Alphonse Karr estava certo, nada muda

29 06 2008

Escutem só, Mickey, Walt Disney

 

Ilustração: Mickey, © Disney

 

 

 

 

 

Quanto mais isso muda, mais fica a mesma coisa. [Plus ça change, plus c’est la même chose.]  –  quem já não ouviu esta famosa frase?  Seu autor, Jean-Baptiste Alphonse Karr, (França, 1808-1890), foi escritor, crítico, jornalista e editor do jornal Le Figaro a partir de 1839, conhecido também por seus epigramas usados em diversas línguas até hoje.  A razão de Alphonse Karr não ser esquecido é que suas observações,  expressas de maneira tão clara e freqüentemente mordaz são de grande valia até o presente.  Se não, vejamos porque me lembrei esta tarde desta famosa frase com que abri o parágrafo?  

 

Estava dando uma arrumada nos meus livros.  Esta é sempre uma maneira perfeita de voltar a tocar em certos assuntos de importância para mim.  E encontrei um livrinho delicioso, primeiramente publicado no Rio de Janeiro em 1855, A carteira do meu tio.  Seu autor, Joaquim Manuel de Macedo (Brasil, 1820-1882),  ficou famoso por um dos mais charmosos romances brasileiros, seu primeiro a ser publicado, A Moreninha, (1844), onde Carolina, personagem principal se destaca entre as adolescentes por sua impagável língua ferina.   

 

Na verdade, Joaquim Manuel de Macedo foi um cronista fenomenal dos hábitos e costumes da corte carioca e da vida urbana na capital.  Seus romances sempre aparentam grande leveza para o leitor incauto que vira suas páginas sem perceber a irônica e muitas vezes mordaz apreciação dos costumes da época.  Vejamos a passagem que tenho marcada na introdução deste romance:

 

A pátria é uma enorme e excelente garopa: os ministros de estado a quem ela está confiada, e que sabem tudo muito, mas principalmente gramática e conta de repartir, dividem toda nação em um grupo, séqüito e multidão: o grupo é formado por eles mesmos e por seus compadres, e se chama – nós -; o séqüito, um pouco mais numeroso, se compõe dos seus afilhados, e se chama – vós -; e a multidão, que compreende uma coisa chamada oposição e o resto do povo, se denomina – eles -; ora aqui vai a teoria do eu: os ministros repartem a garopa em algumas postas grandes, e muitas mais pequenas, e dizem eloqüentemente: “as postas grandes são para nós, as mais pequenas são para vós” e finalmente jogam ao meio da rua as espinhas, que são para eles.  O resultado é que todo o povo anda sempre engasgado com a pátria, enquanto o grupo e o séqüito passam às mil maravilhas à custa dela!

 

 

Assim lembrei-me de Alphonse Karr.  Afinal de contas uma coisa leva a outra.

 

 

 

(Texto em: A carteira do meu tio, Joaquim Manuel de Macedo,  Porto Alegre: LP&M, 2001.)





À beleza negra — Luiz de Camões

29 06 2008

 

Bela, s.d., de Michele Cammarano (Itália, 1835-1920), o/t Col. Part.

Bela s/d

Michele Cammarano

(Itália, 1835-1920)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

Freddie Booker Carson & Simon Carson

 

A leitura do livro de Agualusa, Um estranho em Goa, mencionado na postagem anterior, lembrou-me que o autor cita, uma parte de um dos mais belos poemas de Luiz de Camões, uma redondilha de sua Obra Lírica.  Aproveito para reproduzir aqui e relembrá-lo com os meus amigos.  Mais conhecido por seu primeiro verso,  Aquela Cativa,  foi feito para Bárbara, uma escrava em Goa.

 

 

 

 

 

Aquela cativa

 

Luiz Vaz de Camões

 

 

Aquela cativa

Que me tem cativo,

Porque nela vivo

Já não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

Em suaves molhos,

Que pera meus olhos

Fosse mais fermosa.

 

Nem no campo flores,

Nem no céu estrelas

Me parecem belas

Como os meus amores.

Rosto singular,

Olhos sossegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

 

Ũa graça viva,

Que neles lhe mora,

Pera ser senhora

De quem é cativa.

Pretos os cabelos,

Onde o povo vão

Perde opinião

Que os louros são belos.

 

Pretidão de Amor,

Tão doce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocara a cor.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha;

Bem parece estranha,

Mas bárbara não.

 

Presença serena

Que a tormenta amansa;

Nela, enfim, descansa

Toda a minha pena.

Esta é a cativa

Que me tem cativo;

E, pois nela vivo,

É força que viva.

 

 

Aquela cativa  (1595 – redondilha 106)








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