Novos quadros na Casa Branca dos Obama

25 05 2009

quadros, pregar

Peninha, ilustração de Walt Disney.

 

Os Obamas mandaram novas ondas de choque pelo mundo da arte mundial depois de colocarem um pedido de empréstimo a museus, galerias e colecionadores particulares, mostrando que gostariam, para a Casa Branca,  de arte moderna produzida por artistas negros, asiáticos, hispânicos e por mulheres.  Dando uma guinada radical da arte do século XIX  que domina as paredes da Casa Branca como pintura de gênero, paisagens bucólicas e muitos retratos, o casal Obama está incluindo, entre outras, obras de arte abstrata.

 

As escolhas do presidente do EUA podem afetar os valores de mercado das obras e dos artistas escolhidos para decorarem a Casa Branca.  Curadores de museus e colecionadores decidiram rapidamente oferecer obras para inclusão no local.

As escolhas que fizerem terão inevitavelmente algumas implicações políticas.  E poderão servir como uma ferramenta para impulsionar a mensagem de uma administração mais inclusiva do que as anteriores.   O presidente Clinton recebeu elogios após ter selecionado Simmie Knox, um americano negro, artista do estado de  Alabama, para pintar seus retratos oficiais.   Enquanto que a administração do presidente Bush ganhou aprovação quando adquiriu Os construtores, uma pintura do artista negro americano Jacob Lawrence, recebeu também algumas críticas porque este quadro retrata homens negros fazendo trabalho servil.

 

jacob_lawrence, (1947) tempera sobre madeira, 50 cm x 60 cm

Os Construtores

Jacob Lawrence (EUA 1947)

Têmpera sobre madeira

50 x 60 cm

Coleção da Casa Branca, Washington DC

 

Na semana passada, sete novas obras, de empréstimo vieram do Hirshhorn Museum and Sculptural Garden em Washington DC.  Elas foram transportadas e instaladas na Casa Branca, na parte da residência particular da família.  Entre elas estão “Sky Light” e “Watusi (Hard Edge),” um par de pinturas abstratas em azul e amarelo pela pouco conhecida pintora negra americana Alma Thomas, aclamada por suas pinturas pós-guerra de formas geométricas e cores alegres.

 

alma thomas, skylight

Skylight, 1973

Alma Thomas (EUA 1891- 1978)

Acrílica sobre tela,  50 x 60 cm

Hishhorn Museum & Sculpture Garden,

Em empréstimo à Casa Branca, Washington DC

 

A National Gallery of Art, em Washington DC,  emprestou à família, pelo menos, cinco obras este ano, incluindo os “números, de 0 a 9“, uma escultura em relevo de Jasper Johns, “Berkeley No. 52,” em grande escala, a espalhafatosa pintura de Richard Diebenkorn, e um quadro vermelho-sangue Edward Ruscha, em que na tela estão escritas as  palavras, “eu acho que talvez eu vá …“, montagem que parece própria para um presidente conhecido por longos momentos contemplação.  A escultura de Jasper Johns foi instalada na ala  residencial da Casa Branca,  no dia da inauguração,  junto com outras obras de arte moderna de Robert Rauschenberg e Louise Nevelson, que também foram emprestadas para a Casa Branca pela National Gallery of Art.

 

Jasper Johns, 0 through 9, embossed lead relief, 30 x 23,5 inches

De 0 a 9, 1961

Jasper Johns (EUA 1930 – )

Relevo em chumbo

National Gallery, Washington DC

Em empréstimo à Casa Branca

 

Depois que George W. Bush trouxe para a Casa Branca o artista de El Paso, Texas,  Tom Lea’s “Rio Grande” — uma visão de um cacto foto-realista de encontro a nuvens cinzentas, e colocou-a na Oval Office, o preço das pinturas deste artista subiu cerca de 300%, diz Adair Margo, dono de uma galeria em El Paso que representa o trabalho de Lea. [Lea faleceu em 2001, o que também ajudou a aumentar o valor do seu trabalho].

