Imagem de leitura — Robert Sarsony

31 01 2011

Moda de verão, s/d

Robert Sarsony ( EUA, 1938)

óleo sobre tela,  75cm x 60 cm

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Robert Sarsony (EUA, 1938) é um pintor autodidata, que começou a expor em galerias de Nova Jersey, nos Estados Unidos, em 1963.  De 1969 a 1974 ele fez uma série de quadros baseados em ilustrações de livros e revistas dos anos 20 aos anos 40; deu o nome a essa série de Pop-Antiques.  Atualmente ele se dedica mais à pintura de gênero com muita atenção aos efeitos de luz.





Um olho na Serra do Mar e outro na China: devastação e replantio

30 01 2011
Tecido estampado com paisagem chinesa.

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Dois eventos nesse início de ano deveriam nos fazer redobrar os cuidados com o meio ambiente —  imediatamente!   As chuvas devastadoras na Serra do Mar, e o anúncio do governo da China admitindo que seus esforços no combate à desertificação do país  (muito maiores do que os que fazemos por aqui) estão simplesmente colocando o avanço do deserto em cheque e que serão necessários pelo  menos 300 anos para que a China consiga recuperar a área perdida para o deserto de terra produtiva e de florestas. 

O programa chinês para retomada do deserto é a maior campanha de replantio do mundo.  Mesmo assim,  serão necessários mais de três séculos  para que o equilíbrio ambiental volte a se estabelecer.   Não será para a geração dos nossos filhos, nem dos nossos netos, nem bisnetos.  Estamos a 15 gerações de um equilíbrio ecológico na China, se eles mantiverem os esforços ambientais nos termos que têm hoje.

Mais de um quarto do território chinês está coberto por deserto ou terra sob os efeitos de desertificação, enquanto que só 14% da China está coberta de florestas, a maioria destes territórios em zonas montanhosas. As últimas grandes extensões de floresta estão no nordeste da Manchúria.

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Tecido com estampado oriental.

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O processo de desertificação foi causado por uma série de fatores, alguns deles conhecidos nossos: excesso de pastagem e de técnicas agrícolas inadequadas, exploração agrícola e madeireira ilegais e queimadas.  Estes fatores consumiam até 5.000 quilômetros quadrados de floresta virgem, na China, a cada ano.   A indústria de móveis também tem seu papel de responsabilidade no desastre ecológico chinês: ela engole grandes quantidades de madeira chinesa, assim como madeira cortada ilegalmente da floresta tropical da Indonésia e em outros lugares vizinhos.

De 1990 a meados dos anos 2000 a China passou de importadora de produtos de madeira,  para um dos principais exportadores mundiais de madeira, móveis e piso.  O custo foi o meio ambiente.  Além disso, a China é um grande consumidor de papel.  Apesar de muito do papel usado na China já ser reciclado, a demanda é muito maior do que a oferta. 

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Papel de parede com cena oriental.

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O desmatamento chinês já é responsável pelo declínio de 4% das chuvas naquele país inteiro e de 15% no período da estiagem, na área de Xishuangbanna de Yunnan, onde 50% da floresta já desapareceu. 

No entanto, esses imensos esforços nos últimos 10 anos ainda não são o suficiente para a recuperação ambiental da China e do mundo.  Como o Sr. Liu Tuo, responsável pelo programa de reflorestamento do país explicou: “Há cerca de 1.730.000 quilômetros quadrados de terras degradadas na China, além de cerca de 530.000 quilômetros quadrados que deveriam ser tratados.”  Para nossa referência: 1.730.000 Km²  é um território maior do que estado do Amazonas.  O replantio tem sido de 1.717 km² por ano.

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 O processo recente de desmatamento na China, trouxe consequências severas para a população, e examinando o caminho chinês talvez possamos aprender a meio caminho, o que não fazer, e o que não deixar fazerem. 

O corte das florestas para uso da madeira e do pastoreio transformou  grandes áreas da província de Qinghai em deserto. Nesse meio tempo, grandes extensões de floresta também foram cortadas nas províncias de Sichuan e Shaanxi.  O corte das árvores e conseqüente destruição da floresta trouxe como resultado a erosão da bacia do rio Yangtze, que por sua vez foi responsável por inundações devastadoras, desabamentos e deslizamentos de terra que já mataram milhares de pessoas, destruíram estradas além de causar bilhões de dólares de danos. O desmatamento sem freios tornou até os mais delicados regatos de água doce em rios de água marrom enlameada.   Deslizamentos das encostas montanhosas já desarborizadas tem sido um dos mais importantes fatores para a inundação excessiva do rio Yangtze.

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Tecido com estamparia de cena chinesa.

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Desde 1998 grandes projetos de reflorestamento estão sendo implantados. A China proibiu a indústria madeireira em florestas naturais, destinou US $ 10 bilhões para projetos de reflorestamento e planejou gastar US $ 1 bilhão por ano durante 30 anos para expandir as áreas protegidas. Para reduzir o consumo de madeira a China impôs uma taxa de 5% ao piso de madeira e até mesmo aos pauzinhos, tradicionais objetos no consumo das refeições.  Cortadores das indústrias madeireiras foram treinados para plantar árvores enquanto que exploração da madeira foi completamente proibida em algumas áreas das províncias de Sichuan e Hubei.

O esforço governamental não é de hoje.  Começou  na década de 1970 quando o plantio de milhões de árvores transformou em florestas muitas áreas que já estavam estéreis.  Foram as enchentes anuais  e a erosão do terreno os principais motivos dessa empreitada governamental.  O que foi ótimo, porque  fez também uma contribuição significante contra o aquecimento global, já que as florestas plantadas são responsáveis por re-absorverem um boa quantidade de gás carbônico.   Foram 35 bilhões de árvores plantadas  ao longo de 4.500 km no norte da China que formaram um cinturão verde.  O plantio tem sido feito em faixas de terreno de um quilômetro e meio de largura e tem tido 70% de sucesso de sobrevivência das plantas nas áreas de reflorestamento.  Outro cinturão de árvores foi plantado no sudoeste da China, como medida de proteção aos tufões.  

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Tecido para estofado com estamparia oriental.

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O plano original, e alcançado, era cobrir 20% das áreas devastadas até 2010, através do programa de plantio de árvores.  O plantio de árvores é considerado um dever cívico na China, que deve ser realizado por todas as pessoas.   Depois das enchentes do Yangtze, em 1998, uma proibição do corte de florestas naturais foi imposta e o reflorestamento maciço na bacia hidrográfica do Yangtze foi levado adiante.  Terraços em declives superiores a 25º foram plantados com gramíneas, arbustos e árvores.  Grandes extensões de terras aráveis foram convertidas em pastagens, florestas e lagos típicos de zonas úmidas.  

 Como funciona?  —  Parte do trabalho de reflorestamento é feito por garimpeiros que cavam os buracos, e que recebem como pagamento por um dia de trabalho, quatro ou cinco pacotes de macarrão instantâneo, que eles consomem ao seco, porque não há água potável disponível.

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Tecido com estamparia de paisagem com flores e passarinho.

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Acho um absurdo o que o governo chinês paga aos seus conterrâneos para o plantio de mudas. E não estou aqui defendendo que se faça no Brasil, semelhante exploração de outro ser humano.  Mas acredito que temos que fazer muito mais do que estamos fazendo.

Temos culturalmente duas características que nos levam a perder muito tempo: queremos agradar a todos  (mãe, pai, avô, cachorro e periquito) e adoramos teorizar.  A primeira característica é difícil de ser contornada.  Podemos dar uma olhada no nosso código civil para vermos porque muitos criminosos conseguem não serem punidos.  Há sempre mais uma chance a ser dada, há sempre um aspecto que os inocenta (da infância pobre à falta de conhecimento da lei).  Somos um país de “coitadinhos”.  É difícil para o brasileiro ser durão, porque precisa ser querido por todos.  Haja visto a nossa preocupação com o que os outros países pensam de nós.  Tivemos um presidente da República que personificou essa característica ao extremo e o povo o adora, talvez até mesmo por isso.

