Os mestres do passado e os de hoje, referências nas artes visuais contemporâneas

19 10 2011

O artista e seu modelo, 1939

George Braque (França, 1882-1963)

óleo sobre tela, 130 x 175 cm

Coleção Particular

Há algum tempo lembro que para participarmos do diálogo nas artes visuais é importante termos um conhecimento geral, extenso, das obras de arte do passado, para que certas referências feitas por artistas a seus colegas de gerações passadas possam ser compreendidas.  Assim como acontece na literatura, onde não é incomum vermos citações de escritores a escritores de gerações passadas, o mesmo acontece nas artes visuais.  Frequentemente o  arremedo direto a uma obra de arte específica vem com a expressão em francês “d’ après” ou a inglesa “after“.   No Brasil usa-se mais comumente a expressão em francês.   As reproduções por  fotografias, cartões postais, livros de arte, de quadros ou esculturas, que se tornaram cada vez mais baratas e populares através do século passado, facilitaram em muito essa conversa de uma geração de artistas com seus predecessores.

Hoje, a internet veio facilitar esse conhecimento.  O que antes era difícil e dependente de reproduções fotográficas, de visitas a museus, da boa vontade de professores em trazer para a sala de aula slides de obras de arte, de arquitetura e de objetos arqueológicos hoje, está ao alcance de todos, quer do aluno, quer do amante das artes visuais; tanto na cidade grande, onde uma visita a museus é corriqueira, quanto no interior que não tem essa facilidade à  disposição de seus habitantes.

Infanta Margarida Teresa em vestido azul, 1659

Diego Rodriguez de Silva Velazquez (Espanha, 1599-1660)

óleo,  127 x 107cm

Museu de História da Arte, [Kunsthistorisches Museum]

Viena, Áustria

D’ après Velazquez, 2005

Fernando Botero (Colômbia, 1932)

óleo sobre tela,  198 x 168 cm

Coleção Particular

Nem sempre a alusão a uma obra de arte é direta.  Nem sempre é óbvia ou até mencionada pelo artista.  A obra, acima, de Fernando Botero, que reinterpretou diversas vezes os quadros de Velazquez, é uma cópia/interpretação do pintor espanhol ao seu estilo.  O próprio título do quadro nos mostra que ele estava olhando para Velazquez.  E ele assume que o observador conhecerá a pintura que serviu de fonte de inspiração;  que o quadro de Velazquez certamente deveria lhe ser familiar por ser uma obra muito conhecida, por fazer parte da cultura geral do observador.

Mulher recostada, 1922

Fernand Léger ( França, 1881-1955)

Óleo sobre tela, 65 x 92 cm

The Art Institute, Chicago

Mulher com gato, 1921

Fernand Léger ( França,1881-1955)

Óleo sobre tela, 65 x 92 cm

A leitura, 1924

Fernand Léger ( França, 1881-1955)

óleo sobre tela, 114 x 146 cm

Já as três telas do pintor francês do século XX,  Fernand Léger,  diferentemente do trabalho de Fernando Botero que se inspira em um único quadro de Velazquez,  se encontram  entrelaçadas na obra de K. Madison Moore abaixo.  Menos óbvia  para o observador casual, essa referência, onde três telas juntas se encontram,  passa a ser um verdadeiro tributo, noventa anos mais tarde,  à obra da década de 1920 do pintor cubista.  A menção está no título:  Lendo com Fernand.

Lendo com Fernand, 2011

K. Madison Moore (EUA, contemporânea)

Óleo sobre tela, 36 x 36 cm

www.kmadisonmoorefineart.com

O artista plástico brasileiro Vik Muniz também é constantemente inspirado pelos trabalhos de muitos de seus antecessores.  Ele  já trabalhava nesse diálogo com o passado,  entre gerações e técnica, antes mesmo de aparecer nas telas mundiais com o documentário sobre o lixo.  A obra dele, abaixo, vista por alguém menos atento e através da internet poderia até parecer o próprio quadro original de Henri Matisse.  Suas diferenças só parecem mais acentuadas quando postas lado a lado.