 

tom lea, rio grande, 1954, ost

Rio Grande, 1954

Tom Lea,  (1907-2001)

Óleo sobre tela, 56 x 80 cm

Esteve em empréstimo no Oval Office

da Casa Branca no governo de G. W. Bush.

 

O interesse do casal Obama por arte moderna vem de longa data, de muito antes da mudança que fizeram para Washington.  A casa da família em Hyde Park tinha arte moderna e  fotografias em preto-e-branco, é o que afirmam vários amigos de Chicago.  Vale a pena lembrar, também, que  em um de seus primeiros encontros,  Obama levou Michelle para uma visita ao Art Institute de Chicago.

 

O porta-voz da Casa Branca diz que o casal Obama aprecia desfrutar todo tipos de arte, mas que deseja “complementar a coleção permanente” e “dar nova voz” aos modernos artistas americanos de todas as raças e origens.

 

As mudanças na arte da Casa Branca acompanham o desejo da administração do presidente  Obama  para o aumento do orçamento para as artes. Obama incluiu $ 50 milhões de dólares em seu pacote de estímulo econômico para a National Endowment for the Arts e na segunda-feira Michelle Obama falou sobre a reabertura da ala do Metropolitan Museum, dedicada à arte americana.

 

ed ruscha

Eu acho… talvez eu vá, 1983

Ed [Edward] Ruscha  (EUA 1937 – )

Óleo sobre tela, 138 x 160 cm

National Gallery, Washington DC

Em empréstimo à Casa Branca

 

Michelle  e Barack Obama começaram a pensar na arte que colocariam na Casa Branca pouco depois da eleição em novembro, explica curador de arte William Allman. Michael Smith, um decorador baseado em Los Angeles, contratado pelo casal Obama para redecorar seus cômodos particulares trabalhou com o Sr. Allman, com a secretária social da Casa Branca Desirée Rogers e outros da equipe de transição para determinar quais obras fariam o casal se sentir em casa, em Washington.

 

O casal fez uma lista de cerca de 40 artistas e pediu por escrito numa carta ao Museu Hishhorn  por potenciais empréstimos, de acordo com Kerry Brougher, diretor adjunto do museu e curador-chefe.  Uma das imposições dos Obama foi que quaisquer empréstimos deveriam vir das obras armazenadas da coleção do museu e em hipótese alguma seus pedidos deveriam depenar as paredes de exposição da instituição.  

 

A coleção permanente da Casa Branca é um excelente documento da força artística da América dos séculos XVIII e XIX”, diz  Michael Smith. “As peças de arte selecionadas para empréstimo servem de ligação entre esse legado histórico e as diversas vozes de artistas do século 20 e 21.”

 

Na semana passada, Michelle e Barack Obama decidiram tomar emprestado “Nice“, um quadro abstrato de 1954 do pintor francês de origem russa, Nicolas de Staël, de retângulos vermelho, preto e verde-musgo; um par de pinturas de quadrados do pintor alemão Josef Albers, da famosa série “Homenagem ao Quadrado” em tons de ouro, vermelho e lavanda, e também “Dançarina colocando meia” e “Primeira Bailarina”, dois bronzes decorativos do escultor e pintor francês, Edgar Degas.  O museu também enviou um trabalho sobre a segregação racial do artista de Nova York  Glenn Ligon: “Black Like Me”, [Negro como eu]  entre outros que o casal ainda pondera, de acordo com um porta-voz Casa Branca.

 

Nicolas de Stael, Nice, 1954

Nice, 1954

Nicolas de Staël (França 1914- 1955 )

Óleo sobre tela,

Hishhorn Museum & Sculpture Garden,

Em empréstimo à Casa Branca

 

Obras existentes no Oval Office incluem a paisagem de 1895 de Thomas Moran «Três Tetons‘ e a escultura ‘Bronco Buster” (1903) de Frederic Remington.   O presidente pode pendurar o que ele quiser na residência e nos escritórios, incluindo o  Oval Office, mas a arte colocada em salas públicas, como a Sala Verde, por exemplo, deve ser primeiro aprovada pelo curador da Casa Branca e  pelo Comitê para a Preservação da Casa Branca , um conselho consultivo sobre qual a primeira-dama atua como presidente honorário.

