Imagem de leitura: Henry Lamb

30 04 2009

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Retrato da esposa do artista, 1933

[A escritora Lady Pansy Pakenham]

Henry Lamb ( Inglaterra, 1880-1963)

Óleo sobre tela, 635 x 762 mm

Tate Gallery, Londres, Grã Bretanha

 

 

 

 

Henry Lamb, foi um pintor muito bem sucedido, nascido na Austrália, mas residente na Inglaterra.  Em 1911, fundou com outros artistas o Grupo Camden Town, — um grupo de pintores pós-impressionistas, que se encontrava na residência do pintor inglês Walter Sickert em Camden, na cidade de Londres.  O grupo nos molder dos grupos artísticos franceses, admirava e considerava importantes os trabalhos dos pintores Van Gogh e Paul Gauguin.  O grupo se distinguiu principalmente por suas obras retratando a Primeira Guerra Mundial em 1914, não só pelo valor histórico mas também pelas aberturas artísticas no trabalho de seus membros nesta época.  O grupo também organizou a exposição de pintura Cubista e Pós Impressionista em Londres.  





BOAS NOTÍCIAS DO RECIFE!

29 04 2009

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Um grupo de voluntários aproveitou o feriado de Tiradentes, na terça-feira da semana passada, para plantar várias espécies no município do Cabo de Santo Agostinho, na região metropolitana do Recife. Cerca de 70 voluntários, a maioria crianças,  participaram do mutirão de reflorestamento.  Pelo menos 200 árvores típicas da Mata Atlântica foram plantadas em um terreno de oito hectares localizado na zona rural da comunidade de Vila do Rosário, área de preservação ambiental. Ao lado de cada muda, foi colocada uma placa com o nome de quem a plantou.

 

A psicóloga Goreti de Sá mora na região há 12 anos. Ela e outras duas pessoas tiveram a idéia de criar um centro de vivência ecológica para colocar em prática ações de preservação da natureza.

 

– Nossa intenção é mensalmente juntar um grupo de pessoas sensíveis à natureza e plantar árvores – explica.

 

O motorista de transporte público Gilberto Vasconcelos foi um dos coordenadores do mutirão.  Ele criou, há dois anos, o projeto “Adote uma árvore”. Ele sonha conseguir plantar em Pernambuco cem mil mudas de árvores. Com tanta gente ajudando, Gilberto Vasconcelos acredita que esse desejo pode virar realidade.

 

Quando eu decidi colocar essa estimativa de cem mil árvores plantadas, eu não imaginava a dimensão que esse projeto ia tomar. Muitos apoiaram esse projeto, comunidades, crianças e universitários. Espaço para plantar é que não vai faltar – diz.

 

O projeto Adote uma árvore foi criado pela preocupação de Gilberto Vasconcelos com a degradação do meio ambiente.  Seu objetivo é plantar 100 mil árvores na Região Metropolitana do Recife.

 

Para fazer essa ação solidária, o motorista, que mora do bairro de Aguazinha, conta com a ajuda dos passageiros. “Alguns passageiros que regulamente andam no meu veículo, juntam garrafas pet para ajudar no meu projetoAdote uma árvore – serviço ambiental”, explica.

 

As garrafas servem para separar as mudas das plantas e são recolhidas não só com os passageiros voluntários, mas também no lixo. “A questão de optar pelo uso das garrafas é para economizar. Um saco de muda custa R$ 0,20. Parece pouco, mas para quem pretende plantar 100 mil árvores é bastante. Onde eu iria arrumar R$ 20 mil para comprar só em saquinhos?

 

Eu tenho o maior prazer de fazer isso. Muitas pessoas perguntam por que eu gasto meu dinheiro com isso”, conta o motorista plantador de árvores. “Para mim não existe dinheiro que pague a satisfação de ver uma árvore nascer, crescer e purificar o ar que a gente respira”, disse.

