Trova do chapéu

23 02 2012

Tua modista, senhora,
mostrou ter grande talento,
prendendo um chapéu de plumas
numa cabeça de vento.

(Djalma Andrade)





Imagem de leitura — Antônio Abellan

22 02 2012

Leitores de jornal, s/d

Antonio Abellan ( Espanha, 1964)

www.antonioabellan.com

Antônio Abellan nasceu em Cartagena, na Espanha em 1964.  Graduou-se pela Escola de Belas Artes, da Faculdade de San Carlos, em Valencia.  É um pintor figurativo cujos temas frequentemente incluem a vida na cidade, a vida das pessoas que nela moram, seus hábitos, costumes, prazeres e desejos.





Soneto da quarta-feira de cinzas — Vinícius de Moraes

22 02 2012

O beijo, 1886

Auguste Toulmouche (França, 1829-1890)

óleo sobre tela, 63 x 47 cm

Soneto da quarta-feira de cinzas

Vinícius de Moraes

Por seres quem me foste, grave e pura

Em tão doce surpresa conquistada

Por seres uma branca criatura

De uma brancura de manhã raiada

Por seres de uma rara formosura

Malgrado a vida dura e atormentada

Por seres mais que a simples aventura

E menos que a constante namorada

Porque te vi nascer de mim sozinha

Como a noturna flor desabrochada

A fala de amor, talvez perjura

Por não te possuir, tendo-te minha

Por só quereres tudo, e eu dar-te nada

Hei de lembrar-te sempre com ternura.





A festa acabou: quarta-feira de cinzas

22 02 2012

Menino com máscara, s/d

Antônio Mancini ( Itália, 1852-1930)





Vanitas e os arlequins de Ado Malagoli

20 02 2012

Arlequim e o gato preto, 1956

Ado Malagoli (Brasil, 1906-1994)

óleo sobre tela, 61 x 49 cm

Instituto de Arte, UFRGS

A obra de Ado Malogoli sempre me encantou.  Mas, nessa época carnavalesca, em que o pensamento circula a volta de fantasias e canções e que, sem me dar conta, colombinas, pierrôs e arlequins surgem no meu inconsciente, evocados por um refrão de marchinha ou no verso solto de um folião, lembrei-me dos diversos arlequins que Malagoli pintou.

Muitos são os artistas que se dedicaram seguidamente às imagens do trio de zanni — empregados domésticos — personagens originários da Commedia dell’ Arte.  Picasso é só um dentre os muitos europeus que exploraram o tema.  E como não havia um roteiro específico regendo a interação desses personagens, já que eles faziam parte de companhias de teatro de improviso, cada espetáculo era diferente, com peripécias e desfechos diversos.  Mas cada personagem agia sempre dentro dos limites pré-estabelecidos, que toda a platéia conhecia. Com a variação de histórias, a comédia era única à cada cidade visitada, mas Arlequim continuava sabido, Colombina namoradeira, Pierrô ingênuo.  Aos poucos, do século XVI ao século XVIII, essas características se modificaram.  Antoine Watteau, pintor francês, esteve entre os primeiros a representar esses personagens com uma maior carga emocional  do que lhes havia sido atribuída até então.

Os comediantes italianos, 1719-20

Antoine Watteau ( França, 1684-1721)

óleo sobre tela, 81 x 67 cm

National Gallery, Washington DC

Já tratei aqui no blog das diversas ondas de popularidade, através dos séculos desses três personagens, que parecem desaparecer por algum tempo para depois voltarem com força. [O sumiço dos Arlequins, Pierrôs e Colombinas…].  O interesse renovado nesses personagens no século XIX, nas artes visuais, fica focado sobretudo na figura de Pierrô, que se torna trágica, sofredora, injustiçada, triste, vitimizada.

