BUZZ e A louca da casa — o marketing boca a boca

30 06 2008

A louca da casa de Rosa Montero

Recentemente tive a oportunidade de presenciar um exemplo típico do marketing chamado de “boca a boca”.  O assunto era a leitura do livro A louca da casa.  Boca a boca é considerado o melhor tipo de promoção.  Algo que quando temos um ponto comercial, em qualquer ramo, consideramos um dos maiores sucessos de uma companhia, de um comércio. Porque é o cliente entusiasmado que sozinho faz sua propaganda.  A promoção mais poderosa de todas: o burburinho de quem foi lá, comprou e saiu satisfeito.  É a palavra do amigo, do parente, do amigo do amigo.  

 

Este vírus oral — recomendações passadas sem nenhuma intenção comercial, comunicadas simplesmente pela vontade de que o outro acerte — ainda não está muito bem conscientizado no gerenciamento do pequeno comércio no Rio de Janeiro.  Diferente dos EUA, aqui vai-se a uma pequena loja e nunca somos perguntados como ouvimos falar daquela loja, como chegamos até lá.  Esta curiosidade, que parece regular no comércio americano, está ligada ao tipo de propaganda usado e ao gerenciamento de recursos para propaganda.  Infelizmente o pequeno comerciante no Rio de Janeiro, apesar de ter muita concorrência, qualquer que seja seu campo de especialização, ainda não descobriu a vantagem de treinar seus vendedores a fazerem estas perguntas, para que ele possa saber como a clientela chega ao seu endereço. 

 

A súbita procura pelo livro A louca da casa, de Rosa Montero, foi um exemplo típico da promoção boca a boca, ou do BUZZ através da internet.  A notícia de que era um livro imperdível foi passada de chat em chat, principalmente nos locais da internet freqüentados por pessoas ligadas à leitura, às artes, à educação e à literatura.   Rosa Montero já havia causado surpresa na imprensa cobrindo a Feira Internacional de Parati de 2004, quando se mostrou muito mais popular do que o imaginado, sendo abordada por fãs a procura de fotos e de autógrafos, em todo lugar, durante sua estadia.   A fama de Rosa Montero entre leitores exigentes vem de seu trabalho ímpar: artes, literatura, imaginação e a condição feminina.  Com esta agenda, livros tais como: A filha do canibal, A história do rei transparente, se tornaram leituras obrigatórias para a leitora brasileira. 

 

Eis que no grupo do ORKUT chamado Livro Errante dedicado à leitura de livros que são passados de leitor em leitor numa cadeia, cobrindo o Brasil inteiro das grandes cidades a remotas localizações, a curiosidade sobre Rosa Montero foi atiçada no início deste ano, quando alguns de seus livros começaram a circular e a serem lidos e discutidos pelos trezentos e poucos brasileiros que compõem a comunidade.   De repente, Rosa Montero havia se tornado um nome corriqueiro, uma pessoa familiar, conhecida.  Seus livros já publicados no Brasil foram procurados mais insistentemente.  Assim, A louca da casa, um livro sobre a imaginação e o processo criativo, publicado pela Ediouro em 2004, passou a ser uma obsessão do grupo.  Apesar de ser um livro recente está esgotado e de acordo com a editora sem perspectivas de nova tiragem ou edição.   Constatou-se também que este era um livro difícil, quase impossível, de ser achado em sebos.  Tudo contribuiu para o crescimento do BUZZ na internet, para a NECESSIDADE IMEDIATA de se ler o livro.  

Escritora Rosa Montero

 

É a velha história da oferta e da procura.  Havia muita procura e nenhuma oferta.  O Livro Errante abriu então um tópico dentro da comunidade para que se localizasse um volume que pudesse ser emprestado.   Telefonemas foram feitos para se descobrir em sebos no Recife, no Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo.  O site Estante Virtual, recebeu alguns pedidos.  Finalmente quando um volume apareceu imediatamente 25 pessoas se comprometeram a ler o livro.  Este volume agora passeia pelo Brasil e está sendo lido por muito mais do que estas 25 pessoas, porque cada leitor satisfeito ainda o passa entre amigos, para que seja desfrutado, antes do livro ir embora se encontrar com outros leitores.

