Quadrinha infantil da boa aluna

28 04 2009

escrevendo

 

 

 

Que eu seja grande vadia

Não quero que pensem, não!

Não falto à escola um só dia

Sabendo sempre a lição.

 

 

 

 

Esta quadrinha faz parte do seguinte exercício:  Passe para prosa, com suas palavras, esta quadrinha.

 

 

Em: Exercícios de Linguagem e Matemática: 2ª série primária, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1958, p. 32





Curiosas múmias egípcias encontradas ao sul de Cairo

28 04 2009

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Arqueólogos egípcios apresentaram neste domingo um conjunto de múmias em sarcófagos com decorações curiosas e dezenas de tumbas descobertas em uma necrópole do Oasis de Fayum, no sul do Cairo. As 53 tumbas, algumas com 4 mil anos, foram achadas recentemente em uma área deserta que abrange um centro agrícola da aldeia de Illhun, a 80 km da capital do Egito.

 

Os pesquisadores informaram à imprensa que a necrópole fica perto da pirâmide do faraó Sesostris II, de quase 4 mil anos de antiguidade. Os sarcófagos encontrados na área mais profunda do complexo mortuário estavam pintados com rostos que poderiam ser dos próprios defuntos, com as cores azul, amarelo, cobre e preto.

 

De acordo com Abdel Rahman el Ayedi, sub-secretário do Conselho Supremo de Antiguidades de Egito, arqueólogos acharam também um sarcófago com a inscrição que poderia pertencer a uma mulher chamada Isis Her Ib – filha de uma das autoridades máximas de Illahun.

 

Segundo Ayedi, apesar de não se conhecer muito sobre a necrópole, algumas tumbas tinham apenas 2,8 mil anos, enquanto outras eram do Império Médio, datado entre os anos 2061 e 1786 a.C.. No local, foram descobertos ainda uma capela funerária com um altar, máscaras pintadas, cerâmicas, estátuas e amuletos de proteção.

 

 

Terra

 

 





Uma pequena homenagem ao nosso baixo-clero!

27 04 2009

senado-no-imperioO edifício do Senado Brasileiro, ná época do Segundo Império.

 

 

 

 

Inspirada no picadeiro em que se transformou o debate sobre o desmando no uso da coisa pública no Brasil, ou em outras palavras, no uso sem cabimento do dinheiro público dos nossos legisladores, voando pelo mundo às nossas custas,  voltei-me para um texto delicioso de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), escrito em 1855, sobre a política no império.  Quem ainda não conhece este romancista brasileiro, ou que só o conhece pelas obras românticas que leu na escola como A moreninha, O moço louro, As mulheres de mantilha, e outros tantos títulos; precisa se dar o presente de consultar seus outros escritos.  Joaquim Manuel de Macedo foi um grande escritor, crítico voraz dos hábitos e costumes brasileiros, muito sarcástico mas também muito bem humorado nas suas críticas.  Foi também um poeta, um teatrólogo, um memorialista e um biógrafo.  Acredito que ainda não tenhamos lhe dado o lugar que merece na história do pensamento brasileiro. 

 

A passagem que se segue é de seu romance A carteira de meu tio, onde ele descreve o político brasileiro da época.  O que parece inacreditável: passados 150 anos e com pouquíssimos ajustes suas descrições vestem como uma luva o que presenciamos no Congresso em Brasília.  Então, vamos lá:

 

 

 

…………………………………………………

 

 

Ora pois, consideremos ao acaso um de tantos: seja aquele figurão que ali vai repotreado em um magnífico e soberbo carro.

