Imagem de leitura — Alain Pontecorvo

8 08 2011

O jornal da manhã, s/d

Alain Pontecorvo ( França, 1936)

guache

Alain Pontecorvo, ( França, 1936).  Começou a pintar profissionalmente em 1960 ainda estudante da Escola de Artes Decorativas de Paris.  Inspirado pela pintura dos século XVII na Holanda, dedica-se ao retrato, à pintura de gênero, numa maneira quase hiperrealista.





Noite, texto de Raul Pompéia

8 08 2011

As luas de maio

Fani Bracher ( Brasil, contemporânea)

óleo sobre tela, 73 x 92 cm

www.fanibracher.com.br

À noite

…………………………………………………, le ciel

Se ferme lentementcomme une grande alcove,

Et l´homme impatient se change en bête fauve.

Chamamos treva à noite.  A noite vem do Oriente como a luz.  Adiante, voam-lhe os gênios da sombra, distribuindo estrelas e pirilampos.  A noite, soberana, desce.  Por estranha magia revelam-se os fantasmas de súbito.

Saem as paixões más e obscenas; a hipocrisia descasca-se e aparece; levantam-se no escuro as vesgas traições, crispando os punhos ao cabo dos punhais; à sombra do bosque e nas ruas ermas, a alma perversa e  a alma bestial encontram-se como amantes apalavrados; tresanda o miasma da orgia e da maldade — suja o ambiente; cada nova lâmpada que se acende, cada lâmpada que expira é um olhar torvo ou um olhar lúbrico; familiares e insolentes, dão-se as mãos o vício e o crime — dois bêbados.

Longe daí a gemedora maternidade elabora a certeza  das orgias vindouras.

E a escuridão, de pudor, cerra-se, mais intensa e mais negra.

Chamamos treva à noite — noite que nos revela a subnatureza dos homens e o espetáculo incomparável das estrelas.

Em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edition, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional:  1951.

Raul Pompéia ( Angra dos Reis, 1863 — Rio de Janeiro 1893) Cursou o Colégio Pedro II.  Advogado, cursou incialmente o curso de Direito na Faculdade de São Paulo mas concluiu o curso no Recife.  Fervente abolicionista, nunca deixou de publicar textos à favor da causa.   Foi diretor de estatística do Diário Oficial e diretor da Biblioteca Nacional, ambos os cargos depois da Proclamação da República.  Sua reputação literária deve-se sobretudo ao romance O Ateneu.

Obras:

Uma tragédia no Amazonas, romance, 1880

As jóias da coroa, panfleto satírico, 1882

Canções sem metro, prosa, 1883

O Ateneu, romance, 1888





Um dia, romance de David Nicholls, uma excepcional viagem pela vida

8 08 2011

Regent Street, Londres, 2009

Keith Hornblower ( Inglaterra, contemporâneo)

aquarela

http://keithhornblower.wordpress.com

Quando uma amiga sugeriu que eu lesse Um dia de David Nicholls e descreveu esse romance como uma história que se passava no mesmo dia de diferentes anos, pensei imediatamente no filme de Robert Mulligan, Tudo bem no ano que vem,  [Same time next year], [1978] sucesso comprovado como filme e peça teatral. Lendo na orelha do livro [Intrínseca:2011] o envolvimento do autor britânico com o teatro comecei a leitura desconfiada de que estaria me envolvendo com uma alusão, uma paródia, uma re-adaptação da peça do autor canadense Bernard  Slate.  Erro meu!  Este romance é completamente diferente.  E, tem mais, é mais profundo, significativo do que a comédia a que me referi.  Como na peça teatral, este romance também tem um humor inerente.  Como na peça teatral, vemos os mesmos personagens crescerem, se desenvolverem: atores de comédias urbanas que se desenvolvem através do trabalho, dos casamentos, das desventuras amorosas. Mas estas são as únicas semelhanças.

Hoje são raros os livros que me emocionam de uma maneira profunda, que me levam às lagrimas como esse fez em seus capítulos finais.  Muita leitura, a dose normal de descontentamento, experiência acumulada têm contribuído para que seja difícil encontrar um autor que me comova, sem que eu sinta que minhas emoções foram manipuladas inescrupulosamente.  Mas esse romance, que parece sem pretensões,  com uma narrativa entremeada por diálogos corriqueiros, com grande dinamismo, removeu barreiras à minha sensibilidade e se tornou pessoal.  Com um desenrolar inesperado ele atinge o leitor como um soco no estômago.  E essa leitora, se encontrou ao final, depois de reler o último capítulo, como Dexter, um dos personagens da trama, controlando um pequeno ataque de pânico, como se meus pés estivessem se apoiando numa fina camada de gelo prestes a se partir.  O abismo está aqui, em qualquer lugar, a qualquer hora.

É possível que com esse romance, David Nicholls possa vir a ser considerado o retratista de uma geração.  Mas acredito que ele seja mais do que isso, pois sua mensagem: Carpe Diem é universal e não tem prazo de validade.  Mas, afinal, o que é este romance?  É a vida de dois personagens, através de vinte anos.  Passa-se na Inglaterra.  Um homem e uma mulher, que se conhecem no dia da colação de grau na faculdade, têm um mundo de possibilidades, um horizonte aberto, um número irrestrito de escolhas a fazer.  Eles se conhecem e mantêm um relacionamento ora estreito, ora distante através dos anos.  Aos poucos, no passo da vida, testemunhamos suas opções, o aproveitamento que fazem do que lhes é ofertado, o que procuram e o que ignoram.  Acompanhamos o desenrolar de suas vidas e nos afeiçoamos a eles, mesmo que o retrato de Emma e Dexter, a cada passagem do dia 15 de julho, data da formatura universitária, seja feito com candura fotográfica.

David Nicholls

Torna-se impossível, no entanto, para o leitor não refletir sobre sua própria vida, suas escolhas, oportunidades e medos.  Ler Um dia pede um exame de consciência, um exercício de terapia psicológica.  Temos que encarar nossa cronologia, nossos passos.  E depois ainda perguntar:  E agora?  Por esses questionamentos, esse é um romance a ser lido e pensado.  Conversado e debatido.  Será a minha sugestão para o meu grupo de leitura no próximo mês.  Imperdível.








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