Uma história, uma menção honrosa, um livro! Muita honra!

26 06 2009

Capa, Contos do Livro Errante

 

Este livro reúne os contos premiados no concurso de contos da comunidade Livro Errante do Orkut.  A bela capa, a organização e a formatação são da carioca, arquiteta e professora de arquitetura da UFRJ Cristiane Rose Duarte, que além destas funções também tem um interessantíssimo conto nesta edição.   O livro tem a organização também da gaúcha Márcia Regina Schwertner que também é responsável pelas introdução e apresentação do livro.  Márcia foi também a ponte entre os concorrentes e a banca examinadora, garantindo anonimidade para os competidores.  O livro apresenta 22 textos.  Nem todos os contos premiados, no entanto, estão presentes nesta edição, porque há autores, com outros planos para a publicação de seus contos,  provavelmente em edições estritamente dedicadas a suas obras.    

Esta foi uma parte divertidíssima da minha participação na comunidade do Livro Errante, da qual ainda faço parte e um dos aspectos mais interessantes da troca de idéias e amizades que podem ser atingidos através da internet.  

 Aqui fica o meu agradecimento a Cristiane Rose, a Márcia Regina e a banca examinadora.  Mas, uma outra palavra ainda precisa ser dita:  um agradecimento especial a fundadora da comunidade do Livro Errante, a pernambucana  Regina Porto.  Como vocês podem ver, este grupo de leitores que se encontra no Orkut, cobre o imenso território nacional e fomenta as amizades mais diversas.





Imagem de leitura — Lucília Fraga

25 06 2009

LuciliaFRaga(1895-1979)Leitura,osm,62x46

Leitura, s/d

Lucília Fraga ( Brasil, 1895 – 1979)

Óleo sobre madeira  62 x 46 cm

 

Lucília Fraga (BA, 1895 — SP, 1979) professora, desenhista e pintora brasileira, de estilo figurativo.

 Nascida em Caetité, na Serra Geral, alto sertão da Bahia, mudou-se com a família para Jaú e depois para São Paulo.

 Começou sua formação artística, com Henrique Bernadelli, no Rio de Janeiro e com Pedro Alexandrino e Antônio Rocco, em São Paulo . Suas irmãs Anita e Helena também foram artistas plásticas. Suas obras podem ser encontradas em coleções particulares, alcançando boa cotação no mercado. O Centro Cultural São Paulo e a Pinacoteca do Estado de São Paulo possuem obras suas em seus respectivos acervos.

Sua última exposição foi em Santos, em 1970. Dentre seus ex-alunos destacam-se as artistas Ernestina Karman e Colette Pujol.





O cavalo e o burro, fábula, texto de Monteiro Lobato

25 06 2009

horsedonkeybarlow_400O Cavalo e o burro, ilustração de Frances Barlow, metade do século XVII.

 

O cavalo e o burro

                                                                                              Monteiro Lobato

O cavalo e o burro seguiam juntos para a cidade.  O cavalo contente da vida, folgando com uma carga de quatro arrobas apenas, e o burro — coitado!  gemendo sob o peso de oito.  Em certo ponto, o burro parou e disse:

— Não posso mais!  Esta carga excede às minhas forças e o remédio é repartirmos o peso irmãmente, seis arrobas para cada um.

O cavalo deu um pinote e relichou uma gargalhada.

— Ingênuo!  Quer então que eu arque com seis arrobas quando posso tão bem continuar com as quatro?  Tenho cara de tolo?

O burro gemeu:

— Egoísta,  Lembre-se que se eu morrer você terá que seguir com a carga de quatro arrobas e mais a minha.

O cavalo pilheriou de novo e a coisa ficou por isso.  Logo adiante, porém, o burro tropica, vem ao chão e rebenta.

Chegam os tropeiros, maldizem a sorte e sem demora arrumam com as oito arrobas do burro sobre as quatro do cavalo egoísta.  E como o cavalo refuga, dão-lhe de chicote em cima, sem dó nem piedade.

— Bem feito!  exclamou o papagaio.  Quem mandou ser mais burro que o pobre burro e não compreender que o verdadeiro egoísmo era aliviá-lo da carga em excesso?  Tome!  Gema dobrado agora…

***

Em:  Criança Brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Quarto Livro de Leitura: de acordo com os novos programas do ensino primário.  Rio de Janeiro, Agir: 1949.

VOCABULÁRIO:

Folgando: descansando, alegrando-se; excede: ultrapassa; arque: aguente; tropica: tropeça; maldizem: lamentam; refuga: rejeita.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Francis Barlow ( Inglaterra, 1626? – 1704) Pintor, gravador e ilustrador.  Seu primeiro trabalho foi como ilustrador do livro Theophila, de Edward Benlowe, publicado em 1652.  Em 1666 ilustrou e publicou uma edição das Fábulas de Esopo, que mais tarde, em 1687 foi republicada e depois mais uma vez em 1668.  A versão de 1687 aparece com várias outras fábulas e ilustrações adicionais.    Barlow trabalhou em Londres a partir de 1653 como pintor de animais , pássaros e da vida campestre.   Tudo indica que morreu na pobreza.  Foi sepultado em   11 de agosto de 1704, mas não se sabe ao certo a data de seu falecimento.

Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.  Nota, interessante sobre este texto especificamente:  na fábula grega o incidente ocorre entre uma mula e um burro.





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

24 06 2009

Brasileiro lendo com café da mnhã, praia 1603

Café da manhã, com jornal, água de coco e sol de inverno:  que mais pode querer o aposentado?  Praia de Copacabana, RJ





José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais — texto integral da Revista Kósmos, Outubro 1907

24 06 2009

minasgerais, mineraçãodoouro, eucalol

Mineração do ouro, Minas Gerais, Estampa Eucalol.

 

O artigo de ontem José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais – texto integral da Revista Kósmos, Nov. 1907, foi o que mais se ocupou com a descrição das minas de manganês que eu procurava.  Mas como em quase todas estas publicações antigas o artigo se dividiu em duas partes.  A que transcrevi ontem que foi a segunda parte.  E a que transcrevo hoje, a primeira parte, publicada no mês de Outubro d e1907.  