O segundo traço do nosso caráter é tão arraigado quanto o primeiro, pois vem de uma tradição luso-francesa, acadêmica, em que tudo precisa ser teorizado, estudado, debatido.  E quando finalmente chegamos a alguma conclusão, o tempo já nos passou para trás.  Somos excelentes debatedores desde que saibamos nossas teorias, é claro.  Tendemos a ver tudo sob a luz de perfis políticos, sociais e filosóficos e perdemos muito, muito tempo com blá, blá, blá, com debates sem importância, equivalentes à descoberta de quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete.  Isso é um resquício de uma aristocracia  do saber,  formada por  uma meia-dúzia de gatos pingados que tinham alguma educação e por uma nobreza que deixava os intelectuais entrarem nos seus salões para divertí-la e para que ela também se sentisse culta.  Uma atitude que não cabe numa democracia, numa sociedade com a nossa,  que hoje, mesmo com as falhas que temos na educação, é muito mais pluralista de pensamentos, experiência e saber.  Essa habilidade de discutir, de debater teorias, só satisfaz ao ego dos debatedores, que acreditam que o debate em si, já é alguma coisa.  E saem das discussões felizes com a impressão de que fizeram algo, qua contribuiram, mas que deixam para os outros, os  menos intelectuais, a tarefa de sujar as mãos, ou melhor, de colocar as mãos na massa.  

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Tecido estampado com araras no ninho.

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Cresci aqui no Brasil, me formei numa das melhores escolas brasileiras, o Colégio Pedro II, grande incentivador de debates. Fiz aqui, também, alguns anos de faculdade, mas saí do Brasil, me formei lá fora e vivi no estrangeiro mais de duas décadas: em mais de um país e em três continentes.  Posso dizer que invejo o pragmatismo americano e o orgulhoso espírito empreendedor espanhol.  E desejaria que pudéssemos aprender com ambos um pouco mais:  que fôssemos mais à luta, de maneira pragmática do que simplesmente com debate; que fôssemos mais rápidos no gatilho, mais ambiciosos por soluções.  E finalmente menos apegados à burocracia da mente. 

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Tecido para estofado com araras.

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Então, o que precisamos fazer para que não aconteça com o Brasil, com a Serra do Mar, com a Mata Atlântica, o que aconteceu na China?  O que precisamos fazer para que não tenhamos que esperar 15 gerações — pode ser até que os humanos já não possam viver Nesta Terra — para que haja um equilíbrio ecológico?  Quais são os próximos passos para que as cenas bucólicas da natureza em paz com o ser humano não existam unicamente na pintura de tecidos de hoje ou dos séculos passados? 

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Veja a enchente de 1998 no Rio Yangtze:
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Fontes: ItamaratyUSGS, BBC, Facts and details





Filhotes Fofos: Antílope bongô

29 01 2011

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Apresentando:  Isabelle, recém-nascida filhote bongô, uma espécie africana de antílopes, calmamente refestelada ao lado de sua mamãe no Franklin Park Zoológico, na cidade de Boston, nos Estados Unidos.

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Outras citações visuais de Vik Muniz: um pedido de responsabilidade política e social

28 01 2011

 Narciso, c.1597-99

Caravaggio, [Michelangelo Merisi da Caravaggio](1571-1610)

óleo sobre tela,  110 x 92 cm

Galeria Nacional de Arte Antiga, Palazzo Barberini, Roma

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Narciso, d’ après Caravaggio

Vik Muniz ( Brasil, 1961)

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Narciso, na mitologia grega, foi um caçador conhecido por sua beleza.  Muito orgulhoso, não gostava de ninguém, pois não considerava ninguém à sua altura. As ninfas que ele rejeitou, belíssimas todas,  pediram aos deuses que fosse castigado por sua arrogância.   Por isso os deuses o fizeram apaixonar-se pela sua própria imagem refletida num lago. Narciso morre afogado ao tentar abraçar a imagem refletida.   A citação dessa imagem por Vik Muniz traz a implicação do nosso próprio suicídio: estamos nos afogando nos restos dos nossos desejos.

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Atlas, segurando o globo celestial, 1646

Giovanni Francesco Barbieri, conhecido como Guercino (1591-1666)

óleo sobre tela,  127 x 101 cm

Museu Mozzi Bardini, Florença

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Atlas, d’après Guercino

Vik Muniz ( Brasil, 1961)

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Atlas, filho de Gaia e de Urano era um dos Titãs gregos.  Ele cometeu o erro, de junto com seu irmão Cronus de lutar contra Zeus.  Foi então condenado por este a carregar a esfera celeste nos ombros.

