Imagem de leitura — Barbara Jaskiewicz

31 05 2011

Moça lendo no jardim, 2009

Barbara Jaskiewicz ( Polônia, contemporânea)

Óleo sobre tela, 55x 73 cm

www.barbarajaskiewicz.pl

Barbara Jaskiewicz-Socewicz nasceu em Wroclaw na Polônia. Estudou arquitetura na Universidade Tecnologia de Wroclaw.  Pintora em óleos e aquarelas e também desenhista.  Dedicada a uma variedade de gêneros dos retratos à paisagem, cenas urbanas e quase todas as variedades de pintura de gênero.

 

 





Literatura como mensagem política, ainda funciona? E o feminismo?

31 05 2011

Moça lendo, s/d

Mikhail Vasilyevich Nesterov (Rússia, 1862-1942)

óleo sobre tela

No jornal The Independent da semana passada, Arifa Akbar no artigo Is feminism relevant to 21st  century fiction?  levantou algumas questões interessantes que pretendem determinar se o Feminismo ainda tem lugar na literatura contemporânea, ou melhor, na literatura do século XXI.

Qualquer produção literária que queira refletir uma posição política ou social corre o risco de ficar comprometida.  Isso serve para o feminismo, para o socialismo, para escrita revolucionária de direita ou de esquerda, e até mesmo para a literatura com a intenção de mudar dogmas pré-estabelecidos nas sociedades:  dos proselitismos religiosos ao missionarismo contra chagas sociais tais como o racismo, purificação das raças, opções sexuais que por mais perversos que sejam são melhor combatidos de outras formas.  O mesmo acontece quando um escritor é comissionado para escrever um romance em que alguma companhia seja a patrocinadora.

Melina de verde, 1930

Emma Fordyce MacRae (Áustria 1887- EUA, 1974)

óleo sobre tela

www.emmafordycemacrae.com

Um caso que me vem à lembrança é o da escritora inglesa contemporânea Fay Weldon. Conhecida por seus temas sociais e feministas, Fay Weldon — que ficou muito famosa com o romance The life and loves of a she-devil – [no Brasil, A Maligna, vida e amores de uma mulher-demônio, Art:1986] um retumbante sucesso no exterior, transformado em roteiro de filme [de menos sucesso]: Ela é o diabo, 1989, dirigido por Susan Seidelman —  aceitou, no início da década passada,comissão da famosa joalheria Bulgari para que fizesse – ao que tudo indica – um  “product-placement” em um de seus romances.  Isso se resume a um anúncio disfarçado de um produto, como quando as marcas de produtos de beleza, hidratantes e muito outros, aparecem nas novelas televisivas brasileiras, para citar um exemplo.  Fay Weldon foi fartamente criticada pela imprensa inglesa, especializada ou não.  O resultado foi um romance meio sem graça, Conexão Bulgari [Record, 2005].  Falo isso com pesar, porque admiro bastante o trabalho da autora que parece sempre estar antenada para assuntos que afetam o universo do comportamento feminino de maneira inteligente, crítica e bem humorada.

Mas a verdade é que em termos de romancistas feministas, Fay Weldon foi, e ainda é, relevante, assim como muitas de suas contemporâneas e sucessoras como Margaret Drabble entre muitas outras, que trouxeram, para um público muito maior do que aquele que lê ensaios sociológicos, o feminismo do dia a dia da mulher do século XX.  Quais outras escritoras contemporâneas conseguiram atingir a tantas mulheres que não se davam conta de que os problemas que enfrentavam eram o que se chamava de feminismo?  Fay Weldon estava dando voz a uma geração pós Doris Lessing, a verdadeira pioneira do feminismo literário na Inglaterra.