 

 

QUATRO DIAS EM MINAS GERAIS

 

 

O que distingue e exalta o jovem e já célebre historiador italiano Sr. Guilherme Ferrero é não ser ele um simples erudito, ou artista, ou literato apenas voltado para a ordem de estudos ou de lucubrações que imediatamente interessam a sua especialidade, se não um espírito curioso de todas as coisas, aberto a todas as impressões, interessado de quanto lhe possa fornecer noções, idéias, sensações à sua inteligência ávida de alargar cada vez mais a compreensão das coisas.  Desta sua feição espiritual deriva seguramente a vida que ele pôs na história romana, refazendo-a a seu modo, e intensamente vivificando-a para nosso gosto espiritual.  

Não lhe bastava, pois, ver nossa capital, já quase uma cidade européia, e que lhe podia dar uma idéia falsa do nosso país.  Era-lhe necessário a impressão direta deste no que ele ainda conserva de original e próprio, a surpreendê-lo em flagrante no seu trabalho de transformação.

Uma rápida excursão a Minas Gerais, de quatro dias, após digressão pouco mais longa pelo Estado de S. Paulo, forneceu-lhe ensejo de do Brasil, que rapidamente visitou, não conhecer apenas a capital.  As capitais, como as salas de visita, dão sempre uma idéia falsa das nações, ou das casas, aos que não passaram delas.  S. Paulo e Minas, duas das mais importantes porções do Brasil, e, não  obstante tão juntas, tão distintas uma da outra, de caracteres tão diversos, teriam oferecido a arguta observação do Sr. Ferrero, um historiador para quem a vida comum, cotidiana, é também história, mais de um precioso elemento de informações e de juízo.

Pelo seu afastamento do litoral, pelo isolamento maior do mundo em que a puseram as suas montanhas, pela maior vida local que dentro dela mesma estas, separando os seus diversos cantões, lhe afeiçoaram, Minas, mais conservadora, mas também mais chã, mais ingênua quiçá mais sincera que S. Paulo, tem com este este  ponto de semelhança, que são dois dos estados mais históricos do Brasil. Por menos que da nossa história saiba o eminente historiador italiano, não ignoraria isto.

Em Minas ele viu primeiro, como era natural e conveniente, minas, as de manganês de Lafayette as de ouro do Morro Velho, em Vila Nova de Lima.

Minas, dr Guilherme Ferrero-2

O historiador italiano, Guilherme Ferrero, Revista Kósmos, Out. 1907.  Fotografia sem notificação de autor.

 

Pela natureza do minério, e pelos aspectos da exploração, e do mesmo sítio  em que esta se faz, é talvez mais interessante a Mina do Morro Velho.

A despeito da ordem cronológica, principiamos, pois, por ela.

Fica esta mina de ouro, uma das mais antigas e mais célebres do Brasil, nas proximidades de Congonhas de Sabará, hoje Vila Nova de Lima, no município de São João d’El-Rey, donde vem à companhia inglesa que a explora o seu título de S. John d’El-Rey Mining Company. Por esta são regularmente exploradas as minas do Morro Velho desde 1834, com fases sucessivas de prosperidade ou menor resultado.  Hoje a exploração está em pleno desenvolvimento e, cremos, sucesso.  É feita já a mais de 1500 metros de profundidade numa rede de galerias bastante amplas, suficientemente arejadas, artificialmente iluminadas a luz elétrica numa extensão de alguns quilômetros.  Desce-se a elas por elevadores e nas últimas em grandes caçambas de ferro que se ainda deixam a desejar como comodidade parecem oferecer toda a segurança, o que é essencial.  Nas mais profundas dessas galerias, onde o ar começa a ser mais escasso, e a imaginação nos faz sofrer do peso de mais de mil metros de rocha sobre as nossas cabeças, cavam-se ainda novos poços, donde vimos sair, à meia luz daquelas cavernas, imperfeitamente iluminadas por parcos focos elétricos, como numa visão dantesca de Gustavo Doré, homens inteiramente nus, literalmente cobertos de lama negra dos poços em perfuração.  Mais adiante outros brocavam o granito com instrumentos movidos a ar comprimido, ou agachados sob as abóbadas mal abertas as iam levantando a golpes de picareta, no meio de um barulho infernal das possantes máquinas que ali nas entranhas da terra, distribuem luz, ar, força necessárias aquele duro labor de ciclopes.  Tudo isso numa temperatura de 38 a 39 graus centígrados, e sob a indizível impressão de que um acidente sempre possível, o surgir inopinado de um veio d’água, uma explosão de gazes, vos pode sepultar, em transes horríveis de um desespero sobrehumano, a quilômetro e meio de superfície do solo, sob milhões de metros cúbicos de granito.

 

Minas primeira seção da vista geral de Morro velho

Primeira seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kosmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

Em cima, sobre a mina, estendem-se os edifícios, as oficinas, as usinas da mineração após o trabalho da extração em baixo.  O seu material é de 120 pilões californianos, cujo socar põe em roda um estranho e constante ruído ensurdecedor.  Há ainda aparelhos para o minério e pessoal, bombas, perfuradores, compressores de ar, movido tudo a força hidráulica hidroelétrica e a vapor.  Nas galerias subterrâneas, o minério ou antes a pedra quebrada que o encerra é conduzido por vagonetes de ferro rodando sobre trilhos, puxados por muares, que uma vez descidos aquelas profundezas nunca mais vêem a luz do dia.  Nos seus primeiros 52 anos de existência, (ela tem 72) esta mina do Morro Velho produziu 58.314 quilogramas de ouro no valor de 5.125.000 libras esterlinas, e nos últimos cinco anos, de 1901 a 1905, 13.304.042 gramas no valor de 1.419.051 libras esterlinas.  E no entanto por cada tonelada de pedra extraída não dá senão 18.300 de minério de ouro.  Trabalham nela pouco mais de 2 mil operários,  na sua maioria nacionais.  Chefes, mestres e contra-mestres são todos ingleses.

Minas segunda seção da vista geral do Morro Velho

Segunda seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

A Companhia mantém não longe da confortabilíssima casa do Diretor, um hospital para os seus operários e suas famílias.  Otimamente colocado sobre uma colina, num edifício de um só pavimento todo avarandado, este hospital pode ser modelo no seu gênero, tal é a excelência da sua instalação e a abastança de seus recursos. Dirigem-no dois médicos ingleses.  Como a invejável e largamente hospitaleira residência do Diretor, o amável Sr. Chalmers, é esta casa de saúde, cercada de um parque e jardins admiravelmente cuidados, onde naquele momento havia uma luxuriosa profusão de flores, de soberbas rosas sobretudo. 

