranqüilas por trás de muros de marfim. Ficamos, porém, à beira da água, com a multidão que estava tomando fresco.

A noite estava, razoavelmente, isto é, tropicalmente quente. Chapéus, sobretudos, pressa, hora e outras insignificâncias tinham ficado do outro lado do Equador. A única preocupação que restava era de que aquela cidade de sonho, de folhagem verde intensamente iluminada, de imponente estatuária e montanhas altaneiras desaparecesse de repente se a gente tivesse a coragem de olhar para o lado.  Mas continuou, com uma enorme curva de caminho sucedendo a outra, ainda contornando o mar, ainda iluminada pelas luzes insolentes e onipotentes mas – deve-se pagar algum tributo aos deuses – impregnada do perfume dos carros que voavam. (Deve-se notar que o brasileiro, como motorista, pode paralisar qualquer chofer de taxi da Place de La Concorde. Os sulistas ciumentos dizem que um argentino pisando leva-lhe vantagem. Para mim, ele é mais que suficiente.)

Por fim, a torrente do tráfego se desviou da baía, entrou por um túnel ressoante onde todos buzinavam ao  mesmo tempo e foi sair numa extensão de praia em que as ondas livres do Atlântico Sul se alinhavam sob as estrelas  e se quebravam nas areias de cor de marfim ao pé dos refletores elétricos. Todos os que não estavam sobre rodas passeavam em miríades em calçadas de mosaico junto ao mar. Diante da praia, viam-se casas isoladas cujos proprietários deviam ter perdido a cabeça em todos os detalhes, arrebiques, caprichos, atributos e curiosidades daquilo o que se chama de “arquitetura” e que seus cérebros ou suas posses podiam abranger. E desde que as construções não se pareciam com qualquer outra coisa na terra, ajustavam-se exatamente ao inexplicável cenário que sob os altos céus os contemplavam.

– O nome desta praia é Copacabana – disseram meus companheiros.  – Não faz muito tempo que começou a ser construída. Não. Isso não é a cidade. É apenas um dos seus distritos. A cidade fica a muitos quilômetros de distância. Ainda há muitas outras praias pela frente, mas…”

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Em: Cenas Brasileiras: um documento inédito — a presença de Kipling no Brasil, Rudyard Kipling, tradução de Pinheiro de Lemos, Rio de Janeiro, Record: [1977?], pp. 37-38





Feliz aniversário, RIO DE JANEIRO!

1 03 2013

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Digital StillCameraPão de Açúcar,  Enseada de Botafogo, Baía de Guanabara, Rio de Janeiro.

1º de março

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Rio de Janeiro, 448 anos!

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Cidade Maravilhosa!





Para minha avó, no dia de seu aniversário.

28 01 2013

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Vovó Albina, década de 20 -- 1920sMinha avó, Albina, aos 26 anos, já casada, por volta de 1924, no Rio de Janeiro.

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Em termos de astrologia o fato de meus quatro avós terem nascido sob o signo de Aquário,  em anos diferentes mas num período de sete dias (28 de janeiro, 30 de janeiro e 4 de fevereiro),  deve significar alguma coisa interessante. Não sei. Mas, além disso, tive dois avós — meu avô, pai de papai, e minha avó, mãe de mamãe, que nasceram no dia 28 de janeiro.

Albina,  mãe de minha mãe, se estivesse viva faria 115 anos, hoje.  Não gostava de tirar retratos. Daí serem poucas as fotos que restaram. Dela herdei os olhos azuis, os dela mais azuis ainda do que os meus.  Em comum, a pele claríssima e, dizem, o temperamento forte.  Nunca soube muito bem o que essa expressão significa, pelo menos no que me toca…  Talvez meus desafetos saibam.  Fisicamente temos o tipo celta, uma explicação portuguesa que atribui essas características ao biotipo comum no norte de Portugal, na Galícia e na Irlanda.  Funciona.  Todos os antepassados que tenho do lado materno e paterno, vindos de Portugal vêm do norte do país: do Minho, de Trás-os-montes e da Galícia.

Meu bisavô, João, pai de Albina, era português de Viana do Castelo, mas sua família tinha raízes na Galícia, certamente em Tuy.  Mas vamos e venhamos, Tuy, era só do outro lado do rio Minho.  É tudo a  mesma coisa…  Minha bisavó, mãe de vovó, Maria da Glória, era brasileira, filha de brasileiros de origem minhota, mas radicados no Brasil, desde de 1820, pelo menos essa é a data mais antiga que tenho sobre eles. Eles, os Proença [e a escrita pode ser também Proenza], viviam na região de Vassouras e Valença, no estado do Rio de Janeiro.  Como e porque chegaram lá não sei, só sei que são de Viana do Castelo e da Galícia.  São muitas gerações passadas, avós e bisavós de minha avó.  Mas, continuo à procura, encarregada que sou da árvore genealógica familiar.