 

O ponto de desequilíbrio de Malcolm Gladwell, autor do também muito aclamado Blink,  ambos livros publicados pela editora Rocco, tenta estudar e justificar justamente este fenômeno de marketing, ou seja aquele ponto em que um objeto, um aparelho, um modismo, deixa de ser simplesmente mais um no estoque de um comerciante e passa a ser o item quente, o procurado por todos.  Este momento, que Gladwell chama de ponto de desequilíbrio é o que todos almejam ter quando são fabricantes, produtores, comerciantes, escritores e até mesmo editores de livros.    

 

Infelizmente, nem todas as companhias brasileiras estão ligadas ao poder econômico do burburinho virtual.  Ou o que é pior, ainda não aprenderam o valor e o poder do boca a boca através da internet.  Além disso, se mostram indiferentes à clientela.  Quando alguns dos membros da comunidade Livro Errante escreveram e-mails para a editora Ediouro perguntando sobre a possibilidade de uma nova impressão ou de uma nova edição do livro de Rosa Montero, todos receberam um e-mail automático da companhia, generalizado, sem qualquer atenção específica ao livro ou aquele leitor em potencial.  Esta falta de maleabilidade no trato com o consumidor, não é porque a companhia é muito grande.  Tanto a Amazon.com, como a Ebay.com, assim como o Submarino.com.br, apresentam maneiras com que um cliente possa ter seus e-mails respondidos por alguém além de uma máquina. 

 

Ao que tudo indica há empreendedores brasileiros que ainda acreditam que dinheiro gasto em propaganda e marketing é dinheiro posto fora.  Torna-se dinheiro posto fora  quando eles mesmos não se dispõem a avaliar o marketing que fazem.  No caso do livro A louca da casa, a companhia parecia achar que a culpa era destes leitores que não haviam comprado o livro assim que publicado, em 2004.  Mas não é.  A culpa é da companhia: neste caso ela não conseguiu entregar o produto para o qual um grande marketing boca a boca se desenvolveu naturalmente.  O BUZZ havia cumprido a sua função.  A falha foi no planejamento a longo prazo.   Uma pena!

 

 





Alphonse Karr estava certo, nada muda

29 06 2008

Escutem só, Mickey, Walt Disney

 

Ilustração: Mickey, © Disney

 

 

 

 

 

Quanto mais isso muda, mais fica a mesma coisa. [Plus ça change, plus c’est la même chose.]  –  quem já não ouviu esta famosa frase?  Seu autor, Jean-Baptiste Alphonse Karr, (França, 1808-1890), foi escritor, crítico, jornalista e editor do jornal Le Figaro a partir de 1839, conhecido também por seus epigramas usados em diversas línguas até hoje.  A razão de Alphonse Karr não ser esquecido é que suas observações,  expressas de maneira tão clara e freqüentemente mordaz são de grande valia até o presente.  Se não, vejamos porque me lembrei esta tarde desta famosa frase com que abri o parágrafo?  

 

Estava dando uma arrumada nos meus livros.  Esta é sempre uma maneira perfeita de voltar a tocar em certos assuntos de importância para mim.  E encontrei um livrinho delicioso, primeiramente publicado no Rio de Janeiro em 1855, A carteira do meu tio.  Seu autor, Joaquim Manuel de Macedo (Brasil, 1820-1882),  ficou famoso por um dos mais charmosos romances brasileiros, seu primeiro a ser publicado, A Moreninha, (1844), onde Carolina, personagem principal se destaca entre as adolescentes por sua impagável língua ferina.   