Sem trupe itinerante,  sem improviso, personagens convencionais, estereotipados,  perderam suas funções e já não eram utilizados.  No entanto, eles representavam aquilo que é humano: a esperteza, a inconstância, a ingenuidade.  Ficou difícil deixá-los morrer.  Temos sempre à nossa volta esses tipos.  São nossos irmãos, pais, tios, amigos, primos.  São nós mesmos.  São como nos vemos e como vemos os outros.  A libertação dos zanni, de seus limites, trouxe drama para Pierrô, que durante o romantismo do século XIX, tornou-se  o romântico injustiçado por natureza.

Duelo depois do baile, 1857

Jean-Léon Gerôme (França, 1824-1904)

óleo sobre tela, 37 x 54 cm

The Walters Art Gallery, Baltimore, Md.

Um exemplo da carga emocional do Pierrô no século dezenove está representado no quadro de Gerôme, onde a figura de Pierrô é mostrada ferida, como consequência de um duelo pós-baile.  Nada mais romântico, nada mais dilacerante para corações mal-entendidos e ingênuos.  No entanto, passado os meados do século XIX,  nenhum dos três personagens da Commedia dell’ Arte parece conquistar terreno na pintura.  Ocasionalmente vemos um deles, mas com os movimentos artísticos do realismo ao impressionismo, deu-se menos importância ao pesado conteúdo dramático que Pierrô parecia representar.  O interesse dos artistas estava em outras áreas, em grande parte fundamentadas nas questões de percepção da luz e forma, como vemos no impressionismo.  Arlequim e Pierrô retornam nas últimas décadas do século.  Diferentes.  Suas vestimentas de cores contrastantes atraem pelo potencial à estilização.  Pierrô, em geral de traje branco com pompons contrastantes, oferece a possibilidade de um ensaio sobre os tons de branco, enquanto Arlequim trajado de malha em losangos coloridos oferece um “quebra-cabeças” natural para o pintor.  Não é à toa que a dupla Arlequim e Pierrô frequenta muitas telas de Cézanne em diante.

Mas é o século XX que traz Arlequim à cena, onde  passa a protagonizar grandes telas, importantes, trazidas ao centro do mundo artístico pelas mãos de Picasso.  Ele adquire, um aspecto mais sério.  Do conquistador, esperto, sem palavra, traquinas de séculos atrás conservou só a característica de conquistador e ganhou densidade ao refletir alguns dissabores, talvez até mesmo uma angústia hamletiana. Não foi à toa que Picasso se identificou com ele e não só uma vez, mais em um número incontável de representações, foi Arlequim quem tomou o lugar do pintor, um alterego.

No Lapin Agile, 1905

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)

óleo sobre tela

MET  [The Metropolitan Museum of Art], Nova York

No quadro acima Picasso se autoretrata como Arlequim no bar Lapin Agile [A lebre ágil].   Nesse meio tempo Pierrô quase sai de cena.  Volta no final da década de 20 e nos anos 30. Transforma-se em modelo preferencial no movimento Art Deco não só nas artes gráficas como também na cerâmica e escultura.  Ficam de fora o drama, a tristeza e a fragilidade.  Pierrô passa a ser código do estilo da época, é adotado como adorno.

Esta divisão, esses dois caminhos seguidos pelos personagens da Commedia dell’ Arte nas artes visuais, no século XX, encontra diferentes seguidores no Brasil.  Se observarmos dois dos mais importantes artistas cubistas das primeiras décadas do século XX, Picasso e Juan Gris, podemos ver claramente a evolução das duas tendências que vieram a afetar a arte moderna brasileira.

Arlequim com violão, 1919

Juan Gris (Espanha, 1887-1927)

óleo sobre tela

Artistas como Antonio Gomide, Yara Tupinambá e Adelson do Prado — todos entre os que se dedicaram seguidamente ao tema dos personagens da Commedia dell’ arte — continuaram na evolução natural do  cubismo sintético — o movimento decorativo —  cujo maior expoente é Juan Gris.  Eles mostram em suas telas os passos seguintes ao que havia sido proposto anteriormente.

Pierrô e Colombina, 1922

Antônio Gomide (Brasil, 1895-1967)

óleo sobre cartão, 41 x 31 cm

Acervo de John Graz

Arlequim, 2007

Yara Tupinambá (Brasil, 1932)

acrílica sobre tela, 30 x 30 cm

Arlequim, 1980

Adelson do Prado (Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 61 x 50 cm

Ado Malagoli está entre os pintores brasileiros que deram à imagem de Arlequim um conteúdo emocional semelhante ao que Picasso procurava.  Não está sozinho.  Gino Bruno, Inimá de Paula, João Quaglia seguem a trilha aberta por Picasso.

Arlequim, 1955

Gino Bruno (Itália, 1899 — Brasil, 1977)

óleo sobre tela, 65 x 50 cm

Arlequim, 1957

Inimá de Paula (Brasil, 1918 – 1999)

óleo sobre tela, 100 x 80 cm

Além do arlequim ter sido um tema para o qual Ado Malagoli se voltou com alguma frequência a intensidade emocional de suas telas provoca uma reação semelhante a que temos quando Picasso se retratava como Arlequim.

Arlequim, década de 1950

Ado Malagoli (Brasil, 1906-1994)

óleo sobre madeira,  35 x 27 cm

Arlequim, 1982

Ado Malagoli (Brasil, 1906-1944)

óleo sobre tela

Arlequim, s/d

Ado Malagoli (Brasil, 1906 – 1994)

óleo sobre tela, 81 x 60 cm

Arlequim com gato preto, década de 1980

Ado Malagoli (Brasil, 1906-1994)

óleo sobre tela

Não tenho os detalhes da obra que serviu de capa do livro de Mário Quintana sobre o pintor.

É forte o impacto desses arlequins quando os vemos em grupo.  Parecem envelhecer frente aos nossos olhos. Colocá-los em ordem por ano de produção poderia ser ainda mais interessante.  E quantos mais haverá?  Não sei.  Eu mesma me surpreendo com o número que consegui captar.  Infelizmente,  acredito que não haja um catalogue raisonné da obra de Ado Malagoli.  Fica aqui a idéia, o projeto para algum futuro historiador da arte, quem sabe até mesmo para o museu no Rio Grande do Sul que leva o seu nome.  Porque a carga emotiva dessas imagens merece a nossa atenção; elas projetam mais do que a roupa colorida de um zanni.  Elas dialogam com os arlequins de Picasso.  A seriedade da expressão facial, as cores sizudas, os corpos rígidos nos convidam a refletir.  Eles nos levam à introspecção por se mostrarem introspectivos.

Ado Malagoli parecia estar dialogando com seus pares.  Um diálogo imagístico, sem duvida.  Sua obra tem grande afinidade com a de Picasso.  Mas o convite à introspecção é dos grandes artistas.  O tema, Vanitas, é universal.  Um mero arlequim, um zanni, um personagem na comédia da vida parece o meio perfeito para lembrar que nem tudo é comédia, nem tudo  é carnaval ou folia.  Em espírito, esses retratos são um momento mori . Eles lembram a passagem do tempo,  a finitude da vida.  Com a mesma intenção da idéia por trás da obra de um  pintor francês, e grande ilustrador de livros, Dutriac, que em 1895 pintou o quadro, Revelação preocupante.

Revelação preocupante, 1895

Georges Pierre Dutriac ( França)

óleo sobre tela.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2012





Imagem de leitura — Aubrey Beardsley

19 02 2012

Pierrô na biblioteca, 1896

Desenho para a série “Pierrot’s Library” [ A biblioteca de Pierrô]
Aubrey Beardsley (Inglaterra, 1872-1898)





O carnaval carioca, texto de Gilberto Amado

19 02 2012

Baile de Carnaval, c. 1930

Bigio Gerardenghi (Itália, 1876 -Brasil, 1957)

óleo sobre tela, 54 x 75 cm

Carnaval

Gilberto Amado

…………

É que os jornais e o povo estavam preocupados com uma questão grave; não a falta de água, que esta há de por fim jorrar da discussão dos competentes; não do famigerado caso do Conselho, não de outros casos mais ou menos contundentes, mas de uma questão em que se empenha o carioca com todas as forças de sua alma — o carnaval.