 

“Todas as obras destinadas à coleção permanente da Casa Branca muitas vezes, passam por rigoroso e longo controle antes de a Casa Branca aceitá-los como brindes ou, por vezes, comprá-los usando doações privadas”, diz o Sr. Allman, que atuou como curador-chefe, uma posição permanente na Casa Branca, onde ele atua desde 1976.

 

Adições à coleção permanente deve ter, pelo menos, 25 anos.  A Casa Branca não aceita normalmente peças de artistas vivos para a sua recolha, porque sua inclusão poderia impactar no valor de mercado do artista escolhido para a coleção permanente. um valor de mercado. O resultado é que não há muitas opções de arte moderna na coleção, disse Allman.

 

Não somos uma galeria de arte”, Allman continua, “não somos um museu.  As pessoas vêm para a Casa Branca, uma vez na vida e já têm uma certa percepção de que eles verão”.

 

No momento, das 450 e poucas peças da coleção permanente só  cinco obras são de artistas negros: os retratos Clinton, por Knox; “Os Construtores” por Lawrence; “Dunas ao por do sol em Atlantic City” de Henry Ossawa Tanner, que está no Quarto Verde e foi comprado durante o governo Clinton e “A Fazenda Desembarque“, uma tranqüila paisagem pintada em 1892 pelo artista, de Rhode Island, Edward Bannister, adquirido com doações em 2006.

 

A Casa Branca também pode temporariamente selecionar obras de museus, galerias e de colecionadores para decorar quer a residência particular, quer os cômodos públicos. Os presidentes devolvem os empréstimos no final do seu governo.

 

albers

Homenagem ao quadrado, 1964

Joseph Albers (Alemanha 1888- 1976 )

Óleo sobre tela,

Em empréstimo à Casa Branca

 

Muitos dos mesmos colecionadores abastados que ajudaram Obama a financiar sua campanha presidencial estão agora oferecendo obras de arte.  ET Williams, um colecionador de Nova York  de arte americana de artistas negros, que já trabalhou no conselho de museus, incluindo o Museu de Arte Moderna de Nova York, está entre os candidatos à doadores.

 

No início deste mês, Williams, um banqueiro aposentado e investidor imobiliário, examinando a coleção que mantém em  seu apartamento em Manhattan analisou esta verdadeira jóia de sua coleção, um retrato de um homem com chapéu de Lois Mailou Jones.  A pintura está avaliada em $ 150.000, 00 dólares, mas ele disse que ficaria feliz se pudesse doá-lo para a coleção permanente da Casa Branca.  Ele também confirmou que o presidente pode “pegar emprestado tudo o de que gosta” de sua coleção, que inclui obras de Romare Bearden e Hale Woodruff.

 

Williams diz  que apesar de um empréstimo ou uma doação para a Casa Branca poder vir a  aumentar o perfil de sua coleção, a oferta que faz é motivada por um desejo de apoiar o presidente.  Um porta-voz Casa Branca confirmou que qualquer doação em potencial para a coleção permanente deve ser considerada através do curador do escritório.

 

Os colecionadores de arte negra americana imediatamente ficaram a postos  quando a notícia se espalhou de que o casal Obama procurava por arte para empréstimo, diz Bridgette McCullough Alexander, curadora de arte e que foi conselheira para o ensino médio com a primeira-dama.   Ela diz que alguns de seus clientes colecionadores manifestaram interesse em emprestar obras para a Casa Branca.

 

Para os colecionadores, foi como se os Obama tivessem pedido que lhes enchessem a geladeira. Como na mercearia, a lista de artistas só cresceu “, diz ela.