 

Na verdade, Joaquim Manuel de Macedo foi um cronista fenomenal dos hábitos e costumes da corte carioca e da vida urbana na capital.  Seus romances sempre aparentam grande leveza para o leitor incauto que vira suas páginas sem perceber a irônica e muitas vezes mordaz apreciação dos costumes da época.  Vejamos a passagem que tenho marcada na introdução deste romance:

 

A pátria é uma enorme e excelente garopa: os ministros de estado a quem ela está confiada, e que sabem tudo muito, mas principalmente gramática e conta de repartir, dividem toda nação em um grupo, séqüito e multidão: o grupo é formado por eles mesmos e por seus compadres, e se chama – nós -; o séqüito, um pouco mais numeroso, se compõe dos seus afilhados, e se chama – vós -; e a multidão, que compreende uma coisa chamada oposição e o resto do povo, se denomina – eles -; ora aqui vai a teoria do eu: os ministros repartem a garopa em algumas postas grandes, e muitas mais pequenas, e dizem eloqüentemente: “as postas grandes são para nós, as mais pequenas são para vós” e finalmente jogam ao meio da rua as espinhas, que são para eles.  O resultado é que todo o povo anda sempre engasgado com a pátria, enquanto o grupo e o séqüito passam às mil maravilhas à custa dela!

 

 

Assim lembrei-me de Alphonse Karr.  Afinal de contas uma coisa leva a outra.

 

 

 

(Texto em: A carteira do meu tio, Joaquim Manuel de Macedo,  Porto Alegre: LP&M, 2001.)





À beleza negra — Luiz de Camões

29 06 2008

 

Bela, s.d., de Michele Cammarano (Itália, 1835-1920), o/t Col. Part.

Bela s/d

Michele Cammarano

(Itália, 1835-1920)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

Freddie Booker Carson & Simon Carson

 

A leitura do livro de Agualusa, Um estranho em Goa, mencionado na postagem anterior, lembrou-me que o autor cita, uma parte de um dos mais belos poemas de Luiz de Camões, uma redondilha de sua Obra Lírica.  Aproveito para reproduzir aqui e relembrá-lo com os meus amigos.  Mais conhecido por seu primeiro verso,  Aquela Cativa,  foi feito para Bárbara, uma escrava em Goa.

 

 

 

 

 

Aquela cativa

 

Luiz Vaz de Camões

 

 

Aquela cativa

Que me tem cativo,

Porque nela vivo

Já não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

Em suaves molhos,

Que pera meus olhos

Fosse mais fermosa.

 

Nem no campo flores,

Nem no céu estrelas

Me parecem belas

Como os meus amores.

Rosto singular,

Olhos sossegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

 

Ũa graça viva,

Que neles lhe mora,

Pera ser senhora

De quem é cativa.

Pretos os cabelos,

Onde o povo vão

Perde opinião

Que os louros são belos.

 

Pretidão de Amor,

Tão doce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocara a cor.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha;

Bem parece estranha,

Mas bárbara não.

 

Presença serena

Que a tormenta amansa;

Nela, enfim, descansa

Toda a minha pena.

Esta é a cativa

Que me tem cativo;

E, pois nela vivo,

É força que viva.

 

 

Aquela cativa  (1595 – redondilha 106)





Portugueses, europeus?

28 06 2008

 

 

Laurentino Gomes

                Laurentino Gomes

 

Acabo de ler esta passagem que transcrevo: 

 

Os portugueses, europeus? — Riu-se com mansidão.

— Nunca foram.  Não o eram antes e não o são hoje.  Quando conseguirem que Portugal se transforme sinceramente numa nação européia o país deixará de existir.  Repare:  os portugueses construíram a sua identidade por oposição à Europa, ao Reino de Castela, e como estavam encurralados lançaram-se ao mar e vieram ter aqui, fundaram o Brasil, colonizaram a África.  Ou seja, escolheram não ser europeus.  

 

[Um estranho em Goa, José Eduardo Agualusa, Gryphus: 2001, Rio de Janeiro, p. 46]

 

 E me lembrei de ter aprendido, agora com as comemorações dos 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, que um plano de fuga, para a corte, de Lisboa para o Brasil, já existia há muitos anos.   Laurentino Gomes, no seu brilhante livro 1808, mostra que tal plano já existia desde 1736, quando o então embaixador português em Paris, Luiz da Cunha, escrevia num memorando secreto a D. João V que Portugal não passava de “uma orelha de terra”, onde o rei “jamais poderia dormir em paz e em segurança”.  A solução sugerida por Cunha era mudar a corte para o Brasil, onde D. João V assumiria o título de “Imperador do Ocidente” e indicaria um vice-rei para governar Portugal. 