 

 

Fonte: O Globo





Renatinho foi ao circo, poesia infantil de Vicente Guimarães

29 04 2009

circo

 

 

 

 

 

Renatinho foi a o circo

 

 

Vicente Guimarães

 

 

Renatinho foi ao circo

E voltou entusiasmado;

Estava alegre e feliz,

Mas um pouco impressionado.

 

Gostou muito dos atletas,

Também do malabarista,

Deu vivas ao domador,

Palmas ao equilibrista.

 

Mas quando a casa chegou,

Depois da grande função,

Foi contar ao papaizinho

Sua nova resolução:

 

— Quando eu crescer, quero ser

Um palhacinho brejeiro,

Para dar a cambalhota

No centro do picadeiro.

 

 

 

Em: João Bolinha virou gente, de Vicente Guimarães (vovô Felício), Rio de Janeiro, Editora Minerva, sem data.

 

———

 

 

Vicente de Paulo Guimarães, [Vovô Felício] ( Cordisburgo, MG, 1906 – 1981) — Poeta, contista, biógrafo, jornalista, autor de Literatura Infanto-Juvenil (1979), funcionário público, educador, membro da Academia Brasileira de Literatura (1980), prêmio Monteiro Lobato -ABL (1977). Em 1935, Vicente criou em Belo Horizonte a revista “Caretinha”, dedicada a jovens leitores; dois anos depois, foi o responsável pelo suplemento infantil do jornal “O Diário”.  Um dos projetos de sucesso foi a revista “Era uma vez”, que começou a circular em 1947.  Criou também no mesmo ano a Revista do Sesinho, para divertir e educar as crianças.

 

 

Obras:

 

Tranqüilidade

O pequeno pedestre

Campeão de futebol

Os bichos eram diferentes

Frangote desobediente

João Bolinha virou gente

Boa vida de João Bolinha

Histórias divertidas

Lenda da palmeira, 1944

Quinze minutos de poder

Os três irmãos, 1978

Festa de Natal, 1964

Rui, 1949

O pastorzinho de Pouy, 1957

Princesinha do Castelo vermelho

Gurupi

Marisa, a filha da Mireninha

Vida de rua, 1954

Era uma vez uma onça

O tesouro da montanha

Anel de vidro, 1956

História de um bravo, 1960

Gurupi

Ultima aventura do sete de ouros

Aventuras de um cachorrinho vira lata

Princesinha do Castelo Vermelho

História de uma menina pobre

A fama do jabuti

O macaquinho Guili

Bilac, história de um príncipe, 1968

Biografia de Rui Barbosa para a infância, 1965

Joãozito, infância de João Guimarães Rosa, 1971

Nonô, o menino de Diamantina, 1980

O menino do morro – Machado de Assis, 1980

Coleção vovô Felício –  em seis volumes





Bebês bilíngues podem ser precoces em tomar decisões

29 04 2009

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Na revista The Economist da semana passada li um artigo sobre estudos feitos com bebês cujos famílias falam dois idiomas diferentes.  Este assunto sempre me interessa porque passei a maior parte da minha vida em situações bilíngües, conhecendo muitas crianças também bilíngües.  O artigo segue, numa tradução bastante liberal.

 

 

 

 

 

 

Ensinar uma segunda língua a crianças pequenas ainda gera alguma controvérsia entre educadores.   Por um lado diz-se que é muit0 mais fácil adquirir uma segunda língua ainda muito jovem.  Por outro lado, professores de alunos que falam uma língua em casa diferente daquela que falam na escola dizem que estes alunos parecem estar sempre mais devagar no aprendizado do que seu colegas que usam uma única língua. 

 

Um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences no número para maio deste ano, talvez ajude a clarificar o que acontece no cérebro de uma criança que é bilíngüe, ajuda a esclarecer como o pensamento de uma criança bilíngüe pode ser afetado,  e finalmente em que circunstâncias seria uma vantagem ser bilíngüe.  Agnes Kovacs e Jacques Mehler trabalhando no International School for Advanced Studies em Trieste dizem que alguns aspectos do desenvolvimento cognitivo dos bebês criados num lar bilíngüe é acelerado para ajudá-los a decidir com qual das duas línguas eles estão lidando.  

 

A parte de cognição no caso é aquela a que se denomina  “função executiva”.  É o que permite as pessoas de organizarem, planejarem, priorizarem suas atividades, é o que lhes permite de trocar de foco de atenção entre uma coisa e outra.  Ser bilíngüe é uma característica comum em Trieste, que apesar de ser italiana, a cidade está rodeada pela Eslovênia.   Isso foi providencial para permitir aos Dr. Kovacs e Dr. Mehler que observassem 40 crianças num estágio ainda pré-verbal de sete meses de idade, metade delas criadas em uma só língua, enquanto que as outras eram produto de lares bilíngües.  Assim, eles puderam comparar o desenvolvimento de ambos os grupos levando em consideração tarefas que necessitavam de controle da “função executiva”.

 

Primeiro os bebês foram treinados para esperarem pela presença de um boneco numa tela, depois de terem ouvido um grupo de palavras de non-sense, inventadas pelos pesquisadores.  Aí, as palavras e a posição do boneco foram mudados.  Quando isso foi feito, os bebês criados em uma única língua tiveram dificuldades de superar sua resposta já bem treinada, mesmo depois que os pesquisadores deram a eles mais dicas de que coisas haviam mudado.   Os bebês bilíngües, no entanto, acharam muito mais fácil mudar o foco de sua atenção – passando por cima do que haviam aprendido anteriormente e que já não lhes servia mais.  

 

Monitorar as línguas e mantê-las separadas é parte da “função executiva”do cérebro.  Esses estudos, então, sugerem que mesmo antes de uma criança ser capaz de falar, um ambiente bilíngüe parece acelerar o desenvolvimento desta função.   Mas antes de tomarmos uma decisão apressada de educar nossas crianças em duas línguas desde bebês, precisamos levar em consideração alguns detalhes, entre eles, o de que este benefício cognitivo foi demonstrado só entre bebês em lares bilíngües, onde ambas as línguas são faladas rotineiramente.  Os pesquisadores trabalham com a hipótese de que pode ser o fato de ter que lidar com duas línguas no mesmo ambiente que venha a obrigar um maior uso da função executiva.  Não está claro se os mesmo benefícios ocorrem com crianças que aprendem uma língua em casa e outra na escola.

 





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

29 04 2009

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Copacabana, Praça do Lido.





Para comemorar os 150 anos do nascimento de Alberto de Oliveira

28 04 2009

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Libélulas, s/d

Kashimira Jahveri (Índia)

Gravura em metal

 

 

 

Libélula

 

 

Alberto de Oliveira

 

 

 

À flor da água do tanque ou da corrente

Voa a fugaz libélula erradia

De asas de vidro e prata, à flor somente,

Que, como vivo espelho, arde e irradia;

 

Somente à flor…  Que importa, refulgente,

Ao fundo algum tesouro lhe sorria,

Ouro haja, ou lama?  Passa indiferente,

Folga, doudeja, toda se extasia

 

À flor… que isso lhe basta ao leve e brando

Vôo: trêmula e clara refletida

Na água acenando-lhe a ilusão celeste.

 

Como que sabe, à flor somente voando

Que aprofundar as cousas, como a vida,

É tirar-lhes o encanto que as reveste.

 

 

 

Em: Poesias completas de Alberto de Oliveira, org. Marco Aurélio Melo Reis, 3 vols, Rio de Janeiro, Núcleo Editorial da UERJ, 1979, 3° volume.

 

 

 

 

 

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Alberto de Oliveira (Antônio Mariano A. de O.), farmacêutico, professor e poeta, nasceu em Palmital de Saquarema, RJ, em 28 de abril de 1857, e faleceu em Niterói, RJ, em 19 de janeiro de 1937. Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupou a Cadeira nº 8, cujo patrono, escolhido pelo ocupante, é Cláudio Manuel da Costa.