No século XVI, o cartógrafo Mercator, colocou a imagem de Atlas, carregando a Terra, e não o céu, na primeira página de seu livro de mapas.  Isso porque o local para onde Atlas foi a mando de Zeus segurar a esfera celeste era conhecido pelos gregos como o fim do mundo, onde é hoje o oceano Atlântico, cujo nome deriva desse Titã.  A partir desse momento, Atlas passa a ser representado, por muitos, como segurando a Terra ou o peso do mundo.

O Atlas de Vick Muniz carrega o peso do lixo do mundo.

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Passadeira, 1904

Pablo Picasso (Espanha,1881–1973)

óleo sobre tela, 116.2 x 73 cm

The Solomon Guggenheim, Foundation, Nova York

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Isis, mulher Passando a ferro,

Vick Muniz

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Obras de pintura do chamado Período Azul de Picasso se concentraram em grande parte no retrato dos marginalizados, das classes sociais mais carentes, que tanto preocupavam a imaginação européia do final do século XIX até as primeiras duas décadas do século XX.  Dançarinos, atores circenses, trabalhadores braçais foram tema de muitos artistas plásticos que os retratavam como as pessoas fatigadas, exploradas e economicamente desfavorecidas que eram.

Vik Muniz não perdeu a ocasião de fazer seu próprio comentário sobre os catadores de lixo do Jardim Gramacho sob essa mesma luz ao citar a Passadeira de Pablo Picasso.

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Saturno devorando seu filho, 1819-23

Francisco Goya, (Espanha, 1746-1828)

Óleo sobre tela, 146 × 83 cm

Museu do Prado, Madri

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Saturno devorando seu filho, d’ après Goya

Vik Muniz (Brasil, 1961)

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Saturno, o rei dos Titãs, foi avisado que um de seus filhos iria tirá-lo do trono, derrubá-lo.  Aterrorizado com essa profecia, ele não os deixou crescer, devorando um a um os quase doze filhos que teve. Nenhuma das crianças sobreviveu.  Ele, na loucura de permanecer e de garantir seu poder, não deixa espaço para a próxima geração, separa sua consciência de seus sentimentos e corta a conexão que tem com a vida futura.

Vik Muniz nos mostra como agimos à semelhança de Saturno, preocupados com o nosso viver, sem considerar que o nosso lixo virá a matar as futuras gerações.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011

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VIDEO DE COMO A OBRA É FEITA

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Imagem de leitura — Édouard Manet

28 01 2011

Senhora lendo, 1879-80

Édouard Manet ( França, 1832-1883)

Óleo sobre tela, 61 x 51cm

Instituto de Arte de Chicago

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Édouard Manet (França, 1832 — 1883) Pintor e artista gráfico, foi de grande importância no desenvolvimento do estilo impressionista, por seus seguidores, tornando-se um dos mais importantes artistas plásticos do século XIX.  Revolucionário não só nas técnicas de pintura mas também pelos temas que escolheu retratar. Um dos pais da arte moderna do século XX.





Jacques-Louis David e Vik Muniz, unidos pelo lixo

27 01 2011

A morte de Marat, 1793

Jacques-Louis David ( França, 1748-1825)

óleo sobre tela 165 x 128 cm

Museu Real de Belas Artes, Bruxelas

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O noticiário da semana tem-se dedicado ao documentário Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, codirigido por Karen Harley e João Jardim.  Uma produção anglo-brasileira que se tornou candidata ao Oscar de 2011.  Apesar de as estrelas do documentário serem os próprios catadores do Lixão em Jardim Gramacho, o filme está centrado na obra do artista plástico brasileiro Vik Muniz junto aos catadores.

Ainda não vi o documentário.  Mas fui atraída para o assunto: primeiro, se entendi bem, pelo caráter de denúncia ambiental e a preocupação com as 7.000 pessoas que dependem do trabalho no lixão, que está programado para fechar em 2012.  E segundo, a obra de Vik Muniz em si, responsável pela imagem que se tornou símbolo do documentário.