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DSC09302Albina Proença Fernandes Leitão, aos 16 anos, 1914.

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Vovó estudou num dos mais antigos colégios para meninas, escola de formação para moças, educação humanista-cristã de irmãs vicentinas, no Rio de Janeiro: Colégio da Imaculada Conceição, na Praia de Botafogo, fundado em 1854.  Está lá, de pé, até hoje, educando geração após geração.  Tem em seu terreno uma belíssima igreja — Igreja da Imaculada Conceição associada ao colégio –  em estilo pseudo-gótico, projetada em 1866 pelo arquiteto Padre Clavelin, prédio característico da segunda metade do século XIX.  Lembro-me que quando eu estava nos primeiros anos da escola, havia nesse local também um asilo para idosos.  Não sei se ainda existe.  Mas todos os anos, mamãe e eu, íamos a este asilo, porque algumas das senhoras que lá estavam, bordavam por encomenda e os emblemas da escola, nos bolsos de nossos uniformes, meus e de meus irmãos, eram bordados por essas senhoras do asilo que ficava por trás do colégio, do lado esquerdo da igreja.

Era a caçula de cinco irmãos e ficou órfã de pai ainda criança, bem pequena.  Histórias familiares atribuem a morte de meu bisavô a um acidente num bonde ainda puxado a burros, aqui no Rio de Janeiro, no centro da cidade.  Era o ano de 1903.  Ele tinha, com um irmão, uma serralheria, localizada próxima aos Arcos da Lapa e foram assim responsáveis por muitas grades e sacadas de ferro fundido, artisticamente desenhadas, encontradas até hoje nos bairros mais antigos da cidade. Vovó Albina também perdeu a mãe muito cedo,  aos doze anos de idade, num incêndio.  A casa onde moravam, na Tijuca, pegou fogo.  Maria da Glória, depois de viúva, trabalhou como professora primária no colégio onde sua filha estudava.  Depois que sua mãe morreu,  Albina foi morar com uma tia, do outro lado da Baía de Guanabara, em Niterói. Não sei quando se mudaram para o Rio de Janeiro, mas em 1922, quando vovó se casou, já morava no Rio de Janeiro há alguns anos.

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???????????????????????????????Livro de receitas.  Seleção de vovó Albina, para a neta que se casava…

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Deve ter sido bonita. Pelo menos, meu avô caiu de amores por ela ao vê-la na janela de casa.  Dizem que aquele aluno da Faculdade de Direito, mandado pela família de Mato Grosso para estudar na capital,  passou por aquela rua na Tijuca por dois anos, todas as tardes, só para vê-la.  E o futuro advogado, que tinha um quê de trovador e seresteiro, chegou a fazer uma ou duas serenatas, acompanhadas ao violão, que arriscava tocar, e por colegas de faculdade, aos pés da janela da amada.  Mas o tio de vovó Albina, num instante acabou com aquela demonstração de encantamento.  Não era para uma moça de respeito.  Com  medo de não vir a ser aceito como um bom partido, meu avô se submeteu às restrições familiares.  Casaram-se no civil, em 26 de outubro de 1922.

Albina teve uma educação rígida.  E passou muitos de seus ensinamentos para nós, principalmente depois que veio morar conosco, quando ficou viúva.  Já nessa altura havia uma grande defasagem entre a sua maneira de educação e a que meus pais nos deram.  Mas com ela aprendemos os princípios sociais básicos, os obrigados — sempre usados — os bom-dias.  Vovó tinha um hábito interiorano, que deveria ter herdado de sua mãe: dizia boa noite quando as luzes eram acesas pela primeira vez, na hora do lusco-fusco diário.  Fui alvo de muitos de seus ensinamentos, principalmente por ser a única menina da minha geração.  Só tive primos homens neste lado da família.  Assim, sentar-me ereta, cruzar as pernas com os pés embaixo da cadeira, mãos pousadas no colo, sem cotovelos à mesa e assim por diante, eram repetidos diariamente sem dó.  Ensinamentos nem sempre acolhidos com o bom humor com que hoje me lembro deles.

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Vovó Albina com RicardoMinha avó com meu irmão Ricardo.

