Relato de viagem de George Gardner, 1839-1840 — Goiás

19 06 2010

Distrito da Chapada, 1827

Adrien Taunay ( França, 1803-1828)

Aquarela,  42 x 32 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo, Rússia

—-

—-

George Gardner foi um botânico, zoológo e médico, enfim um naturalista inglês. Nasceu em 1812 e faleceu em 1849.  Chegou ao Brasil em 1836 e passou 3 anos e meio aqui.  Percorreu algumas regiões do Nordeste e do Brasil Central.  Registrou suas impressões no livro Viagens no Brasil cujo título é: Viagens no interior do Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos do ouro e do diamante durante os anos de 1836-1841, publicado em 1846, 1849 e em 1973, todas essas edições em inglês, sendo traduzida para o português apenas em 1942 e reeditada em 1975.  Aqui está um trechinho:

          “No dia 10 de fevereiro de 1840 partimos de Natividade, com o intuito de ir até a vila de Arraias, cerca de trinta léguas ao sudeste.  Tínhamos feito todos os preparativos para partir no segundo dia do mês, mas passamos pelo aborrecimento de saber que um dos cavalos desaparecera, o que nos deteve ali por oito dias mais.  Verificamos, afinal, que alguém o levara de empréstimo, porque quatro dias depois de nossa partida foi encontrado perto do lugar donde o haviam tirado, sendo então enviado, para me alcançar em caminho, pelo meu amigo, o juiz de órfãos.

          Saindo de Natividade e contornando a serra em direção do sul, chegamos à margem de pequena corrente chamada riacho Salobro, que corre para o oeste desemboca no rio Manuel Alves;  suas águas são salobras durante o tempo da seca.  Os fardos tiveram de ser passados todos por sobre uma tosca espécie de ponte chamada pinguela, feita do tronco de duas árvores; e, como o rio e suas margens eram fundos,tivemos não pouca dificuldade em fazer os animais atravessar a nado.  Ficamos por essa noite na Fazenda das Três Léguas, por ser essa a distância da vila, como o nome indica.  Na manhã seguinte,  após légua e meia de caminho,  chegamos novamente às margens do rio  Manuel Alves, mais fundo e largo do que no lugar onde primeiro o atravessamos: aqui, porém, tivemos a dita de encontrar canoa e, segurando cada qual um dos cabrestos, puxaram os animais a nado, dois de cada vez.  Antes que nossa bagagem fosse transportada para o lado oposto, passou por sobre nós, vinda do  nordeste, grande trovoada que nos encharcou.   À vista disso, pareceu-me que o melhor era seguirmos imediatamente para a primeira casa, légua e meia distante dali, onde pernoitamos.

          A região entre a vila e o rio é quase toda uma planície baixa, de campos abertos, pântanos e tratos de terra escassamente cobertos de árvores.  Alguns belos arbustos florescentes e umas poucas orquídeas terrestres foram colhidas na jornada.

          Deste lugar, em dois dias e meio, vencemos mais de dez léguas para chegar ao Arraial da Conceição.  Na noite de 12 dormimos em uma grande fazenda de criação de gado, chamada São Bento, impedidos que fomos de partir à tarde por motivo de forte tempestade.  Até uma légua do arraial a região ainda é aberta e baixa; ao depois torna-se montanhosa, mas montanhas baixas e por vezes rochosas.  Tão rara é a população desses  distritos, que entre São Bento e o Arraial, em uma distância pelo menos de vinte milhas, só encontramos uma casa.  A maior parte deste distrito apenas se presta à criação de gado; mas há também grande porção admiravelmente propícia a plantações de várias espécies.

Palmeiras Buriti, Quilombo, na Chapada, 1827

Adrien Taunay ( França, 1803- 1828)

Aquarela, 41 x 32 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo, Rússia.

 O Arraial da Conceição tem uma população de cerca de CE m almas; mas há no lugar muitas casas, pertencentes a fazendeiros, que só as ocupam ao tempo das principais festas da igreja.  Negros e mulatos formam a maioria da população residente e poucos brancos vimos nos quatro dias em que lá estivemos.

          A vila assenta em uma baixada entre duas colinas, mas a região em torno é geralmente plana.  As casas erguem-se quase todas, em duas ruas compridas, com duas igrejas, uma das quais em ruínas.  A água de que Arraial se abastece vem de pequeno regato; água má, de sabor salobro, que parece ter alguma influência na produção do bócio, tão comum na zona do oeste da serra Geral, que é, até onde pude verificar, cercada de pedra calcária semelhante à que existe em Natividade.  As águas que manam nestas rochas são todas mais ou menos salinas e, onde quer que são bebidas pelos habitantes, aí se encontra o bócio.  Ao longo da parte oriental da serra, ao contrário, raramente se encontram casos desta doença; e aí, pelo menos nas partes por mim visitadas, não há pedra calcária, nem são os riachos impregnados de matéria salina.

