Papa-livros: Guia de discussão do livro Cada Segredo, de Laura Lippman, leitura terminada em 08/2011

28 08 2011

Chá no jardim, 1917

Fernand Blondin (Suíça, 1887-1967)

óleo sobre tela, 84 x 102cm

Mark Murray Fine Paintings

Este é um livro de suspense.  Laura Lippman é uma escritora bastante conhecida e detentora de diversos prêmios na categoria de mistério e suspense.  A maior parte de suas obras é situada na cidade de Baltimore, no estado de Maryland,  nos Estados Unidos.  Baltimore é uma das poucas cidades americanas que tem maioria negra, próximo a 65% da população.   Mas é uma cidade com grande pluralidade de americanos de outras origens.  Os descendentes de irlandeses e de italianos formam uma grande percentagem da população.  Há também muitos descendentes de poloneses e outros imigrantes de ascendência européia.  Levando em conta esse panorama, o romance Cada Segredo, explora os preconceitos de origem e de cor da pele que determinam o comportamento de diversos personagens na trama.   Este é o ponto em comum de todos os personagens.

1) Como e que personagens mostram comportamento preconceituoso?

2) Além do preconceito de cor da pele, há também preconceitos de origem, de classe social e de religião.  Como eles são retratados?

3) Você acredita que a maneira de representar esses preconceitos é essencial ao desenvolvimento da trama?

4) A autora preencheu muitos detalhes sobre a vida de cada personagem dando informações sobre o passado de cada um e sobre sentimentos complexos que os fazem agir dessa ou daquela maneira.    Você acha que todos esses detalhes foram necessários?  Eles enriqueceram a sua experiência na leitura ou eles desviaram a sua atenção da solução do crime?

5) Alguns personagens tentam influenciar a ação da polícia.  De que maneira eles fazem isso?  São bem sucedidos?  Por que eles não conseguem deixar a polícia resolver o crime por si própria?  Qual é o interesse de “guiar” a mão da polícia?

6) A solução do crime cometido foi satisfatória?

7) Duas meninas de 10-11 anos vão para a cadeia, pagar pela morte de um bebê.  Elas saem da cadeia aos 18 anos.  A filha de um juiz tenta exercer sua influência para que elas sejam julgadas como adultas.  Que diferença faria isso?

8 ) Quais as diferenças entre a sociedade americana e a brasileira quando o crime de assassinato é perpetrado por uma criança de 10-11 anos?

9) Nos Estados Unidos o crime de assassinato não prescreve.  Ou seja, o processo de procura de um assassino está sempre em aberto, nunca é arquivado, até que o crime seja resolvido, mesmo que décadas tenham se passado.  Compare essa estipulação da lei americana com as leis brasileiras.  O que você endorsa?

10) A literatura de mistério e de suspense no Brasil ainda engatinha.  Temos bons autores, mas se comparada com a produção americana estamos bem aquém.  Quais seriam as razões dessa diferença, já que há milhares de leitores desse gênero no Brasil?

Para participar desse debate, sugiro que você leia o livro.  Coloque suas opiniões aqui.  Como fiel da balança a Peregrina irá monitorar as respostas a essa postagem e editar caso seja necessário cada uma das respostas.  Obrigada por pedirem o debate,  que ele seja proveitoso.


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4 responses

2 09 2011
Augusta

O livro Cada Segredo é bem interessante. A autora procurou traçar um perfil psicológico dos personagens, fornecendo detalhes do passado de cada um deles, assim como as emoções e sentimentos que norteavam suas condutas.
Creio que esse aspecto enriqueceu a trama, pois pudemos acompanhar e entender um pouco cada um deles.
A filha do juiz, pertencente a uma família importante na cidade, tenta impedir a saída das jovens assassinas da cadeia, e influenciar a polícia, especialmente a inspetora. Se as jovens fossem julgadas como adultas, certamente teriam penas maiores, afinal foram acusadas de assassinato.
Vemos o trauma da mãe que perdeu seu bebê de uma forma cruel, mas será que também não estamos lidando com o seu sentimento de culpa? Afinal, onde estava essa mãe na hora da tragédia? Por que o bebê estava só?
Acompanhamos o processo de retorno á vida de Alice e Ronnie. Alice, uma adolescente deprimida, gorda, necessitando claramente de ajuda profissional. Durante um tempo, pensamos ser Alice a personalidade ” dominante ” da dupla, pois Ronnie se apresentava com dificuldades outras. no entanto, descobrimos ser ela a dominante e Alice a submissa na relação.
Importante o papel da mãe de Alice, que percebe toda a trama e procura deixar uma prova que incrimine a verdadeira assassina.
Creio que a justiça americana é mais severa com seus criminosos, mesmo com menores de idade. Atuei há muitos anos atrás em instituições, cujo objetivo era reintegrar os menores infratores à sociedade, mas na prática, os resultados eram bem diferentes.
Ainda teria alguns aspectos para abordar, mas ficará para uma próxima.
Anotei as questões apresentadas, para poder responde-las mais tarde.
Augusta

2 09 2011
peregrinacultural

Augusta,
1) sim, achei que a mãe estava cheia de culpa; Há até uma passagem em que ela revela sua preocupação de que ninguém notasse que ela havia deixado o bebê na porta, mas do lado de fora… Foi por um minutinho,,, mas aconteceu.

