Quadrinha sobre o presunçoso, uso escolar

23 06 2009

Menino, com toda elegância, cartão Postal, 1929

Ilustração:  Cartão postal [Alemanha], 1929.

 

Quem julga ser importante

nem sempre importância tem;

e além de deselegante,

é presunçoso também.

 

(Lucina Long)





José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais – texto integral da Revista Kósmos, Nov. 1907

23 06 2009

 

mapamg

Mapa do estado de Minas Gerais.

 

A postagem de anteontem, 1949: a natureza em MG, Francisco de Barros Júnior, lembrou-me do artigo escrito por José Veríssimo para a Revista Kósmos em 1907, que descreve justamente a mineração em Minas Gerais.  Colocarei abaixo o artigo para que todos possam lê-lo:

 

 

QUATRO DIAS EM MINAS GERAIS

 

Não sei se apropriadamente se pode chamar de minas — aberturas subterrâneas, feitas para se tirarem minerais, segundo definem os dicionaristas – às colinas de manganês chamadas Morro da Mina, cuja exploração se faz toda a céu aberto cavando a montanha ou deslocando os blocos de minério que a constituem toda a golpes de enxada ou picareta, como aqui no rio vemos fazer aos cavouqueiros tirando terra ou barro dos nossos morros. E é esta a sua singularidade e preciosidade, que nela a escavação não custa o menor esforço de escavação ou sequer de abertura de galerias, ainda superficiais,  nem mesmo da simples rebusca de um veio a descobrir ou explorar. Todo o morro é mina ou antes mineral; para o aproveitar basta escavá-lo com instrumentos simples e rudimentares, que todo homem sabe manejar, a enxada, o alveão,  a picareta da base ao cimo, faldas a cima, desagregando com extrema facilidade os torrões vermelho escuro com laivos negros que os compõem.  O Morro da Mina, que é certamente uma das curiosidades de Minas, está situado a 5 kilometros a leste de

 

Minas, vista geral

Fotografia do Morro da Mina, Revista Kosmos, 1907.  Sem atribuição de fotográfo. 

 

Queluz de Minas, a 12 horas pouco mais ou menos do Rio pela Estrada de Ferro Central do Brasil, a qual se liga por um ramal de 7 kilometros.  O ponto culminante do Morro da Mina está a 1114 metros de altitude, tendo a linha férrea de contorno da jazida a altitude média de 1050 metros. 

A exploração como disse a cima é toda a céu aberto, e as cabeceiras de ataque estão em uma série de degraus formando outros tantos andares, cuja extensão total é de pouco mais de um quilômetro.  Cada um desses andares é servido por linhas Decauville para vagonetes, exceto o primeiro que o é diretamente pelos carros da Central. Para os andares superiores, em cada cabeceira de trabalho, os vagonetes recebem o minério extraído, o levam a grandes calhas — para depósito, por onde o minério corre diretamente para dentro dos carros da Central que os trazem ao porto de embarque.

É interessante esse modo de carregamento que permite encher cada vagão com cerca de 40.000 quilos em 6 ou 8 minutos no máximo.  O serviço está organizado de modo a serem diariamente assim carregadas 1.000 toneladas.  

O embaraço único para pleno desenvolvimento dessa incomparável exploração mineira está na dificuldade que até aqui tem encontrado de meios d transporte, pois são ainda insuficientes os que lhe oferece a Estrada de Ferro Central.  Acredita porem o diretor engenheiro desta exploração, Dr. Joaquim de Almeida Lustosa, de quem são estas informações, que a atual inteligente e segura orientação e direção daquela Estrada promete para breve um grande aumento na sua capacidade de transporte.

O pessoal efetivo na mina é de cerca de 150 trabalhadores, nacionais e italianos. O minério em todos os carregamentos acusa a média de 50% de manganês metálico.

 

Minas, galeria de passagem para vagonetes Galeria de passagem para vagonetes no Morro da Mina, Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

A jazida está avaliada em cinco milhões de toneladas disponíveis para os primeiros cem metros verticais, a contar de cima para baixo; ficando ainda outros cem metros acima do talvegue do vale, constituindo uma reserva provável de outros tantos milhões de toneladas.  

Em suma, uma imensa riqueza à flor da terra, cujo aproveitamento por esta singular e felicíssima circunstancia quase não dá trabalho e despesa, se o compararmos com o de outros minérios.   E apenas começado a explorar em Minas Gerais o manganês há uma dúzia de anos, em 1894, a sua exportação nos dez primeiros atingiu a 190.591.465 quilogramas.

