A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

3 02 2010

 

Há tempos eu não lia compulsivamente.  Em geral leio de dois a três livros simultaneamente, mas confesso que no mês de janeiro houve duas narrativas, completamente distantes uma da outra que não me deixaram dividir meu tempo livre com qualquer outra história.  Foram leituras sedutoras do início ao fim e que pediram e ganharam a minha total atenção enquanto leitora:  O tigre branco, de Aravind Adiga [Nova Fronteira: 2008] e A solidão dos números primos de Paolo Giordano [Rocco: 2008].  Hoje vou me concentrar no livro italiano.

Eu não teria acreditado, se me dissessem, que eu iria me interessar, que iria ler apaixonadamente, um romance que tratasse das vidas de pessoas muito complexas,  que carregavam traumas da infância.  Pessoas que cresceram no meio de famílias ineptas, que não conseguiam lhes dar atenção.  Famílias, pais, que  não notam  as  carências dos filhos, que os deixam sofrer distúrbios emocionais.  Essa descrição dos dois principais personagens de A solidão dos números primos, Alice e Mattia, teria simplesmente feito com que eu fechasse o livro e dito: Não sei se me encontro num momento emocional para ler sobre este tipo de tragédia Ando a procura de uma história mais branda…  Que erro eu teria cometido!  Porque não teria sido apresentada a esta história maravilhosa, a este livro sedutor.

Mas aí entra a arte deste recém descoberto escritor, Paolo Giordano.  Sua primeira profissão é a física. É formado em Física pela Universidade de Turim, onde ganhou uma bolsa de doutoramento em Física de Partículas. A segunda profissão, só agora começada, é a de escritor.  Não sei se uma tomará a frente da outra.  Numa entrevista à revista Elle, o escritor, que foi agraciado com o maior prêmio literário da Itália, o Prêmio Strega, em 2008,  por este primeiro romance, com o qual também recebeu uma menção honrosa do Prêmio Campiello no mesmo ano,  garante que gosta mais de escrever.  Espero que sim, pois revelou uma voz única e bem sucedida. 

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Parte do sucesso dessa narrativa vem da revelação, muito bem descrita, dos sentimentos de inadequação dos adolescentes, sentimentos que serão permanentes em cada um dos protagonistas.  Alice e Mattia têm essa inadequação elevadíssima: conseqüência do sofrimento físico ou psicológico sofrido por cada um na infância.  Vivem em extrema solidão, mesmo sendo membros de famílias confortavelmente estabelecidas na classe média.  Acompanhamos suas vidas de 1983 a 2007.  Enquanto Mattia, que tem o perfil de um gênio, se refugia na matemática, onde consegue se realizar – porque nela sentimentos não são necessários; Alice encontra abrigo na anorexia, onde se sente confortável emocionalmente, habituada que está à ausência dos alimentos emotivos de que sua alma, seu espírito, precisa.  Ambos são ímpares em seus respectivos casulos emocionais e é exatamente isso o que os aproxima e o que nos aproxima dos personagens. 

Fato é que  conhecemos estes personagens.  Se não são nossos filhos, irmãos, primos ou sobrinhos, estão no círculo de amigos, amigos de amigos, filhos de amigos, companheiros com quem nos relacionamos.  Reconhecemos alguém próximo e com a narrativa sedutora, rápida e contemporânea de Paolo Giordano seria difícil não nos aproximarmos emocionalmente, não acharmos Alice e Mattia fascinantes.

Paolo Giordano

Dizer que a matemática tem poesia é lugar comum.  Mostrá-la é único!  Neste livro a matemática é usada como metáfora, magistralmente: Os números primos são divisíveis apenas por um e por si mesmos.  Estão em seus lugares na série infinita dos números naturais, comprimidos entre dois, como todos, mas um passo adiante em relação aos outros.  São números suspeitos e solitários, e por isso Mattia os achava maravilhosos.  E nas mãos hábeis de Paolo Giordano, nós também achamos os números primos maravilhosos. 

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Leia.  Não se arrependerá!








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