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Marat (Sebastião)

Vick Muniz (São Paulo, 1961)

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Em nenhum artigo sobre esse documentário consegui ver  alguma menção estabelecendo que a cena retratada por Vik Muniz parodia o trabalho de Jacques-Louis David.  Esse pintor francês retratou em grande estilo, o revolucionário Jean-Paul Marat, seu amigo pessoal,  no momento de sua morte.  Marat foi assassinado por Charlotte Corday —  na banheira em que permanecia boa parte do tempo cheia de água com sais minerais para a imersão que o ajudava a controlar o desconforto causado pela doença de pele que o afligia.   É verdade que esse quadro está entre os mais conhecidos no mundo, mas isso não justifica a falta de menção.   O fato de Marat estar no título não exonera as publicações de mencionarem o original, principalmente porque jornais e revistas têm que assumir que nem todos que os lêem saberão da referência.

Em se tratando de Vik Muniz, seria de se esperar a referência:  afinal este é um artista plástico brasileiro conhecido pelas citações visuais.  São exemplos disso: as Mona Lisas de geléia de uva e de manteiga de amendoim, 1999 e também, a reinterpretação de diversos quadros de Monet e da Última Ceia de Leonardo Da Vinci, entre outros.  Mas precisamos saber por que?  Por que A Morte de Marat, de Jacques-Louis David e não, digamos,  O grito de Edward Munch, ou qualquer outra obra?   Na verdade, por que fazer essa alusão?

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Mona Lisa de Geléia de Uva e Mona Lisa de Manteiga de Amendoim, 1999

Vik Muniz (Brasil, 1961)

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Jean Paul Marat (1743-1793) foi médico, filósofo, cientista , ensaísta, jornalista e panfletário, que ficou mais conhecido por sua participação nos eventos políticos e que na companhia de Danton e de Robespierre levaram a França à Revolução.  Marat advogou reformas básicas a favor dos pobres, e perseguição constante aos Inimigos do Povo.  Foi assassinado por Charlotte Corday, que disfarçada de colaboradora do movimento, chegou à sua casa e o esfaqueou.

Com isso, a alusão que Vik Muniz faz em seu trabalho no Lixão de Caxias passa a ter uma conotação muito mais forte de engajamento político.  No eco visual de um líder revolucionário, que foi assassinado justamente por causa de suas posições em defesa do povo, Vik Muniz faz o seu próprio panfleto revolucionário, seu próprio discurso político.

É por isso que é necessário se prestar atenção às imagens.  Artistas plásticos, pintores, escultores, não chegam ao ápice de uma carreira — como Vik Muniz chegou — sem terem um vocabulário visual bem cultivado, sem terem guardados na memória o impacto das obras de arte que os precederam e seus significados.  A julgar pelas imagens que consegui ver das fotos de Vik Muniz no lixão esse deve ser, de fato, um documentário extraordinário e  rico em citações visuais.  Gostarei de vê-lo.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011

Uma boa análise do quadro de Jacques-Louis David pode ser encontrada no blog Abstração Coletiva.





Imagem de leitura — Iluminura, autor desconhecido

26 01 2011

Diógenes [no barril] e Crates de Tebas — Ilustrando como a pobreza é agradável

Livro dos Bons Costumes de Jacques Legrand, c. 1490

Autor Desconhecido

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NOTA: essa ilustração mostra Crates de Tebas que renunciou à riqueza para manter-se virtuoso.  Crates de Tebas (c. 368- 365  —  288-185 a. C.) foi um filósofo helenistico, que pertenceu à escola cínica de filosofia.  Foi discípulo de Diógenes de Sínope.





Papa-livros, leitura para fevereiro: Jeff em Veneza, morte em Varanasi, de Geoff Dyer

26 01 2011

 

Mulher contemplando o mar , 1933

Max Beckmann (Alemanha, 1884 – EUA, 1950)

Óleo sobre tela

Museu Ludwig, em empréstimo do Museu de Arte de Bremen

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A partir deste mês vou colocar aqui, a escolha que o grupo Papa-livros fez para leitura e discussão.  Assim aqueles que quiserem acompanhar as nossas leituras estarão a postos.

Leitura para FEVEREIRO, discussão a partir do dia 21.

SINOPSE ( com texto das descrições das editoras brasileiras e portuguesa):

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O jornalista Jeff Atman está em Veneza para cobrir a abertura da Bienal de Arte. Espera ver muitas obras de arte, ir a muitas festas e beber muitos bellinis. Não espera conhecer a sedutora irresistível galerista americana e  Laura, que irá mudar completamente a sua curta estadia na cidade e o faz protagonista de um romance incandescente que provoca mudanças e revelações radicais.

