Como o onze de setembro mudou a minha vida…

11 09 2011

Nova York, lembrança dos dez anos do ataque ao World Trade Center.

Nos últimos anos, muitos amigos perguntaram a mim e a meu marido porque resolvemos de fato vir morar no Brasil.  A minha volta — a vinda dele — já estava mais ou menos no ar, um sonho para o futuro, parte de uma vida confortável de dois profissionais bem sucedidos que imaginavam uma aposentaria, anos e anos à frente, numa vida carioca mais ou menos idílica.  Vínhamos ao Brasil todos os anos às vezes por um a dois meses.  Houve anos em que viemos mais do que uma vez.  Meu marido gostou do Brasil desde sua primeira visita.  Gostou do Rio de Janeiro e da minha família.  E a cada visita de volta sempre sonhávamos em nos estabelecer no Rio de Janeiro.  Mas, tínhamos uma vida confortável, calma, cheia de projetos  e o futuro parecia algo meio longínquo.  Nossas vidas familiar, social e profissional estavam nos Estados Unidos, e apesar de sonharmos em vir para o Brasil, íamos ficando, ficando, porque tudo estava bem.  Até  vivermos o 11 de setembro de 2001.

Fomos avisados do que acontecia em Nova York por minha mãe, que nos telefonou daqui do Rio de Janeiro,  pedindo que ligássemos a televisão.  Minha mãe estava sempre conectada aos mais diversos acontecimentos, acompanhava os noticiários com atenção e soube junto com os primeiros jornalistas, pela CNN, do ataque à primeira torre do World Trade Center.  Meu marido e  eu estávamos nos aprontando para ir trabalhar.  Ele,  como diretor dos cursos de pós-graduação/mestrado da universidade onde ensinava e eu como dona de uma galeria de arte-antiguidades.  Não morávamos em Nova York.   Na verdade cabiam e ainda sobravam uma Espanha e um Portugal inteiros entre nossa casa e Manhattan.  Mas o tempo parou para nós.  Foi o único dia, que não abri a galeria sem dar explicações.  Fechamos na verdade por dois dias, até podermos entender o que acontecia.  Meu marido foi à universidade, mas voltou logo e plantados em frente à televisão por horas e horas tentávamos compreender a enormidade do ataque que o país havia sofrido.

Não perdemos nem amigos, nem familiares no WTC.  Nem no Pentágono.  Nem no vôo 93.

No entanto o mundo mudou à nossa volta, ou melhor, a nossa percepção do mundo mudou assim como a realidade à nossa volta.  Setembro de 2001 foi o primeiro mês em 12 anos que a galeria não teve vendas que cobrissem todas as suas despesas.  O comércio caiu.  Desapareceu.  As ruas ficaram praticamente desertas por pelo menos uma semana.  Já havíamos sobrevivido a um enorme furacão que havia devastado a cidade alguns anos antes.  Mas dessa vez era pior.  Faltava o som das serra elétricas cortando as árvores nas ruas,  que anteriormente haviam dado impressão de progresso para a normalidade.  Faltava a solidariedade dos vizinhos, que no caos pós-furacão ficou evidente.   Havíamos também sobrevivido à uma tremenda borrasca, com neve acumulada bem alta e as ruas completamente fechadas, nessa cidade hospitaleira.  Dessa vez, ninguém podia ajudar a ninguém, não se sabia o que fazer.  Não era uma calamidade normal.

Não é que precisássemos dar um litro de leite, um pacote de biscoitos para as crianças do vizinho, que não podiam sair de casa…  Não é que alguém conseguisse chegar até o supermercado e se oferecesse para comprar alguma coisa para você durante uma borrasca de neve que havia paralisado a cidade.  Era diferente.  Houve uma quietude total, todos passaram uma semana, mais ou menos trancafiados, sem saber para onde se virar.  O perigo poderia estar em qualquer lugar.  De repente, um continente, um país gigantesco, havia sido atacado da maneira mais covarde do mundo e nós, os inocentes moradores, não sabíamos nem porque éramos ou poderíamos ser os alvos de tanta fúria.  E na minha cidade, todos se sentiram vulneráveis, sem saber de onde nos proteger.  E o comércio parou, os compradores desapareceram.    Principalmente aqueles que mantinham o comércio de luxo, como era o meu, pinturas, esculturas, contemporâneas, modernas e antigas, móveis de 200 a 300 anos: tudo que ninguém precisa para sobreviver.   E depois veio outubro, uma repetição precisa de setembro.  Um ar de irrealidade a toda volta.    É claro que depois de 12 anos no mundo dos negócios aprende-se que há momentos ruins.  E a minha galeria poderia sobreviver por ainda seis meses ou mais sem vendas…  Experiência já havia me ensinado a manter tudo sob controle financeiro estrito.  Não foi isso que me levou a fechar a galeria em dezembro de 2001.  Mas ajudou.

Meu marido, que já flertava com uma aposentadoria antecipada, por si só chegou à conclusão de que iria deixar a universidade  e um dia, no final de outubro, decidiu se aposentar.  Estava no ar, nas nossas preocupações, no nosso dia a dia a brevidade da vida, a certeza de que precisávamos colocar ordem nas nossas prioridades.  Era o momento de mudar de vida.  De correr atrás dos sonhos.   Estava na hora de fazermos o que queríamos, de dar corda aos nossos desejos, ainda que eles pudessem parecer tolos aos olhos dos outros.  Estava na hora de virmos para o Brasil. Em dezembro, fechei a galeria e em março seguinte, chegávamos ao Rio de Janeiro à procura de um lugar para morar.  A vinda, de verdade, sem compromissos deixados para trás, só aconteceu em dezembro de 2002.  Mas o ponto de partida, o momento propulsor da mudança, foi sem dúvida o dia 11 de setembro de  2001.  Fazem hoje dez anos!

