Quadrinha para a infância: o sentido da vida

5 01 2010

menino com passarinhos

Não creio ser necessário

explicar meu ideal…

—  Por que é que canta o canário?

—  Por que é que voa o pardal?

( Moysés Augusto Torres)





Olha para o céu, Frederico! de José Cândido de Carvalho

5 01 2010

Engenho de dentro, s.d.

Bustamante Sá (Brasil, 1907-1988)

óleo sobre tela, 60 x 73 cm

Coleção particular

Comecei o ano de 2010 com a leitura de um clássico brasileiro, um livro cujo título virou quase que um jargão, com muitas pessoas o repetindo, já sem saberem referência exata.  Uma pequena busca no Google mostra esta frase sendo usada para os mais diversos fins.  Sinal do seu grande sucesso.  Olha para céu, Frederico! foi o meu segundo José Cândido de Carvalho.  Conhecido de todos que freqüentaram escolas brasileiras pelo romance O Coronel e o Lobisomen, José Candido de Carvalho acabou tendo o resto de sua obra injustamente relegada a um outro patamar.   Então hoje, começo a colocar em dia a dívida que tenho comigo mesma de conhecer melhor o trabalho deste autor fluminense.

 

A característica mais marcante deste romance, além do retrato dos negócios e da decadência moral das famílias usineiras de açúcar da região de Campos dos Goytacazes,  é, sem dúvida, um delicioso senso de humor que  seduz e capacita o escritor a falar de assuntos sérios sem que venha a melindrar os orgulhos de famílias locais ou as politicagens bastante conhecidas dos anos 30 na região retratada.   Além deste senso de humor, há no romance inteiro, as mais saborosas expressões, figuras de linguagem, que me fizeram parar a leitura e anotá-las, não só porque me pareceram novas, mas também porque me fizeram recordar de umas outras tantas maneiras de falar de pessoas que conheci na minha infância, quando a influência e a homogeneização da cultura através dos meios de comunicação nacionais não era ainda tão extensa.  Aqui estão algumas dessas delícias:

Quem visse Frederico assim de fala mole, com miséria nas conversas, era capaz de acreditar num São Martinho encalhado, de rodas mortas, com ninho de rato nas fornalhas.  Conheci e vi morrer meu tio com esses lamentos que só acabaram quando sua boca se fechou vazia de palavras”.

Era alto como vela de promessa”.

Tanta gentileza acabou por trazer Dona Lúcia para a cama de Frederico.  Os parentes é que não viam nada.  Só olhavam a velhice de meu tio, a plantação que podia nascer em sua testa”. … “Agora, com um simples negócio de altar, os mourões do São Martinho ficavam sendo as pitangueiras da praia”.

O raposão do meu tio não mostrava as unhas.  Na varanda, de tarde, esparramado na cadeira de preguiça, lia os jornais.  Vinha gente tirar prosa com ele.  Conversinhas de calor, da miséria de fim de vida que andava solta pelo mundo”.

Os barões, dependurados em pregos de parede, por trás das barbas , espiavam meus desmandos”.

José Cândido de Carvalho

Eduardo, nosso narrador, um menino órfão, vai morar com o tio Frederico e nunca chega a entender o velho.  Não percebe como o tio era uma raposa velha, sempre comendo  beiradas, parecendo um cordeirinho, mas que na  hora H, dava o bote certeiro arrancando tudo do vizinho, do parente mais próximo, de quem fosse mais fraco,  mesmo sem o saber.  Frederico era um estrategista, com homem com olho grande, matreiro, conhecedor das fraquezas humanas. 

Tendo passado os primeiros anos de sua vida na família de outro tio, Eduardo, chega à casa de Frederico cheio de orgulho por seus antepassados, nobreza brasileira, dona de terras e de gente.  Depois de quase quinze anos no engenho São Martinho, com Frederico, ele recebe uma vistosa herança quando o tio morre.  Mas Eduardo mostra que todo o tempo passado nessa usina de açúcar, pouco o atingiu.  Só mesmo o aprendizado de sem-vergonhice vingou.  No mais, ele que parece aberto à modernidade, às máquinas para melhor aproveitamento da cana de açúcar, mas logo, logo, mostra que em seu íntimo ainda vive de um esplendor imaginado da época de seus antepassados e espalha arrogância e desprezo pelos outros.

E assim vai o romance, com a prosa descontraída das conversas de varanda, com ritmo próprio que acompanha um enrolar de cigarro de palha, ou se cala para ouvir os primeiros grilos de um início de noite.  Mas, por trás desta ingenuidade quase caipira, há uma forte crítica à sociedade dos usineiros, dos donos das terras, dos decadentes baronatos, gente com mentalidade de estupradores da terra, piratas permissionários pela monarquia, que pouco construíram além de famílias ilegítimas, de uma prole gerada com ex-escravas ou mulheres sem condições financeiras.  Este grupo de irresponsáveis, mal letrados, preferiu continuar com a exploração nos moldes escravagistas, em que todos de quem dependia cresciam abandonados, sem recursos financeiros ou intelectuais, fadados a perpetuar a pobreza no campo por gerações e gerações futuras.