De fato, o carioca não podia pensar em outra coisa, ter entusiasmos ou entregar-se mesmo ao curso normal de suas impressões no momento angustioso em que lhe ameaçam extinguir a tradição  mais profunda da cidade, a mais original e querida de todas.

O carioca é um ser resignado que vive aos 36º de temperatura, que suporta a poeira da Light, que perde dez horas, pacientemente em qualquer repartição pública onde tem caído um requerimento, que vai ali ao correio da Avenida Central por uma carta e gasta três horas a esperar que Deus o ajude com um selo, que não há jeito de receber um telegrama com menos de doze horas de atraso; que de improviso pode ser bombardeado pelo João Cândido ou por outros, que é servido por criados, cocheiros, choferes que vêm diretamente da Galiza, que agüenta todas as carestias do regime protecionista, que vai ao Lírico neste verão, que não tem água suficiente enquanto as montanhas túmidas a ofertam, que vive contente com todos os governos, que não é anarquista, que respeita a sistematização das classes, que não tem “reivindicações” a fazer; o carioca é, enfim, o ser mais paciente, mais tolerante, mais resignado do mundo.

Carnaval, 2003

Juarez Machado (Brasil, 1941)

pastel sobre papel, 70 x 100 cm

Tudo ele sofre com a serenidade bíblica que Deus lhe deu; mas o carioca tem um ponto fraco, um Nogli me Tangere muito sensível. É o carnaval.  São estes três dias vadios, em que ele pode despicar-se das angústias do ano inteiro; em que pode embebedar-se sem que o aviltem de ébrio; e que pode desprumar-se da sua elegância postiça sem que Figueiredo Pimentel o reprimenda; em que pode saltar, gritar, gesticular, sem que o achem desgracioso e ridículo; em que pode amar a descoberta e dissimular no eufemismo nas bisnagas apalpadelas gostosas sem conseqüências policiais ou outras, e ainda é nesses dias que ele pode dizer, posto de que leve, com a valentia efêmera dos fracos, algumas verdades que todos sentem durante o ano, mas que ninguém tem a coragem de dizer.  Só no intervalo vadio desses dias ele pode manifestar a sua alma folgazã, e todo o seu fogo  meridional, que se concentra durante o ano, parece só nessas horas fugazes expandir-se.

O carnaval entre nós deixa de ser assim a festa pagã que o cristianismo não estragou de todo – em que resta alguma vivacidade e algumas alegrias dionisíacas – para ser mais do que tudo isto: uma tradição venerável, uma festividade adorada, um hábito da sociedade que yem a significação de um desafogo na existência árida do brasileiro, que vive sem comodidade, sem dinheiro, sem orgulho, sem heroísmo, sem coisa nenhuma.

Eu, de mim, sou insuspeito, porque não morro de amores por Colombina, tanto que uso fugir discretamente da cidade para a ver de longe ou para a não ver.

Mas a multidão pensa de outro modo, e ela tem mais direitos do que qualquer um de nós, pois que ela é que sofre mais e é ela que durante os meses do ano, penando, ansiando, fazendo sacrifícios, vai acumulando economias para o carnaval, para o fazer brilhante, como uma noiva que reúne com esforço todo cabedal para a festa do casamento. Pode até dizer-se que o carnaval é a festa nupcial da população do Rio, o período em que ela se casa com a Alegria, de que anda sempre divorciada com a sua fisionomia sorumbática, com a sua gravidade, oh! a hedionda mazorrice de povo cansado, que não tem capacidade nervosa para o prazer.