No outro dia amanhecemos em Cordisburgo, nome meio latino, meio germânico desagradavelmente destoante da costumada anomástica geográfica indígena.

De Cordisburgo à Gruta de Maquine a distância é mais ou menos a mesma que de Honório Bicalho a Morro Velho, uma hora ou um quarto a cavalo, por um terreno mais ondulado do que realmente acidentado, de cujas medianas alturas se descortina por vezes um infindo e belo horizonte, todo rodeado de montanhas que a enorme distância faz azuis.

A gruta de Maquiné, já descrita por Lund e outros, é realmente uma maravilha.  A larga entrada toda de rocha viva, rodeada e coroada de vegetação circundante, lembra um desses grosseiros e robustos pórticos das grandiosas construções pelasgicas, reveladas por Schieliemann.  Passada ela, está-se numa vasta sala, que é de si mesmo pela amplidão e aspecto estranho uma maravilha.  Uma abertura no fundo, à direita leva à outra sala já escura, onde seria impossível andar sem luz.  Começam a aparecer as estalactites e  estalagmites de quartzo, de formas variadas e estranhas, que se repetem em todas as outras salas ou salões, fingindo animais, cadeiras, caras humanas, púlpitos, candelabros, segundo os afeiçoava a imaginação dos visitantes.  Mas tudo estranho, maravilhoso, como vistas de um mundo irreal.  As numerosas luzes que levávamos e as vozes que refletindo-se e repercutindo naquelas abóbadas altas e sonoras produziam um singular efeito.  Nalguns trechos os cristais de quartzo tocados pela luz brilhavam como miríades de diamantes.  A impressão era de assombro. 

A gruta é imensa percorrendo-a rapidamente levamos umas duas boas horas, e creio que três mil homens não ficariam muito apertados nela.

Daí o trecho da viagem mais interessante é a travessia da Mantiqueira, uma lindíssima região a lapestre por mais de mil metros acima do nível do mar  Em alguns pontos o descortino de vastas extensões montanhosas abaixo de nós é realmente magnífico, e a construção desta linha férrea parte da Central do Brasil, recomenda justamente os engenheiros que a realizam.  Aliás, toda a linha férrea por nós percorrida em mais de 1.500 quilômetros é um documento da sua capacidade, como da boa administração dessa nossa grande via férrea.  Não se pode bastante louvar a excelente conservação de toda ela, a regularidade dos seus serviços, o asseio de suas estações, a disciplina do seu pessoal.  Pena é que a sua extrema direção curvilínea se assim posso chamar a sua extraordinária abundância em curvas, determinada pela natureza do terreno por onde correm seus trilhos, lhe não permitam senão excepcionalmente e intermitentemente as grandes velocidades de certas ferrovias estrangeiras.

 

Minas, carregamento de minerio

Carregamento de minério.  Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

A tarde do terceiro dia chegamos a Belo Horizonte, entre o espocar de bombas e os vivas de uma grande multidão aglomerada na estação.  Vista de longe, ao chegar, Belo Horizonte apresenta o aspecto de uma grande cidade.  Dela já tive ocasião de escrever.

“Monumento da vontade e do esforço de uma geração a quem ela só basta para recomendar à nossa estima, Belo Horizonte pela sua posição felicissimamente  escolhida e belíssima, justificando cabalmente o seu nome, apresenta-se já, não obstante a sua minguada população (os cálculos mais generosos não lhe dão mais de 25 mil habitantes) com o aspecto de uma grande e formosa cidade.  Nada, com efeito, a não ser população, elemento aliás principal, lhe falta para isso:  num sítio lindíssimo, e que lhe avantaja magnificamente as proporções atuais, foi traçada a cidade, segundo os preceitos mais modernos e mais bem recomendados em tais criações, serviços municipais exemplares, arruamentos magníficos, excelentemente arborizados, construções custosas e caprichosas, edificação pública suntuária, jardins,  parques, iluminação elétrica, viação urbana ótima.  E tudo isso foi feito apenas em dez anos ou ainda em menos, por um povo que se não presumia quisesse competir com o Yankee em atividade febril.”

De Belo Horizonte, entretanto, vimos muito pouco.  O Dr. João Pinheiro, presidente do Estado, tinha a peito mostrar a seus hóspedes de um dia, principalmente ao mais ilustre deles, um dos aspectos da sua esclarecida administração, a sua preocupação direta e singular dos problemas econômicos em cuja solução ele crê o estado imediata e grandemente interessado.  Para isso íamos de antemão convidados à colônia do Barreiro e ao campo de experiência agrícola de Gameleira.  Eram uns quarenta quilômetros ida e volta que tínhamos de fazer, a cavalo ou de carro, conforma as preferências de cada um e que fizemos.

