Será que a maneira como se pensa hoje está mudando por causa da internet?

30 04 2010

Mark lendo, sd

Ann Womack ( EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 75 x 100 cm

Coleção Particular

www.annwomack.com

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Será que a maneira como se pensa hoje está mudando por causa da internet?  Este parece ser o grande debate do momento.  Um debate que vem crescendo, engordando, e  como a proverbial bola de neve movendo-se cada vez mais rápida ladeira abaixo,  repercutindo entre educadores, intelectuais  daqui  e de fora.  Esse assunto faz marolas entre os que escrevem, e entre os que pensam o mundo. 

O artigo de Julho/Agosto de 2008, de  Nicholas Carr na The Atlantic Magazine, Is Google making us stupid?  [ Será que o Google está nos fazendo idiotas?] me levou a uma breve pesquisa (na rede) sobre o assunto e acabei com mais perguntas ainda do que respostas.  De meu interesse,  é o que venho observando assiduamente: a falta de paciência com textos extensos.  Falta de paciência minha e de outros, de amigos e de pessoas que lêem constantemente; pessoas que liam e que hoje se dedicam cada vez mais às telas dos computadores. 

Esclareço desde já que não sou contra a internet, que desde 1980, nos tempos do primeiro computador pessoal e portátil – o Osborne – tenho computador em casa e que não saberia hoje viver sem um.  De modo que estas idéias não foram arrebanhadas para fazerem parte de um movimento contra a internet, até porque seria uma coisa absolutamente inútil. 

Mas como tenho interesse na educação, sabendo que cada vez  há mais para aprendermos antes de podermos dar a nossa contribuição para o nosso tempo, para o mundo, questiono como e quanto o uso da internet pode influenciar o modo como pensamos.

Hoje, li o artigo A educação muda o cérebro do neurocientista Roberto Lent, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na revista eletrônica Ciência Hoje, e descobri entre outras coisas que realmente o nosso cérebro não é mais pensado como aquele órgão estático, rígido, formado enquanto somos embriões.  Mas que, ao contrário, já sabemos que podemos recriá-lo, moldá-lo de acordo com a nossa educação, de acordo com o uso que fazemos dele.  “Mudar as pessoas, lembra Roberto Lent, é mudar o seu cérebro”. Ora, a maneira como usamos os computadores hoje, por horas sem fim, pulando de assunto a assunto, certamente deve, de acordo com esses estudos mais recentes, deixar sua marca no nosso cérebro.  Afinal ele é mutante, dinâmico e responde aos estímulos exteriores.

Concordo com Nicholas Carr quando ele considera que talvez leiamos mais hoje do que nas décadas de 1980-1990, quando a internet era primária e ainda vivíamos grudados na televisão.  No entanto, a maneira como lemos hoje, de acordo com algumas pesquisas feitas, que levaram em conta os hábitos de pesquisas on-line, parece levar à conclusão de que estamos constantemente dando uma vista d’olhos no que vemos na internet, e que o que consideramos mais interessante, dedicamos só um pouco mais de tempo, um pouco mais de atenção, mas, em geral,  não chegamos a ler o artigo, a postagem na sua totalidade, parando por volta da segunda página.

O hábito de pouco texto, além de ser mais imediatista como a própria internet,  é também uma função desenvolvida pelos sites de notícias, que trouxeram da imprensa escrita, dos jornais, a maneira de fazer pequenos parágrafos para que qualquer editor pudesse cortar um artigo ao bel prazer, e comensurar o texto na paginação com os devidos anúncios – que são o que mantem as publicações vivas — nos locais apropriados.

Este hábito foi passado para a internet e perdura.  Se formos ver a maioria dos sites de notícias, mesmo aqueles exclusivamente eletrônicos a “economia de texto” é perceptível.  É comum vermos,  por exemplo, cada frase ser um parágrafo inteiro.  Outra frase,  a seguinte, mesmo que ainda no mesmo assunto, que em outras circunstâncias seria a continuação do mesmo parágrafo, aparece então como independente, merecendo um outro parágrafo  inteiro.  Assim, cada pensamento parece ser independente, ter seu próprio nível de igualdade com os outros mencionados anteriormente sem nenhuma subordinação e a cada nível somos dissimuladamente convidados a parar.  A cada nível temos permissão para nos desengajar, para sair por aí afora à procura de uma outra trivialidade, de uma outra idéia.

Será que com isso estaríamos mesmo  reformulando a nossa maneira de ler, de ver  e de pensar?  Estaríamos re-organizando os nossos cérebros para simplesmente patinarmos na superfície das palavras? 

Esta é só uma das questões que me afligem no momento.  Mas há outras e voltarei para falar delas.








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