Porta-bandeira, s/d

Menase Vaidegorn ( 1927)

óleo sobre tela

E foram esses boatos de que iam proibir o carnaval – que a tanto importava o catolizá-lo – que deu preocupação e tão graves nuvens carregou no sobrolho do carioca.

Felizmente, esses boatos são mentirosos.  Nem o Presidente da República quis negar a subvenção anual do estado, que é uma norma e um dever até porque corresponde a um hábito da população que vive empobrecendo para enriquecer o estado, nem o Sr. Chefe de Polícia pretende, como tão levianamente se propalou, converter Pierrô à igreja e o constranger a trocar as suas vestes frívolas pelo balandrau respeitável e obrigá-lo ao uso de óculos pretos, barbas negras, e a andar pela rua lento, conselheiral, com o passo de um senador antigo.

O Sr. Chefe de Polícia, como bom católico, não gosta de malandrices, mas também não deseja mal a esse pobre Pierrô, coitadito, que é quase um anjo do Céu, um ingênuo com a sua face branca e a sua jovialidade infantil…

Felizmente, os desmentidos são claros, positivos.  Desfizeram-se os boatos.  O carnaval continuará pagão; aparecerão os préstitos fulgurantes e o carioca, rejubilado desde ontem e de hoje à noite no regozijo da certeza de que o deixarão em paz, aí estará pela rua a zabumbar, a zaragalhar, a pintar o diabo.

E tu, Pierrô, desanuvia a fronte, trincoleja os seus guizos, sarabandeia, que dessa vez ainda serás rei.


Em: A chave de Salomão e outros escritos, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1971, [Coleção Sagarana] – texto originalmente publicado em 1910 chamado de A aviação e o carnaval.  Esta é asegunda parte do ensaio mencionado.





Imagem de leitura — Thomas Couture

18 02 2012

Pierrô, o político, 1857

Thomas Couture (França, 1815-1879 )

óleo sobre tela

Thomas Couture nasceu em Senlis , Oise , França . Aos 11 anos, a família de Thomas Couture se mudou para Paris. Lá  ele estudou na Escola de Artes e Ofícios e depois na Escola de Belas Artes .  Em 1840, começou a apresentar pinturas históricas e de gênero no Salão de Paris, ganhando várias medalhas por suas obras. Couture abriu um ateliê independente  competindo com a Escola de Belas Artes, onde teve grande sucesso obtendo a atenção de alunos de qualidade. Foi professor de Édouard Manet , Henri Fantin-Latour , La Farge John , Pierre Puvis de Chavannes , Karel Javůrek e JN Sylvestre . Morreu em 1879.





O carnaval carioca, texto de Gastão Cruls

18 02 2012

Carruagens perfiladas na Batalha de Confete do Carnaval de 1907,  organizada pelo jornal Gazeta de Notícias, na  Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro.  Foto sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907.

Carnaval

Gastão Cruls

Embora o entrudo seja da mais remota tradição portuguesa, o carnaval com mascarada de rosto encoberto ou fantasias grotescas ou vistosas, só o tivemos aqui em meados do século passado. [século XIX] O entrudo teria sido trazido dos Açores e outras ilhas, onde essa brincadeira era de hábito, e certamente fora presenciada pelos navegantes que demandavam às Índias.  Apesar de tudo, ainda que tolerado, não era abertamente permitido, e uma vez ou outra lá apareciam alvarás e avisos, condenando-o. Não obstante, praticou-se sempre, a baldes d’água e esguichos, com limões de cera e bisnagas de estanho, e até os nossos imperadores dele gostavam muito.  D. Pedro II, na meninice, jogou-o bastante na Quinta, entre as irmãs e pessoas amigas.