 Outra cidade, outro trabalho: desta vez nas margens do Ganges, em Varanasi. Por entre as multidões, os ghats e o caos da mais sagrada cidade hindu, espera-o um tipo diferente de transformação.  Nessa segunda história, um narrador misterioso, que pode ser ou não o mesmo Atman visto em Veneza, tem sua estada ampliada na Índia, em uma missão jornalística. Mas o que seriam apenas alguns dias transformam-se em meses. Assim, entre turistas e peregrinos nas margens do rio Ganges, em Varanasi, a cidade mais sagrada da Índia, ele passa de ator a observador. Torna-se testemunha do romance de um casal de turistas e de episódios que refletem prazeres aos quais renunciaria.

Pontuado por meditações sobre o amor erótico e o anseio espiritual, Jeff em Veneza, Morte em Varanasi confirma Geoff Dyer como um dos mais notáveis escritores da Grã-Bretanha. Com diversas referências a clássicos como Morte em Veneza, de Thomas Mann; O fio da navalha, de Somerset Maugham, e Venice Observed, de Mary McCarthy, foi saudado pela crítica como um livro divertido, elegante, sensual, engraçado, bem-construído e absolutamente fascinante.  

Nessas duas aventuras  o autor aborda o desejo em todas as suas manifestações: o desejo de sensações, de fuga e de se tornar outra pessoa, seja por meio do amor ou da arte, seja através do entorpecimento ou da transformação espiritual. O resultado é um livro repleto de alusões aos mitos sobre essas duas velhas cidades debruçadas sobre a água, que se tornaram ícones da arte ocidental e da religiosidade oriental.

Uma narrativa muito bela sobre amor erótico e desejo espiritual, Jeff em Veneza, Morte em Varanasi é divertido, elegante, sensual, cômico, engenhoso e absolutamente cativante. Consagra Geoff Dyer como um dos mais provocantes e originais escritores britânicos.

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Título: Jeff em Veneza, Morte em Varanasi 

Autor: Geoff Dyer 

Tradução:  José Rubens Siqueira

Editora: Intrinseca 

ISBN: 9788598078861 

Número de Páginas: 320   

 





Visita a São Paulo, texto de William Henry May, 1810

25 01 2011

Fundação da Cidade de São Paulo, s/d

Oscar Pereira da Silva (Brasil, 1865-1939)

Museu Paulista, São Paulo

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Hoje a cidade de São Paulo faz anos.  Fundada em 25 de janeiro de 1554, ela comemora 457 anos, muito bem vividos.  Contrário à crença popular, sou carioca e amo São Paulo.  Mas não sou a única carioca a ter esses sentimentos, nem sou a exceção que prova a regra.  Morei lá por pouco tempo, mas o suficiente para apreciar o espírito empreendedor do paulistano, sua organização e o ritmo delirante da cidade.  São Paulo é mais do que o “coração do Brasil” ela também é uma grande parte do cérebro do país, para não falar da miscigenação de povos, idéias, hábitos, culinária, religiões.  Sem São Paulo, o Brasil não seria o país que nos identifica hoje.  Claro que todas as regiões do Brasil contribuem para essa maravilhosa combinação que nos faz sermos o que somos.  Mas é lá, na cidade de São Paulo, que tudo se encontra e se mistura.   Quando posso retorno a esta metrópole inigualável, frenética, que nos impulsiona para o futuro como nenhum outro lugar do Brasil o faz.  Em São Paulo coloco em dia aspectos da vida cultural brasileira, muitos dos quais emigraram do Rio de Janeiro para outras praças depois que a capital do país foi transferida para o planalto central.  Então, a postagem de hoje é feita de alguns trechos da descrição da viagem de Willliam Henry May, a São Paulo, em 1810.

Paisagem, s/d

Edgard Oehlmeyer ( Brasil, 1909 – 1967)

óleo sobre tela, 38 x 50 cm]

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Resolvemos, então, seguir a diante, e em pouco tempo, chegamos a São Paulo.  A cidade está localizada num sítio bastante elevado – de fato, toda a região que tínhamos percorrido naquele dia estava quase na mesma altura do cume da montanha.  A vista que se tem de todos os lados da urbe é extremamente bonita e variada, e muito se assemelhando a uma paisagem da Itália.  Um pequeno rio corre em seus arredores, acrescentando-lhe comodidade e beleza.