Da estação de Honório Bicalho a Morro Velho é uma hora a cavalo, que nós fizemos ao chouto incomodo de burros e bestas.  Salvo no vale do fundo do qual surge Vila Nova de Lima, antiga Congonhas do Campo o Morro Velho, este trecho do sertão não tem nenhuma beleza particular.   Mas vista dos altos que a rodeiam aquela aldeia tem um singular encanto, e o atravessá-la, pelas suas ruas estreitas, ladeirosas e empredadas de matacães roliços, marginadas de velhas e miseráveis casas baixas, feias, de vila colonial, vos trás não sei que sentimento de melancolia.  É o velho Brasil sertanejo, que ainda se demora em desaparecer mas que está evidentemente por pouco.

 

                                                                                  José Veríssimo

Minas, terceira seção da vista geral do morro velho

Terceira  seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.





Quadrinha sobre o presunçoso, uso escolar

23 06 2009

Menino, com toda elegância, cartão Postal, 1929

Ilustração:  Cartão postal [Alemanha], 1929.

 

Quem julga ser importante

nem sempre importância tem;

e além de deselegante,

é presunçoso também.

 

(Lucina Long)





José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais – texto integral da Revista Kósmos, Nov. 1907

23 06 2009

 

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Mapa do estado de Minas Gerais.

 

A postagem de anteontem, 1949: a natureza em MG, Francisco de Barros Júnior, lembrou-me do artigo escrito por José Veríssimo para a Revista Kósmos em 1907, que descreve justamente a mineração em Minas Gerais.  Colocarei abaixo o artigo para que todos possam lê-lo:

 

 

QUATRO DIAS EM MINAS GERAIS

 

Não sei se apropriadamente se pode chamar de minas — aberturas subterrâneas, feitas para se tirarem minerais, segundo definem os dicionaristas – às colinas de manganês chamadas Morro da Mina, cuja exploração se faz toda a céu aberto cavando a montanha ou deslocando os blocos de minério que a constituem toda a golpes de enxada ou picareta, como aqui no rio vemos fazer aos cavouqueiros tirando terra ou barro dos nossos morros. E é esta a sua singularidade e preciosidade, que nela a escavação não custa o menor esforço de escavação ou sequer de abertura de galerias, ainda superficiais,  nem mesmo da simples rebusca de um veio a descobrir ou explorar. Todo o morro é mina ou antes mineral; para o aproveitar basta escavá-lo com instrumentos simples e rudimentares, que todo homem sabe manejar, a enxada, o alveão,  a picareta da base ao cimo, faldas a cima, desagregando com extrema facilidade os torrões vermelho escuro com laivos negros que os compõem.  O Morro da Mina, que é certamente uma das curiosidades de Minas, está situado a 5 kilometros a leste de

 

Minas, vista geral

Fotografia do Morro da Mina, Revista Kosmos, 1907.  Sem atribuição de fotográfo. 

 

Queluz de Minas, a 12 horas pouco mais ou menos do Rio pela Estrada de Ferro Central do Brasil, a qual se liga por um ramal de 7 kilometros.  O ponto culminante do Morro da Mina está a 1114 metros de altitude, tendo a linha férrea de contorno da jazida a altitude média de 1050 metros. 

A exploração como disse a cima é toda a céu aberto, e as cabeceiras de ataque estão em uma série de degraus formando outros tantos andares, cuja extensão total é de pouco mais de um quilômetro.  Cada um desses andares é servido por linhas Decauville para vagonetes, exceto o primeiro que o é diretamente pelos carros da Central. Para os andares superiores, em cada cabeceira de trabalho, os vagonetes recebem o minério extraído, o levam a grandes calhas — para depósito, por onde o minério corre diretamente para dentro dos carros da Central que os trazem ao porto de embarque.

É interessante esse modo de carregamento que permite encher cada vagão com cerca de 40.000 quilos em 6 ou 8 minutos no máximo.  O serviço está organizado de modo a serem diariamente assim carregadas 1.000 toneladas.  

O embaraço único para pleno desenvolvimento dessa incomparável exploração mineira está na dificuldade que até aqui tem encontrado de meios d transporte, pois são ainda insuficientes os que lhe oferece a Estrada de Ferro Central.  Acredita porem o diretor engenheiro desta exploração, Dr. Joaquim de Almeida Lustosa, de quem são estas informações, que a atual inteligente e segura orientação e direção daquela Estrada promete para breve um grande aumento na sua capacidade de transporte.

O pessoal efetivo na mina é de cerca de 150 trabalhadores, nacionais e italianos. O minério em todos os carregamentos acusa a média de 50% de manganês metálico.

 

Minas, galeria de passagem para vagonetes Galeria de passagem para vagonetes no Morro da Mina, Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

A jazida está avaliada em cinco milhões de toneladas disponíveis para os primeiros cem metros verticais, a contar de cima para baixo; ficando ainda outros cem metros acima do talvegue do vale, constituindo uma reserva provável de outros tantos milhões de toneladas.  

Em suma, uma imensa riqueza à flor da terra, cujo aproveitamento por esta singular e felicíssima circunstancia quase não dá trabalho e despesa, se o compararmos com o de outros minérios.   E apenas começado a explorar em Minas Gerais o manganês há uma dúzia de anos, em 1894, a sua exportação nos dez primeiros atingiu a 190.591.465 quilogramas.

No outro dia amanhecemos em Cordisburgo, nome meio latino, meio germânico desagradavelmente destoante da costumada anomástica geográfica indígena.

De Cordisburgo à Gruta de Maquine a distância é mais ou menos a mesma que de Honório Bicalho a Morro Velho, uma hora ou um quarto a cavalo, por um terreno mais ondulado do que realmente acidentado, de cujas medianas alturas se descortina por vezes um infindo e belo horizonte, todo rodeado de montanhas que a enorme distância faz azuis.

A gruta de Maquiné, já descrita por Lund e outros, é realmente uma maravilha.  A larga entrada toda de rocha viva, rodeada e coroada de vegetação circundante, lembra um desses grosseiros e robustos pórticos das grandiosas construções pelasgicas, reveladas por Schieliemann.  Passada ela, está-se numa vasta sala, que é de si mesmo pela amplidão e aspecto estranho uma maravilha.  Uma abertura no fundo, à direita leva à outra sala já escura, onde seria impossível andar sem luz.  Começam a aparecer as estalactites e  estalagmites de quartzo, de formas variadas e estranhas, que se repetem em todas as outras salas ou salões, fingindo animais, cadeiras, caras humanas, púlpitos, candelabros, segundo os afeiçoava a imaginação dos visitantes.  Mas tudo estranho, maravilhoso, como vistas de um mundo irreal.  As numerosas luzes que levávamos e as vozes que refletindo-se e repercutindo naquelas abóbadas altas e sonoras produziam um singular efeito.  Nalguns trechos os cristais de quartzo tocados pela luz brilhavam como miríades de diamantes.  A impressão era de assombro. 