Odalisca com cadeira turca, d’après Henri Matisse

Vik Muniz ( Brasil, )

gravura fotográfica, 100 x 120cm

Odalisca com cadeira turca, 1927

Henri Matisse ( França,

Óleo sobre tela, 60 x 73 cm

Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris

Recentemente conheci o trabalho do pintor americano Fred Calleri que também se inspira nas telas de grandes pintores dos séculos passados.  Muitos de seus quadros são citações diretas de outros muito conhecidos, com pequenas distorções, que no caso dele, tornam o trabalho com uma ligeira veia cômica, um leve tom caricatural.  Vejam abaixo sua tela e em seguida a musa inspiradora, a tela de Tissot.  Até no título as semelhanças são significativas.

Hora de silêncio, s/d

Fred Calleri ( EUA, 1964)

óleo sobre tela, 30 x 47 cm

www.fredcalleri.com

Silêncio, 1881

James Jacques Tissot ( França, 1836-1902)

óleo sobre tela, 27 x 36 cm

Coleção Particular

A realização de que fontes de inspiração do passado abundam à nossa volta me atingiu em cheio esta semana, quando o anúncio no jornal O Globo, da exposição Toys art show no Rio de Janeiro a primeira exposição individual do grafiteiro OZI.   Ilustrando a exposição estava  a obra abaixo do artista paulista.

De acordo com o jornal OZI é o primeiro a admitir que usa de ilustrações antigas para mandar a mensagem que deseja.  Nesse caso, identifiquei a fonte na hora, apesar de não saber o nome do ilustrador, mas eu havia recentemente encontrado a ilustração abaixo que recolhi para uma postagem no blog sobre o Natal.  Mudei de idéia, acho que aqui ela serve a uma proposta muito mais interessante, aqui.  Pela simples troca de um objeto nas mãos das meninas, o sentido das imagens muda completamente.  Enquanto na ilustração antiga as meninas embrulham um presente, no graffiti de OZI elas embrulham dinamite.  Semelhantemente abaixo, na ilustração original de Alice no País das Maravilhas, Alice levanta uma cortina e tem uma chave na mão direita.  No trabalho de OZI ela levanta o coelho e tem um revolver na mão.

Ilustração, autor desconhecido, possivelmente Jessie Willcox Smith.

Como já comentei anteriormente na postagem sobre Max Ernst, é um passatempo fascinante para quem é treinado em história da arte tentar conhecer as fontes de inspiração de um artista.  Deixe-me deixar claro: não se trata de cópia, de plágio, nada disso.  Como já venho demonstrando através de diversas postagens é uma tradição de todo sempre nas artes visuais, estas referências constantes ao passado.  A tradição vem da maneira como artistas são e eram treinados, copiando os grandes mestres, aprendendo os seus truques visuais na prática.

Obra de OZI, o grafiteiro,  expondo no Rio de Janeiro.

Ilustração de Alice no País das Maravilhas, de Sir John Tennion, publicada em 1865.

Nem sempre as fontes inspiradoras são tão óbvias quanto as mostradas aqui.  E nem sempre podemos nos assegurar que o artista realmente fez uma referência ou se utilizou de um trabalho anterior de outro artista.  Às vezes é o espírito de uma obra que lembra o de outra.  Às vezes é o espírito de uma época,  é um tempo em que certos assuntos são importantes, ou estão sendo ventilados.  OZI admite, de acordo com a reportagem, que está sempre olhando para ilustrações antigas.  Essa declaração me lembrou que talvez todos os grafiteiros de algum nome, também estejam se instruindo a respeito do trabalho de artistas gráficos que os precederam.  O trabalho do grafiteiro, Celso Gitahy, por exemplo, cujo graffiti, Stop the Cars, mostrado abaixo, e apareceu em 2009, quando o jornal A Folha Online, anunciou a 1ª Bienal Internacional de Arte de Rua de São Paulo (BIAR), me lembrou, pela junção fora do comum de parte de um carro usada como cabeça de um homem, de uma outra imagem, dessa vez, vinda das histórias em quadrinhos.  Vejam logo abaixo.   A idéia pode e deve ter surgido por si só, sem referência precisa às imagens dos quadrinhos, mas elas servem para mostrar o trabalho de garimpagem que iconógrafos fazem para entender o espírito de uma época.

Stop the cars, graffiti de Celso Gitahy.

Quadrinho, Cowboy Henks, final.

A historinha completa.

A musa inspiradora nem sempre é uma modelo, em um estúdio.  Pode muito bem ser o trabalho de um outro artista como vemos.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011


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