Visita a São Paulo, texto de William Henry May, 1810

25 01 2011

Fundação da Cidade de São Paulo, s/d

Oscar Pereira da Silva (Brasil, 1865-1939)

Museu Paulista, São Paulo

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Hoje a cidade de São Paulo faz anos.  Fundada em 25 de janeiro de 1554, ela comemora 457 anos, muito bem vividos.  Contrário à crença popular, sou carioca e amo São Paulo.  Mas não sou a única carioca a ter esses sentimentos, nem sou a exceção que prova a regra.  Morei lá por pouco tempo, mas o suficiente para apreciar o espírito empreendedor do paulistano, sua organização e o ritmo delirante da cidade.  São Paulo é mais do que o “coração do Brasil” ela também é uma grande parte do cérebro do país, para não falar da miscigenação de povos, idéias, hábitos, culinária, religiões.  Sem São Paulo, o Brasil não seria o país que nos identifica hoje.  Claro que todas as regiões do Brasil contribuem para essa maravilhosa combinação que nos faz sermos o que somos.  Mas é lá, na cidade de São Paulo, que tudo se encontra e se mistura.   Quando posso retorno a esta metrópole inigualável, frenética, que nos impulsiona para o futuro como nenhum outro lugar do Brasil o faz.  Em São Paulo coloco em dia aspectos da vida cultural brasileira, muitos dos quais emigraram do Rio de Janeiro para outras praças depois que a capital do país foi transferida para o planalto central.  Então, a postagem de hoje é feita de alguns trechos da descrição da viagem de Willliam Henry May, a São Paulo, em 1810.

Paisagem, s/d

Edgard Oehlmeyer ( Brasil, 1909 – 1967)

óleo sobre tela, 38 x 50 cm]

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Resolvemos, então, seguir a diante, e em pouco tempo, chegamos a São Paulo.  A cidade está localizada num sítio bastante elevado – de fato, toda a região que tínhamos percorrido naquele dia estava quase na mesma altura do cume da montanha.  A vista que se tem de todos os lados da urbe é extremamente bonita e variada, e muito se assemelhando a uma paisagem da Itália.  Um pequeno rio corre em seus arredores, acrescentando-lhe comodidade e beleza.

Fomos recebidos de maneira extremamente hospitaleira pelo governador e pela sua família no palácio que habitavam.  Aí tinham sido preparados quartos para nós. O governador Antônio José de Franca e Horta, que também é um general de brigada, aparenta ser um homem de cinquenta e poucos anos e pertence a uma família antiga mas não de todo nobre.  Creio que nunca encontrei uma pessoa com tão boas disposições naturais, com um bom senso tão apurado, com uma verdadeira ambição de ser útil ao seu país em tudo o que for louvável e honrado, com notável sabedoria para escolher aqueles a quem vai confiar um encargo público e com um elevado grau de honestidade e independência – características que lhe garantem a estima de todos os homens bons, mas qua atraem o ciúme e o rancor de alguns até mais poderosos do que ele.

Em virtude de suas qualidades, creio que ele governa a capitania de São Paulo com justiça, sabedoria e prudência, lançando mão de todos os meios para fazê-la progredir e para trazer satisfação e felicidade aos seus habitantes – a mais valiosa conquista que um príncipe pode ambicionar.  Ainda assim, o governador não é um dos favoritos na Corte.   Ao contrário, os meios mais desonestos e mesquinhos têm sido usados por alguns ministros para dar uma falsa idéira dos seus honestos esforços e para minar a sua prosperidade.

A senhora Franca e Horta, sua esposa, é uma dama de muito bom senso e dotada de enorme vivacidade e sagacidade, além de possuir um excelente e caridoso coração.  Germânica de nascimento, ela  foi educada em um convento o que lhe conferiu uma agradável vivacidade de dama francesa.  O casal tem duas filhas pequenas – a mais velha com sete anos – e atualmente está bastante preocupado, pois não vê como oferecer a elas uma educação apropriada e liberal num país como o Brasil.  Com tais anfitriões, certamente estávamos muito bem instalados em São Paulo. 

Todos os esforços foram feitos e todos os meios empregados para tornar a nossa estada agradável.  Os nossos quartos foram preparados com tanto esmero quanto esperaríamos encontrar na Inglaterra – e o conforto das acomodações dos nossos servos era quase semelhante ao que desfrutávamos.  Lamentavelmente, como tínhamos despendido toda a manhã caçando e havíamos alcançado a cidade no período da tarde, tivemos que nos recolher cedo. 

Na manhã seguinte, 19 de abril, vimos as tropas formarem em frente ao palácio e pudemos observar o quão superior era a aparência daqueles homens em relação aos seus congêneres que estávamos habituados a ver no Rio de Janeiro.  Eram, na sua maioria, homens garbosos, notavelmente bem vestidos e muito limpos.  O seu número não era grande, pois as tropas da cidade vêm sendo sistematicamente drenadas para engrossar as expedições que rumam para o Rio Grande.  Inúmeras ordens têm sido enviadas do governo do Rio de Janeiro no sentido de recrutar todos os habitantes de São Paulo para o serviço do príncipe.  O general, sabedor do inconveniente político de tal medida e das conseqüências que adviriam de um gesto tão arbitrário e parcial, tentou advertir as autoridades para o seu perigo e insensatez.  A advertência, contudo, não foi ouvida e ordens ainda mais duras foram emitidas.  O resultado foi que a província perdeu alguns de seus mais valiosos habitantes, pois cerca de 14 a 15 mil pessoas deixaram suas terras e casa para se esconderem nas matas e nos distritos vizinhos, onde estariam a salvo de tamanha tirania.

