Cão, poema de Alexandre O’Neill

22 06 2009

cachorro azul, ilustração de Maurício de Sousa

Ilustração de Maurício de Sousa.

 

Cão

 

                                   Alexandre O’Neill

 

 

Cão passageiro, cão estrito

Cão rasteiro cor de luva amarela,

Apara-lápis, fraldiqueiro,

Cão liquefeito, cão estafado

Cão de gravata pendente,

Cão de orelhas engomadas,

de remexido rabo ausente,

Cão ululante, cão coruscante,

Cão magro, tétrico, maldito,

a desfazer-se num ganido,

a refazer-se num latido,

cão disparado: cão aqui,

cão ali, e sempre cão.

Cão marrado, preso a um fio de cheiro,

cão a esburgar o osso

essencial do dia a dia,

cão estouvado de alegria,

cão formal de poesia,

cão-soneto de ão-ão bem martelado,

cão moído de pancada

e condoído do dono,

cão: esfera do sono,

cão de pura invenção,

cão pré-fabricado,

cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,

cão de olhos que afligem,

cão problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!

 

Em: Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães: 1960

alexandreoneillAlexandre O’Neill

 

Alexandre O’Neill – (Portugal 1924-1986) poeta português. Frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crônica semanal no Diário de Lisboa.

 

 

Obras:

 

Tempo de Fantasmas, poesia, 1951

No Reino da Dinamarca, poesia, 1958

Abandono Vigiado, poesia, 1960

Poemas com Endereço, poesia, 1962

Feira Cabisbaixa, poesia, 1965

De Ombro na Ombreira, poesia, 1969

Entre a Cortina e a Vidraça, poesia, 1972

A Saca de Orelhas, poesia, 1979

As Horas Já de Números Vestidas, poeisa, 1981

Dezenove Poemas, poesia, 1983

O Princípio da Utopia, poesia, 1986

Poesias Completas, 1951-1983, 1984

As Andorinhas não têm restaurante, prosa, 1970

Uma Coisa em Forma de Assim, crônicas, 1980








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