Versos de Natal — poema de Manuel Bandeira

11 12 2011

Moça diante do espelho, 1932

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)

óleo sobre tela,  162x 130cm

Museu de Arte Moderna de Nova York

Versos de Natal

Manuel Bandeira

Espelho, amigo verdadeiro,

Tu refletes as minhas rugas,

Os meus cabelos brancos,

Os meus olhos míopes e cansados.

Espelho, amigo verdadeiro,

Mestre do realismo  exato e minucioso,

Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,

Penetrarias até o fundo desse homem triste,

Descobririas o menino que sustenta esse homem,

O menino que não quer morrer,

Que não morrerá senão comigo,

O menino que todos os anos na véspera do Natal

Pensa ainda em por seus chinelinhos atrás da porta.

1939

Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Sabiá: 1961, 5ª edição





O presépio: lembranças de infância, minhas e de Miriam Mambrini

10 12 2011

“O nosso pequeno presépio tinha um jeito de coisa antiga, como se viesse mesmo do tempo em que Jesus nasceu.  O estábulo com o telhadinho de palha, as figuras da Virgem e de São José totalmente absorvidos na contemplação, o menino que abria os braços na manjedoura e mais o boi e o burro, dois pastores, três carneiros.  Tudo o que o nosso presépio tinha em pequeno, surgia num tamanho quase natural no da Igreja Nossa Senhora da Paz, onde havia ainda grutas, riachos, plantas, camelos e outros bichos.  Nos domingos de dezembro, eu o via povoar-se mais e mais, até a missa triunfal do dia vinte e cinco, quando o Menino Jesus ocupava seu lugar na manjedoura e só ficavam faltando os Reis Magos, que iam surgir em cena no dia seis de janeiro.”

Em: Maria Quitéria, 32 de Miriam Mambrini [Míriam Backheuser Mambrini], crônicas, Rio de Janeiro, Bom Texto:2008.

Os que me seguem neste blog sabem que gosto imensamente de ler diários ou livros de memórias, principalmente aqueles de pessoas comuns, sem celebridade, livros que mostram hábitos e curiosidades de comportamento de uma época, de uma sociedade.  Sempre que encontro essas preciosidades faço questão de comprá-las.  Sei que tanto os diários como os livros de memórias são um tipo de ficção; que a realidade é diferente para cada um de nós e que cada pessoa escolhe lembrar-se de coisas diferentes.  Mesmo assim esses relatos, quer diários, quer memórias, trazem de volta uma versão da realidade do passado que não pode ser ignorada.

Nos meus Natais de antigamente também tínhamos um presépio, com um estábulo de madeira com meio telhado de palha que dava mesmo só para abrigar os três elementos principais das festas, a Virgem Maria, São José e o Menino Jesus.  Diferente da memória acima relatada, no nosso presépio todas as figuras estavam presentes desde que era armado, invariavelmente no dia 8 de dezembro, dia de N. Sra. da Conceição. Tínhamos um boi, um burro, um anjo de braços abertos e dois tocando cornetas um de roupa azul e um de camisolão rosa, alguns pastores, carneirinhos, os três Reis Magos.  Pelo menos era assim inicialmente.  Mas a medida que os anos foram se passando e meus irmãos foram adicionados à família, o presépio assim como a família foi crescendo.  Isso porque qualquer bichinho pequenino que nos aparecesse durante o ano era guardado para fazer parte do presépio.  Havia uma caixinha de madeira de jacarandá com as quinas de prata trabalhadas, bem ao estilo português, que morava na estante de papai.  Ali eram guardados os bichinhos pequeninos para que fossem colocados no presépio no final do ano.