 

 

Obras poéticas:

 

Canções românticas (1878)

Meridionais, com introdução de Machado de Assis (1884)

Sonetos e poemas (1885)

Versos e rimas (1895)

Poesias completas, 1ª. série (1900)

Poesias, 2ª. série (1906)

Poesias, 2 vols. (1912)

Poesias, 3ª. série (1913)

Poesias, 4ª. série (1928)

Poesias escolhidas (1933)

Póstumas (1944)

Poesia, org. Geir Campos (1959)

Poesias completas de Alberto de Oliveira, org. Marco Aurélio Melo Reis, 3 vols.

 





Clichês: o mais rápido meio de empobrecer o seu texto!

28 04 2009

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Chico Bento, ilustração Maurício de Sousa.

 

 

 

 

A revista Língua Portuguesa: conhecimento prático, do mês de abril deste ano,  publica 66 páginas quase todas dedicadas aos clichês e lugares-comuns.  A publicação aparece  na hora certa, pois estamos muito envolvidos com o mau hábito de usar muitos lugares-comuns, principalmente porque os ouvimos constantemente na imprensa falada ou televisada.  Não há maneira mais eficaz de empobrecer um texto do que desfiar lugares-comuns, num ritmo perpétuo como contas de um rosário.

 

Aproveito a oportunidade para enumerar aqui a lista de clichês coletados por Sérgio Augusto de Andrade, publicada pela primeira vez na revista Bravo de julho de 2002 e relembrada neste número da Língua Portuguesa: conhecimento prático, na página 61.

 

Se você tiver como objetivo eliminar estas expressões do seu dia a dia, não só seus interlocutores apreciarão o gesto, mas a Língua Portuguesa também!

 

Exercer a cidadania

Vou dar um retorno

A nível de

Tudo acaba em pizza

Preciso de uma posição

 

 

 

Você tem uma lista de clichês que doem no seu ouvido?  Por que não me envia?

 

 

 

 

Não há um endereço virtual para esta revista.  Está publicado, no entanto, um endereço de email para contatos:  l.portuguesa@criativo.art.br

 





Quadrinha infantil da boa aluna

28 04 2009

escrevendo

 

 

 

Que eu seja grande vadia

Não quero que pensem, não!

Não falto à escola um só dia

Sabendo sempre a lição.

 

 

 

 

Esta quadrinha faz parte do seguinte exercício:  Passe para prosa, com suas palavras, esta quadrinha.

 

 

Em: Exercícios de Linguagem e Matemática: 2ª série primária, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1958, p. 32





Curiosas múmias egípcias encontradas ao sul de Cairo

28 04 2009

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Arqueólogos egípcios apresentaram neste domingo um conjunto de múmias em sarcófagos com decorações curiosas e dezenas de tumbas descobertas em uma necrópole do Oasis de Fayum, no sul do Cairo. As 53 tumbas, algumas com 4 mil anos, foram achadas recentemente em uma área deserta que abrange um centro agrícola da aldeia de Illhun, a 80 km da capital do Egito.

 

Os pesquisadores informaram à imprensa que a necrópole fica perto da pirâmide do faraó Sesostris II, de quase 4 mil anos de antiguidade. Os sarcófagos encontrados na área mais profunda do complexo mortuário estavam pintados com rostos que poderiam ser dos próprios defuntos, com as cores azul, amarelo, cobre e preto.

 

De acordo com Abdel Rahman el Ayedi, sub-secretário do Conselho Supremo de Antiguidades de Egito, arqueólogos acharam também um sarcófago com a inscrição que poderia pertencer a uma mulher chamada Isis Her Ib – filha de uma das autoridades máximas de Illahun.

 

Segundo Ayedi, apesar de não se conhecer muito sobre a necrópole, algumas tumbas tinham apenas 2,8 mil anos, enquanto outras eram do Império Médio, datado entre os anos 2061 e 1786 a.C.. No local, foram descobertos ainda uma capela funerária com um altar, máscaras pintadas, cerâmicas, estátuas e amuletos de proteção.

 

 

Terra

 

 





Uma pequena homenagem ao nosso baixo-clero!

