Por que escrevo resenhas de livros?

14 11 2011

Biblioteca, François Schuiten (Bélgica, 1956).

Desde que comecei a escrever resenhas de livros, muito antes de ter um blog, houve a pergunta do por quê?  Recentemente, uma amiga depois de ler uma de minhas resenhas acabou me dando a oportunidade, através de suas perguntas, de esclarecer, até para mim mesma, a preocupação que tenho em escrevê-las.  Há diversas razões, mas é em essência para fechar aquela experiência de leitura.  Como se com ela eu pudesse colocar um ponto final naquela experiência.

Não me lembro de uma vida sem livros. Fui alfabetizada muito cedo, tão cedo que me faltam memórias dessa época. Foi um pouquinho antes dos cinco anos de idade.  A minha alfabetização foi tema, como única criança na família, antes de irmãos e primos nascerem, de um projeto de minha tia, irmã mais moça de mamãe, no último ano da faculdade.  Quando tia Neyde um dia me mostrou o trabalho dela de faculdade, os meus desenhos durante o processo didático no início da minha alfabetização, fiquei pasma.  Não me lembrava.  Para ser precisa, não me lembro de uma época em que eu não estivesse com alguma coisa para ler nas mãos.  Revistinhas e livrinhos foram brinquedos tão queridos quanto o cachorro de pelúcia Tupi, o patinho de madeira com rodas, e mais tarde a minha bicicleta.  Tinha bonecas, mas elas nunca foram o meu forte: “davam muito trabalho”, eu respondia quando interrogada.

Os livros também foram, como o piano, os grandes companheiros de uma adolescência difícil, irritadiça, cheia de altos e baixos emocionais, de gastrite nervosa, calmantes e de muitas brigas familiares.  Receio que, na época, eu não tenha entendido as boas intenções de meus pais, mas eles tampouco não conseguiam entender minha sede de liberdade e minha necessidade de testar limites. Mutuamente desapontados, sobraram-me os livros como os grandes amigos, minha válvula de escape, meu mundo único, inatingível.  Contribuiu para esse cenário meus pais serem, ambos, professores: minha mãe formada em neo-latinas, lia muito, principalmente em espanhol;  papai, químico industrial e professor de química e física também estava sempre às voltas com livros.  Na nossa família livros poderiam ser encontrados em qualquer lugar da casa.

Jovem escrevendo carta, Diane Ursin (EUA, contemp.) acrílica sobre tela.

Aos nove anos de idade, ganhei de minha avó um livro em branco, de capa dura com a palavra Poesias impressa em dourado. Pus-me imediatamente a copiar poemas dados na escola, a copiar, da antologia de leitura em que estudava, as poesias de que mais gostava, e a recolher, desse jeito, um vasto arsenal de versinhos, rimas, poemas, poesias, sonetos variados.  Tenho esse livro até hoje, apesar de ter sido abandonado ao longo do tempo, ainda com páginas em branco a serem preenchidas.  Ao longo dos anos fui aprendendo a pensar sobre aquilo que lia, e um dia comecei dois cadernos diferentes de anotações: ambos com capas duras [que demonstram que durarão para sempre], mas poderiam ter sido qualquer tipo de caderno, a diferença fazia com que eu pensasse que eles eram “mais sérios”.  Em um deles eu copiava um trecho de leitura que tivesse achado importante, sedutor, significativo.  No outro eu anotava o título do que lia, o autor, a editora, e adicionava palavras que me lembrassem do conteúdo e principalmente os motivos da nota que eu dava abaixo, que variava de1 a 5.   Ambos ainda existem, apesar de não serem mais funcionais.  Vem daí, tenho certeza, a idéia de escrever as resenhas.

Ler é uma atividade singular.  Fazemos a leitura sozinhos.  Mas há uma vontade enorme de conversarmos com alguém sobre aquilo que lemos, não é mesmo?  Confirmar que percebemos o que estava lá naquele outro mundo. Dividir essa experiência de leitura faz parte das motivações para que eu escreva uma resenha.  Resenhas me ajudam a pensar sobre o que li.  E, se imagino que há uma audiência, qualquer que ela seja —  para mim é uma coisa mais ou menos abstrata — aí sim, me coloco com a incumbência de fazer a resenha clara, inteligível.  Gosto mais de escrever do que de conversar.  Sempre gostei mais.  A razão é simples: tenho mais controle, não sou interrompida, posso editar, não me distraio, posso escolher o tom, selecionar o vocabulário e com isso me aproximar ou me distanciar do que estou pensando. Tenho que pensar antes de dar uma opinião: é por isso que escrevo.  –

Desconheço a autoria dessa gravura.