Contra o carnaval, porém, com máscaras e disfarces, muito mais rigorosas eram as autoridades. Ordenações frequentes culminavam castigos severos e multas pesadas aos infratores das suas disposições. Em 1685, o governador Duarte Teixeira Chaves publicava um bando contra os que fossem encontrados emascarados e pela qual se ameaçavam os brancos de degredo na nova colônia do Sacramento e os pretos e mulatos de surra pública de chicote.

Carnaval na Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco no centro da cidade do Rio de Janeiro, 1907.  Sem autoria, em: Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro.

Mas o desenvolvimento da metrópole e os hábitos europeus para aqui transplantados no Oitocentos, foram amainando, pouco a pouco, os dispositivos draconianos a esse respeito.   Assim, em 1846, por iniciativa da atriz Clara del Mastro, pode realizar-se, no Teatro S. Januário,  o primeiro baile à fantasia. Sucederam-se outros, como aqueles promovidos pela colônia francesa e por algumas sociedades privadas. Houve também um que inaugurou o Teatro Provisório, em 1852.  Incitando essas festas, alguns anos depois o Alcazar Lyric instituía um valioso prêmio para a modista que fizesse a fantasia mais bonita e original.  E nesse gênero de confecções muito se distinguiu a francesa a Mme Nioby, estabelecida à rua do Ouvidor.

Mais ou menos pelo mesmo tempo, apareceram os primeiros préstitos carnavalescos. Sociedades já existentes, mas que até ali se divertiam de portas pra dentro, resolveram, nos dias consagrados a Momo, trazer para a rua a sua alegria, organizando passeatas com guarda de honra e carros enfeitados. Iniciou-as a que se chamava Sumidades Carnavalescas, que, aliás, reunia a melhor gente. Em 1855, a convite de José de Alencar, Pinheiro Guimarães, Manuel Antônio de Almeida, e outros que dela participavam, D. Pedro II desceu especialmente de S. Cristóvão para assistir-lhe a passagem, das janelas do paço da cidade.  O triunfo alcançado pelas sumidades fomentou novas ambições e sucessivamente foram surgindo e também morrendo, a União Veneziana, os Zuavos, o Congresso das Damas e a Boêmia, precursores das nossas Democráticos, Fenianos e Tenentes do Diabo.

Ilustração, Revista Kosmos, 1907, sem indicação de autor.

Edouard Manet, o grande pintor francês, mas então um modesto rapazinho que em curso de marinhagem em 1849, a bordo do navio escola Hâvre e Guadaloupe, passou algumas semanas entre nós, em carta à mãe, transmite as suas impressões do carnaval no Rio.  Fala nas brasileiras que se postavam à porta ou à janela de suas casas para atirarem nos transeuntes “bombas de cera de todas cores, cheias d’água, e que aqui chamam limons”.  Ele mesmo tomou parte na brincadeira.  Vítima de vários ataques, viu-se na obrigação de revidá-los e, ao fim da tarde, também distribuía limões para um lado e outro. Participou ainda de um baile à fantasia, que lhe lembrou os da Ópera, de Paris.

O carnaval, festa tão de gosto do carioca e durante a qual tanto se expandia a alma coletiva da cidade – falo no passado porque, de uns anos para cá, por uma série de motivos, é patente o seu declínio, pelo menos como manifestação popular –, o carnaval dizemos nós, também sofre os caprichos da moda.  Das fantasia que fizeram época e que pululavam nas nossas ruas durante os três dias de folia, hoje ninguém mais fala.  É verdade que algumas foram condenadas pela polícia.  Outras, porém, morreram de morte natural.  Se temos os diabinhos, os burros-doutores, o Pai-João, o Velho, o Morcego, a Morte, o Princês, o Mandarim e o Rajá.  Os dominós, já não tinham razão de ser, depois que foi vedado o uso das máscaras.  Índios também rarearam, pelo menos aqueles de apito à boca e penas de espanador à cintura, que faziam letras na frente dos cordões. Em compensação a cidade encheu-se de apaches e gigoletes, pierrôs e colombinas, de malandros e de baianas, e muito homem se meteu em saias e muita mulher enfiou calça.