 

[1808, Laurentino Gomes, Planeta: 2007, São Paulo, p. 47]

 

 Aliás será interessante lembrar que o ensaista e historiador acabou de ser agraciado com o prêmio Prêmio da Academia Brasileira de Letras na categoria ensaio por este livro que narra a vinda da família real para o Brasil em 1808.   Um prêmio muito merecido.

 

 

 





Vale a pena lembrar !!!

27 06 2008

SeIrmão Metralha, Walt Disneympre defendo que, para criança, ler é mais importante do que estudar, como não poderia achar o mesmo em relação a todas as pessoas, independentemente de sua profissão ou idade? A leitura, qualquer uma, seja de livros, revistas, jornais e até bula de remédio, é uma viagem que o homem pode e deve fazer em busca do seu conhecimento. Os pais não têm idéia de como é importante a presença da literatura, de ler, na vida dos seus filhos. Qualquer um, livros de história, livros que contam casos, que despertam a curiosidade das crianças para a vida, para o mundo.

 

 

ZIRALDO em entrevista a Shirley Paradizo  em 19/04/2006

 

http://www.bigorna.net/index.php?secao=entrevistas&id=1145418920 

 

 

  Ilustração: Irmão Metralha de Walt Disney.





Brasil e África no horizonte de Hilton Marques

26 06 2008

Comprei este livro sem saber coisa alguma a respeito do autor. Não sei o que me interessou, o que me fez pegá-lo e ler a capa de trás para ter uma idéia do que se tratava.  Curiosa, comprei este pequeno volume e tomei a decisão certa,  porque agora posso me gabar de ter descoberto um novo escritor brasileiro, capaz de escrever uma boa história, em boa prosa, num ritmo rápido,  sobre um local misterioso e um novo tipo de heroína.

 

A senhora das savanas se passa no continente africano, num país imaginário fronteiriço à Angola e ao Zaire.  Seguimos a carreira de uma médica brasileira, que depois de se formar pela Universidade de São Paulo, entra para a organização mundial Médicos sem Fronteiras e vai trabalhar na África.  Passado algum tempo, ela decide ficar na África.  Quando a história do livro começa ela está dirigindo um pequeno hospital,  financiado por uma companhia de extração de minério, no que se poderia chamar de interior, de fim do mundo.

 

A história se desenvolve durante a guerra civil em Angola, depois de sua independência de Portugal.  Dois grupos lutam pelo poder: UNITA e MPLA.  Há mercenários estrangeiros em todo canto e eles lutam por cada lado.  Entre eles está um irlandês que havia passado muitos anos lutando pelo movimento IRA, que havia se desgostado e abandonado o movimento separatista irlandês, e como lutar era o que sabia fazer, acabou lutando na África.   Enquanto lutava pela UNITA e comandava um pelotão, sofreu um ataque surpresa fora do território de Angola, apesar de ser um excelente atirador e líder militar.  Eles haviam parado  para um descanso e todos os membros do pelotão tombaram.  Ele também havia sido dado por morto.  Mas foi descoberto, por casualidade, próximo da morte.  Nossa médica brasileira o salva sem saber quem ele é.

 

Ele permanece no hospital para sua recuperação e fica por lá por algum tempo. No processo une-se à nossa médica numa luta contra os novos donos da companhia mineradora, que pretendiam fechar o hospital.

 

Este é o tipo de romance que existe às centenas em outras culturas.  A Inglaterra, os Estados Unidos, a França são só três dos países que tem esta tradição rara no Brasil: um herói, neste caso uma heroína, viaja, vai embora, e faz uma diferença tremenda na vida local de um lugar longe de sua terra nativa.  Ela também é capaz de contribuir para o melhoramento de relações internacionais.

