Quadrinha infantil: conselho para plantar

31 03 2010

Ilustração, Maurício de Sousa.

Se um dia necessitares

Uma árvore derrubar,

Tu deves, no mesmo instante,

Plantar outra em seu lugar

(Walter Nieble de Freitas)





Um passeio pelos jardins do Palácio do Catete

30 03 2010
Jardim do Palácio do Catete,  Rio de Janeiro.  Foto: Ladyce West

Neste verão que não acaba, em que fritamos todos os dias os nossos corpos a 38º C,  tenho procurado andar na areia da praia só no fim das tardes, e nos fins de semana visitar alguns dos belos jardins do Rio de Janeiro, a cata de  sombra, frescor, natureza e equilíbrio mental.   No sábado passado passei uma hora e pouco à sombra das árvores nos jardins do Palácio do Catete, antiga residência presidencial quando no século XX esta cidade ainda era a capital do Brasil.

Há uma característica desse jardim que sempre me intrigou e que dessa vez procurei saber o porquê.  Fato que salta aos olhos de quem quer que visite o local é a estranha distribuição de terra em relação à casa.  Os jardins são imensos.  Mas a casa fica não no centro dos jardins como seria de se esperar, mas no canto, dando de frente para a Rua do Catete.  Nem sei quantas vezes esse jardim é maior do que a área coberta por essa residência neo-clássica, construída entre 1858 e 1866, trabalho do arquiteto alemão Carl Friedrich Gustav Waehneldt, mas tem lago, tem gruta, tem esculturas e árvores gigantescas, e parece fora do comum que a casa ficasse assim num cantinho com as janelas paralelas à calçada.

Coreto, nos jardins do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West

Finalmente descobri a razão:  a casa fora construída originalmente para residência na corte dos Barões de Nova Friburgo.  E a Baronesa havia exigido que este local fosse diferente de suas duas outras residências, a do Cantagalo e a de Nova Friburgo ambas as construções em centro de terreno.  A Baronesa de Nova Friburgo queria sentir o calor humano, a movimentação da corte, as carruagens passando, os vendedores cantando suas ofertas, seus pregões individualizados, quando chegasse à janela da residência citadina.  Daí o uso do cantinho esquerdo do terreno de esquina entre as ruas do Catete e a rua Silveira Martins [agradeço ao leitor Pedro Henrique pela correção do nome desta rua, que hoje, 29/9/2013 modifiquei no texto].  Os fundos da casa, dão para os jardins que se prolongam até  a Praia do Flamengo.  

Oceania, escultura em ferro fundido de Mathurin Moreau [França, 1822-1912], 1876.  Foto:  Ladyce West

Espalhadas pelos deliciosos recantos do jardim há uma série de esculturas em ferro fundido, de Mathurin Moreau (1822-1912), afamado escultor francês do século XIX, representando os continentes.  [Só uma dessas esculturas tem identificação numa tabuletinha próxima.  É a escultura cuja foto coloquei acima].  Ela representa a Oceania: um menino, abraça um pequeno canguru.  Infelizmente, a identificação dessas esculturas, está — como quase tudo que é patrimônio cultural no Rio de Janeiro —  deixada ao léu. É uma vergonha que o patrimônio cultural que temos a nosso alcance não exerça nenhuma fascinação sobre aqueles encarregados de preservar o nosso legado cultural (seria muito, pergunto, se um empregado do museu fizesse as mesmas tabuletinhas para cada uma das esculturas do palácio?  E se roubassem, fizesse de novo?  O custo é próximo a ZERO).   Mesmo nos jardins do Palácio do Catete, um museu carioca, temos o descuido de não identificar as peças, como se elas de nada valessem.  É uma pena.  Não pude, por causa do grande contraste entre a luz do sol e a sombra, nesse sábado, fotografar razoavelmente bem nenhuma das outras esculturas.  Uma delas na verdade, está longe, na frente de uma ilhota do lago, e terei que levar uma outra lente para isso.  Mas prometo aos leitores desse blogue que voltarei ao Palácio do Catete para registrar esses tetéias.  Sim porque essas esculturas são de um tamanho pequeno, certamente feitas para uso em jardins particulares  de importância.   Não há tampouco qualquer cartão postal com a foto das mesmas que se possa comprar e levar para casa como uma lembrança da arte encontrada no museu.  Vergonhoso.  Temos que melhorar isso antes de nos candidatarmos a eventos como Olimpíadas e Copa do Mundo,  porque esses eventos trazem pessoas que além dos esportes gostariam de conhecer a base cultural da cidade.  Garanto, que não há muitas cidades no mundo que têm o patrimônio artístico nacional e estrangeiro, em lugares públicos ou privados, que nós temos.