 

Era há poucos anos um miserável diabo, que vivia de suas agências, e mais não disse; não  tinha onde cair morto, e portanto ninguém fazia caso dele: mas não há nada como ter juízo!… O maganão atirou-se ao comércio, e foi de um salto ao apogeu da fortuna; eis o caso: primeiro abriu uma casa de secos, e quebrou; meteu-se logo nos molhados, e quebrou outra vez – excelente princípio!  O quebrado ficou inteiro, e os credores com alguns pedaços de menos; depois, dinheiro a juros, três ou quatro por cento ao mês para servir aos amigos; um pouco mais aos indiferentes; duas dúzias de alicantinas  por ano, e o suor alheio nos cofres do espertalhão: uma terça deixada em testamento por um estranho, e arrancada aos malvados parentes do morto; aqui há anos atrás o comércio de carne humana, que era um negócio muito lícito, negócio molhado e seco ao mesmo tempo, porque se arranjava por mar e por terra, terra marique: vai senão quando, no fim de dez ou doze anos, o pobretão aparece milionário.

 

Mudam-se as cenas; dantes ninguém tirava o chapéu ao indigno tratante, olhavam-no todos com desprezo, era um bicho que causava tédio, além de mau, era pobre; mas, ó milagrosa regeneração!  ó infalível poder do ouro! o antigo malandrim já é um homem de gravata lavada! banhou-se no Jordão da riqueza, e ficou limpo e puro de todas as passadas culpas!…

 

E por onde chegou ele ao cume das prosperidades? – pelos desvios: se tivesse vindo pela estrada real, estava na esteira velha.

 

É verdade que o tal bargante, para se enriquecer, fez a desgraça de muita gente:  mas que tem isso?…  não goza ele agora muito sossegadamente a sua imensa riqueza?…

 

Quebrou fraudulentamente, pregou calotes, ofendeu as leis de Deus, e zombou das leis dos homens; ora viva!  Coisas do tempo da nossa avó-torta; águas passadas não movem moinho; dize-me o que tens, que eu te direi o que vales: bravo o nosso figurão!…

 

Todos o festejam, diplomatas conselheiros, senadores, deputados, ministros, enfim, a fidalguia toda da terra!

 

Dizem que é sedutor e libidinoso; histórias da carochinha! Todas as portas se abrem para ele, todas as famílias o recebem em seu seio!

 

Se dá um baile, não há fidalgo que deixe de ir dançar na casa do ex-velhaco; se é solteiro, ainda que seja feio, velho, e tenha fama de mau e de bruto, as mães metem-lhe as filhas pelos olhos adentro.

 

Quando aparece no teatro, os grandes figurões quase que quebram o espinhaço, fazendo-lhes cortesias.

 

Antigamente era um farroupilha, um trapaceiro desprezível; agora é o amigo de cama e mesa do senhor marquês; é o compadre da senhora viscondessa, é o fidus Achates do senhor conselheiro; é o querido, o nhonhô, o não-me-deixes das moças.  O diabo do dinheiro faz até de um mono um cupidinho, e transforma uma azêmola em um rouxinol

 

Dizem que é estúpido: elegem-no deputado, ou votam nele para senador.  E fica sábio!…

 

Tem fama de gatuno: nomeiam-no tesoureiro.  E fica honrado!

 

Acusam-no de todos os sete pecados mortais, e ainda dos quatro que bradam ao céu: fazem-no juiz ou mordomo das dez irmandades!  E fica santo!…

 

Passa enfim a vida regalada, embora alguns nas costas lhe  mordam; tem tudo quanto deseja e aspira: festas, favores e honras, ainda que pela boca-pequena o abocanhem; e para dizer tudo, fica sendo um senhor da terra, como muitos outros senhores da terra.

 

Viva, pois, o dinheiro, que tudo o mais é história!

 

………………………………………

 

 

 

Em:  A carteira de meu tio, Joaquim Manuel de Macedo, Porto Alegre, LP&M:2001, 50-52.

 

 

 

Joaquim Manuel de Macedo (Itaboraí, 24 de junho de 1820 — Rio de Janeiro, 11 de abril de 1882) foi um médico e escritor brasileiro: romancista, poeta, cronista literário e dramaturgo.

 

Em 1844, Joaquim Manuel de Macedo, formou-se em Medicina no Rio de Janeiro, e no mesmo ano estreou na literatura com a publicação daquele que viria a ser seu romance mais conhecido, “A Moreninha“, que lhe deu fama e fortuna imediatas.

