Notas familiares: Revolução de ’32

12 03 2011
Batalhão de Pouso Alegre, MG

FOTO: Empório de notícias.

—-

—-

Quem visita este blog já sabe que tenho predileção por ler diários e publicações de pessoas comuns;  quero saber como viviam, do seu dia a dia, e se possível, ter a noção de como reagiram a eventos históricos.  Acho que qualquer período ganha tridimensionalidade, quando conseguimos ter muitas visões de como as coisas aconteceram; quando usufruimos da interpretação das mais diversas fontes…  Foi com essa intenção que em 2008, coloquei aqui as anotações sobre a Revolução de 1932, que meu avô, Gessner Pompílo Pompêo de Barros, fizera quando trabalhava nos Correios e Telégrafos de Itapetininga, SP.     Hoje volto ao assunto, mas com as observações do Diário de Vera, um capítulo do livro A família de Guizos: história e memórias de Ivna Thaumaturgo [ Ivna Thaumaturgo Mendes de Moraes Duvivier].  Nascida em 1915, ela é neta do marechal Gregório Thaumaturgo de Azevedo, primeiro chefe de uma comissão mista Brasil-Bolívia encarregada de demarcar a fronteira entre esses países e neta, por parte de pai, do general Feliciano Mendes de Moraes.  A família era toda de militares sendo Ivna filha do futuro marechal Miguel Salazar Mendes de Moraes.   Como as observações de meu avô aqui postadas anteriormente,  essas também não dão qualquer informação de fatos históricos além do que já se conhece, mas dão um “gosto” da época.  

Em 1932, Miguel Salazar  Mendes de Moraes,  estava em Itajubá como comandante do 4º Batalhão do Exército.   Assim a família eventualmente se muda para essa pequena cidade mineira de grande importância geográfica.  A descrição abaixo acontece nessa cidade.

—-

—-

Antiga Itajubá, foto: Bruno Casarini/Flicker.  Bruno Casirini Grillo

—–

—-

9 de Julho de 1932

Estive hoje na praça com Moraes e presenciamos um pequeno meeting ocasionado pelo falatório que partia de um café.  Aproximando-me, pude notar a voz aguda de um locutor que avisava ao Brasil inteiro que São Paulo fizera uma revolução.  O tenente Valença e sua mulher Amália estavam em frente, num banco da praça, e ouviram atentos, enquanto ele tomava notas de tudo que ouviam.  No entusiasmo que se apossou dela, dizia: “Vai, Valença, vai, se você morrer fica um herói. “

À noite esteve em nossa casa dona Luiza Lebon, nora do Dr. Wenceslau Braz, com o marido, dr. Mário Braz.  Trouxeram um convite para irmos à sua fazenda em Campos do Jordão.  Papai, que não é muito dado a passeios resolvidos por outros, não prometeu aceitar, não mostrou mesmo nenhuma vontade de aderir ao tal convite, apesar dos nossos pedidos para que fosse.  Por fim, para que não o amolássemos mais, disse que não iria e nem nos deixaria ir.

Não falamos mais no assunto e fomos dormir.

De madrugada veio um soldado trazendo para papai um telegrama.  Imediatamente ele saiu, depois de ter se fardado apressadamente.

De manhã, soubemos, pela mamãe, que ele fora chamado no quartel porquanto rompera uma revolta em São Paulo, sendo necessária a presença do comandante e oficiais no quartel, para as mais urgentes providências.

Tomamos café sem papai, que não virá em casa enquanto não se normalizar a situação.  O mesmo está acontecendo com os outros oficiais, cujas esposas vêm todas para nossa casa à procura de conforto, pois somos calmas e otimistas.  Desde já vemos os governistas vencendo os paulistas, apesar de dizerem que estes são valentes e estão armados até os dentes.

Hoje vi um oficial amigo do papai que disse que seguirá breve para São Paulo para combater as forças do general Klinger, que avançam.  Apareceu também aqui pela manhã a Luiza Lebon, que se mostrou muito penalizada por não poder levar avante o passeio e entrou logo no assunto da revolução.  Vimos logo que era uma “revolta”, assim como o seu sogro e todo o povo mineiro.  Encheu-nos de boatos e afirmou que os paulistas avançavam, dispostos a tomar os quartéis de Minas.  Mamãe ficou aflita e tocou o telefone oficial para o papai, que se limitou a dizer para não acreditarmos em boatos, pois ia tudo muito bem.  Luiza Lebon, vendo que nada arranjava, começou a diminuir suas visitas, até que desapareceu.  Ela queria ver se conseguia “sublevar” o batalhão.  E o tal convite feito às pressas?  Não seria para afastar o papai daqui e colocá-lo na boca do lobo?