 

Este livro poderia servir de base para um roteiro de A Senhora das Savanas, Hilton Marquesfilme americano.  Melhor ainda, poderia se transformar numa mini-série da BBC, se a nossa heroína fosse inglesa.  A grande diferença é que este é um livro brasileiro.  Este é um detalhe de grande importância para mim.  Ela é mulher, brasileira e responsável por salvar muitas vidas.  Como eu gostaria de ter tido algumas dezenas de livros como este para ler quando estava me tornando adulta!   Na minha época, na minha geração, só heroínas de outras terras tinham suas vidas contadas ou filmadas.  Nós brasileiros sempre conhecemos melhor os heróis de outros lugares.  Havia muito poucos heróis, homens ou mulheres, que pudessem inspirar qualquer um de nós, adolescentes.

 

Este livro, então, tem tudo para que eu goste dele.  É um livro de aventura.  É um ótimo entretenimento, com uma narrativa forte,  num ritmo rápido.  É gostoso de ler.  É leve.   Não está preocupado em considerar as últimas novidades literárias, as últimas tendências pós-modernas, de-construtivistas, ou a última moda intelectual.  Este é um livro para a família toda ler, pessoas de todas as gerações.  Seria uma ótima fonte para um roteiro de filme.  Ele nos deixa com uma boa visão do que a vida na África naquele período poderia ser e como os grupos lutando pelo poder se envolvem na vida diária da população.  Abre os olhos.  Expande horizontes.  Ajuda a nos definir como as pessoas competentes, profissionais que somos. 

 

Gostei muito e recomendo.  Se você estiver procurando por aquele entretenimento, por aquele livro para levar num fim de semana na serra ou na praia, leve-o.  Você vai gostar!

 





Dia do Imigrante: 25 de junho

26 06 2008

Domingos Eduardo Lopes, cerca 1910

            Domingos Eduardo Lopes, cerca 1915.

Talvez por ter vivido muitos e muitos anos fora do Brasil, as questões relativas aos imigrantes são sempre de grande valor para mim.  Não importa de que terra você venha e para que terra você vá.  Há sempre alguns temas que são perpétuos: uma saudade imensa, um inexplicável vazio preso a um lugar que já não existe.  Um lugar que deixou de existir como o lembramos.  Diferente da morte de um familiar, o exílio, quer seja voluntário ou não, é a morte de um contexto, é a morte de uma identidade.  E, a não ser que o imigrante seja extremamente flexível, raramente voltará a ter um lar.  Não me refiro aqui a uma casa de alvenaria, mas ao sentimento de lar, de conforto íntimo, que é uma chama dentro de nós e que quando vivemos onde nascemos ela consegue se expressar, se refletir no nosso ambiente.  Para um imigrante, ela vive quase apagada, queimando devagarinho no peito.  Um imigrante sempre traz dentro de si um lugar intangível, dolorido, que contém uma essência daquilo que ele é e que jamais demonstra.

 

Sou a favor da imigração.  Acho por exemplo que o Brasil pode e deve receber mais imigrantes do que recebe.  E como vivi muitos anos nos EUA conheço de perto o enriquecimento cultural que os imigrantes trazem consigo.  É fenomenal.

 

Na procura de saber mais do único avô imigrante que tive, nos anos que morei em Portugal, procurei pela aldeia em que ele nasceu:  aldeia de Canavezes, na região de Valpaços.  Ele saiu de lá aos 11 anos, chegando ao Brasil, acompanhado de sua mãe viúva que vinha se encontrar com o único sobrinho, já radicado no Brasil. Chegaram aqui no ano da Proclamação da República, 1889.  Ainda tenho comigo todos os seus documentos.  Seu passaporte.  Nunca mudou de nacionalidade.  Nasceu português e assim morreu em 1946.  A ele vai esta homenagem hoje.  Não o conheci.  Nem ele me conheceu.  Mas tenho profundo orgulho deste menino que saiu de um lugar perdido no mundo, (porque se foi difícil chegar a sua aldeia em 1989, cem anos antes deveria realmente ter sido uma viagem inacreditável a saída de lá para o Brasil).    Eu me orgulho daqueles dois, mãe e filho, que vieram para o Brasil para uma vida melhor.