Os seis continentes, ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris.

Mathurin Moreau foi um grande escultor francês do século XIX.  E nada melhor, para aqueles que gostariam de se dedicar às artes no Brasil e à escultura, que visitar essas pequenas representações dos continentes.  Mathurin Moreau criou outra escultura representando a Oceania, mais conhecida,  para a série de trabalhos representando  os  continentes.  A série foi organizada em 1878, e  seis dos mais importantes escultores franceses do final do século XIX  foram convidados a fazer uma escultura que representasse um continente:   América do Sul , por Aimé Millet (1819-1891); Ásia por  Alexandre Falguière (1831-1900); Oceania por  Mathurin Moreau (1822-1912);  Europa  por Alexandre Schoenewerk (1820-1855); América do Norte por  Ernest-Eugene Hiolle (1834-1886) e  África por Eugène Delaplanche (1831-1891).  Esse grupo permaneceu  no mesmo  local, Palácio Trocadéro, desde 1878 até a Segunda Guerra Mundial, quando em 1935 foi  transportado para Nantes.  Lá esteve  por cinquenta anos, até 1985, ano em que ” os seis continentes” retornaram a Paris, encontrando um lar na esplanada do Museu d’ Orsay. 

Oceania, 1878, Mathurin Moreau (França, 1822-1912), ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris

Achei por bem postar, a título de curiosidade, uma foto da representação do mesmo continente, na versão de 1878, ou seja na versão de Mathurin Moreau para a Exposição Universal.  As que se encontram no Palácio do Catete são de 1876, ou seja, de 2 anos antes das  esculturas encontradas no Museu d’ Orsay.  Teriam sido elas um exercício do artista para o projeto mais monumental?  O que tanto a peça do Palácio do Catete quanto a encontrada no Museu d’Orsay têm em comum é o toque do exotismo, com a presença com canguru em ambas.  Detalhes exóticos seriam quase de obrigatoriedade nessas representações – afinal estamos falando dos últimos 25 anos do século XIX —  onde o exotismo foi explorado em todos os meios.  Mas as diferenças entre as duas mostram que suas funções foram determinantes na escolha da representação.  Enquanto a escultura feita para a Exposição Universal se mostra grandiosa, maior que a vida, as esculturas encontradas nos jardins do Catete, todas com meninos com animnais,  são mimosas e delicadas, no mesmo material (ferro fundido), mas definitivamente peças feitas para jardins menores, para o prazer do colecionador particular.

 

 Patos, Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

Em outra ocasião dedicarei algumas palavras sobre o prédio, suas pinturas e decoração.   Sei que os jardins foram reformados sob a direção do engenheiro Paulo Villon,  em 1896,  quando a propriedade foi eletrificada para abrigar a Presidência da República, que até então usava o Palácio do Itamaraty.  Acredito que essas estátuas de Mathurin Moreau possam ter sido adquiridas na época para pontuar a reforma.    Há nesse jardim também um belíssimo chafariz, — que sábado passado não tinha água .  Esse chafariz, certamente entrou para o Palácio do Catete na reforma de 1896, pois era o chafariz do Largo do Valdetaro, que foi removido do local onde havia sido colocado em 1854 para este jardim em 1896.

Jardim do Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

O charme do jardim desse palácio está certamente no romantismo de final de século tão bem retratado na combinação das palmeiras imperiais com árvores frutíferas;  nos lagos bucólicos com patinhos a nadar, e na construção da pequena e romântica gruta, além é claro, do delicado coreto.  É sem dúvida um dos lugares mais prazerosos do Rio de Janeiro.  E,  já que hoje circunda o Museu da República – porque com a mudança da capital para Brasília esse palácio passou a ser o Museu da República — nada mais natural que o tratemos bem e que muito mais atenção seja dada às informações do local.  Vamos esperar que a secretaria de turismo do estado abra os olhos e nos gratifique com um material digno sobre o que estamos vendo.    A falta de informações é um desrespeito com o visitante brasileiro, porque lhe rouba a educação de seu patrimônio cultural, lhe rouba o aprendizado de seu passado; é também um desrespeito com o visitante estrangeiro que procurou nos conhecer melhor, ver  quem somos e de onde viemos.   Dizem os psicólogos que o desleixo, que o desrespeito consigo próprio, é sinal de baixa auto-estima.  Não é isso o que merecemos no Brasil, e não é isso o que eu gostaria de passar para as gerações futuras.