A gruta é imensa percorrendo-a rapidamente levamos umas duas boas horas, e creio que três mil homens não ficariam muito apertados nela.

Daí o trecho da viagem mais interessante é a travessia da Mantiqueira, uma lindíssima região a lapestre por mais de mil metros acima do nível do mar  Em alguns pontos o descortino de vastas extensões montanhosas abaixo de nós é realmente magnífico, e a construção desta linha férrea parte da Central do Brasil, recomenda justamente os engenheiros que a realizam.  Aliás, toda a linha férrea por nós percorrida em mais de 1.500 quilômetros é um documento da sua capacidade, como da boa administração dessa nossa grande via férrea.  Não se pode bastante louvar a excelente conservação de toda ela, a regularidade dos seus serviços, o asseio de suas estações, a disciplina do seu pessoal.  Pena é que a sua extrema direção curvilínea se assim posso chamar a sua extraordinária abundância em curvas, determinada pela natureza do terreno por onde correm seus trilhos, lhe não permitam senão excepcionalmente e intermitentemente as grandes velocidades de certas ferrovias estrangeiras.

 

Minas, carregamento de minerio

Carregamento de minério.  Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

A tarde do terceiro dia chegamos a Belo Horizonte, entre o espocar de bombas e os vivas de uma grande multidão aglomerada na estação.  Vista de longe, ao chegar, Belo Horizonte apresenta o aspecto de uma grande cidade.  Dela já tive ocasião de escrever.

“Monumento da vontade e do esforço de uma geração a quem ela só basta para recomendar à nossa estima, Belo Horizonte pela sua posição felicissimamente  escolhida e belíssima, justificando cabalmente o seu nome, apresenta-se já, não obstante a sua minguada população (os cálculos mais generosos não lhe dão mais de 25 mil habitantes) com o aspecto de uma grande e formosa cidade.  Nada, com efeito, a não ser população, elemento aliás principal, lhe falta para isso:  num sítio lindíssimo, e que lhe avantaja magnificamente as proporções atuais, foi traçada a cidade, segundo os preceitos mais modernos e mais bem recomendados em tais criações, serviços municipais exemplares, arruamentos magníficos, excelentemente arborizados, construções custosas e caprichosas, edificação pública suntuária, jardins,  parques, iluminação elétrica, viação urbana ótima.  E tudo isso foi feito apenas em dez anos ou ainda em menos, por um povo que se não presumia quisesse competir com o Yankee em atividade febril.”

De Belo Horizonte, entretanto, vimos muito pouco.  O Dr. João Pinheiro, presidente do Estado, tinha a peito mostrar a seus hóspedes de um dia, principalmente ao mais ilustre deles, um dos aspectos da sua esclarecida administração, a sua preocupação direta e singular dos problemas econômicos em cuja solução ele crê o estado imediata e grandemente interessado.  Para isso íamos de antemão convidados à colônia do Barreiro e ao campo de experiência agrícola de Gameleira.  Eram uns quarenta quilômetros ida e volta que tínhamos de fazer, a cavalo ou de carro, conforma as preferências de cada um e que fizemos.

O primeiro daqueles lugares é o de uma velha fazenda abandonada por imprestável, tanto eram suas terras julgadas “cansadas” segundo a expressão local.

O empreendimento do Dr. João Pinheiro, e que não é só uma empresa oficial de funcionamento burocrático mas que ele acompanha de perto com amor de autor cioso do bom resultado da sua obra e interesse de um administrador zelosíssimo do seu bom renome e do sucesso de seus projetos governativos, aponta a mais de um fim.  Primeiro promover de uma maneira inteligente e eficaz a imigração para Minas Gerais mediante a criação de muitos núcleos coloniais dos quais o de Barreiro é um, onde se deparam ao colono condições de êxito tais que o tentamen não possa absolutamente malograr. Este sucesso conseguido, e tudo faz crer que o seja, estará lançada a semente fecunda da colonização mineira, isto é, criado o movimento inicial da corrente de imigração de que o estado precisa para o aproveitamento de suas indizíveis riquezas.  Segundo, mostrar praticamente ao mesmo indígena desanimado da lavoura pelo cansaço da terra, que em face dos modernos processos agrícolas não há terras cansadas e imprestáveis, e que numa velha fazenda abandonada se pode ainda fazer florescentes lavouras.  Esta segunda parte do seu projeto já o Dr. João Pinheiro a realizou ou está em via de realizar plenamente.  Vimos os campos da bela fazenda admiravelmente lavrados pelo arado e outros instrumentos aratórios, cientificamente adubados, com magníficas plantações de arroz, batatas inglesas e cebolas, que pelos cálculos feitos em nossa presença, e que nos pareceram de exatidão rigorosa, devem pagar sobejamente o trabalho da cultura.  Não há dúvida que essas fazendas velhas que os nossos agricultores  têm abandonado à invasão do mato ou vendido a vilíssimo preço podem ainda ser campo de uma considerável e proveitosa atividade agrícola.  E provando-o experimentalmente o Dr. João Pinheiro não só uma utilíssima lição de coisas ao seu estado mas ao Brasil todo, especialmente aos que no outrora riquíssimo vale do Paraíba abandonaram fazendas e terras, com aquele pretexto de cansadas.

 

Minas, parte central da jazida mostrando 3 planos de ataque

Parte central da jazida, mostrando os três planos de ataque.  Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

A primeira parte do seu programa conta o Dr. João Pinheiro resolveu-a dando a cada imigrante com família, com casa para habitar, e boa casa, um lote com 5 hectares dos quais dois já plantados, e o resto já arroteado, e mais os instrumentos e apetrechos necessários à sua vida agrícola.  O colono não será desanimado pela necessidade de tudo fazer por si e terá, um prazo razoável, três anos, creio, para pagar a despesa com ele feita.  O produto que de sua lavoura colher, ou venderá livremente a quem lhe parecer, ou o entregará ao Estado pelos preços do mercado.  

Tal é, nas suas linhas bem gerais, o sistema do Dr. João Pinheiro.  Eu o vi discuti-lo um dia inteiro com o Sr. Guilherme Ferrero e com Mme Ferrero, ambos muito versados em questões econômicas e ambos com idéias sociais e econômicas contrárias a do estadista mineiro, cujo talvez exagerado protecionismo (pois ele funda o sucesso do seu sistema numa tarifa protecionista que eleve até a proibição o imposto de entrada dos gêneros que as suas colônias devam produzir) ambos combateram com razões que a mim, anti-protecionista como eles, me pareceram fortes.

O Dr. João Pinheiro, ao contrário da maioria dos nossos improvisados estadistas, é um homem de estudo e experiência, do livro e do campo, de pensamento e de atividade prática.  É proprietário de uma grande fábrica de cerâmica e fazendeiro, e sempre se ocupou principalmente desta feição de sua atividade.  Este homem prático, porém, e é isto que a meus olhos o distingue e enobrece,  é também um ideólogo, no bom sentido da palavra.  Um estadista sem idéias, ou sem a capacidade de as apreciar e compreender, é apenas um burocrata ou um politicante vulgar.  Mas na ideologia do Sr. João Pinheiro, há uma força, que é a convicção e o entusiasmo necessário, indispensáveis à realização dos planos como o seu.  O perigo que eu neste vejo é o de todos os grandes planos governativos, do mesmo gênero, que se enriquecem e engrandecem o Estado, prejudicam e empobrecem o indivíduo.

Era na essência o motivo da oposição de Ferrero e sua senhora, que antepõem, e eu estou com eles, o bem do indivíduo ao do Estado.  A eles parecia que os sacrifícios que ia fazer o Estado em bem de seu povoamento e do progresso da sua estacionária e rotineira lavoura, teriam ao cabo de pesar sobre o contribuinte, que desde já viam ameaçados de novos impostos para os pagar.  

 

Minas, segundo plano de ataque da mina

Segundo plano de ataque da mina.  Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

Respondia-lhes convencido e seguro de si o Sr. João Pinheiro que esses sacrifícios eram apenas aparentes e momentâneos, pois de fato o mesmo colono reembolsava o estado do que lhe houvesse custado, e o argumento da riqueza pública, que o povoamento e o desenvolvimento da lavoura forçosamente determinariam, garantiria o bem-estar das populações.

Em teoria parece-me ter toda a razão o Presidente de Minas, mas eu não sei se da experiência de todos os  povos, e nossa mesma, não resulta a verificação de que o enriquecimento e prosperidade do Estado nem sempre corresponde, antes nunca corresponde, o bem-estar do indivíduo cada vez mais sacrificado a ele.  Para alterar a ordem destes valores, requerer-se-iam estadistas inspirados de um espírito novo, como quero crer seja o Dr. João Pinheiro, capazes de se emanciparem da superstição, do fetichismo do estado, Moloch moderno a quem é sacrificado inconsiderada e levianamente o individuo, a pretexto de uma grandeza e prosperidade daquele que rari ssimamente aproveita a este.

De Barreiro, a fazenda velha transformada em futurosa colônia agrícola, fomos a Gameleira que é há um tempo um campo de experiências da nova agricultura e uma escola prática de trabalhos rurais.  Não só se fazem ali com saber e método tais experiências, das quais já vimos explêndidos resultados, como pode ali o agricultor conhecer, ver funcionar e aprender a manejar os mais variados e eficazes instrumentos de lavoura, de toda a espécie e utilidade.

Quem, como nós, acabava de atravessar quilômetros e quilômetros, horas e horas, de caminho de ferro, sem quase ver gente, e apenas alguma rara e escassa lavoura, não podia deixar de dar razão ao atual chefe deste grande e riquíssimo Estado de Minas no seu propósito de promover oficialmente o povoamento do seu solo, pois apesar dos seus 3 milhões de habitantes, a maior população de um estado do Brasil, a impressão que dá Minas a quem o percorre em 3 ou 4 dias de caminho de ferro não está longe da de um deserto.  

                                                                                              José Veríssimo

 

Em: Revista Kósmos,  Novembro de 1907, Ano IV, Número 11.

 

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Jose_Verissimo

José Veríssimo

 

José Veríssimo Dias de Matos (Óbidos, PA, 1857 — Rio de Janeiro, RJ, 1916) foi um escritor, crítico, educador, jornalista, sociólogo, sócio do IHGB, sócio-fundador da ABL, diretor da Revista Brasileira, professor, diretor do Colégio Pedro II.  Como escritor, a sua obra é das mais notáveis, destacando-se os vários estudos sociológicos, históricos e econômicos sobre a Amazônia e as suas séries de história e crítica literárias. Na Introdução à sua História da literatura brasileira tem-se uma primeira revelação de todas as vicissitudes por que havia de passar uma literatura que se nutriu por muito tempo da tradição, do espírito e de fórmulas de outras literaturas, principalmente do que lhe vinha de Portugal e da França.  Usou também os pseudônimos: Cândido e José Verega.

 

 

Obras:

 

 

Primeiras páginas, 1878

Emílio Litré, 1881

Carlos Gomes, 1882

Cenas da vida amazônica, ensaio social, 1886

Questão de limites, história, 1889

Estudos brasileiros, 2 séries, 1889-1904

Educação nacional, educação, 1890

A religião dos tupis-guaranis, 1891

A Amazônia, 1892

Domingos Soares Ferreira Penna, 1895

A pesca na Amazônia, história, 1895

Ginásio nacional, 1896

O século XIX, 1899

Pará e Amazonas, 1899

Estudos de literatura, 6 séries, 1901-1907

A instrução pública e a imprensa, educação, 1901  

Homens e coisas estrangeiras, 3 séries, 1902-1908

Que é literatura e outros escritos, 1907

Interesses da Amazônia, 1915

História da literatura brasileira, 1916

Letras e literatos (póstuma), 1936

 

Em domínio Público e  pronta para leitura na internet: História da literatura brasileira 





Cão, poema de Alexandre O’Neill

22 06 2009

cachorro azul, ilustração de Maurício de Sousa

Ilustração de Maurício de Sousa.

