OLIMPÍADAS 2016 – um símbolo na medida carioca!

7 01 2011


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Gostei imensamente do símbolo das Olimpíadas Cariocas, desvendado no dia 31 de dezembro durante a Festa de Réveillon em Copacabana.  Produzido pela empresa carioca Tátil, com 20 anos de experiência no mercado e uma equipe de 105 funcionários, é o primeiro símbolo das Olimpíadas tri-dimensional.  Acredito que esta idéia, de tri – dimensionar, tenha sido um daqueles momentos de AHA! — um momento  EURECA! – no processo criativo, pois ele certamente se prestará à própria modernização visual das Olimpíadas.  Eu me explico: hoje temos uma abundância de televisões e filmes cujas imagens podem ser vistas em três dimensões, a tendência deve ser de se tornarem mais comuns. Mas o uso de imagens holográficas também está se acelerando.  Recentemente a Universidade de Tóquio demonstrou por um vídeo desenvolver o que se chama de holografia tátil.   E nas eleições para Presidente dos Estados Unidos a rede de televisão CNN inaugurou o uso de uma imagem de Jessica Yellin, conversando com o jornalista Wolff Blitzer em que a imagem dela foi projetada e parecia estar em três dimensões, mas vinda de outro local, distante dos estúdios televisivos, por aproximadamente 1.600 km. Esses experimentos estão pipocando no mundo todo e o símbolo das Olimpíadas cariocas facilmente se adaptará a esses meios não tão comuns hoje, mas que deverão ser corriqueiros em 2016.

O símbolo das Olimpíadas de 2016 faz uma referência visual às montanhas cariocas, como o vídeo de apresentação mostra [ veja abaixo].  A imagem de três pessoas dando-se as mãos num círculo foi um achado de grande felicidade.   Como sabemos, a dança em círculo, é uma das manifestações humanas mais antigas, quase sempre traduzindo felicidade e união, duas características associadas ao evento olímpico e a este momento especial por que passa a cidade do Rio de Janeiro.    A dança em círculo também foi durante a Idade Média e a Renascença considerada uma dança sagrada.  Já mencionamos isso aqui no blog quando mostramos o altar do Último Julgamento de Fra Angélico.

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Com área de especialização na Arte Européia Moderna (1868-1945 — da Guerra Austro-prussiana ao final da 2ª Guerra Munndial) e dedicação de dez anos de estudo à história da arte, com teses esmiuçando os movimentos artísticos na Europa no início do século XX, é natural que, volta e meia, eu venha a relacionar o que vejo com o que estudei.  Assim aconteceu na primeira vez que vi o símbolo da Olimpíadas do Rio de Janeiro.  Um dos grandes passatempos de historiadores da arte é imaginar que influências, diretas ou não, certos artistas receberam para chegar às soluções gráficas que escolheram.  Até o final do século XX, antes do aparecimento da internet, era mais fácil saber o que cada pintor ou escultor havia visto e determinar se um quadro ou uma escultura havia influenciado o resultado final de uma composição mais tardia.  Na verdade, as coisas começaram a mudar quando a impressão de fotografias de quadros famosos começou a aparecer em revistas de grande tiragem,  já no final do século XIX.  Mas até então, artistas estavam, em sua grande maioria, limitados à presença física diante de uma obra de arte ou de uma de suas cópias — daí as inúmeras cópias da arte clássica grega e romana, por exemplo, que preenchem grande parte dos museus de Belas Artes. 

Historiadores da arte, principalmente aqueles especializados nas Proto e Alta Renascença podem passar anos de suas vidas dedicando-se às influências sofridas por este ou aquele pintor.  Teria tido ele acesso a esse manuscrito que tem ilustrações semelhantes?  Ou teria fulano tido acesso a qual edição de um Livro de Emblemas?  Hoje, com a internet, estas suposições já não cabem.  Todo mundo tem acesso a tudo.  Mas, fato é que, esta maneira de pensar acaba ficando no sangue de quem estuda História da Arte; é um vício de enfoque, digamos assim.  E o símbolo das Olimpíadas de 2016 me remeteu de imediato, a um dos maiores artistas do século XX, o francês Henri Matisse.