 

richard Diebenkorn Berkeley n 52, 1955, ost

Berkeley no. 52, 1955

Richard Diebenkorn (EUA 1922- 1993)

Óleo sobre tela,

Propriedade do espólio de Richard Diebenkorn

Em empréstimo à Casa Branca

 

A Casa Branca é, já, há muito tempo, uma verdadeira porta giratória de preferências artísticas. Dolley Madison salvou o célebre retrato de George Washington feito por  Gilbert Stuart. Jacqueline Kennedy ficou conhecida por elevar o perfil da arte na Casa Branca quando mandou tirar dos armazéns que guardam as obras da casa, oito pinturas de Cézanne que fazem parte da coleção permanente.

 

As últimas administrações têm tentado preencher as lacunas na coleção permanente de arte americana. Hillary Clinton teve sucesso em convencer o comitê  de Preservação da Casa Branca para aceitar o trabalho abstrato de 1931 de Georgia O’Keeffe  “Bear Mountain Lake, Taos.” Os críticos insistiam em dizer que o quadro  não se enquadrava na elegância da Sala Verde, característica do século XIX.   

 

 

bear lake, new mexico, georgia O keeffe (1887-1986) 1930, acervo casa branca

Bear Mountain Lake, NM,  1931

Geórgia O’ Keeffee ( EUA 1887-1986)

Acervo da Casa Branca, Washington DC

 

Laura Bush  também conseguiu convencer a comissão de preservação a aceitar um Andrew Wyeth, uma pintura doada pelo artista, numa rara exceção à proibição de obras de artistas vivos. “Graças a Deus que o aceitaram porque logo depois que Wyeth morreu e a Casa Branca nunca teria sido capaz de comprá-lo,” lembrou o historiador da arte William Kloss, que tem servido na comissão de preservação desde 1990.   

 

Em 2007, o Fundo de Aquisições para a Casa Branca, uma organização sem fins lucrativos que financia aquisições  de arte aprovadas pelo comitê de preservação, pagou US $ 2,5 milhões por um  Jacob Lawrence da cor de ferrugem colagem de trabalhadores no local de um edifício.  Pagou quatro vezes a sua elevada estimativa e  ultrapassando em muito os $ 968.000, 00 preço recorde para o artista em leilão na época, lembrou Eric Widing, chefe do departamento de pintura americana da Christie’s.  A compra pode ter dado um impulso ao mercado Lawrence, pois na primavera seguinte, um colecionador pagou $ 881.000, 00  para Christie’s  por um outro Lawrence,– o terceiro mais alto preço pago por uma de suas obras.

 

A aquisição de 1995 do quadro de Henry Ossawa Tanner,  Cena de praia em Atlantic City teve o efeito inverso.  A Casa Branca comprou o trabalho direto da sobrinha neta do artista por US $ 100.000,00 um preço bem inferior a $ 1 milhão de dólares, pedido por semelhantes quadros de Tanner.  O modesto preço da compra foi altamente comentado e divulgado.  Imediatamente o preço de quadros de Tanner desabaram no mercado, atestam vários marchands.  

 

hENRY OSSAWA TANNER, aTLANTIC CITY, 1885,OST, 73 X 137 CM

Cena de praia em Atlantic City, 1885

Henry Ossawa Tanner (EUA 1855- 1937)

Óleo sobre tela, 73 x 137 cm

Acervo permanente da Casa Branca

 

 

Laura Bush pendurou um trabalho moderno de Helen Frankenthaler na residência particular e pleiteou a aquisição de um Lawrence, enquanto G.W. Bush cobria as paredes de seu escritório com pelo menos seis paisagens do Texas.

 

Bush gostava de coisas que lhe lembrassem o Texas e disse que queria no Oval Office olhar como uma pessoa otimista que trabalha lá “, explicou Anita McBride, ex-chefe de equipe da Sra. Bush. Ela lembrou também que todos os quadros emprestados ao presidente anterior, já foram devolvidos.

 

Poucas semanas depois da posse Obama causou um auê, quando  removeu do Oval Office um busto de bronze de Winston Churchill, emprestado pela Embaixada Britânica e o substituiu por um busto de Martin Luther King Jr. do escultor Charles Alston, emprestado pela National Portrait Gallery em Washington DC.