 

Cão

 

                                   Alexandre O’Neill

 

 

Cão passageiro, cão estrito

Cão rasteiro cor de luva amarela,

Apara-lápis, fraldiqueiro,

Cão liquefeito, cão estafado

Cão de gravata pendente,

Cão de orelhas engomadas,

de remexido rabo ausente,

Cão ululante, cão coruscante,

Cão magro, tétrico, maldito,

a desfazer-se num ganido,

a refazer-se num latido,

cão disparado: cão aqui,

cão ali, e sempre cão.

Cão marrado, preso a um fio de cheiro,

cão a esburgar o osso

essencial do dia a dia,

cão estouvado de alegria,

cão formal de poesia,

cão-soneto de ão-ão bem martelado,

cão moído de pancada

e condoído do dono,

cão: esfera do sono,

cão de pura invenção,

cão pré-fabricado,

cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,

cão de olhos que afligem,

cão problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!

 

Em: Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães: 1960

alexandreoneillAlexandre O’Neill

 

Alexandre O’Neill – (Portugal 1924-1986) poeta português. Frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crônica semanal no Diário de Lisboa.

 

 

Obras:

 

Tempo de Fantasmas, poesia, 1951

No Reino da Dinamarca, poesia, 1958

Abandono Vigiado, poesia, 1960

Poemas com Endereço, poesia, 1962

Feira Cabisbaixa, poesia, 1965

De Ombro na Ombreira, poesia, 1969

Entre a Cortina e a Vidraça, poesia, 1972

A Saca de Orelhas, poesia, 1979

As Horas Já de Números Vestidas, poeisa, 1981

Dezenove Poemas, poesia, 1983

O Princípio da Utopia, poesia, 1986

Poesias Completas, 1951-1983, 1984

As Andorinhas não têm restaurante, prosa, 1970

Uma Coisa em Forma de Assim, crônicas, 1980





Lua, sem ela nós não seriamos nós. Sabe por que?

21 06 2009

luaGetty images.

 

Sabe-se que a vida na terra deve muito a existência da lua.

 

A lua estabiliza a rotação da terra, impedindo que haja movimentos bruscos dos pólos terrestres que poderiam gerar mudanças climáticas enormes.  Se estas mudanças houvessem acontecido os cientistas acredita, que elas teriam prevenido qualquer possibilidade de forma de vida ou da evolução de vida.

A lua também tem sua influencia das marés dos oceanos, que os cientistas acreditam ter sido o lugar perfeito para o aparecimento da vida na Terra. 

Apesar da terra ter os ingredientes necessários para gerar vida, ainda não sabemos se o aparecimento da vida aqui não foi um evento único ou se é alguma coisa que acontece mais ou menos em todo o lugar que tenha condições especificas e certas para o aparecimento da vida.

Sabe-se que a vida na terra deve muito a existência da lua.

 A lua estabiliza a rotação da terra, impedindo que haja movimentos bruscos dos pólos terrestres que poderiam gerar mudanças climáticas enormes.  Se estas mudanças houvessem acontecido os cientistas acredita, que elas teriam prevenido qualquer possibilidade de forma de vida ou da evolução de vida.

A lua também tem sua influencia das marés dos oceanos, que os cientistas acreditam ter sido o lugar perfeito para o aparecimento da vida na Terra. 

Apesar de a terra ter os ingredientes necessários para gerar vida, ainda não sabemos se o aparecimento da vida aqui não foi um evento único ou se é alguma coisa que acontece mais ou menos em todo o lugar que tenha condições especificas e certas para o aparecimento da vida.

O portal Live Science publicou uma lista dos 10 fatos mais interessantes a respeito da lua.  Estou aqui usando a tradução do artigo, publicado em português no portal Terra.

Praia ao luar-2 copy

Luar na praia de Copacabana, foto: Ladyce West

 

Confira abaixo os dez fatos incríveis registrados no satélite da Terra, conforme o site científico Live Science:

10 – O Grande impacto
A teoria mais aceita sobre a origem da Lua é a de que o satélite terrestre é o resultado de uma grande colisão conhecida como Impacto Gigante (Big Whack, em inglês). Conforme os cientistas, a Lua nasceu da colisão entre um planeta do tamanho de Marte, chamado Theia, com a Terra há 4,6 bilhões de anos, pouco tempo depois do Sol e do Sistema Solar existirem. O impacto fez com que uma nuvem de poeira e rochas, composta por parte do núcleo condensado da Terra, se juntasse sobre o planeta e entrasse em órbita.

9 – Terra controla nascer da Lua
Mesmo não sendo ao mesmo tempo, a Lua diariamente surge no leste e se põe no Oeste, assim como o Sol e outras estrelas, também pela mesma razão: A Terra gira em torno do seu eixo em direção ao Leste, puxando objetos celestes no caminho e, em seguida, os empurra para fora. A Lua tambpem realiza uma viagem orbital ao redor do planeta uma vez a cada 29,5 dias.

No céu, o movimento é gradual ao leste, mas não é perceptível durante uma observação. O motivo explica porque o satélite terrestre fica maior cada dia mais tarde, em média, por cerca de 50 minutos. Por isso também a Lua aparece as vezes no anoitecer ou durante a noite, enquanto em outros momentos ela pode ser vista de dia.

8 – Sem “lado negro”
Contrariando o que muitos acreditam, cientistas explicam que a Lua não possui um “lado negro”, e sim, um “outro lado” que não pode ser visto da Terra. Há muito tempo, os efeitos gravitacionais terrestres diminuíram a rotação da Lua em torno do seu eixo. Assim que o satélite desacelerou o suficiente para corresponder ao seu período orbital – o tempo que leva para a Lua viajar ao redor da Terra -, os efeitos se estabilizaram.

Por causa disso, a Lua dá uma volta na Terra e gira em torno de si uma vez e na mesma quantidade de tempo, mostrando apenas um lado em tempo integral.

7 – Gravidade muito menor
A lua é muito menos massiva do que a Terra, tendo 27% do tamanho do planeta azul. A gravidade em sua superfície também é muito menor, sendo apenas um sexto da encontrada na Terra. Ou seja, se uma pessoa pesa 150 kg aqui no chão, lá em solo lunar ela vai pesar 25 kg. Uma pedra jogada para cima também caíra de forma bem mais lenta.

6 – Lua mais ou menos cheia
A órbita da Lua em torno da Terra possui forma oval, e não de um círculo, de modo que a distância entre o centro da Terra e do centro lunar varia ao longo de cada percurso. No perigeu, quando a Lua está mais próxima da Terra, a distância é de 363,3 mil km. No apogeu, quando está mais longe, a distância é de 405,5 mil km. Quando a Lua cheia surge durante o apogeu, o disco visível da Terra pode ser entre 14% e 30% mais brilhante que outras fases lunares.

Quando a lua está nascendo, ela parece ser maior, mas isso é uma ilusão que ainda os astrônomos não sabem explicar. Se alguém quiser testá-la, deve segurar um objeto pequeno, como uma borracha, com o braço esticado próximo à lua, e depois fazer a mesma experiência quando a lua estiver mais alta e parecer menor. Próxima ao objeto pequeno, a Lua fica com o mesmo tamanho nos dois testes.

5 – Histórico de violência
Os cientistas acreditam que as crateras lunares confirmam um passado violento no histórico lunar. Apesar de quase não haver atmosfera e atividade em seu interior, a Lua bateu recordes de quedas de corpos espaciais há bilhões de anos.

A Terra também sofreu com o bombardeio, mas as crateras foram desaparecendo com o tempo devido aos efeitos climáticos. De acordo com um estudo, os impactos podem ter ajudado no desenvolvimento das formas de vida existentes na Terra na época, em vez de destruí-las.

4 – Formato semelhante a um ovo
A Lua possui o formato oval e não arredondado ou esférico como alguns pensam. Se uma pessoa sair na rua para observá-la, uma de suas pequenas extremidades da direita estará virada para ela. Por causa desse efeito é que ela parece redonda.

3 – Cuidado! Terremotos lunares
Se engana quem pensa que a superfície lunar é sempre um mar de tranquilidade. Durante as visitas ao satélite munidos de sismógrafos, os astronautas descobriram que a estrutura geológica é bastante hostil.

Pequenos terremotos acontecem com frequência, provavelmente devido à força gravitacional liberada pela Terra, causando rachaduras no solo e liberando gases. Segundo os cientistas, a Lua possui um centro quente semelhante ao do planeta azul.

2 – Atração nos mares
Por incrível que pareça, as marés na Terra são causadas pela gravidade da Lua (o Sol em menor intensidade), que “puxa” os oceanos. Durante a rotação da Terra, as marés altas se alinham com a Lua. Do outro lado do planeta, a maré também fica alta pelo fato de que a gravidade “puxa” a Terra em direção ao seu satélite mais do que atrai a água.

O resultado de todos esses efeitos é interessante: conforme os cientistas, parte da energia rotacional da Terra é “roubada” pela Lua, fazendo com que o planeta fique mais lento em aproximadamente 1,5 milissegundos por século.

1 – Tchau, Lua!
Infelizmente, a Lua está se afastando da Terra gradativamente e, a cada ano, a distância aumenta 4 cm. Os pesquisadores explicam que, há 4,6 bilhões de anos, quando a Lua se formou, ela estava a 22 mil km da Terra. Atualmente, a distância evoluiu para 450 mil km.

Um estudo informa que a taxa de rotação da Terra está diminuindo, o que deixa os dias cada vez maiores. Os cientistas acreditam que se este efeito prosseguir, em bilhões de anos um dia terrestre poderá durar cerca de um mês.





1949: a natureza em MG, Francisco de Barros Júnior

21 06 2009

minasgerais, mineraçãodomanganês,eucalol

Estampa Eucalol: Mineração do manganês em Minas Gerais

          No meio do debate sobre desmatamento versus preservação, a semana que passou foi pontuada por palavras do presidente Lula, favorecendo o desmatamento em função de um possível progresso.  Os resultados de planos como esse infelizmente não trazem as benfeitorias sociais de longo prazo tão anunciadas.  Isso já foi demonstrado dezenas de vezes por estudiosos do assunto.  Hoje, esses são discursos difíceis de serem aceitos por qualquer um de nós,  brasileiros, que se importa com o meio ambiente.  É quase inacreditável que mesmo com as conseqüências já bastante conhecidas e  prejudiciais ao planeta, haja líderes eleitos, como os nossos, que ainda defendam o desmatamento.  É um discurso antigo.

          Vale lembrar algumas mudanças que já se fizeram notar no nosso meio ambiente, mudanças que ocorreram através da exploração de minerais, de minério de ferro, de manganês, de ouro, que contribuíram para alguns dos problemas do meio ambiente enfrentados no  Brasil, nos dias de hoje.  Não especifico, aqui, mudanças no meio ambiente através de séculos de exploração, mas das mudanças que ocorreram, nos últimos 50, 60 anos. 

 Transcrevo a seguir, um pequeno texto, publicado em 1949, de Francisco de Barros Júnior para consideração.  

alberto da veiga guignard,Sabará, 1949,osm 38x47,

Sabará, 1949

Guignard (Brasil 1896-1962)

Óleo sobre madeira, 38 x 47 cm

          De um lado, o Paraíba demandando, em saltos e corredeiras através das gargantas da serra, as planícies campistas.  Do outro, a majestosa Mantiqueira coberta de pastagens que substituíram as matas, de onde saíram as caviúnas e jacarandás para as preciosas arcas, mesas e camas entalhadas, que adornavam os lares de nossos maiores, e que nos mesmos lugares há mais de cem anos devem ainda estar nas salas , quartos e alpendres daquela fazenda da margem esquerda, situada a meia encosta.  Com seu pomar onde avultam as enormes mangueiras, com a grande casa senhorial assobradada, ostentando portais e janelas em arco, discretamente velada pelo renque de altíssimas palmeiras imperiais, com os muros do “quadrado” em que viviam os escravos, com as grandes cocheiras e estábulos, os quartos de arreios, os galpões onde talvez ainda durmam poeirentos, os banguês e berlindas ricamente decorados e os amplos terreiros de largas lajes, são um testemunho do fausto em que viviam seus orgulhosos senhores.

          Usando do privilégio de narrador, vamos prosseguir de dia, pois se continuássemos pelo mesmo trem, nada veríamos da terra mineira.  Façamos de conta que, vindos pelo noturno paulista, tomamos em Barra do Piraí o primeiro rápido mineiro, ruma a Belo Horizonte.