—-

—-

Itajubá, Estação de trens.

FOTO: ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS

—–

—-

No terceiro dia da revolta, começaram a chegar tropas do Rio e de Juiz de Fora.  Os trens passavam repletos de soldados muito bem equipados que, apesar de irem para o front, mostravam grande indiferença e sangue-frio dizendo adeus todos risonhos.  Dirigiam-se para o B/E, onde ficarão alojados até seguir viagem para as linhas de frente. O 28º B.C. desembarcou aqui pela manhã e o 4º R.C.D. à tarde, ficando alojados no Grupo Escolar recentemente acabado de construir.  Os mineiros estão furiosos…  Inventam horrores dos soldados governistas, dizendo que roubam nas horas vagas.  O mais engraçado é que o dr. Wenceslau não cumprimenta a família Mendes de Moraes.  Os boatos continuam cada vez mais ferozes.  Vovó, lá do Rio, anda aflita, pois, conforme nos mandou dizer, ouviu o rádio anunciar a prisão do major Mendes de Moraes em São Paulo, quando saía de um café…  Fala-se no embarque do B/E para Itapira, a fim de construir pontes rapidamente, pois os paulistas estão bombardeando tudo para impedir a passagem dos governistas.  Diariamente chegam tropas de todas as partes do Brasil.  Até do Norte chegaram duas companhias do Batalhão de Caçadores.  Vemos sempre o trem chegando, pois a estrada passa bem atrás da nossa casa.  Agora estamos ficando mais tristes porque a viagem para Itapira está senda marcada para muito breve.

Papai já chegou a Itapira e de lá escreveu duas cartas cheias de novidades.  Recebemos também um retrato ótimo tirado pelo tenente Braga, onde ele aparece no novo QG. 

Sempre que se apresenta um portador, mandamos os melhores petiscos feitos em casa.  Os tijolinhos de milho da mamãe vão em primeiro lugar.   Da mesma forma, sabemos, quando os oficiais vêm de lá gozando um período de férias, das novidades do front.   Há dias tivemos a visita do Arquimedes, filho do subcomandante Masson Jacques, que contou haver tomado parte num feroz combate.  Disse que os paulistas jogaram um canhão dos governistas pela ribanceira abaixo e mais tarde, quando foi iniciado o tiroteio, eles gritavam do morro onde  estavam entrincheirados.

— Vem pra cá, seus tolos!  Lutem por São Paulo!

20 de julho de 1932

Este mês tem sido bastante difícil para mamãe, que anda assustadíssima porque papai partiu para Campinas com o fim de reconstruir uma linda ponte bombardeada pelos revoltosos paulistas e causou a morte de seis soldados, entre os quais um do batalhão que tinha sido promovido a cabo por merecimento. 

Papai mandou  por um mensageiro apetrechos dos soldados prisioneiros durante um combate em Mogi-Mirim.  Capacetes de aço novinhos, cinturões, cantis etc. e uma caixa de papelão que continha um pão de forma, uma lata de carne em conserva e um papel escrito em letras vermelhas:  Refeição de emergência para a trincheira.

Papai brevemente estará de volta, graças a Deus.  Romualdo e Morato passaram por aqui, trouxeram boas notícias.  Os dois estavam barbados, gozadíssimos!

………

Em:  A família de guizos: história e memória, de Ivna Thaumaturgo, Rio de Janeiro, Ed. Civilazação Brasileira, 1997.





Pirilampos, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

12 03 2011

Ilustração, Vagalumes, de Leslie Harrington.

—-

—-

Pirilampos

—-

Henriqueta Lisboa

—-

Quando a noite

vem baixando,

nas várzeas ao lusco-fusco

e na penumbra das moitas

e na sombra erma dos campos,

piscam piscam pirilampos.

São pirilampos ariscos

que acendem pisca-piscando

as suas verdes lanternas,

ou são claros olhos verdes

de menininhos travessos,

verdes olhos semitontos,

semitontos mas acesos

que estão lutando com o sono?

—-

—–

—-

—-

Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira. Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento.








%d blogueiros gostam disto: