Imagem de leitura — Sir John Lavery

7 11 2011

Miss Auras, o livro vermelho,  c. 1890

Sir John Lavery (Irlanda, 1856-1941)

óle sobre tela,  76 x 63 cm

Coleção Particular

John Lavery nasceu na Irlanda em 1856.  Ficou conhecido principalmente por seus retratos.   Na década de 1870 estudou pintura em Glascow, na Academia Haldane, e nos anos seguintes foi para Paris onde estudou na Académie Julian.   Foi em 1888 que ele foi escolhido para pintar o retrato da Rainha Vitória numa visita que ela fez a Irlanda.  Isso foi o suficiente para que ele se tornasse muito popular na sociedade como retratista.   Faleceu em 1941, aos 84 anos.





Decidindo sobre os cartões postais de obras de arte

7 11 2011

Longos feriados em geral me levam a grandes projetos.  Não gosto de sair em mini-férias nas semanas com feriados.  Tudo fica muito cheio, o trânsito horrível, acabo cansada e irritada.  Esta semana com o feriado na quarta-feira fiquei sem saber se emendava para do domingo anterior ou para o domingo seguinte.  Acabou que não fiz nem uma coisa nem outra.  Só tirei “férias” das minhas atividades corriqueiras.  E comecei  — PERIGO!  — a organizar aquelas coisas que a gente sempre tem a intenção de arrumar e não consegue.  Fui checando diversos itens que estavam para serem revistos, portanto não se surpreendam se eu voltar a esse assunto nas semanas que seguem, principalmente porque já estou me preparando para continuar – e quem sabe conseguir terminar o que comecei — no dia 15, feriado nacional.

Desde que me mudei – passaram-se 14 meses! – estou para dar ordem a algumas das centenas e centenas de cartões postais que tenho.  Antes de me mudar para um local com menos espaço, selecionei todos os postais brasileiros de minha coleção, que haviam sido impressos na primeira metade do século vinte e mandei para leilão.  Mas guardei comigo outros tantos, quase todos de obras de arte. Por razões emocionais.

Na época em que precisei fazer provas orais de reconhecimento de obras de arte e estilos – parte do processo normal da finalização do curso de mestrado em história da arte, a maneira de estudar era através de cartões postais, que eu e meus colegas na universidade, mostrávamos uns aos outros testando os conhecimentos:  “ Isto é, Fantin-Latour, Natureza Morta.” “Ingres, Retrato de Mlle Rivière, 1805”; “Sátiro com bacantes, Clodion”; “Venus Consolando o Amor, Boucher”; e assim por diante.  As provas orais do mestrado eram divididas em 3 partes:  duas delas incluíam conhecimento geral, da Idade da Pedra ao momento presente com o reconhecimento darte projetada na tela.  E havia também a defesa da tese de mestrado.  Era a prova oral de reconhecimento das obras de arte, esta a que me referi ainda agora, em que os slides eram projetados por 30 segundos, mais ou menos, quando tínhamos que reconhecer e identificar o que estava sendo projetado, que era a parte que mais nos dava medo.  Mesmo a segunda fase desse torneio de reconhecimento de obras de arte, aquela em que  o aluno tinha que dar uma pequena aula de cinco minutos  sobre o que estava na tela, não apavorava tanto, parecia  mais fácil, porque dava tempo de pensarmos: cinco minutos para cada projeção, além é claro da possibilidade de uma boa dose de “embromol” [que diga-se de passagem, ao contrário do que muitos pensam, não é uma invenção brasileira].  Mas a parte de identificação era muito traumática, a meu ver, porque tínhamos que fazê-lo na hora, de imediato, “na lata”, qualquer obra da Idade da Pedra ao presente.

As provas orais para o doutoramento também se dividiam em duas partes, duas provas orais: a defesa da tese de doutoramento e a parte que incluía identificação [ao acaso] e até de obras sem autor conhecido para você atribuir e dizer porque atribui.  Essas eram em dias separados.  Mas sempre me pareceram mais fáceis porque eram obras [pintura, escultura e arquitetura] dentro da sua área de especialização, e é claro, tínhamos a obrigação de saber.  Passáramos anos a fio estudando exclusivamente um determinado período da história para isso mesmo, para sermos especialistas.

De modo que os muitos cartões postais de obras de arte que tenho comigo têm um simbolismo grande.  Alguns já estão amarelando.  Se levar em consideração as fotografias modernas muito mais precisas do que as do passado, devo me desfazer deles. Mesmo assim não tive coragem de jogá-los fora, pelo menos alguns deles.  Vou dizer a razão.

A pergunta que me preocupou nesses dias: devo me desfazer deles ou não?  É difícil. E é difícil responder de maneira satisfatória.  Mantê-los é  de um luxo, que viver no Rio de Janeiro talvez não me permita desfrutar: o espaço para guardá-los é preciosíssimo.   Por outro lado, já não olho mais para esses postais.  Na maioria das vezes quando penso em algum quadro corro para a internet e o acho.  Mantive os postais por acreditar, que tinha obras reproduzidas em postais que eu considerava de artistas muito pouco conhecidos.  Eles vinham das minhas viagens [não há historiador da arte que se preze que não viaje, porque não há como ver um quadro a não ser em pessoa] ou de amigos e familiares que visitaram lugares distantes, digamos a Eslovênia, ou a Ucrânia, ou até mesmo lugares mais corriqueiros, mas em datas onde já havia outras edições de postais.  Essas pessoas gentilmente traziam imagens das obras de arte encontradas em museus locais.  Meu pai chegou ao extremo de num tour da Europa me trazer uma maleta repleta de cartões postais de obras de arte, pesadíssima, que ele, um cardíaco, não deveria ter-se aventurado a  carregar, todos postais únicos, não repetidos entre si, só para me ajudar na difícil tarefa de sucesso nas provas orais.