Fomos recebidos de maneira extremamente hospitaleira pelo governador e pela sua família no palácio que habitavam.  Aí tinham sido preparados quartos para nós. O governador Antônio José de Franca e Horta, que também é um general de brigada, aparenta ser um homem de cinquenta e poucos anos e pertence a uma família antiga mas não de todo nobre.  Creio que nunca encontrei uma pessoa com tão boas disposições naturais, com um bom senso tão apurado, com uma verdadeira ambição de ser útil ao seu país em tudo o que for louvável e honrado, com notável sabedoria para escolher aqueles a quem vai confiar um encargo público e com um elevado grau de honestidade e independência – características que lhe garantem a estima de todos os homens bons, mas qua atraem o ciúme e o rancor de alguns até mais poderosos do que ele.

Em virtude de suas qualidades, creio que ele governa a capitania de São Paulo com justiça, sabedoria e prudência, lançando mão de todos os meios para fazê-la progredir e para trazer satisfação e felicidade aos seus habitantes – a mais valiosa conquista que um príncipe pode ambicionar.  Ainda assim, o governador não é um dos favoritos na Corte.   Ao contrário, os meios mais desonestos e mesquinhos têm sido usados por alguns ministros para dar uma falsa idéira dos seus honestos esforços e para minar a sua prosperidade.

A senhora Franca e Horta, sua esposa, é uma dama de muito bom senso e dotada de enorme vivacidade e sagacidade, além de possuir um excelente e caridoso coração.  Germânica de nascimento, ela  foi educada em um convento o que lhe conferiu uma agradável vivacidade de dama francesa.  O casal tem duas filhas pequenas – a mais velha com sete anos – e atualmente está bastante preocupado, pois não vê como oferecer a elas uma educação apropriada e liberal num país como o Brasil.  Com tais anfitriões, certamente estávamos muito bem instalados em São Paulo. 

Todos os esforços foram feitos e todos os meios empregados para tornar a nossa estada agradável.  Os nossos quartos foram preparados com tanto esmero quanto esperaríamos encontrar na Inglaterra – e o conforto das acomodações dos nossos servos era quase semelhante ao que desfrutávamos.  Lamentavelmente, como tínhamos despendido toda a manhã caçando e havíamos alcançado a cidade no período da tarde, tivemos que nos recolher cedo. 

Na manhã seguinte, 19 de abril, vimos as tropas formarem em frente ao palácio e pudemos observar o quão superior era a aparência daqueles homens em relação aos seus congêneres que estávamos habituados a ver no Rio de Janeiro.  Eram, na sua maioria, homens garbosos, notavelmente bem vestidos e muito limpos.  O seu número não era grande, pois as tropas da cidade vêm sendo sistematicamente drenadas para engrossar as expedições que rumam para o Rio Grande.  Inúmeras ordens têm sido enviadas do governo do Rio de Janeiro no sentido de recrutar todos os habitantes de São Paulo para o serviço do príncipe.  O general, sabedor do inconveniente político de tal medida e das conseqüências que adviriam de um gesto tão arbitrário e parcial, tentou advertir as autoridades para o seu perigo e insensatez.  A advertência, contudo, não foi ouvida e ordens ainda mais duras foram emitidas.  O resultado foi que a província perdeu alguns de seus mais valiosos habitantes, pois cerca de 14 a 15 mil pessoas deixaram suas terras e casa para se esconderem nas matas e nos distritos vizinhos, onde estariam a salvo de tamanha tirania.

O governo do Rio de Janeiro percebeu tardiamente a injustiça e a extravagância que cometera e viu-se obrigado a redimir-se diante de seus súditos, suspendendo as ordens iniciais e convidando os habitantes a retornarem para suas casas sob a promessa de que não mais realizaria qualquer recrutamento aviltante e de que perdoaria os foragidos que haviam descumprido as suas obrigações para com o soberano. 

A aparição do general e da senhora Horta em São Paulo deu-se quase simultaneamente à nossa, pois o casal acabava de retornar de uma viagem a uma mina de ferro, situada a 50 léguas da cidade.  O objetivo da expedição era avaliar o real valor da mina, reportando tudo ao príncipe, que estava inclinado a empregar alguns de seus súditos na exploração do lugar.

