Os primeiros livros, poema de Bastos Tigre

9 06 2010
O livro do ABC, 1943, ilustrado por Ethel Hays ( EUA 1892-1989).

Os primeiros livros

                                                                                       Bastos Tigre

Um livro: — um lindo brinquedo

Que Bebê fica a mirar:

Cada página é um segredo

          A desvendar.

 

Livro de folhas escritas

E ilustradas — mais de cem!

Quantas histórias bonitas

          Ele contém!

 

Figuras de vivas cores,

Lindamente combinadas:

Casas, bichos, frutas, flores,

          Bruxas e fadas…

 

E a explicação disso tudo

Em grandes letras impressas!

Bebê, radiante no estudo,

          Firme, começa!

 

Essas letras, essas frases

Têm tais sentidos ocultos,

Que entender não são capazes

          Doutos adultos.

 

É preciso ter cinco anos

— E nem todo mundo os tem —

Para poder tais arcanos

          Penetrar bem.

 

Por leitura eu não entendo

O que eu faço e faz qualquer,

As letras do que está lendo

          Sem ver sequer.

 

Bebê cada letra estuda,

Em cada sílaba atenta,

Franzindo a testa sisuda,

          Descobre, inventa,

 

 Decifra um novo mistério

A cada voz que enuncia

Que estudo não há mais sério,

          De mais valia.

 

E é de notar-se o ar solene

Com que as silabas lê:

Já não confunde o “m” e o “n”,

          O “p” e o “q”…

 

Ei-lo que as letras combina,

Forma os sons e, num momento,

Vai-lhe a frase, da retina

          Ao pensamento.

 

Maravilha do alfabeto

Que dos arranjos de traços

Faz surgiur a idéia, o objeto!

          Novos espaços.

 

Abre à razão ignorante,

Dá-lhe asas de luz e a eleva,

Radiosa, para o levante,

          Longe da treva!

 

Que humano invento o suplanta?

Só um Deus pudera, em verdade,

Tal grandeza por em tanta

          Simplicidade.

 

Vendo-o tão simples, dir-se-ia

— Do nada tão pouco além…

Que humana sabedoria

          Do nada vem…

 

Quase-nada, gérmen ovo,

Do saber, célula mater,

Sem ele não tem um povo

          Alma, caráter…

 

                          ***

 

Mas Bebê quer tudo feito

Depressa; e anseia por ciência!

(Não é seu menor defeito

          O da impaciência).

 

E, antes que os frutos recolha

Da cultura, ah, quem dissera!

Todo o livro, folha a folha,

          Zás, dilacera!

 

 

 

Em: Meu bebê: poesias líricas ( Poemas da primeira infância), 1925. [Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras].








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