©Ladyce West, 2011


Ações

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8 responses

11 09 2011
Regina

Ladyce, bom seu relato porque o significado daquele atentado precisa ser individual além de coletivo. Por não gostar de posicionamentos do tipo “os americanos são arrogantes, se colocam como centro etc etc”, descarto julgamentos e opiniões de quem estava aqui no BR. Só sabe o quanto e como o atentado – sim o maior da história americana – afetou sua vida, quem viveu na cidade e ou no mesmo país àquela época. beijos.

18 09 2011
peregrinacultural

Pois é, Regina, às vezes fico pasma com o que escuto aqui no Brasil sobre esse ataque. Às vezes dá a impressão de que as pessoas que sofreram nesse ataque eram todas robôs da política externa americana e não gente de carne e osso com sonhos e obrigações, que não têm controle sobre o que os governos fazem. Fico encabulada muitas vezes de ver um certo regojizo por aqui, como se pudéssemos passar a mão sobre a cabeça de quem planejou e de quem executou os atentados. É uma visão muito simplista do mundo. Obrigada pelo retorno, Ladyce

11 09 2011
Lígia Guedes

Ladyce,
Tenho também aquele dia nítido em minha memória. Meu filho completava exatamente dois meses de nascido e era um dia feliz, estava de licença maternidade. Não tenho o hábito de ver tv mas não sei porque ela estava ligada e naquela manhã pude ver tudo com olhos incrédulos de por quanto anda a sociedade. Ainda assim, com todas as controvérsias, olhava meu filho e pensava, Deus queira que esta geração esteja nascendo para renascimento de novos valores sociais.
Não imaginava tua vinda para o Brasil assim, sempre imaginei você morando aqui a muito mais tempo. Talvez por tua alegria de estar aqui, que muito admiro.
Bela tua forma de compartilhar cultura em rede, que também muito que longemente procuro imitar.
Beijo. Gostei do relato.

18 09 2011
peregrinacultural

Obrigada pelo comentário Lígia. Para muita gente que não viveu a nenhuma guerra mundial, pelo menos aqui no Novo Mundo, esta foi uma das vezes em que pudemos sentir o que as cidades bombardeadas da Europa — do que seu habitantes — deveriam sentir. Mas naquela época, havia uma declaração formal de guerra. Isso foi um dos atos mais covardes dos últimos tempos. Beijos

11 09 2011
Leticia Alves

Relatos particulares como disse a Regina é que nos dimensiona o horror e tristeza vividos nos ataques do 11 de Setembro. Eu me lembro bem que eu estava em casa pela manhã, foi o ano em que ingressei na graduação, e estávamos no segundo semestre, porém, em greve, e portanto eu em casa.
Acordei e ao passar pelo quarto da minha mãe que estava vendo tv, ao ver o primeiro avião atingindo uma dos Torres, perguntei: “Mãe, que filme é esse que a senhora está assistindo?” e ela me disse:”Não é filme, pois estava vendo um programa e de repente entrou essa imagem.” Logo em seguida o repórter entra no ar e então presenciamos o horror em tempo real.
A vida nunca mais foi a mesma, ou como você disse, a percepção da vida que queremos mudou. Pra mim pra melhor sempre!

18 09 2011
peregrinacultural

Letícia, sou uma leitora fascinada por diários e relatos de pessoas desconhecidas. Sempre que posso ler algum texto de alguma época do passado que me conte como os desconhecidos que nos precederam pensavam e se sentiam, dou uma olhadinha. Mesmo que às vezes o texto seja meio enjoado, sem qualidades artísticas. Mesmo assim, não sou uma pessoa de manter diários. Engraçado, não é mesmo? Toda vez que tentei manter um diário acabei o rasgando e jogando fora. Eles sempre revelavam, eu acredito, a mediocridade do meu dia a dia, das minhas preocupações. Não que eu queira ser importante, mas sempre aparecia menos generosa na fita, do que realmente me considero… Coisas da imagem que se tem e da imagem que vemos… Uma dissonância. É muito mais fácil manter um blog como esse do que seria um diário, onde a insignificância das minhas preocupações estaria sempre em relevo… rs.. Mas acredito como você e Regina que esses relatos pessoais são importantes, inclusive para o estudo, no futuro, de como e por que as pessoas reagiaram dessa ou daquela maneira. Obrigada pelo retorno. bjs,

12 09 2011
Maurício Botelho

Ótimo depoimento, Ladyce.
Impressionante o impacto deste evento em todo mundo e como mudou o dia-a-dia das pessoas. Até hoje é algo que ainda não dá para acreditar. Estive em setembro de 2009 no marco zero e deu aquela sensação esquisita ao imaginar tudo o que havia ocorrido naquele local.
Abraços.
Maurício

18 09 2011
peregrinacultural

Maurício, uma grande diferença entre esse impacto e, digamos, o bombardeio de Londres, na Segunda Guerra Mundial, é que foi visto pela televisão, no lugar mais seguro que temos, nas nossas casas, onde, em geral, nos sentimos protegidos. Os primeiros momentos de guerra na TV– que ao que eu saiba foram aqueles transmitidos pela CNN – da invasão do Iraque, do primeiro Bush, também tiveram um impacto muito grande. Aquelas cenas foram as primeiras na minha geração, a entrar pela sala a dentro, nas nossas casas, em tempo real. Mas de novo, havia sido uma invasão anunciada. A de 11 de setembro foi não só horrível, pelo ato em si — pois o país não estava em guerra — como foi inesperdade, E tudo ao vivo e a cores. Obrigada pela leitura, um beijinho,

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