A Marcelina, um conto de Arthur Azevedo

19 05 2010

 

Retrato de um janota, s/d

Giovanni Boldini ( Itália, 1842-1931)

Pastel sobre papel, 63 x 41 cm

The Norton Simon Art Foundation, Pasadena, Califórnia

A Marcelina

                                                         Arthur Azevedo

I

 

Naquele tempo ( não há necessidade de precisar a época) era o doutor Pires de Aguiar o melhor freguês da alfaiataria Raunier e uma das figuras obrigatórias da Rua do Ouvidor.  Como advogado diziam-no de uma competência um pouco duvidosa, o que aliás não obstava que ele ganhasse muito dinheiro, — mas como janota – força é confessá-lo – não havia rapaz tão elegante no Rio de Janeiro.

Rapaz?  Rapaz, sim:  o doutor Pires de Aguiar pertencia a essa privilegiada classe de solteirões que se conservam rapazes durante trinta anos. 

Quando lhe perguntavam a idade, respondia invariavelmente:  — Orço pelos quarenta, — e durante muito tempo não deu outra resposta.  Os seus contemporâneos de Academia atribuíam-lhe cinqüenta, e bem puxados.  As senhoras, essas não lhe davam mais que trinta e cinco.

Ele tinha um fraco pelas mulheres de teatro.  Consistia o seu grande luxo em ser publicamente o amante oficial de alguma atriz.  Não fazia questão de espírito nem de beleza; o indispensável é que ela ocupasse lugar saliente no palco, e fosse aplaudida e festejada pelo público.  Não era o amor, era a vaidade que o conduzia à nauseabunda Cythera dos bastidores.

Essas ligações depressa se desfaziam; duravam enquanto durava o brilho da estrela;  desde que esta começava a ofuscar-se, ele achava um pretexto para afastar-se dela e procurar imediatamente outra.  Como era inteligente e generoso – muito mais generosos que inteligente, — nunca ficava mal com o astro caído.

Algumas vezes o rompimento era provocado por elas – pelas de mais espírito – que facilmente se enfaravam de um indivíduo tão preocupado com a própria pessoa, e tão vaidoso das suas roupas.

Ivette Guilbert agradecendo ao público, 1894

Henri Toulouse-Lautrec (França, 1864-1901)

Óleo sobre papel fotográfico, 48 x 28 cm

Museu Toulouse Lautrec, Albi, França.

II

 

No tempo em que se passou a ação deste ligeiro conto, a nova conquista do doutor Pires de Aguiar era uma atriz portuguesa, a Clorinda, que viera de Lisboa apregoada pelas cem trombetas da réclame, e cuja estréia num dos nossos teatrinhos de opereta, o público esperava ansiosamente.

Uma hora antes de começar o espetáculo de estréia, entrou o advogado triunfantemente na caixa do teatro, levando pelo braço a sua nova amiga, elegantemente envolvida numa soberba capa de pelúcia.  Ia fazer-lhe entrega do camarim, cujo arranjo confiara liberalmente ao bom gosto e à perícia dos mais hábeis tapeceiros e estofadores.

Ela ficou  encantadíssima, e agradeceu com beijos quentes e sonoros a dedicada solicitude do amante. 

Que belo tapete felpudo!  que bonitos quadros!  que papel bem escolhido!  que delicioso divã!  que magnífico espelho de três faces, onde o seu vulto airoso se refletia três vezes por inteiro!  e que profusão de perfumarias!  e que precioso serviço de toilette!…

Nada faltava também sobre a mesinha da maquilagem, intensamente iluminada por dois bicos de gás. 

O doutor Pires de Aguiar tinha longa prática desses arranjos;  não podia esquecer-se de nenhum dos ingredientes necessários ao camarim de uma atriz que se respeita; o arsenal estava completo.

Dali a nada ouviu-se um – Dá licença?  — e o diretor de cena entrou no camarim acompanhado por uma mulher já idosa, muito pálida, de aspecto doentio, pobremente trajada.

— Dona Clorinda, aqui tem a sua costureira.

 

Mulher com espartilho, 1896

[Esboço para Elles]

Henri Toulouse-Lautrec ( França 1864-1901)

Óleo pastel sobre papel, colado em tela,  104 x 566 cm

Museu des Augustins,  Toulouse.

A estrela não conteve um gesto de despeito.  O diretor de cena compreendeu-o, e saiu imediatamente, para não entrar em explicações.

— É doente?  perguntou Clorinda à costureira.

— Não, senhora.  Tive uma doença grave, mas agora estou boa.  Saí há dois dias da Santa Casa.