A surpresa é que hoje já encontro muitas, a maioria dessas obras de arte, na rede.  E estou grata por isso.  Artistas cujos trabalhos pareciam tão fora do meu alcance ou dos olhos de qualquer um de nós, agora estão simplesmente a alguns cliques dos meus olhos. E essa é uma das maiores vantagens da rede.  O acesso ao conhecimento, mesmo que esse conhecimento se resuma a uma familiarização visual, está muito próximo.  Democraticamente próximo.  Exceto que temos que ter o conhecimento prévio do que queremos para poder achar.  É preciso saber procurar, e é aí que vem o conhecimento não só dos artistas, mas de línguas também, não só do inglês e do francês.  Um historiador da arte precisa pelo menos ler em alemão, não importa a sua área de especialização.  Diz o ditado que quem procura acha.  Mas quem procura precisa saber daquilo que quer achar…

No meu campo, nas artes visuais, por causa dessa educação mais abrangente que engloba muito mais do que o mínimo necessário, há países que se destacam com a riqueza das imagens que encontramos na rede.  Os Estados Unidos, Inglaterra  e  Canadá são hors-concours, realmente tenho a impressão de que tudo deles está na rede, ainda que seja só impressão.  E muito do que está na rede é para ser usado, para ser divulgado, os museus não fazem pequenos truques para evitar a reprodução na rede de suas obras de arte como encontramos por aqui.  Está tudo aberto, aberto ao público, a todos.  Devo lembrar que a Rússia não fica atrás.  Há portais russos oficiais e de amantes das artes que batem de longe muitos dos portais que encontro por cá, com reproduções em grande resolução,  com  clareza de informações.  Muito bons também são os portais quer oficiais, quer de amantes das artes dos Países Baixos (incluo entre eles a Holanda e a Bélgica).  A França tem um maravilhoso leque de imagens das obras em seus museus, mas, típico daquele país,  a maioria delas postada pelos próprios museus e consequentemente pelo governo.  O público em geral é mais retraído.  A Itália é muito pobre nesse âmbito, pouquíssima informação extra-oficial.  A impressão que tenho da Itália, pelos portais nas artes visuais é que o italiano ainda está numa outra era da vida na rede.  No Brasil a vida na rede está em grande parte nas mãos de adolescentes ou jovens adultos com pouca escolaridade.

O que me fascina  nas artes visuais na rede são as pessoas que “dividem” os seus conhecimentos, as suas obsessões com as artes e estas estão justamente nos países em que a instrução é levada a sério.  No caso brasileiro, encontro muito pouco da produção nacional de obras de arte ao alcance do público.  Temos falta da participação das organizações oficiais, tais como museus de arte, museus históricos.  Não temos um cadastro das obras encontradas em cada museu brasileiro – como há ao alcance de todos na rede francesa — e há acima de tudo a falta do “amador” no Brasil,  daquela pessoa que é digamos, engenheiro, técnico de fertilização in vitro, técnico na agricultura, o bancário,  taxista, pessoas que amam a arte, ou amam alguma coisa, maior do que si mesmos, que se disponham a dividir com o mundo, com outros brasileiros,  aquilo de que gostam, aquilo que ocupa sua imaginação.  Falta aquela pessoa que queira dividir com o público, ou com outros aficionados o que tem, o que conhece, o que o deslumbra, sem a intenção de lucro.  Aqui todo mundo quer dinheiro pela informação.  Há um consenso cultural de que informação é coisa preciosa e que se você quiser saber terá de pagar por isso.  É uma das muitas conseqüências do viés da inequalidade brasileira.  Falam muito do capitalismo americano, mas nos portais americanos, canadenses, ingleses, encontramos o apaixonado, o colecionador, a pessoa que gostaria de dividir com o mundo aquilo de que gosta, aquilo que sabe.  É nesses países, as estrelas do capitalismo, que encontramos o maior conhecimento ao menor preço. Vejam os blogs de cidadãos desses países, eles não se limitam a diários da minha aventura amorosa da noite passada.    Na rede, no Brasil, o que encontramos nas arte visuais, a maioria deve ser paga, ou precisa de conhecimentos especiais…  O acervo dos nossos museus na rede é ridículo,  e além disso, quando encontrado depende de fotografia de baixa resolução, são portais em geral  mal elaborados.  Esse é o reflexo, em grande escala, da falta de instrução, da falta de um conhecimento um pouco acima do mínimo requerido para a sobrevivência do corpo.  Dizem que estamos com uma deficiência de quesitos morais, que perdemos a noção dos valores.  Mas valores são adquiridos quando passamos do limite da instrução mínima necessária.  A vida interior não pode, nem deve, ser domínio único da religião.  Há outros caminhos para uma vida interior rica, generosa, excitante e capaz.  São esses caminhos os que nos ajudam na criatividade, na liderança, no pulo do gato da ciência.  As artes são um deles.  As ciências também.  O conhecimento é a grande alavanca da criatividade e de valores morais.

Ah, sim, a decisão: vou manter os cartões postais de arte brasileira.  A maioria ainda não está na rede.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011








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