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Era prendada. Foi com vovó que aprendi a fazer crochê.  E cheguei a tricotar.  Mas nunca tive sua habilidade no tricô, para somar e subtrair pontos com perfeição, para que pudesse fazer competentemente blusas e sapatinhos de bebê.  Faço cachecóis. Herdei dela o hábito de não conseguir ficar sem fazer nada com as mãos.  Se vejo televisão, também faço crochê, bordo, limpo joias de prata, faço algo.  Foi assim que acabei fazendo colchas de retalhos à moda americana, patchwork, à mão  como pede a tradição.  Fiz duas, para duas sobrinhas, quando nasceram. Vovó Albina também fez uma colcha de retalhos, de fuxicos, para cada uma de suas filhas e para mim, enquanto via televisão no sofá da sala.  Foi um presente, para minha vida de casada.  É divertido examiná-la, porque nela estão retalhos de meus vestidos de criança, de roupas de mamãe, de vovó, um verdadeiro cofre com mementos no formato de rodelas de pano. Guardo esta colcha com carinho e não sei o que fazer com ela, quando tiver que pensar em passar meus tesouros adiante… Também guardo dela, e este não está nas melhores condições, porque foi um dos presentes mais úteis que já recebi na vida,  um livro de suas receitas favoritas. Até hoje um dos mais preciosos tesouros que alguém já preparou para mim.  Todas as receitas copiadas à mão, em tinta de tinteiro, azul, receitas fáceis, do dia a dia, que foram e são até hoje uma fonte inigualável de saber culinário.  Com esse livro sou capaz de reproduzir aqueles gostos da infância, os gostos da minha casa, da casa dela, da família.  As sobremesas mais queridas.  Como ela, gosto de cozinhar.  Não faço como ela o arroz cor de rosa, com bastante tomate, mas gosto de experimentar na cozinha, e se tenho audiência, boas-bocas, não tenho limites na cozinha.

Minha avó estabeleceu para mim, além de Dona Benta do Monteiro Lobato, o protótipo de todas as avós. Não só  fazia os quitutes de que gostávamos.  Também jogava cartas conosco, inicialmente burro, um jogo de cartas para crianças, e depois que ficamos mais velhos ela gostava de um buraco.  Brinquei muito de cama-de-gato, com ela, passando das mãos dela para as minhas o barbante entrelaçado nos dedos.  E com ela aprendi as canções infantis do bã-balalão, senhor capitão;  o domingo, “pé de cachimbo” [pede cachimbo];  a brincadeira do rei-soldado-capitão-ladrão;  o gato atrás do rato e o nome de todos os dedos das mãos.  Vovó sempre jogou, o jogo da memória comigo, mas não com as pedras que conhecemos hoje, mas com cartas do baralho.  Ria-se com facilidade e ria silenciosamente, com o corpo todo tremendo, às vezes chegava às lágrimas de riso. Chegava a corar, nessas ocasiões. Tinha a pele macia, cheirosa: talco da Helena Rubinstein e pó de arroz da Coty, das caixas redondas, estampadas de marron e branco.  Era um prazer especial, sentar ao seu lado encostar minha cabeça no seu ombro ou nos seus braços.  Quando aprendi piano, mostrou-me algumas de suas músicas favoritas, canções, valsas antigas cujas letras ainda se lembrava, e as cantava, baixinho, com a voz aguda de soprano, solfejando. Tinha a boca bem pequenina, como das melindrosas.  São muitas as memórias.  E hoje as coloco aqui, num agradecimento póstumo, que há muito eu lhe devia.  Feliz aniversário!





O cemitério do Caju, texto de Pedro Nava

13 01 2013

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DSC00822Cemitério de São João Batista, Rio de Janeiro.

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Não sei se existe uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro. Quase todos foram abertos depois das hecatombes da febre amarela, a partir de dezembro de 1849. O do Caju é anterior. É o mais antigo da cidade. Foi instalado em 1839 por José Clemente Pereira, numa gleba comprada à José Goulart, para enterrar os indigentes e escravos até então sepultados nos terrenos de Santa Luzia, onde se  ia erguer o atual hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Foi chamado Campo-Santo do Caju. Seu primeiro defunto foi inumado em 1840. Em 1851, o nome foi mudado para o de Cemitério de São Francisco Xavier. Entretanto, não só persiste a antiga denominação como ela entrou nas frases feitas. Assim, quando se diz – um dia,  Pedro, irás para o Caju – quer dizer – um dia, Pedro, ai! de ti, também morrerás e serás enterrado. Naquele ano o campo-santo é ampliado e juntaram-se as terras de José Goulart, as da antiga Fazenda do Murundu, de Baltasar Pinto dos Reis.  Em 1858, desmembra-se o terreno que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira da Penitência e em 1859 o que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira do Carmo. Essa vasta área corresponde, mais ou menos, ao que é hoje limitada pela Avenida Brasil, pelas Ruas Carlos Seidl, Indústria e Monsenhor Manuel Gomes e nela estão os quatro cemitérios, fábricas, depósitos e favelas; as ruas novas dos fundos das necrópoles; e o Hospital São Sebastião. O aterros, em frente, fizeram desaparecer os cais da Limpeza Pública, o dos madeireiros e a ponta de terra onde desembarcavam os macabeus de Jurujuba – perante a grada de honra das palmeiras cruzando suas folhas como espadas verdes no silêncio do funeral anônimo. O mar foi para longe e os pobres mortos deixaram de ser devorados pelos necrófagos talássicos, os siris e os guaiamuns. Passaram a ser pasto dos de terra, os tatus e as baratas. Aí!  ser entregue às baratas…

Entramos no cemitério como quem penetra as imensidades. Não as urbanas, como as perspectivas dos três poderes, na Brasília; as dos Campo Eísios em Paris; do Zocalo, no México; da praça de São Pedro, e da Via da Conciliação em Roma.  Mais do que isto.  Mais que as próprias imensidades do pampa, do deserto, da estepe.  Eram as imensidades sem fundo do tempo fugitivo e eterno, do espaço verificável e infinito. Transpondo seu pórtico de pedra eu tive a percepção invasora (e para sempre entranhada e durável) de um impacto silencioso e formidando. Alguma coisa se passou ali, se passou em mim, invisível, como que incometida e destituída de flagrante ação. Um súbito vazio, rarefação do elemento essencial a que eu bati guelras de ansioso peixe. Na imensa ausência eu só captava os círculos concêntricos da palavra oásis, da palavra oásis, da palavra oásis, se desprendendo da sineta que repicava para o defunto que chegava e para o enterro com que fomos de cambulhada. A entrada principal do campo-santo era uma larga avenida que a cobiça da Santa Casa foi estreitanto de tanto vender os palmos de terra onde capelas ricas e modernas cobrem a vista dos túmulos dos primeiros tempos.  Logo à esquerda os do Visconde e do Barão do Rio Branco. O deste, apenas um cubo de alvenaria caiada a espera que a Nação construa o monumento do construtor de suas fronteiras. Logo depois a moça abraçada a uma coluna (cujo mármore se derrete como um torrão de açúcar, da sepultura de Águeda Francisca Durão. O belo monumento de letras apagadas de José Clemente Pereira. À direita, o de José d’Araújo Coelho com sua pirâmide e  sua cabeça de esqueleto. O da que foi Ana Maria Ribeiro de Araújo Sousa com a armaria da Morte: em campo de nada a caveira triunfante sobre tíbias postas em aspa. As de Luísa Rosa Avendano Pereira e do médico Roberto Jorge Haddock Lobo. No fim das duas quadras iniciais o Cruzeiro de granito, todo dourado do tempo e azinhavrado dos musgos, abre seus braços de árvore de pedra, de moinho de pedra – sobre o infinito luminoso do seu despencado em cima da baixada carioca e da baixada fluminense.  Nos degraus destes cruzeiros de cemitérios é que senta o Grão-Porco na meia noite das sextas-feiras de novilúnio. Senta e espera os destemidos que entram para solicitar ouro, poder e amor. Quem chega ao Porco e pede, já ganhou porque tem preenchida a condição — que é atravessar até ali sem desviar a cabeça, sem olhar para os lados, por mais que os defuntos saídos do chão da terra chamem com psius pelo nome, xinguem, vaem, cutuquem e puxem pela roupa.   Ai!  de quem olha para os lados, hesita, treme e para. Cai logo morto e cai fedendo de podre e de borrado.  Já quando ele vence, logo os cadáveres voltam para as covas que se fecham e estralejando as lajes e um vento largo e rude varre o cheiro da carniça, limpa a face da lua nova. O Porco imundo vira num príncipe prateado e todo airoso. Abraça o postulante e os dois saem juntos (porque o Vinícius, lá fora gritou que já é sábado!) – saem juntos, para nunca mais se separarem. Nem nós de cá desta vida, nem nós de lá de depois da morte….

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Em Balão Cativo: memórias/ vol2, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:  1973, pp: 40-42





O Bonde de Burro, texto de Pedro Nava

30 12 2012

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Bonde-movido-a-burro-1895-Rua15-de-Novembro

Bonde movido a burros, 1895, rua 15 de novembro, SP. Blog da garoa.

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“Isso vem a propósito de minhas lembranças de bondes-de-burro.  Neles andei, talvez numa de nossas viagens ao Rio ou, mais certamente, depois de nossa vinda definitiva de Juiz de Fora. Quando? não posso dizer com exatidão, pois minhas recordações desse Aristides Lobo da infância surgem empilhadas e a fotografia positiva que delas obtenho resulta da revelação de vários negativos superpostos, cuja transparência permite que as imagens de uns se misturem com as luzes dos outros. O essencial é que me lembro dos bondes de burro com seus poucos bancos, com o condutor e o cobrador, os dois sem farda, de terno velho, colarinho duro, chapéu de lebre, ou chile, ou bilontra – e a bigodeira solta ao vento carioca. O primeiro governava os burros a chicotadas mais simbólicas do que propriamente para valer e principalmente, com a série de ruídos que tirava dos beiços, da língua, das bochechas, das goelas, e que eram muxoxos e chupões, assovios e estalos, brados monossilábicos e gritos churriados – a que as adestradas alimárias respondiam com o passo, a marcha, o trote, a andadura e a parada. De distância em distância as parelhas cansadas eram trocadas por outras mais frescas, nas mudas dispostas ao longo dos itinerários.  Uma destas perpetuou-se no nome que se estendeu a um bairro todo – o da Muda da Tijuca. Lembro-me bem da que ficava à esquina da Marquês de Sapucaí e Salvador de Sá, onde foi depois uma estação de elétricos – estação não no sentido de paragem, mas do local onde se recolhiam os bondes. Quem vinha de Aristides Lobo, era ali que trocava os burros. Eles eram soltos ao mesmo tempo  que as correntes que os prendiam à trave que era desengatada conjuntamente, do veículo. Quando eles se sentiam livres, empinavam as cabeças, zurravam e corriam, sem necessidade de serem conduzidos, para dentro da muda, para suas águas e seu capim.  Iam rebolando as ancas, repiqueteando os cascos ferrados, num tilintar de cadeias arrastadas. Compunham uma representação de movimento e som que vim a recuperar quando o cinema começou a explorar as dançarinas de rumba com suas bundas de potranca, suas caudas farfalhantes, seu agudo bater  de saltos e suas secas castanholas. Sempre que as via, reinundava minha alma do encanto infantil com que assistia à troca das bestas naquela esquina. E sempre que passo nesse cruzamento de ruas, reassumo meus cinco, meus seis anos e ouço o trincolejar de grilhões raspando no lajedo. Os bondinhos de tração animal seriam substituídos pelos elétricos, na Zona Norte, aí por volta de 1909.”

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Em: Baú de Ossos, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, PP. 372-3





Canto Natalino, poesia de Ubirajara Raffo Constant

15 12 2012

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São Nicolau e o Auto do Natal

Luiz Roberto da Rocha Maia (Brasil, 1947)

http://www.rochamaianaif.com

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Canto Natalino

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Ubirajara Raffo Constant

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Dos reis magos no céu brilha
A estrela clara e viajeira;
De uma igrejita campeira
Soa ao longe a voz do sino;
Flete ao tranco sem destino,
Na solidão de um corredor,
Abre o canto um pajador
Saludando ao Deus Menino.

E todas as vozes do pago
Cantam salmos na planura
Irmanados na ternura
Do cantar do pajador;
Pedindo à Nosso Senhor,
Na humildade de seus versos,
Que só exista no universo
Fraternidade e amor.

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Ubirajara Raffo Constant nasceu no Rio Grande do Sul em 1938.  Poeta  de  Uruguaiana.

Obras:

Retorno Bravo, poesia, 2003

Pampa em 23, prosa, 2004

Sepé Tiaraju, uma Farsa Em Nossa História, história, 2006





O Brasil das artes gráficas na Copa do Mundo de 2014: o cartaz do Rio de Janeiro

26 11 2012

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Essência de nossa gente

Adélio Sarro  (Brasil, 1950)

óleo sobre tela

www.adeliosarro.com

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Ontem foram divulgados os cartazes da Copa do Mundo de 2014.  São 12 ao todo, um para cada cidade sede: uma boa mostra das nossas artes gráficas, com muitos altos e baixos. O cartaz para o Rio de Janeiro me desapontou.  Não está entre os meus favoritos, mas há piores.  O representante da minha cidade, inclui três elementos-chave: o Pão de Açúcar, o jogador e a bola.  A cidade repercute o ritmo do futebol.  Uma ótima ideia, que poderia ter tido resultado melhor.   O cartaz mostra o movimento repetitivo do jogador, como nas embaixadinhas, refletindo-se na paisagem carioca, ecoando nas formas do Pão de Açúcar e mais adiante nas ondas do mar e no céu. Conceito bom para uma cidade que se orgulha da ginga que tem, da paixão pelo esporte.

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Designers Julia Gostkorzewicz e Eduardo Leichner.  Modo  Design e Informação.

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Mas poderia ter tido uma solução visual mais interessante.  O resultado está pesado: cores fortes demais, sólidas demais.  Faltou espaço em branco para a pausa na informação.  Faltou espaço para se respirar visualmente.  Há muito movimento em pouco espaço.  Faltou também elegância no traço e leveza, características das artes gráficas brasileiras. Criado pelos designers Julia Gostkorzewicz e Eduardo Leichner, da Modo Design e Informação,  o poster não representa o garbo e a delicadeza de movimento que caracterizam o futebol brasileiro.

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Dinamismo do cachorro na coleira, 1912

Giàcomo Balla (Itália, 1871-1958)

Óleo sobre tela, 90 x 110 cm

Albright –Knox Art Gallery, Buffalo, NY

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A maneira de expressar movimento, pela repetição de formas, de contornos semelhantes em diferentes posições no espaço poderia ter sido mais leve no traço e no ritmo.  São passados exatos cem anos desde que as primeiras obras de arte trouxeram  para as telas a ideia da repetição como maneira de demonstrar movimento.  Influenciados pela fotografia e pelo cinema, artistas do movimento futurista e  do cubismo usaram a repetição de formas para implicar movimento, no que foram mais tarde  seguidos pelos artistas gráficos tanto em cartazes como no desenvolvimento de desenhos animados. Uma linguagem completamente revolucionária na época, falamos da segunda década do século XX,  com a qual estamos, hoje, bem familiarizados.

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Nu descendo a escada nº 2, 1912

Marcel Duchamp (França, 1887-1968)

Óleo sobre tela,   145 x  87 cm

Museu de Arte da Filadélfia, EUA

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Reconheço que somos uma cultura com forte tradição do close-up.  Basta vermos as tomadas de cena nos filmes e na televisão brasileiros para entendermos que gostamos das coisas bem próximas.  Ninguém mais no mundo usa essa proximidade visual, onde é comum vermos até mesmo os poros dos atores em cena.  Isso se reflete também no espaço que não damos às pessoas nas filas, à aproximação dos corpos em conversas casuais entre amigos nas ruas.  Gostamos de estar mais ou menos em cima dos outros, mesmo que sejamos estranhos uns aos outros.  Enquanto no Brasil um elevador de 1 m² pode carregar 4 pessoas, no exterior seriam permitidas só 2 pessoas, por causa desse espaço cultural.  Nos veículos de transporte de massa, daqui, ninguém se sente mal se está espremido num banco para duas pessoas e sente o antebraço do vizinho encostar no seu.  Entende-se que seja inevitável, principalmente quando os bancos de ônibus e metrô têm um braço na cadeira do corredor.  Apertamento semelhante acontece com mesas em restaurantes, em bistrôs.  No Brasil senta-se pelo menos um terço a mais do que poderiam sentar em outros países. Gostamos dessa falta de espaçamento.  Espaço físico é cultural.   Quando tratamos da informação visual não podemos ser diferentes, mas temos que considerar o quanto de informação visual estamos passando para quem observa.  Na pintura,  vem à mente o trabalho de Cláudio Tozzi que, com ou sem araras, consegue, assim como a televisão e o cinema, sufocar visualmente o observador.

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Papagália, 1981

Cláudio Tozzi (Brasil, 1944)

acrílica sobre tela, 57 x 57 cm

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O resultado final dessa ocupação da superfície da tela é transformar a imagem em ícone.  Mas para que isso aconteça há outras características a serem consideradas.  Observe o que acontece com o a obra Papagália, de Tozzi, ilustrada acima.  Ela funciona porque é bem simples.  É preciso que haja uma economia de elementos para que possamos absorver tudo de uma vez.  Afinal este é um dos critérios de um bom cartaz, de uma boa mensagem.  Ou seja, um objeto – aqui, no caso,  uma arara —  facilmente reconhecível, trazido para o primeiro plano, sem  que quase nenhuma outra informação ao redor complique o seu entendimento.  Além disso, a enorme proporção em relação à superfície da tela  nos obriga a imaginar que haja um maior significado na imagem, como acontecia nos ícones religiosos de era bizantina, por exemplo.

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Icone do Arcanjo Gabriel, c. 1250 – século XIII

Tempera e ouro sobre painel de madeira

105 x 75 cm

Sacro Monastério de Santa Catarina, Monte Sinai, Egito

Metropolitan Museum of Art, Nova York

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Quando Andy Wahrol e outros artistas pop dos anos 60 do século passado se dedicaram à representação de objetos comuns, ou pessoas populares, cujas imagens eram produzidas em massa, quer industrialmente como uma lata de sopa, quer em Hollywood, como Marilyn Monroe, transformando-os em ícones e consequentemente elevando sua importância no contexto cultural, eles também deixaram de lado outras informações visuais que poderiam obstruir ou distrair quem os apreciasse.

