A língua do Nhem — poesia infantil de Cecília Meireles

6 08 2010

 

 

 Ilustração, Maurício de Sousa.
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A língua do Nhem

                                         Cecília Meireles

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Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

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Em: Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:

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Veja este poema musicado numa animação infantil em homenagem à maturidade, com poesia de Cecília Meireles e música de Dércio Marques.

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