 

No próximo mês, o casal Obama decidirá sobre o empréstimo de quatro obras do artista negro americano William H. Johnson, incluindo o seu ” A Lenda de Booker T. Washington“, um óleo sobre madeira compensada representando um ex-escravo no ato de educar um grupo de estudantes negros.  O quadro pertence ao Museu de Arte Americana do Smithsonian.   Nesse meio tempo, o Art Institute of Chicago planeja enviar aproximadamente 10 obras para a família Obama  considerar, entre elas, peças do artista americano negro Beauford Delaney e um trabalho expressionista abstrato de  Franz Kline.

 

Steve Stuart, um historiador amador que vem estudando a Casa Branca por três décadas, acha que os Obama não necessitam se vincular demais às tradições.  “Você não deveria ter de olhar para a cara da Sra. Hoover sobre sua cama por quatro anos, se não o quisesse”, disse ele.

 

 

Artigo: THE WALL STREET JOURNAL

Autores: Amy Chozick e Kelly Crow

Tradução liberal ( isto quer dizer, não ao pé da letra) de Ladyce West





Quadrinha infantil do tagarela

25 05 2009

blah-blah-blah1

Pato Donald ao telefone, ilustração de Walt Disney.

 

O tagarela, insistente,

jamais consegue agradar…

Mas agrada, sempre, a gente

Quem sabe ouvir e calar…

 

 

 

(A. F.  Bastos)





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

25 05 2009

DSC01598

Domingo de outono, praia de Copacabana: brisa, boa leitura, descanso e  bronzeamento.  Quem pode querer mais?





Patinhos salvos pela segunda vez!

25 05 2009

patinhos

Patinhos recem-nascidos atravessam a cidade com alguma ajuda!

 

Uma boa notícia para começarmos  a semana com um sorriso!

 

Uma família de patos foi resgatada por um bancário na cidade americana de Spokane, no Estado de Washington. A mãe dos patinhos havia feito seu ninho na marquise de um prédio, do lado de fora da janela de Joel Armstrong.

Depois que 12 filhotes nasceram, a mãe precisava levá-los para a água. Com apenas um dia de vida, no entanto, os patinhos eram muito pequenos para deixar a marquise voando.

Armstrong foi para a calçada, às 5h45 da manhã, e esperou que os filhotes pulassem. O bancário já havia feito a mesma coisa no ano anterior, mas na época deixou um dos filhotes cair.

Desta vez, Armstrong conseguiu pegar todos os patinhos. A família de animais foi então guiada pelas ruas da cidade até chegar a sua nova casa, um rio local.

Fonte: Portal Terra

 

Para ver o vídeo do canal ABC mostrando o salvamento clique AQUI! 

E boa semana!





Pernambuco, Mato Grosso, Espanha: um giro pela Idade Média

25 05 2009

fOTO Silnei Laise, Flicker

Artesanato pernambucano, foto: Silnei Laise, Flickr.

 

Em 1986 passei férias em Pernambuco.  Queria mostrar a meu marido, estrangeiro, o Brasil.  Ele já conhecia bem — das viagens anuais que fazíamos ao Rio de Janeiro para visitar a minha família —  alguma coisa do estado do Rio de Janeiro e de São Paulo.  Era hora de apresentá-lo a outras variações da cultura brasileira, com a qual ele havia caído de amores.  Nesta peregrinação acabamos numa quarta-feira, na Feira de Caruaru.  Não sou uma pessoa dada a saudosismos, e quando digo que a feira hoje está diferente do que era então, e já na época muita gente me dizia que “já não era lá essas coisas”, é simplesmente uma afirmação como testemunha.   Mas para nós, naquele ano, a Feira de Caruaru foi uma experiência sem igual.  Como qualquer turista e quase todos os brasileiros radicados fora do Brasil, enchi minhas malas com saudades:  uma banda de pífaros, um jogo de xadrez, um presépio, um grupo de retirantes, e  peças solteiras de cerâmica colorida artesanal.  Para acompanhá-las compramos também dezenas de livretos de cordel — cuja história expliquei cuidadosamente para meu marido — e muitas, muitas mesmo, xilogravuras de J Borges, João Marcelo, Otávio e outros.  

 

dsc05235

 

A literatura de cordel conquistou instantaneamente meu cara-metade.  Professor de literatura, ele simplesmente adorou a história toda, dos versos ao dependurar dos livretos nas cordas para secar.  Mas de toda a sua experiência em Caruaru e em Recife, foi sua maneira de sentir o local, o inusitado dos coloridos e dos feirantes, o que mais me surpreendeu, quando o ouvi recontar várias vezes suas aventuras pernambucanas a amigos e colegas de trabalho.  Ele dizia assim: Passei estas férias em Pernambuco. Com esta viagem, hoje posso imaginar como eram as feiras medievais.   Como eram coloridas!  Lá em Caruaru tem de tudo: artistas, livretos, venda de pimentas, de ervas, de produtos de couro, remédios contra veneno de cobra e ungüentos diversos para curar qualquer coisa.  Há saltimbancos, pedintes, equilibristas, contadores de histórias que passam o chapéu.  Cantores de improviso [repentistas] e música por todo lado.  Há muitas representações religiosas e referências constantes ao diabo, ao céu, ao inferno, até ao purgatório!  Enfim, é um mundo quase Felliniano [referência a Federico Fellini o cineasta].  Um mundo de sonhos.”

 

Nunca mais precisei explicar para ele certos hábitos brasileiros, certos problemas: coronéis, capangas, homens de confiança, milícias, posse de terra, analfabetismo, caixeiros viajantes, tropeiros, corrida de jegues e por aí afora.  A imagem da época medieval era ressuscitada e tudo entrava nos eixos.  Para ele foi uma maneira de entender o Brasil, pelo menos enquanto morávamos fora.

 

Adrien Taunay, Vista de Guimarães, 1827, aquarela negra, 33 x 29cm Academia de Ciencias de S Peterburgo, Russia

Vista de Guimarães, 1827

Adrien Taunay

Aquarela monocromática, grisaille.

33 x 29 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo

Rússia

 

Lembrei-me deste assunto hoje, porque li à tarde o relato de Hercules Florence, desenhista da expedição chefiada pelo Barão de Langsdorff , sobre a viagem que fez do rio Tietê ao rio Amazonas em 1827.   Trechos de seu texto, com tradução do Visconde de Taunay, foram publicados em As Selvas e o Pantanal: Goiás e Mato Grosso, organizado  por Diaulas Riedel, São Paulo, Cultrix: 1959, na série: Histórias e paisagens do Brasil.  Uma passagem específica me fez parar a leitura e pensar.  Ela relata a visita que a expedição fez a um engenho de açúcar na região da chapada de Guimarães, na, então, província de Mato Grosso.  Quedaram-se no engenho de Domingos José de Azevedo.

 

“Viúvo, tem filhos e filhas, mas com nenhum deles mora.  Vive só com seus escravo em número de trinta, empregados na cultura da cana.  

 

Durante a ceia tornou-se mais comunicativo; contou-nos as canseiras que tivera para fundar o sítio e ganhar algum dinheiro; queixou-se do filho e explicou o modo por que governava sua casa.

 

Depois da comida fomos assistir à ladainha que se reza no alpendre ou sala de entrada, onde para isso se reúnem todos os escravos.  A primeira oração é cantada e começa com estas palavras: Triste coisa é nascer.  Julgo que essa maneira singular de louvar a Deus é composição de nosso anfitrião.  

 

Acabada a reza, mandou por camas sob esse alpendre e deu-nos boas-noites.

 

No dia seguinte disse-nos ao almoço que costumava contar os grãos de café para não ser roubado pelos escravos.