O primeiro daqueles lugares é o de uma velha fazenda abandonada por imprestável, tanto eram suas terras julgadas “cansadas” segundo a expressão local.

O empreendimento do Dr. João Pinheiro, e que não é só uma empresa oficial de funcionamento burocrático mas que ele acompanha de perto com amor de autor cioso do bom resultado da sua obra e interesse de um administrador zelosíssimo do seu bom renome e do sucesso de seus projetos governativos, aponta a mais de um fim.  Primeiro promover de uma maneira inteligente e eficaz a imigração para Minas Gerais mediante a criação de muitos núcleos coloniais dos quais o de Barreiro é um, onde se deparam ao colono condições de êxito tais que o tentamen não possa absolutamente malograr. Este sucesso conseguido, e tudo faz crer que o seja, estará lançada a semente fecunda da colonização mineira, isto é, criado o movimento inicial da corrente de imigração de que o estado precisa para o aproveitamento de suas indizíveis riquezas.  Segundo, mostrar praticamente ao mesmo indígena desanimado da lavoura pelo cansaço da terra, que em face dos modernos processos agrícolas não há terras cansadas e imprestáveis, e que numa velha fazenda abandonada se pode ainda fazer florescentes lavouras.  Esta segunda parte do seu projeto já o Dr. João Pinheiro a realizou ou está em via de realizar plenamente.  Vimos os campos da bela fazenda admiravelmente lavrados pelo arado e outros instrumentos aratórios, cientificamente adubados, com magníficas plantações de arroz, batatas inglesas e cebolas, que pelos cálculos feitos em nossa presença, e que nos pareceram de exatidão rigorosa, devem pagar sobejamente o trabalho da cultura.  Não há dúvida que essas fazendas velhas que os nossos agricultores  têm abandonado à invasão do mato ou vendido a vilíssimo preço podem ainda ser campo de uma considerável e proveitosa atividade agrícola.  E provando-o experimentalmente o Dr. João Pinheiro não só uma utilíssima lição de coisas ao seu estado mas ao Brasil todo, especialmente aos que no outrora riquíssimo vale do Paraíba abandonaram fazendas e terras, com aquele pretexto de cansadas.

 

Minas, parte central da jazida mostrando 3 planos de ataque

Parte central da jazida, mostrando os três planos de ataque.  Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

A primeira parte do seu programa conta o Dr. João Pinheiro resolveu-a dando a cada imigrante com família, com casa para habitar, e boa casa, um lote com 5 hectares dos quais dois já plantados, e o resto já arroteado, e mais os instrumentos e apetrechos necessários à sua vida agrícola.  O colono não será desanimado pela necessidade de tudo fazer por si e terá, um prazo razoável, três anos, creio, para pagar a despesa com ele feita.  O produto que de sua lavoura colher, ou venderá livremente a quem lhe parecer, ou o entregará ao Estado pelos preços do mercado.  

Tal é, nas suas linhas bem gerais, o sistema do Dr. João Pinheiro.  Eu o vi discuti-lo um dia inteiro com o Sr. Guilherme Ferrero e com Mme Ferrero, ambos muito versados em questões econômicas e ambos com idéias sociais e econômicas contrárias a do estadista mineiro, cujo talvez exagerado protecionismo (pois ele funda o sucesso do seu sistema numa tarifa protecionista que eleve até a proibição o imposto de entrada dos gêneros que as suas colônias devam produzir) ambos combateram com razões que a mim, anti-protecionista como eles, me pareceram fortes.

O Dr. João Pinheiro, ao contrário da maioria dos nossos improvisados estadistas, é um homem de estudo e experiência, do livro e do campo, de pensamento e de atividade prática.  É proprietário de uma grande fábrica de cerâmica e fazendeiro, e sempre se ocupou principalmente desta feição de sua atividade.  Este homem prático, porém, e é isto que a meus olhos o distingue e enobrece,  é também um ideólogo, no bom sentido da palavra.  Um estadista sem idéias, ou sem a capacidade de as apreciar e compreender, é apenas um burocrata ou um politicante vulgar.  Mas na ideologia do Sr. João Pinheiro, há uma força, que é a convicção e o entusiasmo necessário, indispensáveis à realização dos planos como o seu.  O perigo que eu neste vejo é o de todos os grandes planos governativos, do mesmo gênero, que se enriquecem e engrandecem o Estado, prejudicam e empobrecem o indivíduo.

Era na essência o motivo da oposição de Ferrero e sua senhora, que antepõem, e eu estou com eles, o bem do indivíduo ao do Estado.  A eles parecia que os sacrifícios que ia fazer o Estado em bem de seu povoamento e do progresso da sua estacionária e rotineira lavoura, teriam ao cabo de pesar sobre o contribuinte, que desde já viam ameaçados de novos impostos para os pagar.  

 

Minas, segundo plano de ataque da mina

Segundo plano de ataque da mina.  Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

Respondia-lhes convencido e seguro de si o Sr. João Pinheiro que esses sacrifícios eram apenas aparentes e momentâneos, pois de fato o mesmo colono reembolsava o estado do que lhe houvesse custado, e o argumento da riqueza pública, que o povoamento e o desenvolvimento da lavoura forçosamente determinariam, garantiria o bem-estar das populações.

Em teoria parece-me ter toda a razão o Presidente de Minas, mas eu não sei se da experiência de todos os  povos, e nossa mesma, não resulta a verificação de que o enriquecimento e prosperidade do Estado nem sempre corresponde, antes nunca corresponde, o bem-estar do indivíduo cada vez mais sacrificado a ele.  Para alterar a ordem destes valores, requerer-se-iam estadistas inspirados de um espírito novo, como quero crer seja o Dr. João Pinheiro, capazes de se emanciparem da superstição, do fetichismo do estado, Moloch moderno a quem é sacrificado inconsiderada e levianamente o individuo, a pretexto de uma grandeza e prosperidade daquele que rari ssimamente aproveita a este.

De Barreiro, a fazenda velha transformada em futurosa colônia agrícola, fomos a Gameleira que é há um tempo um campo de experiências da nova agricultura e uma escola prática de trabalhos rurais.  Não só se fazem ali com saber e método tais experiências, das quais já vimos explêndidos resultados, como pode ali o agricultor conhecer, ver funcionar e aprender a manejar os mais variados e eficazes instrumentos de lavoura, de toda a espécie e utilidade.

Quem, como nós, acabava de atravessar quilômetros e quilômetros, horas e horas, de caminho de ferro, sem quase ver gente, e apenas alguma rara e escassa lavoura, não podia deixar de dar razão ao atual chefe deste grande e riquíssimo Estado de Minas no seu propósito de promover oficialmente o povoamento do seu solo, pois apesar dos seus 3 milhões de habitantes, a maior população de um estado do Brasil, a impressão que dá Minas a quem o percorre em 3 ou 4 dias de caminho de ferro não está longe da de um deserto.  

                                                                                              José Veríssimo

 

Em: Revista Kósmos,  Novembro de 1907, Ano IV, Número 11.

 

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José Veríssimo

 

José Veríssimo Dias de Matos (Óbidos, PA, 1857 — Rio de Janeiro, RJ, 1916) foi um escritor, crítico, educador, jornalista, sociólogo, sócio do IHGB, sócio-fundador da ABL, diretor da Revista Brasileira, professor, diretor do Colégio Pedro II.  Como escritor, a sua obra é das mais notáveis, destacando-se os vários estudos sociológicos, históricos e econômicos sobre a Amazônia e as suas séries de história e crítica literárias. Na Introdução à sua História da literatura brasileira tem-se uma primeira revelação de todas as vicissitudes por que havia de passar uma literatura que se nutriu por muito tempo da tradição, do espírito e de fórmulas de outras literaturas, principalmente do que lhe vinha de Portugal e da França.  Usou também os pseudônimos: Cândido e José Verega.

 

 

Obras:

 

 

Primeiras páginas, 1878

Emílio Litré, 1881

Carlos Gomes, 1882

Cenas da vida amazônica, ensaio social, 1886

Questão de limites, história, 1889

Estudos brasileiros, 2 séries, 1889-1904

Educação nacional, educação, 1890

A religião dos tupis-guaranis, 1891

A Amazônia, 1892

Domingos Soares Ferreira Penna, 1895

A pesca na Amazônia, história, 1895

Ginásio nacional, 1896

O século XIX, 1899

Pará e Amazonas, 1899

Estudos de literatura, 6 séries, 1901-1907

A instrução pública e a imprensa, educação, 1901  

Homens e coisas estrangeiras, 3 séries, 1902-1908

Que é literatura e outros escritos, 1907

Interesses da Amazônia, 1915

História da literatura brasileira, 1916

Letras e literatos (póstuma), 1936

 

Em domínio Público e  pronta para leitura na internet: História da literatura brasileira 








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