O governo do Rio de Janeiro percebeu tardiamente a injustiça e a extravagância que cometera e viu-se obrigado a redimir-se diante de seus súditos, suspendendo as ordens iniciais e convidando os habitantes a retornarem para suas casas sob a promessa de que não mais realizaria qualquer recrutamento aviltante e de que perdoaria os foragidos que haviam descumprido as suas obrigações para com o soberano. 

A aparição do general e da senhora Horta em São Paulo deu-se quase simultaneamente à nossa, pois o casal acabava de retornar de uma viagem a uma mina de ferro, situada a 50 léguas da cidade.  O objetivo da expedição era avaliar o real valor da mina, reportando tudo ao príncipe, que estava inclinado a empregar alguns de seus súditos na exploração do lugar.

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O baile acabou por volta da meia-noite e, no dia seguinte, dia 23, não estávamos com disposição para começar nada.  Jantamos cedo e, ao entardecer, desfrutamos de uma deliciosa cavalgada na quinta do general, situada a cerca de uma légua da cidade.  O general ergueu aí uma bela casa e uma excelente estrebaria, com outras repartições, as quais ele construiu praticamente sozinho. O solo era bem cultivado e produzia todas as frutas americanas e quase todas as européias.  O jardim de flores, situado num local extremamente pitoresco, também era muito fértil e constituía obra saída exclusivamente da imaginação e do empenho do general.  É compreensível, pois, que a senhora Horta, uma pessoa sensível e capaz de apreciar devidamente as virtudes de seu marido, tenha predileção por esse lugar e aguarde ansiosamente o dia em que, com satisfação, poderão deixar a residência de São Paulo e vir morar aqui. 

A frescura do ar, a variedade dos campos e a sua semelhança com aqueles da Inglaterra causaram-me sensações muito agradáveis e, ao retornarmos, estávamos todos, creio, tomados por aquele sentimento de crescente felicidade que os objetos da natureza são tão propícios para suscitar.  Recolhemo-nos cedo para dormir, com o propósito de tentar nossa sorte na caça à perdiz da manhã seguinte.

No dia 24 antes de clarear, estávamos todos montados e devidamente aparelhados, formando um grupo de seis pessoas, acompanhados por quatro casais de perdigueiros.  A manhã estava gelada e tivemos de cavalgar cerca de 12 milhas até atingir o lugar em que armaríamos tocaia.  O campo estava coberto por uma impenetrável neblina e a situação lembrou-me uma caçada à raposa numa manhã de novembro.  A neblina, todavia, rapidamente dissipou-se e o sol apareceu.  Tínhamos alcançado a cabana de caça, onde daríamos inicio ao divertimento.  Demonstramos e dirigimos os cães para a planície  o campo, que era extremamente comprido e inteiramente coberto por um capim alto, ainda que pouco espesso, salpicado por samambaias.

Kilwick e dois outros companheiros deixaram-nos em torno do meio do dia e saíram em busca de madeira num bosque situado nas extremidades da planície.  Durante sua ausência, os cães detectaram 3 perdizes, que conseguimos abater.  A caça, no entanto, não era nada abundante e, de percorrermos uma extensão enorme, não encontramos mais do que quatro casais durante todo o dia, o que provavelmente pode ser atribuído ao numero de falcões que vimos. As perdizes são bastante grandes, tão grandes quanto uma aprazível galinha, e andam sozinhas.  A sua plumagem é semelhante aquela da perdiz inglesa, mas creio que seu sabor é inferior.

Por volta das duas da tarde, reunimo-nos sob a sombra de uma árvore para comer.  A essa altura, muitas pessoas da região tinham se admirada com a novidade das nossas maneiras – no mesmo modo que havíamos estranhado a simplicidade das delas.  Retornamos para a cidade às sete horas da tarde, depois de muito empenho, com somente quatro casais de pássaros.  Kilwick estava tão cansada que se dirigiu imediatamente para a cama.  Quanto a nós, terminamos o jantar, contamos nossas aventuras e seguimos rapidamente o seu exemplo. 

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Em: Diário de uma viagem da baía de Botafogo à cidade de São Paulo ( 1810), William Henry May, trad. Jean Marcel Carvalho França, Rio de Janeiro, José Olympio: 2006

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William Henry May, era um comerciante britânico estabelecido no Rio de Janeiro, de acordo com a correspondência do Consulado inglês no Brasil.   [ Fonte: acima]





Imagem de leitura — Nahum Gilboa

25 01 2011

Homem lendo, sd

Nahum Gilboa  (Sophia, Bulgaria 1917 – Israel, 1976)

Aquarela

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Nahum Gilboa estudou na Royal Academy of Art em Sofia, e também na Academia da Grand Chaumiere em Paris.  Quando a Segunda Guerra Mundial começou, o artista e sua esposa fugiram para Israel com imigrantes ilegais em 1937.  Gilboa se tornou parte do movimento Kibbutz mas continuou com seus estudos em arte através de viagens à França e à Itália.  Gilboa pertence à escola de realismo lírico.








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