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A  dança, 1909

Henri Matisse ( França, 1869-1954)

Óleo sobre tela, 2,60m x 3,90m

Museu de Arte Moderna [MOMA] de Nova York

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Há duas versões desse quadro: A Dança, de Matisse.  A de Nova York , de 1909, que é a primeira versão, uma espécie de estudo.  As figuras têm menos detalhes do que as que aparecem na versão definitiva, de 1910,  hoje no Museu Hermitage em São Petersburgo, na Rússia.  E as cores são bastante mais pálidas na primeira versão.  A Dança  tem um par, um pendant, que é  a  tela Música.  Ambas foram pintadas para o empresário e colecionador russo Sergei Shchukin.  E essas obras marcam uma virada, um ponto importante da carreira de Matisse: foram a primeira experiência de Matisse com um trabalho baseado em elementos arquitetônicos – os painéis tinham a incumbência de “vestirem” ,ou melhor,  serem colocados ao longo da grande escadaria do palacete de Shchukin, e também causaram grande comoção ao pintor, pois seu patrocinador teve sérias dúvidas se poderia ou não dependurar essas obras, com tantos nus, na residência onde morava com duas sobrinhas, donzelas,  sem ofender a moral vigente.

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A dança, 1910.

Henri Matisse (França, 1869-1954).

Óleo sobre tela, 2,60m  x 3, 9O m

Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia

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Cem anos separam o símbolo das Olimpíadas no Rio de Janeiro das telas de Henri Matisse, assim como aproximadamente cem anos separaram as telas de Matisse do que é considerado fonte de inspiração do artista francês:  A dança de Oberon, Titania,  e Puck com as Fadas, de circa 1786, de autoria do inglês William Blake ilustrando O sonho de uma noite de verão de William Shakespeare.

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A dança de Oberon, Titania e Puck com as fadas, c. 1786

William Blake (Inglaterra, 1757-1827)

Aquarela sobre papel grafite, 47,5cm x 67,5cm

Tate Gallery, Londres

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Ainda que a obra de Matisse A Dança tenha diversas versões escultóricas pelo mundo, inclusive uma versão no Jardim Botânico do Rio de Janeiro,  e que seus cinco elementos em círculo venham a lembrar os cinco círculos que compõem o logotipo das Olimpíadas, cada qual representando um dos continentes, acredito que seja a versão de William Blake a que mais se aproxime em composição do logo das Olimpíadas de 2016.  Isso porque na dança, propriamente dita, de Blake há três fadas, que se separadas do original, como o detalhe abaixo mostra, muito se assemelham no contorno de seus movimentos aos contornos da logomarca das Olimpíadas cariocas.

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William Blake, Dança das Fadas, DETALHE.

Logo, Olimpiadas 2016.

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William Blake ou Henri Matisse podem ter sido ou não as fontes de inspiração para uma excelente marca.  Mas, vale a pena lembrar, que desde a Grécia antiga o círculo é considerado a forma mais simples e mais perfeita [Proclus Lycaeus , (500 aC)].   E que o círculo talvez seja o mais antigo símbolo de união.  O círculo tem sido através dos séculos o símbolo de um todo, indivisível: uma unidade.  Símbolo, também,  da bondade, do infinito e do sol, todos ingredientes existentes no Rio de Janeiro e essenciais para o bom desempenho das Olimpíadas.  Este círculo, formado pelas mãos unidas de três pessoas dançando, se veste de alegria e cristaliza o momento mágico, sagrado, de comunhão com algo que é maior que nós.  Esse círculo, que no Rio de Janeiro toma uma forma tri-dimensional, representa também a união de diferentes povos num momento especial de paz e de entrega.  E é tão carregado de associações culturais, as mais diversas, que repercute nas nossas almas, no nosso inconsciente coletivo, lembrando-nos dos valores das Olimpíadas, dos esportes, da cordialidade entre os povos que devem florescer no espírito desta festa.   Parabéns aos que o criaram e parabéns ao Rio de Janeiro por ser tão bem representado.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011

VEJA COMO FOI O PROCESSO DE CRIAÇÂO DA LOGOMARCA:


Ações

Information

20 responses

7 01 2011
RAA

Esplêndido post.
Tenho a certeza de que os Jogos aí vão ser um sucesso.

