Parece mesmo que vem chuva — poesia de Sílvio Ribeiro de Castro

11 08 2010

Um dia de chuva em Lexington, KY, 1898

Paul Sawyier (EUA, 1865-1917)

Parece mesmo que vem chuva

                                            Sílvio Ribeiro de Castro

Banho morno na banheira

ensopado cozinhando na panela

alvoroço nas folhas da palmeira

vento sul entrou pela janela

antes do almoço, uma bagaceira

a tarde chegou num barco à vela

Parece mesmo que vem chuva

doce de banana com canela

na fruteira, um cacho de uvas

desenho inacabado numa tela

esquecido na cadeira, um par de luvas

sente saudades das mãos dela

—-

Bule de café na mesa, cesta de pão

um vaso de rosas amarelas

cachorrinho dormindo no chão

o livro de sonetos de Florbela

noite no meu quarto, solidão

um rosto de mulher numa aquarela

Em: Poesia Simplesmente, diversos autores, prefácio de Roberto Pontes, 1999.


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4 responses

13 08 2010
Altair Andrade Cruz

Da mesma categoria – soneto, em homenagem a esse blog. De Paulo Mendes Campos “que tinha um telhado e tinha manhãs, tinha uma cozinha e tinha girassóis e beija-flores que podiam ter vindo de qualquer canto das Américas…”

NA GROTA

Paulo Mendes Campos
Tinha verdejando bem uma muda de pau-brasil patrioticamente conquistada no Ministério da Agricultura
Tinha um príncipe-negro iluminando o jardim com a luz de terras profundas de Minas Gerais
Tinha uma buganvilha-brigue já firmada para a vida alastrando-se sobre a pedra da cozinha
Tinha uma cozinha
Tinha onze – horas róseas e branquinhas compondo os quadros de Renoir pela margem do caminho
Tinha dinheiro-em-penca reluzindo no orvalho das manhãs
Tinha manhãs
Tinha uma quaresmeira de duas cores à beira do riacho
Tinha sempre florindo aquela dadivosa Maria-sem-vergonha
E tinha uma limeira apanhada no mato que tinha vencido a luta contra a morte
Tinha rosas amarelas, outras brancas e outras vermelhas, só não tinha a ainda não inventada rosa azul
Tinha as mesmas delicadas balsaminas que Collette cultivava e amava no deserto da idade avançada
Tinha pimenteiras nascentes
E até uma calha no telhado para coletar água da chuva
Tinha um telhado
Tinha latas de cerveja geladinhas esperando a sede dos finais de semana
Tinha um aparelho de tostar fatias e um aparelho de fondue com aquele fulgor bonito e cigano do cobre batido
Tinha Maria Aparecida
E a renda verde da hera subindo nos muros da frente
Tinha pinga de Paracatu
E queijo de Minas pra botar no pão
Tinha amigos
De Minas, do Rio e beija-flores que poderiam ter vindo de qualquer canto das Américas
Tinha dois melros, cinco canários, dois do reino e um bicudo
E até o bichano independente e ostensivo miando em cima do telhado
Tinha um telhado
E tinha uma calha pra coletar água da chuva
Tinha onze filhotes das duas cadelas vira-latas, todos uma graça
Tinha livros… Inclusive um manual do jardineiro
Tinha na horta salsa e cebolinha e mostarda
Tinha o cheiro do almoço preparando na cozinha
Tinha uma cozinha
Tinha uma rede amarrada numa árvore que tanto podia ser gambá-melado como jacarandá-miúdo
E tinha gansos e galinhas d’Angola
Tinha aipim e macaxeira e batata doce e caqui e mexerica
Tinha um frio que dava para a desculpa de acender a lareira
Tinha vinho nacional bem bonzinho
Tinha barulhinho das águas das nascentes
E o rumor das águas da cachoeira
Tinha água na caixa de sair pelo ladrão
Tinha antúrios, zínias, lírios amarelos, camélias e mastruço pro chá
Tinha chávenas para beber o chá
Tinha pombas chegando e partindo nas tardes azuis
Tinha ouro adornando as manhãs
Tinha manhãs
Tinha cristal da Prússia enfeitando o meio-dia
E tinha o lilás da noite acetinando o silêncio dos sonos
Tinha no bolso um dinheirinho
E uma arara comendo sementes de girassol
Tinha girassóis
Tinha uma coisa diferente e feliz nos ventos da praia
Tinha outra coisa também diferente e feliz na aragem das noitinhas
Tinha os papéis em ordem e os impostos quase pagos guardados na gaveta
Tinha um sabiá morto boiando na água do poço, um sabiá todo ferido sangrando no peito, morto, a boiar no poço
Estava no poço
Tinha rosas e pimenteiras, queijos de Minas e girassóis e amigos e pássaros, tinha um telhado.
Mas tinha um sabiá morto boiando na água do poço
No poço…

6 06 2011
peregrinacultural

Belíssimo!
Realmente, mesma veia… uma tradição. Obrigada pela contribuição.

13 01 2012
Benedito Alberto Villalva

Gostei do seu poema. Espero que goste dos meus. Abraços.

8 06 2012
Elias Santana

Este grupo é aberto para novos participantes? eu sou iniciante, não leio tanto como gostaria, mas acredito que um grupo de leitura irá me motivar muito. Um grande abraço.
Elias Santana

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