          O solo dos arredores da aldeia, em uma extensão de cerca de uma légua, dá evidentes mostras de ter sido escavado em busca de ouro e, por tudo quanto ouvi, muito deste metal aí se encontrou antigamente.

          O pouco que hoje se acha mal compensa os labores da procura.  O solo em que se encontra é de argila e cascalho, restos, evidentemente, de primitivas rochas, onde o ouro aparece ou em partículas diminutas, ou em grãos de todos os tamanhos, chegando alguns deles, ao que se diz, ao peso de várias onças.  Acredita-se também na existência de ricos veios na rocha sólida, que consiste principalmente de quartzo; mas não se podem explorar em profundidade, por falta de meios de remover a água que se acumula.  Informou-me o vigário, talvez com exagero, que a pouca distância da aldeia existe uma mina tão rica, que um pequeno balde de terra dá quase um quarto de onça de ouro.  Disse mais, que a mina não tem mais de vinte pés de profundidade, mas teve de ser abandonada por muito tempo devido ao influxo de uma nascente de água.

          O único meio de se livrarem da água era postar em diferentes alturas certo número de homens que passassem a água de um para o outro em pequenos baldes.  Perguntando-lhes eu por que não faziam uso de bombas, disseram-me que já haviam ouvido falar em tal coisa, mas nunca a tinham visto.  Porque os mecânicos do lugar eram a tal ponto ignorantes, que não sabiam fabricar tão simples instrumentos.

          Do vigário recebi muitas provas de bondade durante minha visita.  Era um homem em extremo benevolente e muito estimado do povo.  Embora avançado em anos, mostrava-se de temperamento ativo, muito mais ativo, com efeito, que o comum da gente de sua classe e da gente de todo o país.

          Era a única pessoa daquelas paragens que assinava um jornal do Rio; mas pela irregularidade dos correios, davam-se longos intervalos em sua entrega.  O vigário deu-me uma apresentação a um dos homens mais influentes nos arredores da vila Arraias e que era seu amigo íntimo.

          Dentro dos últimos vinte anos sentiram-se dois ligeiros abalos sísmicos em Natividade e Conceição, o primeiro em 1826 e o segundo em 1834: o tremor de terra, ainda que de curta duração, foi nitidamente perceptível em ambos os lugares.  Também foram os únicos lugares do Brasil onde soube que tais fenômenos se tinham observado.

          Partimos de Conceição na manhã de 17 de fevereiro, vencendo quatro longas léguas para chegar, quando a tarde estava avançada, às margens do rio da Palma”. ….


Ações

Information

6 responses

28 09 2011
marco antonio de faria galvao

O ano correto de nascimento de George Gardner e 1810 conforme site escoces.

28 09 2011
peregrinacultural

Marco Antônio, obrigada pela informação. O Larousse que tenho em casa não dá precisão na data de nascimento do cientista. Aconselho aqueles para quem a data de nascimento dele seja importante que verifiquem em outras fontes. Não obstante fica aqui a informação. Obrigada pela leitura cuidadosa. Um abraço, Ladyce West

17 11 2011
claudemiro

Ainda não li por inteiro a obra do magânimo Gardner, mas apenas seus relatos sobre sua subida pelo Rio São Francisco/Alagoas. E já a tenho sob dimensão de compromisso invulgar. Este jovem naturalista, que aos seus vinte e poucos anos – na dura via brasileira do início do Sec. XIX, aventurou-se em missão tão importante para a ciência, deixando com essa coragem cívico-universal um legado desmedido a todos estudiosos da botânica. Abs; claudemiroavelino@hotmail.com

18 11 2011
peregrinacultural

Sou apaixonada por esses relatos de viagem. Realmente eles padeceram muito para chegar onde chegaram. E deixaram uma excelente documentação que acho ainda pode ser de maior uso do que já fizemos. Um abraço, Ladyce

20 07 2012
marco antonio de faria galvao

Ladyce,
realmente as informacoes precisas e desenhos maravilhosos nos ajudam a uma melhor percepcao de nosso Pais, ontem e hoje. Experimente ver os desenhos do William J. Burchell. Estive sobrepondo as trilhas deles e mais as do Pohl e Saint Hillaire. Eh apaixonante.
abs,
marco antonio

20 07 2012
peregrinacultural

Obrigada Marco Antonio, vou fazê-lo. Um grande abraço, e Feliz Dia do Amigo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: