Grupo de leitura: como fazer? Comece o seu ano com um deles!

22 01 2012

Férias em Cannes, Itzchak Tarkay (Iugoslávia, 1935).

Um bom número de leitores me contatou  — até agora foram 23  — querendo fazer parte do grupo Papa-livros.  Surpreende tanto interesse.

Mesmo para quem mora no Rio de Janeiro há um problema com o pedido de entrada no Papa-livros: já estamos completos, e temos fila de amigos e conhecidos que esperam por uma desistência.  Como esse grupo inicialmente era só de amigos e se encontrava na casa dos membros, a preferência sempre foi dada a quem já se conhecia ou a quem vinha com referência interna.  Era até uma questão de segurança.

Hoje nos encontramos num local público, onde comemos e bebemos à vontade, mas não dá para termos mais do que 15 pessoas.  Já foi difícil arranjar um local com mesa redonda ou quadrada onde pudéssemos sentar 15.  Esse já é um número muito grande.  É difícil manter 15 pessoas, todas com opiniões e que se conhecem bem entre si, sem que o grupo se divida em pequenos grupinhos de 2 ou 3 pessoas elaborando um ponto paralelo, uma lembrança trazida à mente pela leitura.   Quantas e quantas vezes não temos que interromper – qual numa sessão do plenário – bater na mesa e dizer:  Calma, calma, um de cada vez!

Quando abri a página do Papa-livros no blog, pensei em dar idéias para outros fazerem o mesmo e talvez até um dia podermos trocar experiências ou sugestões.  Minha intenção também foi mostrar as nossas escolhas, que são sempre baseadas no voto democrático.   Depois de quase 9 anos de encontros mensais –  faremos 9 anos em abril de 2012  – temos muito poucas regras para o grupo,  todas atingidas pelo consenso.

1 — Queremos ler ótimos livros, mas não necessariamente os clássicos.
2 — Raramente lemos alguma coisa que alguém já tenha lido – é uma surpresa para todos.
3 — Não lemos livros de contos, nem lemos poesia.
4 – A discussão está limitada ao dia em que nos encontramos.  Ou seja, não lemos, digamos: Os Miseráveis de Victor Hugo, e passamos dois ou três encontros com esse tópico.  Há muitos grupos que fazem isso.
5 – Temos dois encontros especiais no ano: abril quando comemoramos o nosso aniversário e o encontro de dezembro quando fazemos uma festa de Natal, com troca de presentes Amigo Oculto e outras brincadeiras que animam todo mundo.

É só.

[Cada grupo tem  suas próprias regras.  Já participei anos atrás, quando eu ainda morava em Baltimore, nos EUA, de um grupo de leitura de História.  Líamos livros de história, biografias de persoangens históricos, etc.  Na mesma base, com enocntros uma vez por mês.  Esse grupo era muito pequenino, mas completamente internacional: éramos uma brasileira, uma francesa, uma belga, uma queniana e duas indianas.  Todas mulheres.   Mantivemos o grupo funcionando por quase 3 anos.  Depois algumas voltaram para seus países de origem e o grupo acabou].

Chá no terraço,1900, Charles Joseph Frédéric Soulacroix (França 1858-19330

A cada encontro depois da discussão do livro em pauta, listamos os livros que estão sendo sugeridos pelos membros do grupo.  Conversamos sobre os resumos dos livros e votamos.  Às vezes bons livros não são escolhidos por alguma característica especial do grupo.  Por exemplo, em 2011, havíamos lido: O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler,  A mão de Fátima, de Ildefonso Falcones e já sabíamos que iríamos ler Instruções para salvar o mundo de Rosa Montero, mais no final do ano.   Quando  A máquina de fazer espanhóis, do valter hugo mãe foi sugerido, apesar de ser um ótimo livro, foi derrotado na votação, porque a maioria estava cansada da península ibérica.  Queríamos mudar de ares.

Vivemos uma democracia dentro do grupo e assim temos que ter jogo de cintura e aceitar essas estranhezas, senão não há grupo.
Além dos livros que discutimos, há os livros em paralelo.  Corre entre nós o empréstimo de livros que rodam paralelamente à leitura do mês.

Lemos mesmo é ficção.

Nós nos encontramos uma vez por mês, no terceiro domingo do mês.  Há raras excessões quanto ao domingo, mas sempre uma vez por mês.  As excessões levam em conta o Carnaval ou algum outro acidente de percurso, mas são raras.  No início do ano já sabemos todas as datas em que nos encontraremos, até dezembro.  É uma questão de organização.   A pessoa que tem a responsabilidade de organizar, passa em dezembro a lista com a data de todos os encontros do próximo ano, já com adaptações quanto a feriados, etc.  Essa lista também é acompanhada da lista de todos os membros seus telefones e suas datas de aniversário. Por exemplo em 2012 nos encontraremos nas seguintes datas: 01/22; 02/26; 03/18; 04/15; 05/20; 06/17; 07/15; 08/19; 09/16; 10/21; 11/18 e 12/16.  Como é importante que haja compromentimento, essa é uma das maneiras.  Todo mundo já sabe desde o início do ano as datas que precisarão ser bloqueadas.  Se alguém não pode participar, falta.   Mais de seis faltas, perguntamos se essa pessoa realmente quer continuar.  Nesses anos de encontros isso só aconteceu uma vez.  Outras pessoas saíram, é claro.

Uma semana antes do encontro a pessoa que organiza manda um email para os membros lembrando do encontro.

ORGANIZANDO O GRUPO

O que percebi pelos emails e pedidos para entrada no Papa-livros é que as pessoas gostariam de já entrar para um grupo formado.  Há vantagens:  você não precisa bolar a organização e se não quiser continuar é mais facil de sair…

Mas a minha sugestão é que se você quer um grupo de leitura convide 2 amigos ou conhecidos para começar…  Assim você fará o seu grupo, com amigos que têm mais ou menos o seu perfil, que trarão amigos de gostos semelhantes para a sua vida e aumentarão a sua área de convívio social.  As pessoas têm muito medo do compromisso… Mas sem esse compromisso nada vai adiante.  E depois do compromisso inicial é preciso sermos bons na manutenção do grupo.

Nem todos que começam a participar continuam.  Prepare-se para que alguns desapareçam.  Há muitos motivos.  Às vezes a pessoa gosta da idéia de ler, mas não faz tempo para ler; ou entra no grupo por culpa, sabendo que deveria ler mais, mas não consegue manter o ritmo.  Há quem desista porque não consegue abrir espaço naquelas datas, com aquela regularidade.  Há quem não goste das escolhas dos livros, quem prefira os clássicos, ou quem prefira mangás… ou o que seja.  Essas rejeições não podem afetar o grupo.  Outra pessoa entrará…

Uma tarde no Salon, s/d,  Salvador Sanchez Barbudo Morales (Espanha, 1858-1917)

A menor reunião que tivemos foi num domingo de fim de semana com feriado, quando na véspera meia cidade havia ficado debaixo d’água por causa de tempestades.  Fizemos o encontro assim mesmo, 5 pessoas e decidimos sobre o próximo livro.  No encontro seguinte fizemos uma breve discussão do livro anterior para que todos participassem, mas sem entrar muito a fundo.

Quando, no início, eu dizia a amigos e conhecidos: 1 vez por mês! —  eu via seus olhos se arregalarem, como se aquilo fosse muito compromisso, muito tempo, muita frequência, muito sistemático.  Todos queriam uma coisa assim, mais leve, digamos: venha quando puder… venha quando gostar do livro…   Como se viessem só na base do Vamos conversar sobre o livro do Janjão Bolinha….  Venha se puder….   Não dá.  Isso é igual a trabalho voluntário.  Só porque é voluntário não quer dizer que pode não vir, pode faltar, pode vir quando quiser…  Nada se constrói dessa maneira, nem mesmo as amizades que se fazem através dos anos.   E elas contam, e elas são importantes.