Foto: www.muraldenoticias.com.br

Desapareceram os cri-cris e as línguas-de-sogra substituídos pelo reco-reco e a cuíca. O jorro frouxo da bisnaga de cheiro recuou diante do jato fino do lança-perfume, — aquele lança-perfume que no dizer rebuscado de Alberto Faria, o das Aérides, é “etérea língua de Áspide Aromal, a por subtâneos arrepios no colo de sedutoras Cleópatras ou de castas Lindóias”.

O Zé-Pereira já não azucrina mais ou ouvidos de ninguém.  Abafaram-no as marchinhas e os sambas.  Segundo Vieira Fazenda, que ainda o conheceu, quem primeiro trouxe para a rua, em grande algazarra, o zabumba dos bombos e o rufo dos tambores, foi um sapateiro português, que tinha oficina na rua S. José e era um folião de marca.

O nome Zé-Pereira explicar-se-ia de dois modos: ou porque o bombo assim designassem em Portugal; ou porque houvessem alterado de Nogueira para Pereira um dos nomes do inventor.  O homem chamava-se José Nogueira de Azevedo.

Ângelo Agostini, O entrudo, rua do Ouvidor, 1884 [DETALHE]

Até os préstitos das sociedades carnavalescas também muito perderam do seu prestígio. Onde aquelas tardes triunfais de terça-feira gorda em que o sonido ainda apagado dos clarins ou um vago clarão de fogos de bengala ao longe anunciavam a entrada na rua do Ouvidor ou na rua Uruguaiana da fantasmagoria ofuscante que era a passagem dos Democráticos ou dos Tenentes? Sumiram-se, por completo, os carros de crítica.  Provavelmente porque governos perfeitos demais, já não dão motivo a censuras.  Até os carros alegóricos perderam aquele fascínio antigo, quando aos olhos do populacho eram como páramos encantados e jardins edênicos. Templos gregos e pagodes chineses. Divindades olímpicas e sereias do reino de Anfitrite.  Árvore vergando ao peso de mulheres quase nuas.  Rosas que se abriam para mostrar borboletas de peito farto e coxas roliças.  Ninfas bem afrescata que fugiam ao abraço de algum fauno. Bacantes de carnadura provocante equilibradas na borda de uma taça…  Para todas essas criaturas, tiradas quase sempre ao meretrício barato, esse dia do desfile era um dia de glória, o dia da consagração definitiva.  E havia razão para isto.  Ao Zé-povinho que se extasiava à beira das calçadas, dando-lhes palmas em troca dos beijos que elas distribuíam para um lado e outro, todas se afigurariam beldades alucinantes ou huris de um paraíso inaccessível.

Não suponha o leitor que, elogiando esses préstitos de antanho, lhes emprestemos qualquer qualidade artística ou mera manifestação de bom gosto. Longe disso.  Oxalá pudéssemos ter tido aqui alguns carnavais da Florença dos Médicis, quando o próprio Lourenço o Magnífico trabalhava o verso das canções populares e artistas como Andrea del Sarto e Cronaca se encarregavam de planejar os arcos triunfais e modelar a máscara dos foliões. A passeata das nossas Sociedades perdeu muito do seu esplendor fictício – mas ainda assim esplendor – porque outra é a cidade de ruas largas e claras, à noite sob a fulguração dos anúncios a gás neon, e outra é a mentalidade de sua população, agora de olhos permanentemente abertos para o grande mundo, através das visões cinematográficas.

Em: A aparência do Rio de Janeiro, Gastão Cruls, Rio de Janeiro, José Olympio: 1949 [Coleção Documentos Brasileiros], volume 2.pp. 405-410.





Imagem de leitura — Dan Beck

17 02 2012

Lendo, 2009

Dan Beck (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 50 x 40 cm

www.danbeckart.com








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