 

Além de médico, Macedo foi jornalista, professor de Geografia e História do Brasil no Colégio Pedro II, e sócio fundador, secretário e orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, desde 1845. Em 1849, fundou, juntamente com Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre, a revista Guanabara, que publicou grande parte do seu poema-romance A nebulosa — considerado por críticos como um dos melhores do Romantismo. Foi membro do Conselho Diretor da Instrução Pública da Corte (1866).

 

Abandonou a medicina e criou uma forte ligação com Dom Pedro II e com a Família Imperial Brasileira, chegando a ser preceptor e professor dos filhos da Princesa Isabel.

 

Macedo também atuou decisivamente na política, tendo militado no Partido Liberal, servindo-o com lealdade e firmeza de princípios, como o provam seus discursos parlamentares, conforme relatos da época. Durante a sua militância política foi deputado provincial (1850, 1853, 1854-59) e deputado geral (1864-1868 e 1873-1881). Nos últimos anos de vida padeceu de problemas mentais, morrendo pouco antes de completar 62 anos.

 

 

Obras:

 

Romances

 

A Moreninha (1844)

O moço loiro (1845)

Os dois amores (1848)

Rosa (1849)

Vicentina (1853)

O forasteiro (1855)

Os romances da semana (1861)

Rio do Quarto (1869)

A luneta mágica (1869)

As Vítimas-algozes (1869)

As mulheres de mantilha (1870-1871).

 

Sátiras políticas

A carteira do meu tio (1855)

Memórias do sobrinho do meu tio (1867-1868)

 

Dramas

 

O cego (1845)

Cobé (1849)

Lusbela (1863)

 

Comédias

 

O fantasma branco (1856)

O primo da Califórnia (1858)

Luxo e vaidade (1860)

A torre em concurso (1863)

Cincinato quebra-louças (1873)

 

Poesia

 

A nebulosa (1857)

 

 

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Joaquim Manuel de Macedo é o patrono da cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL).





Boas Maneiras VII

27 04 2009

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O espirro chega sem aviso.

Usar o lenço…  é preciso.





Decoração de azulejos era língua escrita

26 04 2009

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A decoração, os símbolos encontrados em azulejos, louças e demais objetos do povo  que habitava o vale do Indo, no Paquistão, há mais de quatro mil anos são “palavras” de uma língua que até agora era desconhecida, sugere um estudo realizado por cientistas da Universidade de Washington e publicado na revista Science.

 

A equipe de matemáticos e engenheiros informáticos e arqueólogos indianos e norte-americanos liderada por Rajesh Rao,  afirma que o misterioso código só poderá ser decifrado se for encontrado um elemento -chave “equivalente à famosa Pedra de Roseta que (por ter o mesmo texto escrito em grego e egípcio demótico) permitiu a compreensão dos hieróglifos egípcios“.

 

 

 

 

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Os códigos misteriosos foram encontrados em pequenas placas de pedra, amuletos e placas de cerâmica e, até hoje, muitos especialistas afirmavam que elas eram simples pictogramas religiosos ou políticos.

 

A equipe realizou um estudo estatístico que comparou a seqüência de símbolos – conhecidos como “Escrita do Indo” – com diversas manifestações lingüísticas, desde o Inglês moderno até o antigo sânscrito e também com sistemas não lingüísticos.

 

 

 

 

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Neste ponto, podemos dizer que a Escrita do Indo parece ter concomitâncias estatísticas com as línguas naturais“, disse Rajesh Rao, cientista da Universidade de Washington e líder da equipe que realizou a pesquisa.

 

A Escrita do Indo é conhecida há quase 130 anos, “mas apesar de mais de 100 tentativas ainda não foi decifrada; no entanto, se entende que codifica uma linguagem“, afirmou Rao.

 

O povo do Indo foi contemporâneo das civilizações egípcia e mesopotâmica e habitou o vale do rio Indo – que ficava onde hoje é o leste do Paquistão e noroeste da Índia – em uma época entre o ano 2600 e 1900 a.C..

 

 

 

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Agora, Rao tem esperança de chegar ainda mais longe no estudo das escrituras para decifrar o seu código. “No momento queremos analisar a estrutura e sintaxe da escritura para deduzir suas regras gramaticais“, disse ele.