Sempre armado no topo do aparador da sala de jantar, o nosso presépio aos poucos foi ocupando mais do que o lado esquerdo do móvel.  Havia que dar espaço para a famíia de galináceos que encontráramos nos ovos da Páscoa; que dar abrigo a três patinhos de madeira colorida que vieram de dentro de um brinquedo que se quebrara…  Quando meu irmão Marcus, o caçula, finalmente completou 13 anos, nosso presépio passou para minha tia Yedda,  que recebeu tudo: alguns camelos comprados que colocávamos em fila como numa caravana, comprados por papai na Casa Mattos; alguns animais de celuloide, de variados tamanhos, alguns um pouco desproporcionais ao estábulo,  o laguinho feito de espelho cujas bordas eram rodeadas por florezinhas secas e  coloridas que mamãe colora a toda volta e os patinhos que pousavámos na superfície espelhada.  Havia além do anjo anunciando a novidade aos pastores, o galo no telhado do estábulo; e tínhamos pastores diversos, um ou outro carregando um carneirinho nos ombros.  Havia um papagaio diminutivo com penas sedosas que amarrávamos com arame fino num pequeno galho seco, pintado de branco, de qualquer árvore do jardim.  Para essa “árvore de presépio” também foram um apito em forma de tucano, e um outro pássaro que fazia um clique se apertássemos seus pés, tesouro adquirido de um camelô no centro da cidade por papai.  A cada ano, mais e mais animais pequeninos foram adicionados: um tamanduá e o cavalo do Zorro, além de pequenas bonequinhas que também faziam parte da população para quem o anjo anunciava o nascimento do Menino Jesus.   Mas a última coisa a ser colocada no nosso presépio sempre foi a estrela, que tinha tripé próprio porque era feita por mamãe.  Era sempre de papelão e tinha uma cauda comprida, brilhava por causa do pó de purpurina colado em toda sua superfície.  Aumentava de tamanho a cada ano.  Ela e a lona verde que protegia o tampo do aparador eram as únicas peças que sabíamos sempre maiores.  Armar o presépio era um momento mágico para nós.  Desarmá-lo, no entanto, no dia 7 de janeiro, era uma tarefa árdua, que tínhamos prazer em deixar aos cuidados de mamãe: as novas adições requeriam mais caixas de sapatos, onde os recém integrados elementos do presépio ficariam guardados pelos 11 meses vindouros.





Papai Noel, soneto de Ciro Vieira da Cunha

10 12 2011

Ilustração dos anos 50 do século XX: Papai Noel.

Papai Noel

Ciro Vieira da Cunha

Natal… Natal… meus tempos de menino,

Tempos felizes que não voltam mais…

Missa do galo… repicar do sino…

E a casa pobre dos meus velhos pais…

Natal … a mocidade, o desatino,

Loucos amores, ternos madrigais…

Mulheres que dobraram meu destino

Com seus beijos marcantes e fatais…

Papai Noel! atende ao meu pedido,

Nesta noite de paz e de bonança,

Atende, pelo muito que hei sofrido.

E em meus sapatos põe a caridade

De um pedaço bonito de esperança,

De um farrapo esquecido de saudade…

Em: 232 poetas paulistanos – antologia — Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968

Ciro Vieira da Cunha, nasceu em São Paulo, SP em 1897.  Usou também o pseudônimo João da Ilha professor, poeta, biógrafo, cronista, jornalista e médico brasileiro.  Faleceu no Rio de Janeiro em 1976.

Obras:

Pontos de Química Fisiológica (com Alberto Moreira), 1918

Contra o alcoolismo, 1920

De como se deve combater o alcoolismo no Brasil, 1922

O Dialeto Brasileiro (tese), 1933

Espera Inútil, poesia, 1933

Oração de Paraninfo, 1937

De Pé, pelo Brasil, 1941

Trovas, 1942

Alguma Poesia, poesia, 1942

Chuva de Rosas, poesia, 1947

No tempo de Paula Nei, prosa, 1959

    O cadete 308, prosa, 1956

No tempo de Patrocínio (2 v.),prosa, 1960

Memórias de um médico da roça, 1965

Arte de colar, 1970

Guia de civismo (com Terezinha Saraiva), 1972





Quadrinha da ceia de Natal

9 12 2011
Natal em família, Pato Donald, Margarida, Huguinho, Luizinho, Zezinho e Tio Patinhas, ilustração Walt Disney.

Festejar é natural,

mas a cristandade anseia

por ver ceia de Natal

com mais Natal… menos ceia!

(Arlindo Tadeu Hagen)





Filhotes fofos — puma branco

8 12 2011

Foto: Associated Press.

Um filhote de puma foi apresentado ao público pelo zoológico Attica Parque, nas proximidades de Atenas, na Grécia. Com apenas um mês de vida, o raro filhote branco recebeu uma mamadeira com leite de uma funcionária do parque. Batizado com o nome de Casper, ele pesa 2 kg.  De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, a espécie está na lista dos animais ameaçados de extinção. Originário do continente americano, o felino pode ser encontrado desde o Canadá até países da América do Sul, inclusive o Brasil.





Humilde estrebaria — soneto de Clóvis Ramos

8 12 2011

Anunciação aos pastores, 1634

Rembrandt van Rijn (Holanda, 1606-1669)

Gravura em metal, 26 x 22 cm

Grunwald Center,

Col. Universidade da Califórnia – Los Angeles,

Humilde estrebaria

Clóvis Ramos

Um fenômeno estranho acontecia

nas terras de Judá.  Eis que os pastores

ouviram vozes de anjos em louvores

ao pequenino filho de Maria.

A noite era de míticos fulgores,

noite serena, noite de poesia.

Sobre as palhas de humilde estrebaria,

dormitava Jesus por entre flores.

Uma estrela de brilho nunca visto,

aparecera nessa noite e os Magos

vieram de longe em caravanas de ouro…

“Glória a Deus nas alturas!” Glória ao Cristo!

Maria – Mãe – porém, em prantos e afagos,

temia a sorte de seu filho louro.

. . . . .  . . . .

Em: A Poesia Maranhense no Século XX,  organização  e ed. Assis Brasil, Rio de Janeiro, Sioge/Imago: 1994.

Clóvis Pereira Ramos nasceu em Tabatinga no Amazonas, em 1922. Foi advogado, contador, poeta,  ensaísta, historiador.  Nasceu no Amazonas, mas fez seus primeiros estudos no Maranhão.  Não seguiu a carreira militar depois de se formar pelo Colégio Militar de Fortaleza, ao invés, formou-se em perito contador pela Academia de Comércio do Maranhão. Mais tarde, em 1955, formou-se em direito no Rio de Janeiro.





Ainda bem que só falamos o Português!

8 12 2011

Construção da Torre de Babel, 1260

Iluminura da Bíblia Morgan

[também conhecida como Bíblia Maciejowski]

Pierpoint Morgan Library, Nova York

Pouco damos valor a uma das coisas que mais nos distingue: somos um país de dimensões continentais, que fala uma única língua.  Só um outro país de dimensões continentais tem essa vantagem: os Estados Unidos.  Nem o Canadá, nem a Rússia, nem a China, nem a Índia…. Talvez essa tenha sido uma das melhores e maiores heranças que os portugueses nos deixaram.  Falamos a 6ª língua mais falada do mundo.  O português é uma língua romana, bem estruturada, complexa como todas as línguas romanas, uma língua falada em quatro cantos do mundo.  A vantagem que não percebemos no nosso dia a dia é que nos comunicamos de norte a sul,  sem qualquer problema, com variações regionais mínimas, e que essa herança cultural é uma das partes mais importantes que nos une.   As línguas formam a maneira como pensamos.  Elas refletem as nossas prioridades e os nossos valores.

Esse assunto me veio à mente, hoje, quando li sobre o desenlace da guerra das línguas, na Bélgica, que deixou aquele país por 535 dias (quase dois anos!) sem governo, para finalmente eleger um primeiro-ministro francófono [que fala francês], o primeiro líder francófono em 30 anos.

Aí é que começamos a pensar na nossa sorte, porque a Bélgica tem só 30.528 km2 quadrados e 3 línguas!  Imaginemos, uma área um pouco maior do que o estado de Alagoas, mas menor do que o estado do Espírito Santo, com uma população de 10.7 milhões de habitantes [menos gente que a cidade de São Paulo].  Todos têm a mesma nacionalidade, são obrigados a obedecer às mesmas leis, cantam o mesmo hino nacional, lutam nas guerras lado a lado, mas não se entendem,  não se unem, por causa da barreira linguística [economia, religião e geografia também entram na lista das barreiras].  Mas consideremos só as línguas, — que é a maneira como eles definem o problema — são três delas: francês, flamengo e alemão.  Para ilustrar as dificuldades dessa barreira, vamos usar o exemplo do primeiro-ministro eleito, empossado anteontem pelo rei da Bélgica, Alberto II.  Elio Di Rupo, cuja língua materna é o francês, fala fluentemente o italiano e o inglês, mas comete muitos erros — que ferem os ouvidos de seus outros conterrâneos  — quando se esforça para falar o flamengo.  Pelo menos os erros gramaticais dos nossos políticos não são um reflexo de divisões culturais no país.  Eles só refletem o que os políticos não andam fazendo pela educação.








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