Jacques-Louis David e Vik Muniz, unidos pelo lixo

27 01 2011

A morte de Marat, 1793

Jacques-Louis David ( França, 1748-1825)

óleo sobre tela 165 x 128 cm

Museu Real de Belas Artes, Bruxelas

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O noticiário da semana tem-se dedicado ao documentário Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, codirigido por Karen Harley e João Jardim.  Uma produção anglo-brasileira que se tornou candidata ao Oscar de 2011.  Apesar de as estrelas do documentário serem os próprios catadores do Lixão em Jardim Gramacho, o filme está centrado na obra do artista plástico brasileiro Vik Muniz junto aos catadores.

Ainda não vi o documentário.  Mas fui atraída para o assunto: primeiro, se entendi bem, pelo caráter de denúncia ambiental e a preocupação com as 7.000 pessoas que dependem do trabalho no lixão, que está programado para fechar em 2012.  E segundo, a obra de Vik Muniz em si, responsável pela imagem que se tornou símbolo do documentário.

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Marat (Sebastião)

Vick Muniz (São Paulo, 1961)

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Em nenhum artigo sobre esse documentário consegui ver  alguma menção estabelecendo que a cena retratada por Vik Muniz parodia o trabalho de Jacques-Louis David.  Esse pintor francês retratou em grande estilo, o revolucionário Jean-Paul Marat, seu amigo pessoal,  no momento de sua morte.  Marat foi assassinado por Charlotte Corday —  na banheira em que permanecia boa parte do tempo cheia de água com sais minerais para a imersão que o ajudava a controlar o desconforto causado pela doença de pele que o afligia.   É verdade que esse quadro está entre os mais conhecidos no mundo, mas isso não justifica a falta de menção.   O fato de Marat estar no título não exonera as publicações de mencionarem o original, principalmente porque jornais e revistas têm que assumir que nem todos que os lêem saberão da referência.

Em se tratando de Vik Muniz, seria de se esperar a referência:  afinal este é um artista plástico brasileiro conhecido pelas citações visuais.  São exemplos disso: as Mona Lisas de geléia de uva e de manteiga de amendoim, 1999 e também, a reinterpretação de diversos quadros de Monet e da Última Ceia de Leonardo Da Vinci, entre outros.  Mas precisamos saber por que?  Por que A Morte de Marat, de Jacques-Louis David e não, digamos,  O grito de Edward Munch, ou qualquer outra obra?   Na verdade, por que fazer essa alusão?

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Mona Lisa de Geléia de Uva e Mona Lisa de Manteiga de Amendoim, 1999

Vik Muniz (Brasil, 1961)

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Jean Paul Marat (1743-1793) foi médico, filósofo, cientista , ensaísta, jornalista e panfletário, que ficou mais conhecido por sua participação nos eventos políticos e que na companhia de Danton e de Robespierre levaram a França à Revolução.  Marat advogou reformas básicas a favor dos pobres, e perseguição constante aos Inimigos do Povo.  Foi assassinado por Charlotte Corday, que disfarçada de colaboradora do movimento, chegou à sua casa e o esfaqueou.

Com isso, a alusão que Vik Muniz faz em seu trabalho no Lixão de Caxias passa a ter uma conotação muito mais forte de engajamento político.  No eco visual de um líder revolucionário, que foi assassinado justamente por causa de suas posições em defesa do povo, Vik Muniz faz o seu próprio panfleto revolucionário, seu próprio discurso político.

É por isso que é necessário se prestar atenção às imagens.  Artistas plásticos, pintores, escultores, não chegam ao ápice de uma carreira — como Vik Muniz chegou — sem terem um vocabulário visual bem cultivado, sem terem guardados na memória o impacto das obras de arte que os precederam e seus significados.  A julgar pelas imagens que consegui ver das fotos de Vik Muniz no lixão esse deve ser, de fato, um documentário extraordinário e  rico em citações visuais.  Gostarei de vê-lo.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011

Uma boa análise do quadro de Jacques-Louis David pode ser encontrada no blog Abstração Coletiva.


Ações

Information

21 responses

9 02 2011
aline

só uma correçãozinha: a obra do vik muniz se chama “Marat Sebastião”.

9 02 2011
peregrinacultural

Obrigada, Aline, realmente, voltei ao portal do Vik Muniz e vi que o nome que eu tinha não estava correto e que o nome do trabalho é Marat (Sebastião) ! Muito obrigada! Ladyce

13 03 2011
Márcia Regina Valentini

Gostei muito deste texto. Vou utilizá-lo citando a fonte, nas discussões durante as aulas de Artes com meus alunos de E,J.A. na Escola São Vitor em Caxias do Sul, RS. Nosso projeto interdisciplnar tem como tema o lixo, e eu já tinha escolhido o documentário do Vik Muniz como referência. Espero que você aprove a idéia.
Aguardo retorno.
Abraços
Márcia

13 03 2011
peregrinacultural

Claro que aprovo Márcia, muito obrigada! Faça bom uso. Um abraço, Ladyce

1 06 2011
cinthia

Olá!
Bem, gostaria de contribuir dizendo que assisti atenciosamente o filme (documentário) “O lixo extraordinário” e me lembro de ouvir mais de uma vez a menção de Vick à obra de Marat. Não vou dizer qual o momento, convido vc a assisti-lo novamente!! Atenciosamente Cinthia Schultz

1 06 2011
peregrinacultural

Cinthia, muito obrigada pela visita ao blog. Se você ler de novo a postagem que coloquei, menciono que ao escrever sobre o Marat e Vik Muniz, ainda não tinha visto o documentário. Minha reclamação sobre a falta de menção sobre Marat, vem da cobertura feita pela imprensa especializada ou não. Vik Muniz, nunca escondeu a referência a Marat, asim como não escondeu a referência de seu trabalho a outros trabalhos e artistas do passado.