 

Quando visitei a igreja de Canavezes, eu, que nem posso me considerar uma pessoa religiosa, me ajoelhei e agradeci aos céus que protegeram minha bisavó Júlia e meu avô Domingos, naquela aventura da imigração.  Porque não tivessem eles saído de lá, que futuro seus filhos teriam tido?  Poderiam seus filhos ter-se tornado engenheiros, químicos industriais e físicos como o fizeram?  Não.  Eles não teriam tido esta oportunidade.  Lembro-me de ter-me emocionado muito neste vilarejo em 1989.  Foi um dos poucos lugares em Portugal onde tive contato direto com o analfabetismo adulto.  A procura de talvez algum parente ainda, bati em portas, aqui e ali. Um grupo de pessoas se lembrava de alguém com a combinação de nomes que tínhamos, pergunta lá e acolá, num instante a aldeia toda sabia da nossa existência.  Nisso um casal nos convidou para sua casa e lá, depois de termos chegado à conclusão de que os seus parentes não poderiam ser os nossos, pediram que lêssemos uma carta. Ela chegara há anos, mas há muito tempo não a ouviam de novo.   Foi uma lição.

 

Então fica aqui o meu testemunho, o meu orgulho e agradecimento a esta corajosa bisavó e a seu filho, este avô de Trás-os-montes,  este avô a quem devo os cabelos louro-escuros e talvez a pele clara dos celtas.  Talvez,  porque entre os meus bisavós, aí sim, ainda tenho mais imigrantes. De oito bisavós, seis são desta mesma região: norte de Portugal (Minho e Trás-os-montes) e Galícia.  Mas esta é uma outra história. 

 

Que os imigrantes sejam bem vindos!  Êta gente corajosa!

 





A casa de papel, de Carlos Maria Dominguez

25 06 2008

A Casa de Papel de Carlos Maria Dominguez

Acabo de ler A Casa de Papel do escritor argentino Carlos Maria Dominguez.   Lê-se numa tarde, com tempo suficiente para degustar o texto e para reler as partes mais interessantes.  É um livro pequeno, quase um conto prolongado.  Uma novela, no sentido mais tradicional da palavra, são 98 páginas. E, no entanto, é uma delícia entrar no mundo mágico de Dominguez e nos encontrarmos nesta sala de espelhos que ele criou tão cuidadosamente.

 

O livro mostra o comportamento de colecionadores de livros ou mesmo de colecionadores em geral.  Porque suas atitudes, não importa o que colecionem, (quer sejam caixinhas de fósforo, porcelana japonesa ou livros), suas paixões, suas manias e estranhezas, são todas as mesmas.   Carlos Maria Dominguez nos faz pensar nos excessos, no comportamento extremo.  Seu livro questiona onde fica aquela linha divisória, invisível, que marca a diferença entre o comportamento do louco e a maneira de ser de quem é considerado normal.    Seu foco são  livros.  Ele explora as conseqüências da paixão por livros como objetos e guardiões de idéias.  Mostra também  as armadilhas, os perigos, de comprar, armazenar e colecionar  livros.  Onde e quando parar?  Quem determina o limite?   Que limite?   E com destreza ele faz a pergunta que é o pesadelo de qualquer amante de livros:  qual deles guardar, como guardar, onde e por quanto tempo?  Depois de algum tempo o que se deve fazer com os  livros que você sabe que não irá mais ler?  

 

Na verdade, A Casa de Papel é uma grande reflexão na arte de ler, de estudar e na arte de se colecionar livros e idéias.  O texto está repleto de alusões literárias.  Diversos escritores e suas curiosas vidas são mencionados.  A referência mais central ou talvez eu deva dizer a referência mais entremeada no texto, a que mostra maior afinidade com o livro, é a história do escritor Joseph Conrad, publicada em 1917, que leva o título de Linha de Sombra.  Nesta história um marinheiro que quer deixar a vida no mar é seduzido a fazer uma última viagem na qual ele será o capitão do navio.  Ele aceita.  A viagem se transforma num pesadelo e os homens no navio ficam desesperados e à beira da loucura.  Será que colecionar pode levar a um tipo de loucura?  Onde está a linha que separa o são,  do doente quando o assunto é colecionar?

 

É impossível ler-se esta jóia de uma só vez sem perder muito de seu charme e tampouco de perder todas as possíveis reviravoltas e afinidades a outros livros que conhecemos.  Este é um texto muito compacto:  uma segunda leitura certamente enriquece a experiência.  Leia uma vez, e depois de novo.  Você não se arrependerá. Vai adorar.