9 01 2011
peregrinacultural

Obrigada, Ricardo, pelo elogio. Também tenho a impressão de que serão um sucesso as nossas Olimpíadas, e talvez, — quem sabe? — um ótimo momento para uma visita sua ao Brasil? Tenho certeza de que há muitos por aqui que seguem o seu excelente blog… Seria uma ótima ocasião para conhecermos em pessoa o autor de Abencerragem. Um grande abraço, Ladyce

8 01 2011
Murilo

Muito bom, ótima análise

9 01 2011
peregrinacultural

Oi, Murilo, obrigada pelo elogio. Um abraço, Ladyce

8 01 2011
Sergio Lobo

Excelente idéia e criação. Os autores da logomarca das Olimpíadas de 2016 foram extremamente felizes e mereceram vencer. Estou aguardando ansioso um produto com a logomarca, que irei guardá-lo com muito carinho.
Abçs a todos os autores e contínuo sucesso.
Sergio Lobo e família

9 01 2011
peregrinacultural

Oi, Sérgio, que bom vê-lo por aqui. Como você, eu também espero miniaturas ou o que seja, com a logomarca. Digo miniaturas por causa da tri-dimensionalidade. Vamos ver o que a Comissão Olimpica permite! Obrigada pela visita ao blog, um abraço, Ladyce

11 01 2011
Rogério

… e eu achando que tinha entendido a logomarca. Da próxima vez venho aqui primeiro. Parabéns!

14 01 2011
peregrinacultural

Pois é, às vezes santo de casa faz milagres! Beijokas, Ladyce

28 01 2011
Rick

Todo designer TEM que ter uma inspiração, um ponto de partida. Resumiria em uma palavra esta logomarca: ELEGANTE. De uma simplicidade única (como deve ser), limpa, clara. Muito bela. Parabéns pelo post e abraços a todos!

28 01 2011
peregrinacultural

Rick, obrigada pela visita e pela observação. Você está certo. Nem todos os que estão entrando nas suas respectivas profissões sabem da importância de se ter o conhecimento anterior. Ninguém cria do nada! Obrigada, Ladyce

24 02 2011
Maria da GLória

Assim como você, no dia em que vi a apresentação da logomarca na televisão comentei sobre a referência à obra de Matisse. Se houve ou não, o que importa é que eu estabeleci a conexão. Isso é o divertido quando se observa algo em arte, as possíveis leituras. Também lembrei da obra “As três graças”, representadas por diferentes artistas, através da pintura e da escultura. Enfm, o espírito das Olimpíadas e do desenvolvimento tecnológico do século XXi estão postos no trabalho de criação desta logomarca.

31 03 2012
tania mara miranda

tudo para mim é arte, tudo se transforma, adorei o logo tipo da olimpiadas, ainda mias que é uma representação ligada a artes , e tbem a natureza que amo muito ,pois tudo na natureza é uma obra de arte , e nela que inspiramos a nossas obras de arte ,Não deixa de ser uma obra continuada. dps seculos passado.

1 04 2012
peregrinacultural

A ligação entre tudo isso está no ser humano. Obrigada pelo retorno à postagem, Feliz de ver que gostou do logo e do artigo. Um abraço, Ladyce

26 06 2012
bia

amei os simbolos para 2016 muito bom

26 06 2012
peregrinacultural

Bia, obrigada! Volte sempre!

13 08 2012
maria clara

legaaall

4 08 2014
Ana Carolina Reis de Mattos

Ola, quero muito comprar uma logo das olimpiadas rio 2016, já procurei (internet)mas, infelizmente sem sucesso. Por isso estou solicitando ajuda, grata.

9 08 2014
peregrinacultural

Ana Carolina, não vi ainda para vender. Talvez os nossos internautas consigam ajudar?

22 08 2016
rinaldo

quero uma estatueta como recordação…..como posso conseguir.

22 08 2016
peregrinacultural

Acho que você tem que ganhar uma medalha!

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