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Lata de sopa Campbell, 1964

Andy Warhol (EUA, 1930-1987)

Silkscreen sobre tela, 90 x 60 cm

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A diferença entre o sucesso da imagem de Tozzi e o cartaz da Copa no Rio de Janeiro está justamente na superinformação visual do cartaz.  Em outras palavras, tudo é grande e tem coisa demais para se prestar atenção.  Podemos passar os olhos em outro ícone, precursor da arte pop, para melhor entendermos essa questão da informação visual.  Na famosa tela,  Vi o nº 5 em ouro de 1928 o artista americano Charles Demuth traz para o primeiro plano o número 5, que ecoa visualmente  – como o movimento representado no nosso cartaz do Rio de Janeiro – diversas vezes pela superfície.

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Vi o número 5 em ouro, 1928

Charles Demuth (EUA, 1883–1935)

Óleo sobre papelão, 90 x 76 cm

Coleção Alfred Stieglitz

Metropolitan Museum of Art, Nova York

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Vivendo em outra época,  tendo na bagagem cultural uma tradição influenciada pelos movimentos artísticos europeus — cubismo e futurismo —  Demuth quebrou os parâmetros da pintura da década de 20 do século passado, trazendo movimento para esse nº5 que havia feito de ícone. O movimento na tela é representado pela diferença gradual das imagens dos números  5, retrocedendo em um horizonte longínquo. Além disso, as faixas coloridas em tons de azul, negro e branco, também parecem retroceder em direção a um suposto infinito.  Elas começam largas, no perímetro da superfície da tela e se estreitam rapidamente, fazendo nossos olhos “caírem” diretamente do nº5 do centro da tela.  O olhar do observador corre nessa direção, como se caísse num buraco, vertiginosamente.  Esse movimento auxilia no entendimento de velocidade necessário para o tema.  O quadro –  uma alusão ao poema de William Carlos Williams* em que Demuth se inspirou, onde o nº 5 aparece num carro de bombeiros,  – é de influência futurista, enquanto o uso de letras, de diferentes fontes e da subdivisão de formas demonstra sua afinidade também com os mestres cubistas.  O resultado é uma tela de grande impacto. Não foi à toa sua influência nos pintores da década de 60 nos EUA.

Mas há uma grande diferença entre o trabalho de Demuth e o cartaz do Rio de Janeiro, apesar de ambos terem as superfícies cobertas inteiramente, deixando muito pouco para aliviar o olhar.  Na tela americana, nossos olhos primeiro vão ao fundo, a  um horizonte profundo, imaginário; no cartaz brasileiro os olhos passeiam pela superfície e se distraem.   Essa distração não indica excelência nas artes gráficas, principalmente quando tratamos de cartazes, que têm por obrigação transmitirem uma mensagem rápida, simples e única.

Há aqueles que ainda vêem mais nessa imagem do cartaz carioca.  Mais do que acredito existir.  Há os que vêem um formato de coração pulsante na combinação de imagens em marron avermelhado, e há  outros que descobriram referências à bandeira do movimento gay, na repercussão que as cores fazem.  Faltaria o roxo.  Mas não acredito que qualquer um desses elementos tenha sido proposital.  Não sei.  Se foi proposital,  sinto muito.  Porque só aumenta o excesso de informações. Algo incompatível com um trabalho de excelência na arte do cartaz.

Maior distanciamento poderia oferecer o espaço necessário para evitar a sensação de sobrelotação do espaço visual. Dar um respiro e uma merecida pausa na informação visual. Não me agrada ver todas essas “mensagens” na superfície daquilo que deveria ser direto, simples e na mosca.

Ainda bem que ganhar a Copa não dependerá do sucesso deste cartaz!

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© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2012.

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Adiciono aqui o poema que serviu de inspiração para Charles Demuth.

The Great Figure

William Carlos Williams

Among the rain
and lights
I saw the figure 5
in gold
on a red
fire truck
moving
tense
unheeded
to gong clangs
siren howls
and wheels rumbling
through the dark city





O Rio de Janeiro encantado de Lucia de Lima

21 11 2012

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Enseada de Botafogo, s/d

Lucia de Lima ( Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 50 x 60 cm

www.luciadelima.com

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Uma das coisas de que mais gosto no trabalho de Lucia de Lima é a felicidade!  Ela consegue, na minha opinião, retratar o estado de espírito carioca: livre, leve e solto.

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Rio Panorâmico

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 20 x 50 cm

www.luciadelima.com

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Vamos e venhamos é delicioso observar todas as coisas que acontecem simultaneamente em cada tela.  São os detalhes de parapentes, pessoas de bicicletas, barquinhos na enseada de Botafogo, helicópteros e assim por diante.