Obrigada por me levar a esclarecer esta dúvida…

Volte sempre, Ladyce

20 08 2011
Rererevolução Francesa « Blogdoprofessorrodrigo

[…] bom blog peregrinacultural  https://peregrinacultural.wordpress.com/2011/01/27/jacques-louis-david-e-vik-muniz-unidos-pelo-lixo/  temos um exemplo disto sobre a obra prima de Jacques Louis  David, que passou a escultura de […]

27 09 2011
Miriam Domiciano Pereira

Sou professora de Informática Educativa em uma escola municipal da cidade de São Paulo e estou desenvolvendo um projeto que discute a questão do lixo sob vários aspectos. Meus alunos assistiram ao documentário “Lixo Extraordinário” e gostaria de utilizar seu texto para que eles façam uma análise da obra de Vik Muniz. Peço sua permissão para utilizá-lo citando a fonte.
Aguardo resposta.
Abraços
Miriam

27 09 2011
peregrinacultural

Miriam, é com muito prazer que dou a permissão que você deseja. Saber que estaou ajudando ao desenvolvimento de nosso alunos, do futuro desse nosso país é uma honra. Obrigada, Abraços

6 03 2012
maria socorro

Muito simples por isso muito gostoso de se ver,seu blog.adorei.

6 03 2012
peregrinacultural

Muito obrigada, Maria Socorro, volte sempre. Um abraço, Ladyce

8 03 2012
Arnaldo de Melo

O artigo reclama pela falta de citação sobre o pintor Jacques-Louis David e/ou sobre seu quadro “A morte de Marat”, que retrata o revolucionário Jean-Paul Marat. Mas quem o escreveu sequer havia assistido ao filme- documentário de Vik Muniz. A pressa na reclamação resulta, a meu ver, numa crítica sem fundamento, pois ao artista-cineasta não faltou bom senso em relacionar o “revolucionário” do lixão com o “amigo do povo”. De resto, penso que sobre David e mesmo Marat cabe a cada um procurar fontes que informem e ofereçam insumos para aprofundamentos afins. O cinema tampouco é museu.

8 03 2012
peregrinacultural

Prezado Arnaldo, peço que leia o artigo de novo. Em nenhum momento eu disse que Vik Muniz não havia relacionado o trabalho dele ao de Jacques-Louis David. Na verdade ele sempre relaciona os seus trabalhos quando esses mostram alusões a algum outro trabalho de arte que já tenha sido feito. Talvez você tenha ficado tão impressinado com o fato de eu ter escrito o artigo antes de ver o documentário que tenha feito a confusão. A minha reclamação tem a ver com os meios de comunicação que ao mencionarem o documentário e ao debaterem o documentário em nenhum momento fizeram a associação entre a obra Ícone — usada para os cartazes — e a obra de Jacques- Louis David.

Você, se não estivesse já familiarizado com o trabalho de Jacques Loouis David, não se perguntaria: Que razão levou Vik Muniz a colocar esse cara numa banheira, nessa posição? É disso que reclamo a falta de conhecimento de quem escreve sobre o documentário é que leva a dimuir o impacto da obra de Vik Muniz. Porque a obra de Muniz tem mais impacto quando se relaciona ao revolucionário Marat. Vik Muniz mesmo nos deu a deixa de que é assim que gostaria que sua obra fosse vista. Não é um cara na banheira por nada. É um cara na banheira, que deve levar quem contempla essa imagem à referência com o revolucionário Marat.

Obrigada pela visita ao blog e volte sempre.

8 03 2012
abner

obras do vik muniz vc pode acreditar são grandes e lindas.

8 03 2012
peregrinacultural

Eu sei, gosto muito delas. Não fiz nenhuma,mas nenhuma crítica ao trabalho dele. Leia o artigo de novo.

13 06 2012
Pedro

O trabalho de vik é inspirador

13 06 2012
peregrinacultural

É mesmo. Concordo plenamente.

30 10 2012
Rafael Pires

O que mata nos “tempos modernos” é o contraponto consistência X velocidade, nos nossos veículos de “comunicação”. Parabéns pelo blog! Aproveito o ensejo para te convidar a ler uma análise sobre “A morte de Marat”, no link: http://abstracaocoletiva.com.br/2012/10/26/neoclassicismo-analise-do-quadro-a-morte-de-marat/

30 10 2012
peregrinacultural

Obrigada Rafael, você tem toda razão. Mas acredito que devemos, como leitores e espectadores, exigir mais. Principalmente aqui no Brasil, onde a “cultura” é frequentemente passada só através dos meios de comunicação de massa. Um abraço,

5 10 2016
Viviane

Muito bom. Eu gostaria de saber a estilo pertence essa obra?

5 10 2016
peregrinacultural

Jacques-Louis David foi um pintor neo-clássico.

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