27 04 2009

senado-no-imperioO edifício do Senado Brasileiro, ná época do Segundo Império.

 

 

 

 

Inspirada no picadeiro em que se transformou o debate sobre o desmando no uso da coisa pública no Brasil, ou em outras palavras, no uso sem cabimento do dinheiro público dos nossos legisladores, voando pelo mundo às nossas custas,  voltei-me para um texto delicioso de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), escrito em 1855, sobre a política no império.  Quem ainda não conhece este romancista brasileiro, ou que só o conhece pelas obras românticas que leu na escola como A moreninha, O moço louro, As mulheres de mantilha, e outros tantos títulos; precisa se dar o presente de consultar seus outros escritos.  Joaquim Manuel de Macedo foi um grande escritor, crítico voraz dos hábitos e costumes brasileiros, muito sarcástico mas também muito bem humorado nas suas críticas.  Foi também um poeta, um teatrólogo, um memorialista e um biógrafo.  Acredito que ainda não tenhamos lhe dado o lugar que merece na história do pensamento brasileiro. 

 

A passagem que se segue é de seu romance A carteira de meu tio, onde ele descreve o político brasileiro da época.  O que parece inacreditável: passados 150 anos e com pouquíssimos ajustes suas descrições vestem como uma luva o que presenciamos no Congresso em Brasília.  Então, vamos lá:

 

 

 

…………………………………………………

 

 

Ora pois, consideremos ao acaso um de tantos: seja aquele figurão que ali vai repotreado em um magnífico e soberbo carro.

 

Era há poucos anos um miserável diabo, que vivia de suas agências, e mais não disse; não  tinha onde cair morto, e portanto ninguém fazia caso dele: mas não há nada como ter juízo!… O maganão atirou-se ao comércio, e foi de um salto ao apogeu da fortuna; eis o caso: primeiro abriu uma casa de secos, e quebrou; meteu-se logo nos molhados, e quebrou outra vez – excelente princípio!  O quebrado ficou inteiro, e os credores com alguns pedaços de menos; depois, dinheiro a juros, três ou quatro por cento ao mês para servir aos amigos; um pouco mais aos indiferentes; duas dúzias de alicantinas  por ano, e o suor alheio nos cofres do espertalhão: uma terça deixada em testamento por um estranho, e arrancada aos malvados parentes do morto; aqui há anos atrás o comércio de carne humana, que era um negócio muito lícito, negócio molhado e seco ao mesmo tempo, porque se arranjava por mar e por terra, terra marique: vai senão quando, no fim de dez ou doze anos, o pobretão aparece milionário.

 

Mudam-se as cenas; dantes ninguém tirava o chapéu ao indigno tratante, olhavam-no todos com desprezo, era um bicho que causava tédio, além de mau, era pobre; mas, ó milagrosa regeneração!  ó infalível poder do ouro! o antigo malandrim já é um homem de gravata lavada! banhou-se no Jordão da riqueza, e ficou limpo e puro de todas as passadas culpas!…

 

E por onde chegou ele ao cume das prosperidades? – pelos desvios: se tivesse vindo pela estrada real, estava na esteira velha.

 

É verdade que o tal bargante, para se enriquecer, fez a desgraça de muita gente:  mas que tem isso?…  não goza ele agora muito sossegadamente a sua imensa riqueza?…

 

Quebrou fraudulentamente, pregou calotes, ofendeu as leis de Deus, e zombou das leis dos homens; ora viva!  Coisas do tempo da nossa avó-torta; águas passadas não movem moinho; dize-me o que tens, que eu te direi o que vales: bravo o nosso figurão!…

 

Todos o festejam, diplomatas conselheiros, senadores, deputados, ministros, enfim, a fidalguia toda da terra!

 

Dizem que é sedutor e libidinoso; histórias da carochinha! Todas as portas se abrem para ele, todas as famílias o recebem em seu seio!

