As fogueiras do rei, romance histórico de Pedro Casals

8 02 2010

O tribunal da inquisição, 1812-1814

Francisco Goya (Espanha, 1746-1828)

Museu da Real Academia de São Fernando, Madri

 

Como estudante de mestrado em história da arte participei de um seminário sobre Goya.  Foi o meu primeiro grande contato com a  cultura espanhola.  Naquela época, para trabalhar com a iconografia desse pintor, li  diversos clássicos da literatura espanhola, uma das mais ricas em textos do século XVI ao XVII, os séculos de ouro.  Mas, depois dessa época, só ultimamente tive  a oportunidade  de  rever  e de conhecer alguns clássicos daquele país.

Foi com grande prazer, então, que me entretive com o livro de espionagem de Pedro Casals, intitulado As fogueiras do rei, [Record: 1990].  Apesar de ter sido publicado há vinte anos é um livro que, por ser um romance histórico, não perdeu a atualidade.  Ao que eu saiba, é o único romance do escritor publicado no Brasil, ainda que com o livro La Jerenguilla Casals tenha sido finalista para o prêmio Planeta de 1986 e em 1989 com este  romance aqui discutido.  Em 1992 ganhou o prêmio Ateneu de Sevilha, com o livro: El infante de la noche.

 

As fogueiras do rei  não é só um romance histórico, mas um romance de intriga palaciana, numa época crucial da cultura espanhola.  Uma época importante, simultaneamente para a Inglaterra,  Portugal e até mesmo o Brasil, porque além de tratar da Inquisição, retrata também o período anterior à invasão holandesa no Brasil, ou seja anterior à coroa de Portugal passar para as mãos espanholas.  Desse modo podemos entender com maior clareza  a interdependência dos países europeus, através das ligações matrimoniais  entre diversas famílias reais.  A história se passa no final do século XVI durante o reinado de Felipe II (1527-1598).

Princesa de Éboli, desconheço a autoria.

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Sinceramente, eu não sabia muito a respeito de Felipe II.  Lembrava-me de um retrato dele feito por Ticiano. [Essa é uma das falhas do historiador da arte, às vezes só conhecemos a história por causa das pinturas de época]!   Mas, corrigindo qualquer falha anterior, aprendi, com esse romance um pouco mais sobre Felipe II.  Familiarizei-me com sua vida, suas preocupações e suas conquistas amorosas.   E, principalmente, com a Princesa de Éboli, Doña Ana Mendoza y de La Cerda, uma das grandes aventuras amorosas do rei, que deve ter sido uma mulher fascinante: mesmo tendo tido um ferimento no olhos direito e obrigada a usar uma venda ,  Ana de Mendoza era de uma beleza a que poucos podiam resistir.  Teve dez filhos e uma enormidade de amantes.  É verdade, que para ajudá-la havia muito poder e grande fortuna já que era a  única herdeira de uma poderosa casa nobre da Espanha   E ela é uma das  personagens centrais na trama que se desenrola em As fogueiras do rei.

Felipe II da Espanha e de Portugal,  c. 1550

Ticiano  Vecellio, dito Ticiano  (Itália, c. 1490-1576)

Óleo sobre tela, 185 x 103 cm

Sala da Ilíada,  Palácio Pitti,  Florença

Um auto da fé é a cena em torno da qual a história se desenrola.  Assistindo às punições dos hereges,  está um grupo de especialistas em espionagem e contra-espionagem representando diversos interesses da política interna e externa do reinado.  O leitor acompanha as intrigas e  tentativas mais variadas para a subida ao poder desde a coroa da Inglaterra,  ao meio-irmão de Felipe II, filho bastardo de Carlos V,  D. João da Áustria.  Mas mais interessante ainda do que essa intriga palaciana é o entendimento com que saímos, após a leitura do livro, não só dos judeu-portugueses, dos marranos, dos cristão-novos, mas  suas preocupações e meios de sobrevivência.  E acima de tudo, nos enfronhamos na Inquisição na Espanha para desvendar que ela não foi só uma maneira de estabelecer  o domínio da Igreja Católica contra a religião muçulmano, ou contra os judeus, mas foi, também, uma maneira de evitar o crescimento dos ensinamentos de Lutero, que ameaçavam  tornarem-se populares.  Além disso, fica claro o modo da Inquisição, com suas práticas subjetivas,  deter a subida da burguesia,  um interesse da realeza que o Vaticano protegia das ameaças que a nobreza considerava perigosas, nos exemplos vindos dos Países Baixos, onde a burguesia subia e tomava conta do poder.  Essa  era a preocupação da nobreza, era um futuro, que sem os ensinamentos da Igreja Católica,  poderia vir a acontecer e derrubar o poder das grandes casas nobiliárquicas, mesmo que, na Península Ibérica, estas tivessem muito sangue judeu.

Pedro Casals

Curioso, também,  foi saber que apesar de haver muitos hábitos e costumes considerados desrespeitosos à Igreja,  esses mesmos costumes eram praticados pela realeza e pela classe dominante: astrologia, leituras dos textos de Erasmo,  simpatias as mais diversas oriundas de crendices ligadas às bruxarias.   E aos poucos podemos fazer uma pequena lista das obras impressas, que preenchiam os gabinetes de leitura da nobreza e que eram proibidas pela Santa Inquisição, só para perceber que elas incluem os grandes clássicos da literatura não só espanhola como da portuguesa:  Amadis de Gaula, Palmerim de Inglaterra, Obras de Teresa d’Ávila, Lazarillo de Tormes, A Celestina: tragicomédia de Calixto e Malibeia,  Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, e assim por diante.

Mais do que um romance de espionagem, As fogueiras do rei é um excelente romance histórico, que leva o leitor a considerar os acontecimentos do século XVI na Espanha sob um novo olhar, um olhar de dentro.   Quem está à procura de um romance que vai além de uma mera distração,  um romance que enriquece o leitor com os detalhes históricos coletados, Pedro Casals oferece bastante conteúdo para um aprendizado rápido e compreensivo.


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