 

Carlos Maria Dominguez

 

 

 

 

 

 

                  Carlos Maria Dominguez





A casa de Dona Rata — poema de Sérgio Capparelli

24 06 2008

Caulus, ilustração poema Dona Rata

 

Na casa de Dona Rata,

tem uma enorme goteira.

Quando chove, ninguém dorme,

acordado, a noite inteira.

A goteira é tão grande

que molha a sala e a cozinha,

quarto, banheiro, despensa

e mais de vinte ratinhas.

Dona Rata contratou

um ratão para o conserto:

— De que adianta eu subir,

se o telhado não tem jeito?

Não tem jeito, seu Ratão

explique então esse caso.

— Sua casa, dona Rata,

não tem telha nem telhado.

 Ilustração de CAULUS. 

Do livro: Boi da Cara Preta, autoria de Sérgio Capparelli, Porto Alegre:LP&M, 1998. 27ª edição.

Caulus, (MG) desenhista humorístico; ingressou na Marinha Mercante, Rio de Janeiro, mas desistiu da carreira militar e resolveu se dedicar ao desenho. Via os filmes e depois desenhava.Tornou-se desenhista exclusivamente urbano. Apresenta cenas de seus desenhos de humor e de cidades.





Horror — para adolescentes?

24 06 2008

Comecei a me interessar pelo mundo dos livros de horror para adolescentes quando descobri que minha sobrinha, que havia se transformado em grande leitora desde do início da série das aventuras de Harry Potter e que tinha passado pelos livros para garotas adolescentes como os diversos diários e ainda a série (QUE AMOU!)  das calças viajantes de Ann Brashares, havia se tornado uma ávida leitora de livros de horror ou de terror, não deixando escapar um único título de Stephen King. 

 

Inicialmente surpresa, passei a procurar uma literatura de horror que estivesse bastante dentro dos gostos adolescentes.  Sempre acreditei que um leitor se forma cedo e prover aquele potencial leitor com algum assunto que seja de interesse é garantir que ele se tornará um leitor para sempre e que, eventualmente, abrirá o leque de suas preferências de acordo com a idade e a maturidade emocional.

 

Este tópico não pretende examinar se o gênero horror é bom ou não.  Tampouco quero fazer uma lista de seus melhores autores.  Não tenho esta preocupação no momento.  Mas sei, que para muitos, a literatura de horror para adolescentes parece tão radical quanto o rock’n roll parecia para uma geração anterior à minha.  Em outras palavras, não há como se conter as tendências de uma geração, a tendência do espírito dos tempos.   

 

O que gostaria de saber é:  o que os adolescentes lêem, o que gostariam de ler e o que existe no Brasil para atrair adolescentes à leitura,  quer seja deste gênero ou não.

 

As premissas são simples:

 

1 –  Adolescentes gostam de ler livros de horror.

2 –  Harry Potter provou, para os que ainda não acreditavam,  que o mundo dos novos leitores está na verdadeira aldeia global, ou seja, todos os adolescentes, em qualquer lugar do mundo, estão ligados pelo acesso imediato à informação.

 

Como não sou bibliotecária, minha fonte de informações foi:  1)  as grandes livrarias do Rio de Janeiro e  2) o que pude encontrar na internet.  A não ser que eu esteja extremamente desinformada e que não saiba dos segredos editoriais brasileiros, encontrei nas minhas perambulâncias poucas editoras realmente dedicadas aos títulos de horror para adolescentes no Brasil e três que se destacam Fundamento, Arx Jovem e Rocco. [*] Estas são as editoras com o maior número de títulos, sucessos internacionais para adolescentes, dentro da faixa de horror/terror.  A meu ver, são editoras investindo nos leitores de amanhã.

 

[*] A Editora Record também está incluída entre as que publicaram diversos títulos no gênero.  No entanto eles vieram como um post-scriptum, um adendo, pois vieram como conseqüência do sucesso da série Princesa de Meg Cabot,  uma autora que domina com sucesso dois gêneros do mercado adolescente: o horror e a surpreendente série da Princesa — água com açúcar para meninas adolescentes.