 

Se dá um baile, não há fidalgo que deixe de ir dançar na casa do ex-velhaco; se é solteiro, ainda que seja feio, velho, e tenha fama de mau e de bruto, as mães metem-lhe as filhas pelos olhos adentro.

 

Quando aparece no teatro, os grandes figurões quase que quebram o espinhaço, fazendo-lhes cortesias.

 

Antigamente era um farroupilha, um trapaceiro desprezível; agora é o amigo de cama e mesa do senhor marquês; é o compadre da senhora viscondessa, é o fidus Achates do senhor conselheiro; é o querido, o nhonhô, o não-me-deixes das moças.  O diabo do dinheiro faz até de um mono um cupidinho, e transforma uma azêmola em um rouxinol

 

Dizem que é estúpido: elegem-no deputado, ou votam nele para senador.  E fica sábio!…

 

Tem fama de gatuno: nomeiam-no tesoureiro.  E fica honrado!

 

Acusam-no de todos os sete pecados mortais, e ainda dos quatro que bradam ao céu: fazem-no juiz ou mordomo das dez irmandades!  E fica santo!…

 

Passa enfim a vida regalada, embora alguns nas costas lhe  mordam; tem tudo quanto deseja e aspira: festas, favores e honras, ainda que pela boca-pequena o abocanhem; e para dizer tudo, fica sendo um senhor da terra, como muitos outros senhores da terra.

 

Viva, pois, o dinheiro, que tudo o mais é história!

 

………………………………………

 

 

 

Em:  A carteira de meu tio, Joaquim Manuel de Macedo, Porto Alegre, LP&M:2001, 50-52.

 

 

 

Joaquim Manuel de Macedo (Itaboraí, 24 de junho de 1820 — Rio de Janeiro, 11 de abril de 1882) foi um médico e escritor brasileiro: romancista, poeta, cronista literário e dramaturgo.

 

Em 1844, Joaquim Manuel de Macedo, formou-se em Medicina no Rio de Janeiro, e no mesmo ano estreou na literatura com a publicação daquele que viria a ser seu romance mais conhecido, “A Moreninha“, que lhe deu fama e fortuna imediatas.

 

Além de médico, Macedo foi jornalista, professor de Geografia e História do Brasil no Colégio Pedro II, e sócio fundador, secretário e orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, desde 1845. Em 1849, fundou, juntamente com Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre, a revista Guanabara, que publicou grande parte do seu poema-romance A nebulosa — considerado por críticos como um dos melhores do Romantismo. Foi membro do Conselho Diretor da Instrução Pública da Corte (1866).

 

Abandonou a medicina e criou uma forte ligação com Dom Pedro II e com a Família Imperial Brasileira, chegando a ser preceptor e professor dos filhos da Princesa Isabel.

 

Macedo também atuou decisivamente na política, tendo militado no Partido Liberal, servindo-o com lealdade e firmeza de princípios, como o provam seus discursos parlamentares, conforme relatos da época. Durante a sua militância política foi deputado provincial (1850, 1853, 1854-59) e deputado geral (1864-1868 e 1873-1881). Nos últimos anos de vida padeceu de problemas mentais, morrendo pouco antes de completar 62 anos.

 

 

Obras:

 

Romances

 

A Moreninha (1844)

O moço loiro (1845)

Os dois amores (1848)

Rosa (1849)

Vicentina (1853)

O forasteiro (1855)

Os romances da semana (1861)

Rio do Quarto (1869)

A luneta mágica (1869)

As Vítimas-algozes (1869)

As mulheres de mantilha (1870-1871).

 

Sátiras políticas

A carteira do meu tio (1855)

Memórias do sobrinho do meu tio (1867-1868)

 

Dramas

 

O cego (1845)

Cobé (1849)

Lusbela (1863)

 

Comédias

 

O fantasma branco (1856)

O primo da Califórnia (1858)

Luxo e vaidade (1860)

A torre em concurso (1863)

Cincinato quebra-louças (1873)

 

Poesia

 

A nebulosa (1857)

 

 

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Joaquim Manuel de Macedo é o patrono da cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL).








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