 

O cientista espera que este tipo de informação contribua para decifrar a linguagem no futuro, se aparecer um equivalente da Pedra de Roseta.

 

 

 

 

Fonte: Portal Terra

 





Estampa da Primeira Missa, poema de Murilo Araújo

26 04 2009

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Primeira Missa no Brasil, 1861

Victor Meirelles (Brasil 1832- 1903)

Óleo sobre tela, 268 x 358 cm

Museu Nacional de Belas Artes

Rio de Janeiro

 

 

 

Estampa da Primeira Missa

 

Murilo Araújo

 

 

Na terra amanhecida,

entre as ondas a rir jubilosas de luz

e as árvores em flor, se ergue a árvore da Vida –

a Cruz.

 

 

Entre os tupis a marujada ajoelha.

 

 

Uma legião de beija-flores passarinha.

 

 

 

Então “no ilhéu chamado a Coroa Vermelha”

Frei Henrique de Coimbra se aparelha

e em paramentos de ouro beija o altar…

 

 

A alma argentina de uma campainha

se une aos gorjeios da manhã solar.

 

 

Junto aos altos pendões do palmar nunca visto

treme um pendão mais alto, o estandarte de Cristo.

 

 

Longe um som de clarim morre em glória no ar.

 

 

As resinas do mato, onde em onde,

erguem incenso

turibulando pelos troncos bons.

 

 

 

Frei Henrique celebra e é Deus quem lhe responde

na voz do oceano, seu harmônio imenso,

rolando ao longe um turbilhão de sons.

 

 

As campânulas trêmulas nos galhos

tlintam  à brisa

sua matina aos pingos dos orvalhos;

e a várzea que se irisa

oferenda ao Senhor

nas passifloras roxas os martírios

e na água em sono as ânforas dos lírios…

Há um repousório em cada moita em flor.

 

 

São candelabros de ouro os ipês flamejantes!

E ascenderam ao sol corolas delirantes

como se fossem círios

em louvor.

 

 

Quando a hóstia se eleva angelical

sobe com ela o sol no firmamento.

 

 

As borboletas – que deslumbramento! –

com os tucanos e arás de tom violento

pintam no azul policromias vitral…

 

 

Canta a araponga na floresta longa

como um sino a tanger, dominical.

 

 

As naus florem de branco o deserto marinho.

Lembram virgens trazendo, em túnicas de linho,

na alva das velas uma cruz cristã;

e a patena dos sol as consagrou com o vinho

aéreo da manhã.

 

 

Oh hora ingênua da Fé!  Oh primeiro evangelho!

Pero Vaz escreveu que “um índio já bem velho

apontou para a cruz…”  Oh gesto anunciador!

 

 

Cabral e os que domaram os sete mares

Unem as mãos tremendo de fervor.

 

 

E na luz recém-vinda

em bênçãos tutelares,

a terra em flor se alegra em jubileus…

“a terra graciosa” e tão nova e tão linda! –

a terra desde então desposada de Deus.

 

 

Em: Poemas Completos de Murillo Araújo, com introdução de Adonias Filho, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti: 1960, 3 volumes.

 

 

 

Murilo Araújo – ou Murillo Araújo — (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta, escritor, teatrólogo, ensaísta.

 

 

 

Obras:

 

Poesia:

 

Carrilhões (1917) 

A galera (escrito em 1915, mas publicado anos depois)

Árias de muito longe (1921)

A cidade de ouro (1927)

A iluminação da vida (1927)

A estrela azul (1940)

As sete cores do céu (1941)

A escadaria acesa (1941)

O palhacinho quebrado (1952)

A luz perdida (1952)

O candelabro eterno (1955)

 

 

Prosa:

 

A arte do poeta (1944)

Ontem, ao luar (1951) — uma biografia de Catulo da Paixão Cearense

Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens)

Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958)

 

———

Victor Meirelles; ou Victor Meireles; ou Vitor Meirelles, ou ainda Vitor Meireles