Árvores centenárias do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West




Bolinhas de gude, poema infantil de Maria Eugênia Celso

29 03 2010
 Ilustração Maurício de Sousa.

Bolinhas de gude

                                               Maria Eugênia Celso

Brancas, verdes, rajadinhas,

                               Amarelas,

                As bolinhas

                Vão rolando,

                Vão dançando

                Seja liso ou seja rude

                O chão onde vão rolando

                Lá vão elas, lá vão elas…

                               As bolinhas de gude.

Brincam os meninos com elas,

                               Estão jogando

                No jardim ou nas calçadas,

                As bolinhas vão correndo

                Azuis pardas, amarelas,

                               Rajadinhas,

E tão vivas, tão ligeira, tão alegres e estouvadas

                Que até fica parecendo

                               Que são elas

                                               As bolinhas

Que com eles estão brincando.

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

Maria Eugênia Celso

Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (São João Del Rey, Minas Gerais, 1886 – 1963), usou também o pseudônimo Baby-flirt.  Jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista.  Funcionária de carreira do Ministério da Educação e Cultura.  Veio de Minas Gerais para Petrópolis, ainda criança,  onde cursou o Colégio Sion.  Em 1920 começou sua carreira jornalística no Jornal do Brasil.  Participou ativamente do “Movimento Feminista”, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se ao assistencialismo junto às “Damas da Cruz Verde”, aparecendo como uma das lideranças que criaram a maternidade “Pro-Matre” do Rio de Janeiro.  Batalhou pelo direito das mulheres ao voto. Faleceu em 1963.

Obra:

Em Pleno Sonho, poesia, 1920

Vicentinho, 1925

Fantasias e Matutadas, poesia, 1925

Desdobramento, poesia, 1926

Alma Vária, poesia

Jeunesse, poesia

O Solar Perdido, poesia, 1945

Poemas Completos, 1955

Diário de Ana Lúcia, prosa,

De Relance, crônicas

Ruflos de Asas, teatro

Síntese Biográfica da Princesa Isabel, biografia





Imagem de leitura — Vladimir Ezhakov

29 03 2010

Menina Lendo,  s/d

Vladimir Ezhakov ( Rússia, 1975)

óleo sobre tela,  30 x 48 cm

Vladimir Ezhakov, (São Petersburgo, Rússia, 1975), formou-se em arte em 1995, na Faculdade V. Serov, prolongando seus estudos, mais tarde e se formando em pintura, em 2003 pelo Instituto de Artes Visuais I. E. Repin em São Petersburgo, um dos locais de maior tradição na educação artística da Rússia, fundado em 1757.  Lá Vladimir Ezhakov foi aluno do pintor V. A. Mylnikova.  Continua ativo como pintor do realismo russo na cidade em que nasceu.





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

28 03 2010
Dois leitores, Jardins do Palácio do Catete,  Catete, Rio de Janeiro.




Fóssil de Gliptodonte, descoberto por menino de 12 anos!

28 03 2010

Desenho artístico de um gliptodonte.

Um fóssil de gliptodonte, um mamífero que viveu no continente americano há mais de 30 mil anos, foi encontrado no departamento uruguaio de Soriano.   A descoberta foi feita por Mario Vignolo, um menino uruguaio de 12 anos que mora na zona rural do estado. Ele encontrou o fóssil enquanto ia pescar perto da sua casa.

Com aproximadamente um metro e meio de comprimento e em bom estado de conservação, o fóssil foi levado pela Prefeitura de Soriano para o Museu Alejandro Berro, na cidade de Mercedes, que tem uma grande coleção paleontológica.   Foram registradas diversas inundações nas últimas semanas na zona em que o gliptodonte foi encontrado e se presume que a erosão das encostas pela água desenterrou o fóssil.

O gliptodonte é uma espécie de mamífero herbívoro, antepassado dos atuais tatus. Ele podia medir até três metros de comprimento e pesar uma tonelada e meia.

Fonte: Terra





Precisando de um bom livro para o seu adolescente?

28 03 2010

 
 
 
 
 
 
 

Lago de jardim, fragmento de pintura mural do Antigo Egito
18ª Dinastia, c. 1350 aC.
[Pintura mostrando um lago cheio de peixes, flores do lótus, e tilápias;  papiros crescem à sua volta, assim como palmeiras, figueiras e arbustos]. 
Museu Britânico,  Londres.

 

No início deste mês tive o prazer de ler O peixe de Amarna, de Cícero Sandroni, que vou recomendar aqui, com bastante ênfase, para aqueles que procuram alguma coisa brasileira, que interesse a leitores adolescentes.   Esta é a história de Juca, um jovem carioca, de 18 anos, pobre, que arruma seu primeiro bom emprego, com carteira assinada, trabalhando como motorista de um professor do Centro  Multidisciplinar de uma universidade.   Juca se surpreende logo, desde o início, quando percebe que a vida de motorista de professores, trabalhando com tecnologia de ponta, pode ser muito  mais arriscada do que pensava, a princípio.   Não tinha conhecimento de que havia no Brasil tanto conhecimento científico de qualidade, e queira ou não queira seu emprego se mostra mais complexo pois a técnica desenvolvida pelos professores que Juca leva e trás para diversos pontos do Rio de Janeiro, está sob a mira dos espiões industriais.

 

 

Esta é uma história cheira de peripécias, diárias,  tanto no cotidiano do trabalho desse motorista no Rio de Janeiro, quanto nas viagens a lugares que Juca nunca havia pensado em conhecer.   É por aí, com um bocado de espionagem industrial, com um bocado de briga e garra,  nesse misto de suspense, ação,  golpes de judô e disfarces que aparecem uma surpresa atrás da outra, uma ação a cada virar de página.  Juca acaba indo ao Egito como motorista, guarda-costas,  logo ele, que como todo bom carioca, poderia ter feito parte do time do Deixa-disso.  Com um linguajar atualizado, e uma maneira de escrever correta e realista,  Cícero Sandroni nos mostra Juca  desejando a todo momento que tivesse prestado mais atenção às aulas de história — em que costumava dormir — para poder entender melhor por que seus empregadores eram alvo de tanta confusão.   Nosso herói viaja.  Com ele damos uma passadinha no Louvre, em Paris, mas também vamos ao Egito.  O Egito de hoje, moderno se torna menos importante do que o outro Egito, dos faraós.  Juca viaja e nos leva com ele através da história para o Antigo Egito, de 3500 anos atrás.   Lá,  ele se familiariza com o faraó Aquenaton, marido de Nefertite, jovem famosa por sua beleza.    Aquenaton foi não só o fundador da cidade de Aquenaton, hoje Amarna, como também um faraó que lutou , com o culto de Aton, para que a civilização do Antigo Egito se tornasse monoteísta. 

 Garrafa na forma de peixe, Antigo Egito
18ª Dinastia, Reina do de Akhenateon ( c. 1390-1336 aC)
Vidro policromado, 14,5 cm
Museu Britânico, Londres

 

Cícero Sandroni consegue, com essa aventura de espionagem, não só mostrar um pouco da história do antigo Egito, como também situar com exatidão a importância das pesquisas científicas feitas no Brasil, que podem e são frequnetemente alvos de espionagem industrial e estrangeira.  Raramente vemos nos livros para adolescentes a colocação do real valor do trabalho e das pesquisas dos professores e pesquisadores universitários no país.  O livro tem a vantagem também de abrir um horizonte maior, mais versátil, de possíveis profissões, apontando para as muitas escolhas que podem ser feitas, mesmo por um jovem pobre, para uma vida repleta de excitação, aventura e conhecimento.  Escolhas que não se apoiam no tradicional triângulo do esporte, da música e do circo.  A cabeça, o pensar, o estudo aparecem como uma bela opção para uma vida cheia de aventuras.  E tem mais uma coisa importante: o texto  não  é dogmático, não dá lição de moral.  Muito, muito bom.

Cícero Sandroni

 

Cícero Augusto Ribeiro Sandroni (São Paulo, 1935)  jornalista e escritor brasileiro.  Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1946, com a família.  Formou-se em jornalismo, PUC-Rio.  Nessa profissão trabalhou para a Tribuna da Imprensa,  o Correio da Manhã e  o Jornal do Brasil.  Em  1958 foi para o jornal O Globo, e mais tarde para o Diário de Notícias. Em 1961 mudou-se para  Brasília. Em 1974 ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo.  Membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras:

O Diabo só Chega ao Meio-dia, contos, 1985.

O Vidro no Brasil, ensaio histórico, 1989.

Austregésilo de Athayde: o Século de um Liberal, 1998.

Cosme Velho, ensaio literário sobre o bairro do Cosme Velho (Rio de Janeiro), 1999.

50 anos de O Dia, história do jornal, 2002

O peixe de Amarna, romance, 2003








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