Clorinda trocou um olhar com o advogado, e este disse-lhe, resfestelando-se no divã:

Ma chère, il faut se contenter de cette habilleuse; nous ne sommes pas en Europe.

Ele impingiu a frase em francês, para que na a entendesse a costureira, mas a verdade é que Clorinda também não percebeu, o que aliás não a impediu de responder: — Oui.

Despojada da mantilha e da bela capa de pelúcia Clorinda sentou-se entre os dois bicos de gás, e começou a pintar-se dizendo: — Vamos a isto!

E dirigindo-se à costureira:

— Sente-se.  Porque está de pé?

A pobre mulher sentou-se a medo, como receiosa de macular a palhinha dourada da cadeira com o seu miserável vestido de chita.

— Sabe que me disseram bonitas coisas a seu respeito?  Perguntou a atriz ao advogado, olhando-o pelo espelho.

— Deveras?

— Ao que me parece, você tem sido um gajo!

O doutor Pires de Aguiar teve um sorriso inexprimível.  Aquele gajo entrou-lhe pela vaidade a dentro como uma grã-cruz.

— Com que então a sua especialidade são as atrizes?

— Sou doido pelo teatro. 

Atriz no camarim, 1879

Edgar Degas ( França, 1834-1917)

Óleo sobre tela, 85 x 76 cm

The Norton Simon Museum, Pasadena, Califórnia.

— E há quanto tempo dura essa doidice?

— Há muito tempo.  Estou velho, bem vê.  Orço pelos quarenta.

— Ninguém lhe dará mais de trinta e cinco.

— São os seus olhos.

— Qual foi a sua primeira paixão no teatro?

— Ah, isso…

O advogado levantou o braço e estalou os dedos.

— … isso é pré-histórico; perde-se na noite dos tempos.

— Como se chamava essa colega?

— Chamava-se Marcelina.

— Que fim levou?

Ele encolheu os ombros.

— Sei lá!  provavelmente morreu.  Nunca mais ouvi falar dela.  Há mulheres que desaparecem como os passarinhos que não foram mortos a tiro nem engaiolados:  ninguém lhes vê os cadáveres.

— Gostou dela?

Foi talvez a paixão mais séria da minha vida.

— Nunca mais a procurou?

— Para que?

— Tinha talento?

— Talento?  Não.  Tinha habilidade.

E depois de uma pausa:

— Tinha habilidade e era muito boa rapariga.

— Brasileira?

— Sim.  Representava ingênuas em dramalhões de capa e espada, ali, no São Pedro de Alcântara.  Um dia – eu já a tinha deixado – um dia patearam-na ppor motivos que nada tinham que ver com a arte dramática;  ela desgostou-se;  andou mourejando pelas províncias, e afinal desapareceu.  Requiescat in pace!  

Entrou o cabeleireiro.  Enquanto Clorinda lhe confiou a cabeça, o doutor Pires de Aguiar divagou longamente sobre os méritos da Marcelina;  depois falou de outras atrizes, desfiando um interminável rosário das suas mancebias.

Clorinda, a costureira e o cabeleireiro, ouviam sem dizer palavra.

Terminado o serviço do cabeleireiro, que logo se retirou, Clorinda ergueu-se:

— Agora, meu doutor, há de me dar licença, sim?  Vou vestir-me.

— Até logo, disse o advogado.  O seu penteado ficou esplêndido!  Vou aplaudi-la.  Bonne chance!

Deu-lhe um beijo – na testa para não desmanchar a pintura,  — e saiu do camarim, cuja porta a costureira discretamente fechou.

A meia, 1894

Henri Toulouse-Lautrec ( França 1864-1901)

Óleo sobre papelão,  58 x 48 cm

Museu d’ Orsay, Paris.

III

 

Minutos depois, Clorinda estava completamente nua.

— A senhora é muito bem feita de corpo, disse-lhe num tom adultório, a costureira, enfiando-lhe pela cabeça uma camisa de seda.

— Acha?  perguntou desdenhosamente a atriz.

— Ah!  eu também já fui bem feita de corpo, mas…  não tive juízo:  fiei-me demais nos homens.  Se quer aceitar um conselho, filha, preste mais atenção à sua arte do que a todos esses … gajos, que fazem das mulheres um objeto de luxo e nada mais.  Só assim a senhora evitará o hospital e a miséria.

— Ora esta!  exclamou  Clorinda.  Quem é você mulher, para me falar assim?

— Eu sou … a Marcelina.

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 Em:  Contos fora de moda, originalmente publicado em 1894.

 

Artur Azevedo (Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista, poeta, contista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio de Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a Cadeira n. 29, que tem como patrono Martins Pena.

Obra:

Carapuças, poesia, 1871

Sonetos, 1876

Um dia de finados, sátira, 1877

Contos possíveis, 1889

Contos fora da moda, 1894

Contos efêmeros, 1897

Contos em verso, 1898

Rimas, poesia, 1909

Contos cariocas, 1928

Vida alheia, 1929

Histórias brejeiras, seleção e prefácio de R. Magalhães Júnior 1962

Contos, 1973





Imagem de leitura — Pierre Pivet

19 05 2010

O vestido amarelo, s/d

Pierre Pivet ( França, 1948)

óleo sobre tela, 100 cm x 60 cm

www.pierrepivet.com

Pierre Pivet nasceu na Normandia, na França em 1948.  Mudou-se para Paris em 1953 e começou a pintar em 1962, inspirado então pelos trabalhos de Velazquez e de Rembrandt.  Em 1969 ficou órfão de pai e mãe.  Começou então a trabalhar como programador  para uma companhia francesa.  Em 1972 fixa residência nos Estados Unidos e se casa.  Em 1974 retorna à França e completa seus estudos na Academia Port Royal.  Quando emigra para o Canadá em 1983, e se estabelece em Montreal, Pierre Pivet já havia visitado o Marrocos diversas vezes e se encantado com as cores do país.   Apreciador dos Fauvistas , ele retém até hoje a palheta cromática desses pintores.  É atrás de cores também que visita por diversas vezes países da America Central,  na década de 90.





Os sapos, poema de Manuel Bandeira

19 05 2010

Os sapos

                                                                      Manuel Bandeira

Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os delumbra.

Em ronco que a terra,

Berra o sapo-boi:

— “Meu pai foi à guerra!”

— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”

O sapo-tanoeiro

Parnasiano aguado,

Diz: — ” Meu cancioneiro

É bem martelado.

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte!  E nunca rimo

Os termos cognatos.

O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A formas a forma.

Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas…”

Urra o sapo-boi:

— “Meu pai foi rei” — “Foi!”

— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”

Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

— “A grande arte é como

Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatutário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,

Canta no martelo.”

Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas:

–“Sei!” — “Não sabe!” — “Sabe!”

Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No perau profundo

E solitário, é

Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo-cururu

Da beira do rio…

                                                                           1918

—-

 

Manuel Bandeira (Recife PE, 1884 – Rio de Janeiro RJ, 1968) foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Teve seu primeiro poema publicado aos 8 anos de idade, um soneto em alexandrinos, na primeira página do Correio da Manhã, em 1902, no Rio de Janeiro. Cursou Arquitetura, na Escola Politécnica, e Desenho de Ornato, no Liceu de Artes e Ofícios, entre 1903 e 1904; precisou abandonar os cursos, no entanto, devido à tuberculose. Nos anos seguintes, passou longos períodos em estações climáticas, no Brasil e na Europa.

Obras:

Poesia 

A cinza das horas, 1917

Carnaval, 1919

O ritmo dissoluto, 1924

Libertinagem, 1930

Estrela da manhã, 1936

Lira dos cinquent’anos, 1940

Belo, belo, 1948

Mafuá do malungo, 1948

Opus 10, 1952

Estrela da tarde, 1960

Estrela da vida inteira, 1966

Prosa 

Crônicas da Província do Brasil – Rio de Janeiro, 1936

Guia de Ouro Preto, Rio de Janeiro, 1938

Noções de História das Literaturas – Rio de Janeiro, 1940

Autoria das Cartas Chilenas – Rio de Janeiro, 1940

Apresentação da Poesia Brasileira – Rio de Janeiro, 1946

Literatura Hispano-Americana – Rio de Janeiro, 1949

Gonçalves Dias, Biografia – Rio de Janeiro, 1952

Itinerário de Pasárgada – Jornal de Letras, Rio de Janeiro, 1954

De Poetas e de Poesia – Rio de Janeiro, 1954

A Flauta de Papel – Rio de Janeiro, 1957

Itinerário de Pasárgada – Livraria São José – Rio de Janeiro, 1957

Andorinha, Andorinha – José Olympio – Rio de Janeiro, 1966

Itinerário de Pasárgada – Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1966

Colóquio Unilateralmente Sentimental – Editora Record – RJ, 1968

Seleta de Prosa – Nova Fronteira – RJ

Berimbau e Outros Poemas – Nova Fronteira – RJ

 








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