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Ararinhas azuis

Lucia de Lima (Brasil, conteporânea)

acrílica sobre tela, 35 x 27 cm

www.luciadelima.com

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Além da paisagem carioca, Lucia de Lima mostra também grande sensibilidade para assuntos ecológicos.  Telas que representam a abundante natureza carioca, com flores que tomam conta da superfície, são em geral o ponto de partida para a representação de pássaros e  de espécies que correm perigo de extinção, como no caso das ararinhas azuis da tela acima.

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Jardim Botânico

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 40 x 50 cm

www.luciadelima.com

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Lucia de Lima pode ser encontrada passeando pelo Jardim Botânico muitas vezes ao mês.  Ela admite que o local lhe serve de inspiração para todo o verde, toda a mata e para os pássaros que retrata em seus quadros: diferentes flores, palmeiras, arbustos, árvores encontram um refúgio nessas telas coloridas.

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O menino e o Cristo

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 70 x 30 cm

www.luciadelima.com

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Outra característica da pintora são os formatos das telas.  Muitas delas fogem aos padrões mais conhecidos, como são as telas acima: O menino e o Cristo assim como Rio Panorâmico também já mostrada nessa postagem.  É mais uma das maneiras em que revela jovialidade e o prazer que tem ao se dedicar à pintura.

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Devaneios IV

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 40 x 50 cm

www.luciadelima.com

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Tenho acompanhado o trabalho dela pelos últimos anos e noto algumas tendências, como é natural que aconteça com qualquer pessoa que usa a sua criatividade todos os dias, como é o caso.  Lucia tem desenvolvido esta série a que deu o nome de Devaneios, em que o contorno das montanhas da cidade, ou a aparência de ruas e locais conhecidos e reconhecíveis, deram lugar ao que ela mesma chama de sonhos, devaneios, ou seja, paisagens oníricas, que combinam muitos aspectos que aparecem em outras séries.  Nesse exemplo acima, vemos flores, barcos, pássaros, uma fila interminável de automóveis subindo o morro, e de pessoas — crianças? — em fila indiana.  A vegetação é abundante e rica como nas matas cariocas.  Quanto mais olhamos,  mais decobrimos.

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Corcovado e Lagoa

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 33 x 41 cm

www.luciadelima.com

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Até o bondinho do Corcovado subindo de Laranjeiras para o Cristo vemos nessa tela.  Foi há muitos anos atrás, que notei pela primeira vez, vendo uma das telas de Lucia, que a Lagoa Rodrigo de Freitas tem hoje o formato de um coração.  Nesta tela vemos alguns elementos muito comuns da paisagem neste local: helicópteros — há um heliporto perto, pessoas treinando remo — há alguns conhecidos clubes de remo com sede na Lagoa, a Praia de Ipanema no cantinho da direita e assim por diante. Podemos passar muito tempo descobrindo detalhes.

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Pássaros em extinção

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 40 x 50 cm

www.luciadelima.com

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A preocupação com a preservação da Natureza e da Mata Atlântica está sempre presente no trabalho da pintora.  Entre uma profusa vegetação vemos alguns dos pássaros cuja existência está em perigo.  Lucia mora no sopé da mata do Corcovado e está em constante contato com a natureza. Que ela a ama e presta atenção no verde que a circunda é óbvio.  Resta a nós fazer o mesmo.  Para maiores informações sobre essas e outras obras visitem o portal da artista. Aproveito para agradecer à Lucia pelas imagens que cedeu para esta postagem.

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Para comemorar os 5.000.000 [cinco milhões]  de visitas a este blog, marca a que devemos chegar nos  próximos 5 dias, começo hoje, com Lucia de Lima, uma série de postagens só com trabalhos de artistas brasileiros.  Não vou prometer uma determinada frequência, porque ser blogueira não é a minha profissão principal e não posso garantir que terei sempre muito tempo para organizar essas postagens.  Mas imaginei algo em torno de uma ou duas vezes por mês.  Por que não usar esse blog para divulgar alguns de nossos artistas?  Obrigada a todos que nos acompanham.





Realidade, poema de Martins d’Alvarez

16 11 2012

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Outono, Capa da Revista Fruit, Garden & Home, Setembro de 1929.

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Realidade

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Martins D’Alvarez

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–  Que bairro bonito e grande!

Tu me dizes, debruçada

na sacada

da janela

deste meu primeiro andar.

De fato, a rua é um viveiro

de mocidade e de graça,

entre um recanto de praça

e um trapo verde de mar.

-

Bairro lindo, na verdade,

o mais belo da cidade.

Mas, nã me digas que é grande…

Não me digas, por favor!

Só eu sei, anjo moreno,

eu que provo o veneno,

como este bairro é pequeno

para abrigar nosso amor.

-

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Em: Poesia do cotidiano, Martins D’Alvarez, Rio de Janeiro, Edições Clã: 1977








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