2) Realmente a justiça americana é muito mais severa do que a nossa. Apesar de os estados americanos terem leis diferentes um do outro há em geral um sistema mais rigoroso que o nosso. Há aspectos das leis que acho bastante interessantes, como esse a que nos referimos na postagem, de que o crime de assassinato não prescreve. E isso é válido para todos os estados. Há estados que têm a pena de morte e outros que não têm, essa é uma diferença grande e varia, em geral, com a religião predominante naquele estado. No caso de Maryland que é abordado no livro, não há pena de morte, principalmente porque é um estado de maioria católica. No entanto, o assassinato de qualquer policial nos EUA, leva a pena máxima naquele estado, automaticamente, sem apelos. Nos estados como Maryland, matar um policial leva à prisão perpétua, enquanto que em outros estados a pena máxima é a pena de morte.

3) Quanto à produção de literatura de nicho — como a policial, a de espionagem, etc — é um conceito antigo — a que ainda estamos– cá na nossa terra — muito arraigados, para nosso próprio desalento. Considerar alguns livros como ALTA LITERATURA e outros como não é uma atitude pertinente à época em que pouca gente era alfabetizada o suficiente para ler um livro inteiro, em que se acreditava que o Zé Povinho só iria querer ler textos de menor significância. É uma hierarquia literária que reflete a hierarquia social, que acaba quando todos numa sociedade têm a oportunidade de estudar e ler e também a oportunidade de decidir não querer ler. Cada livro vai repercutir de maneira diferente no leitor. Pode ser que haja um leitor que goste por exemplo de se deliciar com construções de frases criativas, enquanto que outro leitor, prefira trabalhar a trama, muito como acontece com os próprios escritores. É um disserviço à qualquer comunidade que se divida o mundo editorial assim — qualidade e leitura de massa. Essas qualidades não se excluem. Tenho por experiência e por paradigma a posição de aceitar que cada qual, cada leitor, precise ou queira tirar de um livro aquilo que lhe importe; aquilo que lhe seja relevante naquele momento. Também acho que os leitores podem construir sobre um livro seu próprio aprendizado, sem que tenham que cair nessa ratoeira do que é e do que não é Literatura. Para mim, isso é muito século XIX.

É claro que a qualidade ajuda muito. Temos o exemplo do livro O Nome da Rosa de Umberto Eco. É puro mistério. Complexo, mas de qualidade. O que é considerado de valor para ser publicado, já mudou muito através dos séculos. Antigamente, eram os nobre e a igreja ( textos religiosos) que eram colocados em livro — manuscritos. Depois com imprensa aumentou muito a seleção do que poderia ou deveria ser publicado. Mas também foram primeiro textos religiosos, alguns textos científicos, tudo para a minoria que sabia ler. Mas mesmo através dos séculos XVI e XVII, quando os reis ainda exerciam poderes bastante restritivos nas sociedades letradas, havia censura e só se publicava o que era permitido com algumas excessões para provar a regra. Mas no século XX com a real democratização do aprendizado e as facilidades desenvolvidas para publicação de exemplares às dezenas de milhares; quando um país como, por exemplo, os Estados Unidos tem 300.000.000 — trezentos milhões de pessoas e praticamente zero analfabetismo — há de haver uma variedade muito grande do que se publica e como. Assim como, há também de haver melhores escritores se dedicando a segmentos que anteriormente eram considerados de menor qualidade. É uma pura questão de estatística. Qualidade é a combinação da sofisticação tanto do autor quanto do leitor. Com a democratozação da leitura, ambos se sofisticaram.

Obrigada pelas resposta, Ladyce

2 09 2011
Augusta

Mais uma coisinha que gostaria de falar
Acredito que até há pouco tempo a literatura policial, de suspense não era considerada a verdadeira literatura, era algo como ” baixa literatura”. Isto está mudando e hoje, os autores deste tipo de livro são mais respeitados e os próprios leitores também.
Li uma entrevista com Michael Connelly, que virá para a Bienal do Livro, dizendo que este tipo de literatura vai muito além dos crimes e assassinos, pois há uma preocupação em situar o contexto da época, para que o leitor se informe corretamente.
Além disso, quando há um perfil psicológico do personagem, mostrando suas questões emocionais, é super enriquecedor.
Bom, já falei demais. Ou melhor, escrevi,
Até a próxima.
Augusta.

6 11 2011
Augusta

Peregrina Cultural
Houve a discussão sobre o livro Traduzindo Hannah?
Abraços
Augusta

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