          A locomotiva galga lerda e resfolegante os aclives máximos, fazendo-nos mergulhar com freqüência nas trevas de curtos túneis.  A terra é montanhosa, dificilmente se vê uma planície, e o coração dos que pela primeira vez viajam por essas paragens fica constantemente apertado, quando o desengonçado comboio passa em vertiginosa velocidade a cavaleiro de insondáveis abismos…

          Passamos pela linda Juiz de Fora a que seus filhos chamam orgulhosamente de “Manchester Mineira”, e que julgam rival da Capital, pelo seu comércio e convívio social selecionado…  Depois, Palmira, hoje Santos Dumont, em homenagem ao genial patrício nascido em fazenda de seu município.  Cidade pequena e graciosamente espalhada por duas colinas, o que lhe dá um aspecto de mimoso presépio.  È o refúgio das vítimas do cruel bacilo de Koch, graças ao ameno clima de seus novecentos metros de altitude.

          Agora, Barbacena, alcandorada no tope da montanha, e que nos aparece de grande distância, vestida de branco.  À chegada, passamos pelos imponentes edifícios do Patronato Agrícola, de administração federal, onde os barbacenenses vão buscar ótimos legumes, figos, uvas, ameixas, e saborosos caquis.

          Até aqui, a zona pastoril, terra do leite, manteiga e queijos deliciosos.  A seguir mergulhamos no domínio das matérias-primas, por cuja porta – Lafaiete – sai o manganês puríssimo de suas inesgotáveis jazidas.  Intermináveis comboios estão nos desvios, abarrotados desse precioso minério, esperando linha para descer até o Rio, e de lá no bojo de transatlânticos, irão para a América do Norte, endurecer o aço dos canhões e das couraças…  Sobre diversas colinas íngremes, à nossa direita, está Congonhas do Campo, em cujas igrejas se perpetuou o gênio do Aleijadinho, essa tosca encarnação de Miguel Ângelo, arquiteto, pintor e escultor.

          Pelas estradas marginais, trotam em fila dezenas de cargueiros carregados de carvão vegetal para alimento dos altos fornos de Itabirito, que, na penumbra da tarde, lançam para o céu o fogacho rubro de suas entranhas, de onde escorre o ferro moldando-se em lingotes, que irão para a insaciável indústria paulista.

          As necessidades da siderurgia vêm devastando as matas há muitos anos, e de longe deve estar chegando esse carvão.  Os caçadores dessa zona têm de ir a grandes distâncias para encontrar codornas e perdizes, afugentadas com as plantações de capim gordura, em cujo meio não podem viver.

          É noite fechada, e a poderosa iluminação da capital projeta-se contra nuvens baixas, localizando-a a muitos quilômetros.

          Os apressados despem o guarda-pó ainda muito em uso nesse Estado, reúnem embrulhos e malas que arrumam sobre os bancos, e muito antes de chegar à plataforma, já estão com meio corpo fora da janela chamando pelos carregadores, na ânsia de serem os primeiros a desembarcar.  Demoro-me bastante para retirar a bagagem despachada, e minha atenção vai para um carrinho que roda em direção a um vagão de bagagem, especial, ligado ao noturno, já pronto para descer rumo ao Rio.  Cercam-no cinco ou seis soldados e vários sujeitos carrancudos com ares de ferrabrazes de opereta.  Nele, vão quatro ou cinco caixotes fortemente arqueados e lacrados, e sou rudemente afastado por um dos referidos capangas, quando pretendo aproximar-me do misterioso cortejo…  È meia tonelada de ouro puro em lingotes, produto de todo um mês de trabalho nas minas de Morro Velho, destinados aos cofres do Banco do Brasil.  Deixa o ilustre itinerante sua obscura morada onde viveu milhões de anos a três mil e seiscentos metros abaixo da superfície do mar, na mais profunda mina do mundo, para um palácio confortável, onde terá uma corte vigilante e respeitosa.

          Começa o reinado de sua majestade o Ouro!

          Terra Brasileira!

          Nossa terra!…

 

***

Em: Caçando e pescando por todo o Brasil, 3ª série: Planalto Mineiro, O São Francisco e Bahia, Francisco de Barros Júnior, São Paulo, Melhoramentos: 1949, 2ª edição, páginas 25-28.

minademanganêsemconslafaiete

Mina de Manganês em Conselheiro Lafaiete, MG.

Francisco Carvalho de Barros Júnior (Campinas, 14 de dezembro de 1883 — 1969) foi um escritor e naturalista brasileiro que ganhou em 1961 o Prêmio Jabuti de Literatura, na categorua de literatura infanto-juvenil.

Francisco Carvalho de Barros Júnior, patrono da cadeira n° 16 da Academia Jundiaiense de Letras, colaborou em vários jornais e revistas e é o autor da série Caçando e Pescando Por Todo o Brasil, um relato de viagens pelo Brasil na primeira metade do século XX, descrevendo diversos aspectos das regiões visitadas (entre outros botânica, animais e populações caboclas e indígenas).

Obras:

Série Caçando e Pescando Por Todo o Brasil

Primeira série: Brasil-Sul, 1945

Segunda Série: Mato Grosso Goiás, 1947

Terceira Série: Planalto Mineiro – o São Francisco e a Bahia, 1949

Quarta Série: Norte,  Nordeste,  Marajó, Grandes Lagos, o Madeira, o Mamoré, 1950

Quinta Série: Purus e Acre, 1952

Sexta Série: Araguaia e Tocantins, 1952

Tragédias Caboclas, 1955, contos  

Três Garotos em Férias no Rio Tietê, 1951, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Paraná, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Paraguai, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Aquidauana, infanto-juvenil

guignardAlberto da Veiga Guignard

 

Alberto da Veiga Guignard (Nova Friburgo, 25 de fevereiro de 1896Belo Horizonte, 25 de junho de 1962) foi pintor, professor, desenhista, ilustrador e gravador mas acima de tudo um famoso pintor brasileiro, conhecido principalmente por retratar paisagens mineiras. Fluminense por nascimento, mas mineiro por opção, registrou, na maioria dos seus quadros, as belezas naturais de Minas Gerais, em especial de Ouro Preto: «Ouro Preto é a sua cidade, amor, inspiração.»  É o próprio pintor que faz, por escrito, nesta singela frase, sua declaração de amor à histórica cidade mineira, antiga capital do Estado, berço de Aleijadinho e inspiração de tantos outros artistas. Guignard participou dos Salões de 1924, 1929, 1939 e 1942, no Rio de Janeiro; realizou algumas exposições individuais dentro e fora do país; marcou presença na 1ª Bienal de São Paulo. Houve, ainda, várias exposições após sua morte, a maioria delas em Belo Horizonte.

Texto: Pitoresco








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