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O baile acabou por volta da meia-noite e, no dia seguinte, dia 23, não estávamos com disposição para começar nada.  Jantamos cedo e, ao entardecer, desfrutamos de uma deliciosa cavalgada na quinta do general, situada a cerca de uma légua da cidade.  O general ergueu aí uma bela casa e uma excelente estrebaria, com outras repartições, as quais ele construiu praticamente sozinho. O solo era bem cultivado e produzia todas as frutas americanas e quase todas as européias.  O jardim de flores, situado num local extremamente pitoresco, também era muito fértil e constituía obra saída exclusivamente da imaginação e do empenho do general.  É compreensível, pois, que a senhora Horta, uma pessoa sensível e capaz de apreciar devidamente as virtudes de seu marido, tenha predileção por esse lugar e aguarde ansiosamente o dia em que, com satisfação, poderão deixar a residência de São Paulo e vir morar aqui. 

A frescura do ar, a variedade dos campos e a sua semelhança com aqueles da Inglaterra causaram-me sensações muito agradáveis e, ao retornarmos, estávamos todos, creio, tomados por aquele sentimento de crescente felicidade que os objetos da natureza são tão propícios para suscitar.  Recolhemo-nos cedo para dormir, com o propósito de tentar nossa sorte na caça à perdiz da manhã seguinte.

No dia 24 antes de clarear, estávamos todos montados e devidamente aparelhados, formando um grupo de seis pessoas, acompanhados por quatro casais de perdigueiros.  A manhã estava gelada e tivemos de cavalgar cerca de 12 milhas até atingir o lugar em que armaríamos tocaia.  O campo estava coberto por uma impenetrável neblina e a situação lembrou-me uma caçada à raposa numa manhã de novembro.  A neblina, todavia, rapidamente dissipou-se e o sol apareceu.  Tínhamos alcançado a cabana de caça, onde daríamos inicio ao divertimento.  Demonstramos e dirigimos os cães para a planície  o campo, que era extremamente comprido e inteiramente coberto por um capim alto, ainda que pouco espesso, salpicado por samambaias.

Kilwick e dois outros companheiros deixaram-nos em torno do meio do dia e saíram em busca de madeira num bosque situado nas extremidades da planície.  Durante sua ausência, os cães detectaram 3 perdizes, que conseguimos abater.  A caça, no entanto, não era nada abundante e, de percorrermos uma extensão enorme, não encontramos mais do que quatro casais durante todo o dia, o que provavelmente pode ser atribuído ao numero de falcões que vimos. As perdizes são bastante grandes, tão grandes quanto uma aprazível galinha, e andam sozinhas.  A sua plumagem é semelhante aquela da perdiz inglesa, mas creio que seu sabor é inferior.

Por volta das duas da tarde, reunimo-nos sob a sombra de uma árvore para comer.  A essa altura, muitas pessoas da região tinham se admirada com a novidade das nossas maneiras – no mesmo modo que havíamos estranhado a simplicidade das delas.  Retornamos para a cidade às sete horas da tarde, depois de muito empenho, com somente quatro casais de pássaros.  Kilwick estava tão cansada que se dirigiu imediatamente para a cama.  Quanto a nós, terminamos o jantar, contamos nossas aventuras e seguimos rapidamente o seu exemplo. 

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Em: Diário de uma viagem da baía de Botafogo à cidade de São Paulo ( 1810), William Henry May, trad. Jean Marcel Carvalho França, Rio de Janeiro, José Olympio: 2006

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William Henry May, era um comerciante britânico estabelecido no Rio de Janeiro, de acordo com a correspondência do Consulado inglês no Brasil.   [ Fonte: acima]





Imagem de leitura — Nahum Gilboa

25 01 2011

Homem lendo, sd

Nahum Gilboa  (Sophia, Bulgaria 1917 – Israel, 1976)

Aquarela

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Nahum Gilboa estudou na Royal Academy of Art em Sofia, e também na Academia da Grand Chaumiere em Paris.  Quando a Segunda Guerra Mundial começou, o artista e sua esposa fugiram para Israel com imigrantes ilegais em 1937.  Gilboa se tornou parte do movimento Kibbutz mas continuou com seus estudos em arte através de viagens à França e à Itália.  Gilboa pertence à escola de realismo lírico.








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