Papa-livros: Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum, resenha

24 01 2010

Manaus, foto antiga, coleção Allen Morrison.

Se eu tivesse que expressar visualmente a minha impressão do livro de Milton Hatoum, Relato de um certo oriente, teria que dizer que como leitora, fui habilmente seduzida por um texto cuja história se mostra tímida, escondida nas entrelinhas, e que vai se revelando, a contragosto, com algumas contorções, com gestos delicados e incompreensíveis,  com mudanças de ritmo e de perspectiva.  Foi como se eu tivesse sido vítima de magia, encantada por uma Salomé, por uma dançarina oriental, debaixo de sete véus.  Infelizmente, Milton Hatoum não me deu, como leitora, a oportunidade de descobrir a total beleza da mulher que se desnuda à minha frente.  O último véu, aquele que encobria o rosto, aquele que só me  permitia, até o último momento, ver só os olhos pelos quais me aproximei da história, esse véu não caiu.  A última barreira para a identidade da narradora dessa trama,  para o seu nome, fica presa naquela película translúcida através da qual sinto a presença da face.   Gostaria de que esse véu tivesse também caído, para saber ao certo, sem quaisquer dúvidas,  a identidade dessa personagem, filha adotiva,  sem-nome, que volta à casa da infância e se lembra das histórias do passado.  Os detalhes do rosto que vislumbro e que imagino, no entanto, nessa dança sedutora, não me são jamais revelados.  Foi grande a frustração causada pela narrativa dissimulada, oblíqua da história desta família de imigrantes do Oriente Médio no Amazonas.    Terminado o texto, voltei ao início do livro para ter certeza de que não havia perdido algum detalhe que houvesse me desviado para um final inconclusivo, mas continuei, depois de reler o texto, com a inconveniente sensação de uma narrativa que carecia de um único detalhe para um desfecho pleno, satisfatório.

Esse é o terceiro livro de Milton Hatoum que leio.  Já havia lido Dois irmãos, de que gostei imensamente, e Órfãos do Eldorado, cuja resenha pode ser encontrada aqui no blog.   Esse grande escritor amazonense me agrada.  Aprecio sua dedicação à memória, à memória cultural, à memória individual.  Sem ela não somos, simplesmente estamos.  Milton Hatoum tem uma maneira onírica de contar histórias e é capaz de nos levar facilmente a um mundo meio-sonho, meio realidade, à zona da imaginação que pontua narrativas de um passado não muito distante.  Como nos livros citados acima, este romance também se passa em Manaus, essa última fronteira, terra de água e de floresta, de culturas imigrantes e nativas.  Ali os mundos se encontram e aprendem a conviver.

Milton Hatoum, foto: Lucila Wroblewski.

A trama é centralizada numa família, cujos principais componentes e eventos que a cercam são contados não só pelas lembranças da principal narradora, uma mulher que, passados vinte anos, retorna ao lar da infância, mas por outras vozes também.  Ela era a filha adotiva do casal de imigrantes, e permanece o centro das recordações.   A narrativa é composta de diversas memórias, não só dessa filha, mas também de outros membros da família, de amigos, memórias  que se entrelaçam e se confundem.   Conhecemos assim por pedaços, por insinuações o mundo de Emilie, matriarca desse clã libanês.  Ao longo da narrativa tive consciência da herança da cultura oral brasileira e das culturas do Oriente Médio.  Com uma narrativa evocativa, o romance ganha profundidade a cada relato, a cada personagem que conta parte da história.  Acaba-se com a sensação de se ter lido, de fato um grande romance.  Gostaria, no entanto, de fazer a seguinte observação:  acho que Milton Hatoum complica um belíssimo texto, mais do que necessário.  Se eu, que sou leitora assídua e regularmente inteligente, tenho que pegar papel e lápis para fazer anotações e ver se estou entendendo direito o que acontece na trama, há algo de errado.   E foi isso o que aconteceu comigo.  Li o livro com papel e lápis na mão.  Até um esboço de uma árvore genealógica construí.  Não acredito que isso deva acontecer.  Qualquer que seja o romance, de quem quer que seja.  Mas mesmo assim, a força narrativa de Milton Hatoum, e seu texto, cuidadoso — como hoje já quase não vemos na literatura brasileira — não deixam que eu coloque esse livro de lado.  Vou recomendá-lo, mas advirto, nem sempre o texto tem a clareza que deveria  transmitir.  Fiquei frustrada e me senti manipulada com essa narrativa oblíqua e dissimulada.








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