 

Falou-nos na mulher, e ao nos levantarmos da mesa, levou-nos aos seus aposentos, que eram dois quartinhos.  No fundo suspendeu do soalho um alçapão e mostrou-nos uma salinha colocada no primeiro pavimento, escura, úmida e  com uma única janela de grades que dava para o engenho de cana.  “ Aqui em baixo, disse-nos ele, é que eu guardava a mulher, quando tinha que sair de casa.  Ela descia por uma escadinha que eu recolhia, e recebia alimentos pela janela do engenho.

 

Antes de me lembrar de Caruaru, lembrei-me de  A Catedral do Mar, um livro que li há uns dois anos, do escritor espanhol Ildefonso Falcones, lançado no Brasil pela Editora Rocco.  Este é um livro sensacional (depois colocarei aqui algumas notas que fiz sobre sua leitura, em 2007).  Neste livro  seguimos a vida de Arnau Estanyol um homem que nasceu servo e acabou barão na Barcelona do século XIV.  Simultaneamente  acompanhamos a construção da catedral Santa Maria del Mar, na mesma cidade.   Isso mesmo, na idade média.  Nesta narrativa há uma mulher que é presa na propriedade do senhor feudal, e passa a vida num cubículo semelhante ao descrito por Hercules Florence no engenho mato-grossence.  Uma das cenas mais pungentes, que muito me marcou, foi ler como seu filho precisava ficar do lado de fora da casa em que sua mãe se encontrava presa,  chegar próximo à janela com grades,  para  que ela — que mal conseguia alcançá-lo – lhe fizesse um carinho no topo da cabeça, mexendo no seu cabelo de menino.  Em suma, um cafuné era o maior contato a que esta mãe e seu filho tinham o direito.

 

Esta cena voltou vívida à minha memória.  Mas, pensei, isso era na idade média!  E o que Hercules Florence relatou o que viu no Brasil de 150 anos atrás!  E assim, voltei a me lembrar da sensação de ter conhecido a idade média, em pessoa, de conhecê-la por dentro, intimamente, por razões semelhantes as que meu marido sentira  a respeito de sua visita a  Caruaru em 1986.

 

Trajes paulista 1825, aquarela e nanquim, 22 x 18 cm, acad ciencias são petersburgo, russia

Trajes Paulistas, 1825

Adrien Taunay

Aquarela e nanquim

22 x 18 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo

Rússia

 

Ao que eu saiba, não temos, ainda, aqui no Brasil, uma visão detalhada e específica do tratamento absurdo que mulheres receberam de seus maridos nos quatro séculos que história que precedem a nossa era.  Mas sabemos que passaram enclausuradas, muitas vezes cobertas da cabeça aos pés, não raro com véus à maneira muçulmana, quase sempre limitadas pelo analfabetismo.  Na nossa literatura contemporânea há alguns autores que parecem ter o cuidado de relatar esta condição:  Ana Miranda e Luiz Antonio de Assis Brasil vêm à mente no momento, mas há outros.  No entanto, é importante que nos lembremos, homens e mulheres, do que já aconteceu, das injustiças cometidas contra mulheres.  Precisamos acabar com qualquer vestígio desses hábitos deploráveis,  para chegarmos com boa consciência ao estado desenvolvido a que aspiramos.  Ainda há muito que fazer para deixarmos de lado de uma vez por todas resquícios da percepção da mulher como propriedade.  

 

——

NOTA sobre Domingos José de Azevedo:

A casa do engenho de Domingos José de Azevedo, que parecia tão modesta com apenas 2 quartinhos, era só lá  “no mato”.   Este senhor de engenho mantinha, como a maioria deles, uma outra casa, na capital da província, esta sim, mostrando para o mundo todos os seus bens, todo o seu valor!  Langsdorff em seu próprio relato comenta sobre a visita, descrita acima por Hercules Florence, em que foi recebido pelo senhor de engenho Domingos José de Azevedo, um dos homens mais ricos da região.  [Poder e cotidiano na capitania de Mato Grosso: uma visita aos senhores de engenho no lugar de Guimarães 1751-1818, Maria Amélia Assis Alves Crivelente, Revista demográfica Histórica XXI, II, 2003, segunda época, PP. 129-152].








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