O subjuntivo, esse amigo do bem-falar!

25 10 2011

Magali tem dúvidas!  Ilustração Maurício de Sousa.

No outro dia, fui buscar um quadro numa loja de molduras.  Na oficina, ainda trabalhavam no acabamento da moldura.  Sem pensar duas vezes disse para o Sr. Pedro:

—  Quer que venha mais tarde?

Ele foi verificar, no fundo da oficina, a que horas os empregados teriam o quadro pronto.  Do lado de fora do balcão, sentado pacientemente num canto, com as mãos pousadas numa bengala, estava um senhor.  Só depois vim a conhecê-lo por causa de nossa conversa, soube tratar-se de um conhecido pintor paisagista de Minas Gerais.  Mas quando ele me abordou, enquanto o Sr. Pedro verificava o horário, eu não sabia quem era.

— Mas a senhora usa o subjuntivo!  — ele disse surpreso.

— Como?  — eu não entendi, assim de repente, o que ele queria dizer…  Estava fora de contexto…

— Pouca gente usa o subjuntivo.  A senhora não é carioca, é?

— Sou sim, disse rapidamente, acostumada a responder a essa pergunta seguidamente. E assim começou uma conversa que durou pra lá de duas horas.  Ele dizia que nós cariocas estávamos nos esquecendo do subjuntivo.  E por isso ele achou que eu não era carioca além, é claro, da minha pronúncia ser um tanto sulista.

Minha mãe, apesar de carioca, foi educada em São Paulo e ficou com a pronúncia dos esses mais acentuada do que a dos cariocas, apesar de usar o erre carioca.  Nós todos, os filhos, cariocas, falamos os plurais com esses em vez de xis e também temos uma pronúncia clara, quase cantada.  Minha mãe era professora de português e não deixava por menos: todos tínhamos que falar corretamente.  Ela nos corrigia automaticamente, a qualquer momento, em qualquer ocasião, não deixava passar uma oportunidade.  Venceu pela persistência, tenho certeza.

Depois dessa abordagem na loja das molduras, passei a prestar mais atenção ao uso do subjuntivo.  E realmente não só o carioca anda abusando de não usá-lo, mas a imprensa também, tanto a escrita quanto a falada.  É pena, porque o subjuntivo esclarece o pensamento além de auxiliar o interlocutor a entender as variáveis daquilo que se fala.  Sei disso, por estar casada com um estrangeiro e ser colocada constantemente no papel que minha mãe tinha comigo: corrigir o português a qualquer momento.  Meu marido passou a gostar do subjuntivo e hoje o usa em grande parte dos casos, sem erro.  Há uma pequena regra que ajuda a clarificar o uso do subjuntivo.

Chico Bento tem dúvidas…  Ilustração Maurício de Sousa.

Se há duvida na primeira frase, a segunda vai para o subjuntivo.

Uma regra clara e eficiente.  A dúvida pode ser claramente expressada [pelo uso de verbos como duvidar] ou pode ser implícita.

Vejamos os exemplos:

É possível  [dúvida] que eu ao cinema amanhã.

Imagina-se  [dúvida] que o ladrão tenha fugido pela porta da frente.

Meu tio desconfia  [dúvida] que seu emprego esteja por um fio.

Os bombeiros suspeitam  [dúvida] que o fogo tenha-se iniciado na cozinha.

Os médicos receiam  [dúvida] que as medidas tomadas contra a epidemia de dengue não sejam suficientes para evitar mortes no bairro.

Duvidamos  [dúvida] que o  horário de verão acabe antes do Carnaval.

Julgava-se  [dúvida] que o criminoso tivesse saído pela porta da frente, mas descobriu-se que esse não fora o caso.

Supúnhamos  [dúvida] que as respostas do ENEM fossem dadas à tarde, mas nos enganamos.

João suspeitou  [dúvida] que fosse traído pela mulher.

Maria suspeitou  [dúvida] que sua melhor amiga roubasse os bombons da caixa assim que os visse.

Os senadores duvidam que o ministro permaneça no cargo até o final do ano.

Desconfiei  [dúvida] de que o teste de hepatite fosse dar negativo.

Façam bom proveito!


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