Olha para o céu, Frederico! é um livro que vale a pena ser lido, para nos lembrarmos também de como chegamos aqui, até hoje, em 2010.  E para sabermos não repetir os erros do passado, de um passado nem tão longínquo.  Apesar da seriedade do assunto tratado, o texto é leve, cheio de passagens humorísticas que nos levam facilmente ao fim: sem sermões, sem dogmatismo.  Uma excelente leitura.   





Cabine para mulheres, Anita Nair

5 01 2010

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

Este foi um livro fascinante que li recentemente.  Excelente!  Tem uma narrativa apoiada no entrelaçamento de seis histórias diferentes.  Todas elas envolvem mulheres e apresentam o perfil de cada uma delas com suas limitações, esperanças, preocupações e dão uma idéia, não explícita mas clara, de seus desejos. 

A história de Akhila, uma mulher de 45 anos, que procura um pouco de felicidade na vida, é o fio que nos leva de uma a outra mulher.  Ela nos direciona pela mão através do livro e, de fato, curiosos de seu destino, sabendo que ela terá que tomar decisões difíceis, vamos até o fim do romance.   O denominador comum entre todas as histórias que desvendamos é o universo das experiências femininas.

Através do texto somos convidados a considerar se diferenças culturais ou regionais não são de fato só um cosmético, só uma desculpa talvez para considerarmos as experiências dos outros diferentes das nossas.   O que descobrimos, — e que certamente já era conhecido por nossa intuição – é que quer essa mulher quer seja Akhila, na Índia, Nicole na França, Mary Ann nos Estados Unidos ou  Teresa no Brasil, elas todas têm histórias que se assemelham, e diferenças que se apagam ao considerarmos o todo. 

O título do livro se refere a um costume indiano que foi abolido em 1998 que segregava balcões especiais para mulheres, para a 3ª idade e para as pessoas com necessidades especiais nas estações de trem da Índia.  Nos trens com viagens que atravessavam a noite, vagões especiais na segunda classe eram reservados para mulheres.   Baseado neste espaço reservado às mulheres, a história lembra desta prática de dar às mulheres um espaço reservado longe dos olhos masculinos, como hoje em dia foi instalado no metrô do Rio de Janeiro.    Este vagão para mulheres abria a possibilidade delas falarem a respeito de seus casamentos, de suas vidas, longed a observação de seus maridos.  A artimanha de contar suas histórias começa exatamente quando Akhila, sobre num desses vagões e se prepara para uma longa viagem.  Aos poucos vamos conhecendo a vida das passageiras.

Anita Nair

 

Este é um livro repleto de mulheres fortes que pegaram as rédeas de suas vidas com as próprias mãos e saíram para conquistar seu lugar, por menor que ele fosse.   Mesmo pequenino esse espaço conquistado foi uma vitória, talvez até nem tão grande quanto elas tivessem sonhado, talvez até muito pequeninos por padrões de outras vidas, mas cada qual ganhou mais poder sobre sua própria existência.  Elas sofrem as consequencias desta liberação,  muitas vezes consequencias que nos parecem injustas, mas mais importante que isso, elas VIVERAM! 

Este livro liberta a alma feminina.  Cinco estrelas.

24/02/2006





Imagem de leitura — Teodoro Nuñez Ureta

5 01 2010

A leitura, 1930

Teodoro Nuñez Ureta ( Peru, 1912 – 1988)

Teodoro Nuñez Ureta, nasceu em Arequipa, Peru em 1912.  Autodidata.  No entanto, graças a seu pai que trabalhava numa livraria na cidade, Nuñez Ureta foi exposto à obras dos grandes pintores internacionais, através dos livros de arte que seu pai trazia para casa.   Quando terminou a escola secundária, ainda não foi se dedicar à pintura exclusivamente.  Ao invés, foi para a Universidade Nacional de San Agustin, onde se formou como Doutor de Filosofia e Letras com uma tese sobre o grotesco e o cômico na arte.  Daí por diante passou a ensinar na universidade na cadeira de História da Arte e Estética  (1936-1950).  Foi um homem brilhante, excedendo-se tanto nas artes plásticas, principalmente com a pintura mural, como na´escrita e na pesquisa em história da arte.  Em 1943 ganha um concurso nacional na imprensa e mais tarde, no mesmo ano, segue para os EUA patrocinado pela Fundação Guggenheim.  O resultado deste período de pesquisas foi imdeidato, em 1945 publica o livro:  A Academia e a Arte Moderna.  Muda-se para Lima e em 1959 é premiado pelo mural que pintou para o Ministério de Economia Finanças e Comércio em 1954.  Foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes em Lima (1973-1976).  Faleceu em Lima, em 1988.








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