 

Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis SC 1832 – Rio de Janeiro RJ 1903). Pintor, desenhista, professor. Inicia seus estudos artísticos por volta de 1838, com o engenheiro argentino Marciano Moreno. No ano de 1847, muda-se para o Rio de Janeiro e se matricula na Academia Imperial de Belas Artes –  onde, em 1849, inicia o curso de pintura histórica. Em 1852 ganha o prêmio de viagem ao exterior e no ano seguinte segue para a Itália.  Em Roma freqüenta, em 1854, as aulas de Tommaso Minardi (1787 – 1871) e, posteriormente de Nicola Consoni (1814 – 1884), com quem realiza uma série de estudos com modelo vivo. Com a prorrogação da pensão que lhe fora concedida continua sua formação estudando em Paris onde, em 1857, matricula-se na École Superiéure des Beaux-Arts [Escola Superior de Belas Artes], freqüentando as aulas de Leon Cogniet (1794-1880) e, em seguida, recebendo orientações de seu discípulo Andrea Gastaldi (1810-1889). Durante o período em que permanece no exterior corresponde-se com Porto Alegre (1806 – 1879). Retorna ao Brasil em 1861 e, um ano depois, é nomeado professor de pintura histórica da Aiba. Entre os anos de 1869 e 1872 executa duas grandes telas, Passagem do Humaitá e Batalha de Riachuelo. Em 1879 participa da Exposição Geral de Belas Artes, expondo a Batalha dos Guararapes ao lado da Batalha do Avaí de Pedro Américo (1843 – 1905). A apresentação das duas obras gera grande polêmica e um intenso debate no meio artístico. A partir de 1886 passa a se dedicar à execução de panoramas. Entre eles destacam-se: o Panorama Circular da Cidade do Rio de Janeiro, feito na Bélgica, juntamente com Henri Langerock (1830 – 1915) e Entrada da Esquadra Legal no Porto do Rio de Janeiro em 1894, produzida nesse mesmo ano.





26 de abril de 1500, Domingo de Páscoa: a posse da terra

26 04 2009

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Primeira Missa no Brasil, 1948

Cândido Portinari (Brasil 1903- 1962)

Têmpera sobre tela, 266 x 598 cm

Coleção Particular

 

 

 

A importância primeira missa rezada em solo brasileiro é às vezes esquecida.  Talvez seja até mais importante do que a descoberta das terras brasileiras, porque a primeira missa tem o valor simbólico da tomada de posse.

 

Se não, vejamos:  de 22 a 26 de abril de 1500 os portugueses foram e voltaram de barquinhos para as caravelas e vice-versa, inúmeras vezes.  Ensaiaram uma comunicação gestual com os habitantes locais e uma troca de adornos.  Estabeleceram um mínimo de confiança entre estranhos.  Convencidos de que mal nenhum lhes chegaria por parte deste grupo de habitantes locais, os portugueses finalmente desembarcam, com sua religião, sua cultura.  Até então, a moradia, o lugar de estar, ainda estava limitado à área enclausurada das caravelas.  Como sabemos era Semana Santa.  E naquele tempo respeitada com muito mais restrições do que hoje.  Quando finalmente, chega o Domingo de Páscoa, já liberados dos limites instituídos pela crença, voltam-se os portugueses para a terra firme.  Trazem do mar, das caravelas, o mundo dos rituais religiosos, dos hábitos de vestir, comer, dormir europeus e os estabelecem em meio à floresta tropical, nas areias da costa brasileira.  É o ato maior de tomada posse da terra brasileira. E gestualmente comunicam aos índios que os circundam que de agora em diante “dividiremos o terreno”.

 

Para nosso prazer, coloco aqui a descrição da Primeira Missa, de acordo com Pero Vaz de Caminha.  

 

………………..

 

À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu — ele com todos nós — em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.

 

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

 

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

 

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.

 

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias — duas ou três que lá tinham — as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

 

Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.

 

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.

 

Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d’água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.

 

……………….. 

 

Carta de Pero Vaz de Caminha a El-rei D. Manoel I, 1500.








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