Eu a amava, de Anna Gavalda

17 02 2010

Nunca cheguei a ser uma boa jogadora de Bridge, apesar de gostar do jogo.  Mas joguei o suficiente para aprender a respeitar qualquer adversário capaz de finesse sua mão.  Esta expressão, vinda do francês, mas usada no mundo inteiro no jogo de Bridge,  se refere à maneira como um jogador consegue se livrar de cartas perigosas sem que seus parceiros o percebam.  Depois que aprendi a expressão e entendi a combinação de destreza e sutileza imbuídas no vocábulo, já a usei tantas vezes, em contextos tão diferentes, que acho inacreditável que não exista em português um verbo que expresse no todo a astúcia e finura de gesto, que combinadas dão peso à palavra.

É natural então que essa expressão francesa seja a que me vem à mente no fim da leitura do livro Eu a amava, da autora Anna Gavalda [Record:2002], nascida em Boulogne-Billancourt, em Île de France.  Isso porque sua prosa demonstra uma habilidade de escrever carregada de grande sutileza, que consegue retratar o mais corriqueiro dos temas – histórias de amor que não deram certo – com astúcia e perícia.  Seu retrato dos sentimentos mais corriqueiros, mundanos, pequenos, acabrunhantes,  que nos afligem na hora da perda de um amor é composta de maneira tão singular, bem humorada e livre de sentimentalismos, que merece grande admiração.  E mais, seu romance oferece um penso para almas feridas, um curativo para a emoção exposta do amor não correspondido. 

O enredo é tão simples quanto a linguagem usada: uma mulher, abandonada pelo marido, vai com suas duas filhas e o sogro, Pierre Dippel, para a casa de campo deste.  Traída, sofrida, com o coração em pedaços, Chloé deixa à mostra toda sua infelicidade e revolta.  Seu estado de espírito pode ser resumido na frase: O perigo é pensar que temos o direito de ser felizes.   Pierre Dippel que até então havia se mostrado um homem reservado, aparentemente insensível, revela, para surpresa da nora, uma grande história de amor na qual foi um dos personagens principais.  E com essa lembrança de um amor perdido, Pierre Dippel acalenta a nora e a si próprio, tranqüiliza-a sobre o futuro, consola-a com o exemplo, serena seus sentimentos, nutre suas esperanças, alimenta sua alma.  No todo são 170 páginas, quase todas de diálogos que formam esta leitura comovente, às vezes irônica, bastante sutil.  Não é a toa que, com esse romance, Anna Gavalda tenha conquistado os leitores franceses; surpresa é que sua obra não tenha ainda sido “descoberta” pelos leitores brasileiros, que ainda não a abraçaram na proporção gigantesca com que foi recebida e aplaudida na França.

Anna Gavalda

Este não é o primeiro livro de Anna Gavalda que leio.  Há uns poucos anos li  Enfim, juntos [Rocco: 2006], um volume que corrobora a insinuante prosa da autora.  Há, no entanto, uma característica entre esses dois romances: a troca de experiências entre diferentes gerações, que me parece um motivo, um padrão freqüente nas criações francesas mais recentes.  Essa troca de experiências entre pessoas e gerações distintas está presente também nos filmes:  Um lugar na platéia, 2006, [Fauteuils d’orchestre] de Danièle Thompson; O fabuloso destino de Amélie Poulain, 2001, [Le fabuleux destin d’Amélie Poulain] de Jean-Pierre Jeunet; e também no romance, A elegância do ouriço [Cia das Letras: 2008] de Muriel Barbery.  É claro que a minha mostra é pequena e provavelmente irrelevante, no entanto fica aqui o registro de que além da apurada sensibilidade que se estende por muitos dos romances franceses atuais, — e aqui ainda posso adicionar Casas de família de Denis Tillinac [A Girafa: 2005] e  Um toque na estrela de Benoîte Groult [Record: 2008]–  há um tema ímpar, único e inexistente nos romances de outros países: o retrato benfazejo da comunicação entre diferentes gerações, o relacionamento positivo entre jovens e pessoas de uma ou duas gerações mais velhas.  Esse tema parece trazer uma nova perspectiva na produção literária e cinematográfica da França atual.  Um tema bem-vindo, positivo, confiante, útil, que muito enriquece textos e leitores.  Uma atitude diametralmente oposta ao eterno conflito de gerações, representado com grande minúcia nas literaturas norte-americana e brasileira, entre outras, que chega às vezes a um retrato narcisista e vaidoso de jovem escritores.  Essa troca de experiências, no romance de Anna Gavalda, é apurada e escrupulosa, retratada com vigor e entusiasmo. Vale a leitura de Eu a amava.

 

***

 

Nota sobre a edição brasileira:  Li este livro novo.  Nenhum outro leitor havia ainda manuseado o volume.  No entanto, ao final da leitura, tive em mãos um livro cujas páginas se soltaram, cujo dorso teimou em querer se descolar e cujos pontos de alinhavo pareceram feitos em linha muito grossa, incompatível com o peso do papel em que foi impresso.  As páginas mostraram o desejo de voarem para fora do volume, sendo picotadas pelo cordão que as segurava ao dorso.   O livro foi  composto na tipologia Aldine 721 em corpo 12/26 e impresso em papel off-set 90g/m² no Sistema Cameron da Divisão Gráfica da Distribuidora Record.  Tive que colar de volta diversas páginas do livro.  É inacreditável que uma editora, tão grande como a Record, não tenha se esforçado para manter um mínimo de controle de qualidade.  Fica aqui o meu protesto pelo desprezo que a companhia demonstrou pelo leitor e pela autora.


Ações

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One response

18 11 2010
Rogério Sikora

Li o livro Eu a amava o ano passado é tive a mesma impressão sobre a obra de Anna Gavalda. Gostei muuuuito!

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