 

Alguma dúvida?  Vejamos: dos dez livros mais vendidos para adolescentes no gênero  horror através da Amazon.com, a Fundamento e a Rocco têm o maior número de títulos dos autores selecionados.  Uma menção honrosa deve ser feita para a Arx Jovem e para a Record, que com um único título pega uma carona neste tópico.  No entanto, os autores mais vendidos lá fora, ainda não estão publicados no Brasil.

 

Vamos dar uma olhada nesta lista, de abril de 2008.

 

Jenny Carroll – tem 4 livros entre os mais vendidos 

Reunion (1° lugar)

Ninth Key  (2° lugar)

Darkest (6 ° lugar)

Shadowland (7° lugar)

 

Lois Duncan – tem 3 livros entre os mais vendidos 

 

Summer of Fear (4° lugar)

They Never Came Home (8° lugar)

Stranger with my Face (9° lugar)

 

Nancy Holder — Smallville: Hauntings (3° lugar)  Autora de Buffy, A Caça-vampiros ( uma série muito popular de programas na televisão,  tem três títulos publicados no Brasil.  Angel: Eternidade (Arx Jovem); Angel: bem-vindo a Los Angeles (Arx Jovem);  Buffy, a Caça-vampiros: Sangue (Arx Jovem)

 

 

R. L. Stine – The Burning (5° lugar)  Autor muito conhecido pelos adolescentes brasileiros com diversas de suas obras traduzidas, entre elas: Um dia no parque de terror (Fundamento), Bem-vindo à casa dos mortos (Fundamento),  Goosebumps 9: o espantalho anda à meia-noite (Fundamento), Amor em dose dupla (Rocco),  Acampamento fantasma (Fundamento), Como matar um monstro (Fundamento), Sorria e morra (Fundamento), Goosebumps: a história da minha cabeça encolhida (Fundamento),  Goosebumps: ovos monstruosos,  [vol. 14] (Fundamento),  O supersticioso (Rocco), O mentiroso (Rocco), Meu nome é maldade (Rocco), O Caça-uivos (Rocco), O gato da meia-noite (Rocco), Eles me chamam de criatura (Rocco), O vizinho (Rocco), A vingança do povo das sombras (Rocco),  Fantasmas da rua do medo: a gosma (Rocco), Fim de semana alucinante (Rocco), O olho da cartomante (Rocco),  Beijo mortal (Rocco) Fantasmas da rua do medo (Rocco), Festa de Halloween (Rocco), Verão diabólico (Rocco), O pesadelo (Rocco), O desafio (Rocco), A vidente (Rocco), Uma noite na casa mal assombrada (Rocco), Você já encontrou o fantasma do mal (Rocco), Quem libertou os fantasmas (Rocco), Halloween em noite de lua cheia (Rocco),  Aula do além (Rocco), Clube do terror (Rocco), Admirador secreto (Rocco), Pesadelo em 3-D (Rocco),  O ataque dos macacos (Rocco),  O garoto que comeu a rua do medo (Rocco), Querido diário: eu morri (Rocco), Paixão mortal (Rocco), Armário 13 (Rocco), Não esqueça de mim (Rocco), O cavaleiro do medo (Rocco), A confissão (Rocco), O rosto: rua do medo (Rocco), Garota das sombras (Rocco), O homem inseto está vivo (Rocco), Número errado (Rocco), O Novato (Rocco), Goosebumps: ele saiu debaixo da pia [vol. 13] (Rocco), O mistério do boneco (Rocco), Sorria e morra outra vez (Rocco), Praia fantasma (Fundamento).

 

Meg CabotA mediadora (Record) (10)  que no gênero horror também têm os seguintes títulos no Brasil: A hora mais sombria (Record), Assombrado (Record), O arcano nove (Record), Crepúsculo (Record), A terra das sombras (Record)

 

Há uma outra pergunta:  temos algum escritor brasileiro que escreve sistematicamente no gênero horror para adolescentes?   Onde está o nosso Pedro Bandeira do horror?

 

 

Ilustração: Maurício de Sousa








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