Hora da leitura, s/d

John Weiss ( EUA, contemporâneo)

Gravura, 30 x 28 cm

Sempre me senti em cima do muro quanto a feminização dos estudos nas artes.  Duas de minhas melhores amigas, que se formaram em história da arte comigo, tornaram-se especialistas em assuntos feministas, uma delas, hoje,  é diretora da Faculdade de Estudos Feministas de uma grande universidade americana.  E apesar de ter abraçado o movimento feminista com zelo, de ter pertencido à National Organization for Women, sempre achei que um momento chegaria, em que estas especializações não teriam mais sentido de existir.  Talvez fosse pura esperança, de que um dia o trabalho feminino fosse considerado do mesmo valor que o masculino.  Por outro lado, reconheço que até mesmo no fechado círculo dos historiadores da arte, muitas foram as mulheres pintoras e escultoras, cujos trabalhos, que não deixavam nada a desejar em relação aos dos seus colegas homens, só vieram a ser mais ou menos conhecidas  depois que algumas portas se abriram para a pesquisa de campo nesse setor.  Foram e ainda são décadas e décadas de dedicação nos porões de museus conhecidos à procura de artefatos dessas artistas plásticas, desbravadoras das artes.  E os resultados se acumulam.  E não teriam aparecido não fosse a dedicação, a devoção à uma causa, das historiadoras de arte feministas.  Um dos exemplos mais convincentes é o caso da pintora americana Mary Cassatt, que era considerada uma boa pintora impressionista americana, mas que só obteve o lugar de destaque que hoje exibe depois que houve abertura em dois campos de pesquisa que sofriam preconceito:  arte americana (EUA) — quando tudo o que era considerado bom era europeu; e arte por uma mulher, com temas exclusivamente femininos.  A abertura dos estudos feministas e de estudo da arte americana — a princípio muito esparsos — nas maiores universidades dos EUA só se deu mesmo a partir da década de 1970.  E o lucro cultural, além dos valores econômicos que essas “descobertas”  trouxeram é enorme, impossível mesmo de se calcular.  Para não se falar na auto-estima de metade da população do mundo.  O mesmo aconteceu na literatura: nos EUA duas escritoras “re-descobertas” foram Kate Chopin e Charlotte Perkins Gillman.  Dou exemplos dos EUA, porque foi lá que passei grande parte da minha vida profissional, mas o mesmo aconteceu na maioria dos países do ocidente.

Jovem mãe no jardim, s/d

Mary Cassatt (EUA, 1844-1926)

Acredito que nas artes visuais assim como nas literárias haja realmente uma grande diferença de enfoque entre os sexos.  Uma das minhas decisões mais radicais na década de 1990, foi no campo da literatura, eu não iria ler NADA, absolutamente NADA escrito por um homem.   Como leio muito, foi uma década de intenso perambular pela criatividade feminina.  E confesso que adorei, porque há uma diferença palpável na percepção do mundo, da realidade, da fantasia entre homens e mulheres.   O que nos preocupa não é necessariamente o que preocupa um escritor homem.  Menciono isso porque o artigo do jornal The Independent mencionado acima questiona se ainda há a necessidade de se ter um prêmio literário, nesse caso o Orange Prize, exclusivo para  escritoras mulheres. [O Orange começou em 1996 com o propósito de premiar escritoras mulheres, por sua excelência, originalidade.] Não sei.  Provavelmente ainda há.  Ainda que eu acredite — talvez até fantasie — que daqui a uns poucos anos essas divisões não sejam necessárias.  Exemplos das ganhadoras do Orange Prize mostram que o prêmio não foi em vão:  Barbara Kingsolver (2010), Rose Tremain (2008), Zadie Smith (2006).

Mas ao que tudo indica, pelo menos ultimamente, há um sentimento  de aversão, bem delineado, ao feminismo,  uma posição que se reflete na capa e no conteúdo do último número da Revista Granta, [nº 115],  que, numa alusão a um palavrão em inglês,  intitula esta publicação de  The F. word.   Nesse meio tempo, como lembrou Arifa Akbar, a Austrália considera inaugurar um prêmio literário exclusivamente para mulheres.  O que parece é que o Feminismo está mudando de cara.  A fase inicial de contestação e a fase de reconhecimento, pelo menos em alguns lugares do mundo, já se esgotaram.  Talvez não haja oxigênio suficiente para que o Feminismo sobreviva como o conhecemos.  Uma nova variação deve estar a caminho, sem alguns excessos, talvez mais inclusiva.  Talvez seja essa a variação a despontar.  Nada muito diferente da conhecida evolução Darwiniana.  Esperemos.

©Ladyce West, 2011








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