Hoje o Papa-livros  é um grupo de  amigos.  A úlitma pessoa a entrar foi em março de 2011.   Substituiu uma médica que saiu porque  está fazendo cursos para outra especialização.  Além do encontro mensal, não fazemos muito mais juntos.  Saímos ocasionalmente para um ou outro programa fora do grupo de leitura… É um cinema, é um teatro, um concerto, etc.  Mas afinal quantos amigos você realmente vê uma vez por mês?  Tenho certeza de que poucos.  Quando saimos não vamos em grupo, as 15 pessoas.  Vão duas ou três fazer isso,  duas ou três fazer aquilo, até porque nem todos gostam da mesma coisa, nem todos têm o mesmo tempo ou o mesmo interesse em outras atividades.  Mas aos poucos vamos nos tornando amigos.  Uma amizade interessante que escuta muito, que está sempre ali, pelo menos uma vez por mês…  No nosso grupo, desde que começamos, já tivemos viuvez, divórcio, casamentos de filhos, divórcio de filhos,  reconciliação de casamento, troca de empregos, filho sem emprego, filho em vestibular,  pais idosos precisando de atenção, perda de pais ou entes queridos e assim por diante.  Só não tivemos nascimentos de filhos…  Porque uma coisa que descobrimos é que pessoas com crianças pequenas, têm realmente mais dificuldade de manter compromissos.  Até mesmo na nossa festa de Natal, que todos detestam perder, tivemos esse ano uma falta, porque a filha de 12 anos de um membro tinha um recital de dança justamente naquele domingo…  15 pessoas de diferentes idades, com vidas normais, no período de quase 9 anos passam por tudo isso, e nem por isso faltam aos encontros, porque amizades são formadas  e porque também estávamos lá nas horas de tristeza e de alegria, sem nos intrometermos.   É justamente o fato de estarmos sempre mantendo o estipulado que dá a establidade ao grupo.  Nao posso ressaltar mais esse aspecto.

Alfredo’s Café in Capri, 1990, Pauline Comanor,  aquarela.

A DISCUSSÃO 

No nosso grupo ninguém é especialista em leitura ou em literatura.  As discussões partem da visão de cada leitor sobre a obra.  Às vezes começamos muito simplesmente com um: Não gostei…  ou,  Achei muito bonito mas faltou um final conclusivo…  Daí, partimos para a discussão porque invariavelmente alguém vai ter uma outra impressão.  Ou alguém vai ter uma idéia brilhante que ninguém mais teve.  A maioria dos membros anota passagens que justificam as suas posições e ilustram suas observações. É só isso.  Simples assim…  Uma boa idéia é para a pessoa que dirige o encontro ( isso pode ser sempre a mesma pessoa ou pode ser selecionada por revesamento, ou ainda por sorteio) ter uma série de perguntas sobre o texto que a princípio são usadas só para a conversa começar.

PAPA-LIVROS NO BLOG:

Fiz uma tentativa no ano passado para abrir uma discussão no blog sobre os mesmos livros que o Papa-livros escolheu.  Mas não acredito que teha dado muito certo.  Em parte, por meu problema de não estar com tempo para dar atenção à discussão.  Há também o fato do Papa-livros raramente ler um best-seller, um livro da moda.  Temos a tendência de sair um pouco do que está sendo lido, do que está sendo discutido por todos… Então os títulos escolhidos pelo grupo nem sempre são os que seriam comprados pelos nossos leitores.  Acredito que eu não vá continuar essa tentativa de discussão no blog.  Vou me limitar às resenhas dos livros de que gostei, como tenho feito desde o início.


Ações

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One response

22 01 2012
Malu

Parabéns, Ladyce e todos do Papa-livros! A questão do compromisso é mt importante, é o que segura qualquer empreendimento ou projeto. Deve sempre ser prioridade, e se deixar- de sê-lo, sua vida é breve!
Ah, se todos fossem iguais a vcs!

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