Dia do Imigrante: 25 de junho

26 06 2008

Domingos Eduardo Lopes, cerca 1910

            Domingos Eduardo Lopes, cerca 1915.

Talvez por ter vivido muitos e muitos anos fora do Brasil, as questões relativas aos imigrantes são sempre de grande valor para mim.  Não importa de que terra você venha e para que terra você vá.  Há sempre alguns temas que são perpétuos: uma saudade imensa, um inexplicável vazio preso a um lugar que já não existe.  Um lugar que deixou de existir como o lembramos.  Diferente da morte de um familiar, o exílio, quer seja voluntário ou não, é a morte de um contexto, é a morte de uma identidade.  E, a não ser que o imigrante seja extremamente flexível, raramente voltará a ter um lar.  Não me refiro aqui a uma casa de alvenaria, mas ao sentimento de lar, de conforto íntimo, que é uma chama dentro de nós e que quando vivemos onde nascemos ela consegue se expressar, se refletir no nosso ambiente.  Para um imigrante, ela vive quase apagada, queimando devagarinho no peito.  Um imigrante sempre traz dentro de si um lugar intangível, dolorido, que contém uma essência daquilo que ele é e que jamais demonstra.

 

Sou a favor da imigração.  Acho por exemplo que o Brasil pode e deve receber mais imigrantes do que recebe.  E como vivi muitos anos nos EUA conheço de perto o enriquecimento cultural que os imigrantes trazem consigo.  É fenomenal.

 

Na procura de saber mais do único avô imigrante que tive, nos anos que morei em Portugal, procurei pela aldeia em que ele nasceu:  aldeia de Canavezes, na região de Valpaços.  Ele saiu de lá aos 11 anos, chegando ao Brasil, acompanhado de sua mãe viúva que vinha se encontrar com o único sobrinho, já radicado no Brasil. Chegaram aqui no ano da Proclamação da República, 1889.  Ainda tenho comigo todos os seus documentos.  Seu passaporte.  Nunca mudou de nacionalidade.  Nasceu português e assim morreu em 1946.  A ele vai esta homenagem hoje.  Não o conheci.  Nem ele me conheceu.  Mas tenho profundo orgulho deste menino que saiu de um lugar perdido no mundo, (porque se foi difícil chegar a sua aldeia em 1989, cem anos antes deveria realmente ter sido uma viagem inacreditável a saída de lá para o Brasil).    Eu me orgulho daqueles dois, mãe e filho, que vieram para o Brasil para uma vida melhor.

 

Quando visitei a igreja de Canavezes, eu, que nem posso me considerar uma pessoa religiosa, me ajoelhei e agradeci aos céus que protegeram minha bisavó Júlia e meu avô Domingos, naquela aventura da imigração.  Porque não tivessem eles saído de lá, que futuro seus filhos teriam tido?  Poderiam seus filhos ter-se tornado engenheiros, químicos industriais e físicos como o fizeram?  Não.  Eles não teriam tido esta oportunidade.  Lembro-me de ter-me emocionado muito neste vilarejo em 1989.  Foi um dos poucos lugares em Portugal onde tive contato direto com o analfabetismo adulto.  A procura de talvez algum parente ainda, bati em portas, aqui e ali. Um grupo de pessoas se lembrava de alguém com a combinação de nomes que tínhamos, pergunta lá e acolá, num instante a aldeia toda sabia da nossa existência.  Nisso um casal nos convidou para sua casa e lá, depois de termos chegado à conclusão de que os seus parentes não poderiam ser os nossos, pediram que lêssemos uma carta. Ela chegara há anos, mas há muito tempo não a ouviam de novo.   Foi uma lição.

 

Então fica aqui o meu testemunho, o meu orgulho e agradecimento a esta corajosa bisavó e a seu filho, este avô de Trás-os-montes,  este avô a quem devo os cabelos louro-escuros e talvez a pele clara dos celtas.  Talvez,  porque entre os meus bisavós, aí sim, ainda tenho mais imigrantes. De oito bisavós, seis são desta mesma região: norte de Portugal (Minho e Trás-os-montes) e Galícia.  Mas esta é uma outra história. 

 

Que os imigrantes sejam bem vindos!  Êta gente corajosa!

 


Ações

Informação

One response

15 07 2008
Rui

Parabéns pela busca das raízes dos seus antepassados.
Eu sou daquela região e também estou a percorrer os mesmos caminhos. Obrigado pelo carinho que tenho recebido no Brasil.

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