Na leitura levei horas, dias, com um autor, com sua história, com sua maneira de pensar.  O autor pede e o leitor se entrega.  Sim, ler é um ato de entrega.  Eu me entrego a uma certa narrativa, a um certo ritmo, ao tema, à escolha das palavras de outrem.  Concordando ou não sigo sua direção, confiando que irá me levar a um desenlace.  A resenha é a minha hora de guiar, de levar avante, de fazer o caldo final.  A relevância da leitura está nas minhas mãos.  Ela é minha, só minha.  Cada texto é  importante para o leitor por diferentes motivos.  Penso então em como e por que razão levei a leitura até o final.  Tenho, afinal, que honrar esse investimento do tempo em que eu e o escritor passamos juntos. Diferente de um filme que pode levar de 90 a 120 minutos,  um livro provoca um relacionamento prolongado, mais íntimo, até mesmo físico: consideremos o peso de um volume, o tamanho de suas páginas.  Às vezes o livro se torna desconfortável para segurar, para abraçar, para  manusear. Seu peso pode ser uma experiência desagradável porque não podemos levá-lo para cama, colocá-lo na bolsa,  lê-lo no ônibus.  Se vou até o fim de um livro tenho que pensar nos motivos que me levaram até fim.  É a minha hora de dizer se a troca entre essas duas pessoas: escritor/leitor foi relevante, se teve valor para mim.  Ah, sim, devo dizer que não tenho pena de abandonar livros no meio.  Às vezes não é a hora de lermos sobre um assunto, e  às vezes não dá mesmo, não conseguimos ter empatia com aquele escritor.  Há muito mais livros a serem lidos em uma vida do que os dias e horas que nos restam.  Este não é um mau presságio. É uma realidade.  Não é possível ler tudo que já foi publicado.  Por que então investir num relacionamento com um autor que sentimos não será significante?

Não faço resenhas de todos os livros que leio.  Não escrevo sobre os livros de que não gosto.  Às vezes faço anotações das razões que me levaram a abandonar um livro: umas poucas frases, para que eu me lembre.  Mas não vou gastar tempo e energia escrevendo um monte de coisas horríveis sobre um livro.  Para quê?  Para quem?  A minha experiência não é a mesma de outras pessoas. É só mais uma.  Anos atrás, quando eu ainda morava fora, fui convidada para fazer resenhas para um jornal americano.  A mim, couberam romances em tradução para o inglês, porque na época eu trabalhava nesse ramo.  Foi gratificante saber que as minhas opiniões eram lidas, aplaudidas, mas também muitas vezes não muito bem acatadas por pessoas que não me conheciam.  Isso me deu uma visão muito diferente do que é a resenha profissional.  Essa experiência, além de me trazer uns trocados, me ensinou a ter disciplina, a escrever só um certo número de palavras, nem mais nem menos [que não é o caso nesse ensaio]. Ela me ensinou também que o que é publicado num jornal tem longo alcance.

Todos esses parágrafos foram para justificar o hábito das resenhas.  Esse hábito é o do simples pensar.  Procuro responder às perguntas: Gostei?  O que me levou a gostar?  E como ou porque isso é relevante na minha experiência?  Quando consigo responder a essas perguntas de maneira que faça sentido para mim, estou pronta para dizer adeus ao companheiro de viagem em que o livro se tornou.  E provavelmente, para dizer um até logo, ao autor que me proporcionou momentos intrigantes. Sim, é com a resenha que concluo o processo de leitura.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011


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4 responses

14 11 2011
sylviacheleiroylvia cheleiro

Oi Ladyce, Muito bonito o que vc escreveu,vejo que a importância que sua familia teve em seu gosto do mesmo modo que a minha tbm me incentivou e instigou e para os livros eu até hj fujo!
Suas resenhas são ótimas, já li alguns livros indicados por vc por conta das suas resenhas lá no skoob e aqui tbm.
A Costureira e o cangaceiro (penei prá conseguir esse livro), A Trégua, A Sombra do vento, Moça com Brinco de Pérola e muitos mais…
Adoro tudo que vc indica.
Só tenho uma coisa que não faço, abandonar um livro, as vezes dá muita vontade mais vou até o fim…
Bem, só queria te dizer mesmo o quanto o que vc escreve é importante prá mim.
Obrigada.

14 11 2011
peregrinacultural

Sylvia, obrigada! Foi na verdade uma das nossas amigas do Skoob que me fez algumas perguntas sobre as resenhas. Na hora fiquei sem saber bem porque eu escrevia, até que cheguei à conclusão de que é primeiro para mim mesma. Para colocar os pensamentos em ordem.

Acredito que a família tem muita influência nos hábitos de leitura. Exemplo de familares é o motivo mais comumente citado nas enquetes que perguntam o que leva alguém a ler. Depois vem a influência dos professores. Vamos esperar que o ensino no Brasil melhore para que haja um muito maior número de leitores.

Obrigada pelas palavras de incentivo, um beijinho,

16 11 2011
Mauro Demarchi

Olá, tenho um pequeno jornal na cidadezinha de Alfredo Wagner e gostaria de publicar este seu artigo, citando a fonte, é claro. Posso? Procuramos abordar assuntos que elevem os espíritos e não apenas fornecer notícias de morte e destruição, como estão cheios os jornais hoje em dia.

16 11 2011
peregrinacultural

Olá Mauro, será um prazer. Muito obrigada pela preferência. Boa sorte, um grande abraço, Ladyce

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