O caso de Van Gogh: o que é mais importante, a vontade do pintor ou a nossa curiosidade?

21 03 2012

A Arlesiana, 1888

[Retrato de Mme Ginoux]

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela,  92 x 73 cm

Metropolitan Museum of Art, Nova York

Nos últimos anos tivemos uma verdadeira onda de descobertas de novos quadros de Vincent Van Gogh.   Em 2010, um quadro que se suspeitava falso, provou ser verdadeiro: uma pequena paisagem, de 1886, retratando o moinho Le Blute-fin em Paris.  A história curiosa, ainda que comum, do colecionador apaixonado que acredita ter em mãos um verdadeiro Van Gogh, defendendo-a mesmo quando muitos estudiosos não acreditavam, deu a  Dirk Hannema (1895-1984), dono da pintura e fundador de um pequeno museu na cidade de Zwolle, uma grande  vitória sobre seus contemporâneos descrentes, quando o quadro foi considerado um verdadeiro Van Gogh sem qualquer suspeita de dúvida, pelo Museu Van Gogh de Amsterdam…  Pena que tenha sido uma vitória posterior à morte de Hannema.  Uma vitória póstuma!

O moinho Le Blute-fin em Paris, 1886

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela

Quando, ainda em 2008, outro quadro de Van Gogh – dessa vez : o rosto de uma camponesa —  foi descoberto adormecido sob outra pintura dele mesmo, uma tela com de um terreno com capim, foram poucas manchetes a respeito.  Mas o incidente lembrou outro, de 2007, ano anterior, quando especialistas em Van Gogh descobriram também debaixo da tela  A Ravina, 1889,  outra tela retratando uma vegetação nativa.   É fato conhecido que muitos pintores, e Van Gogh está incluído entre esses, re-utilizaram telas quando o trabalho inicial não se mostrou satisfatório para o próprio pintor.  Preferindo não abandonar uma tela, que pode ser dispendiosa para tantos, o pintor simplesmente pinta por cima de um quadro ou inacabado ou que ele considera fraco.

A ravina, 1889

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela

No caso de A Ravina houve motivo para grande alegria com a descoberta, já que a existência de um quadro retratando uma vegetação selvagem já havia sido preconizado por um desenho  de vegetação selvagem, bem conhecido dos especialistas.

Hoje, os jornais estão cheios de notícias sobre a “novas telas” de Van Gogh.  As novas telas são duas:  uma, a Natureza morta com flores do campo e rosas cuja autoria estava em debate, e a outra, a tela de dois lutadores, sobre a qual Van Gogh pintou a natureza morta. Sabia-se da existência da tela com lutadores pois ela havia sido mencionada por Vincent em carta ao seu irmão Theo.  Mas sabê-la sob a natureza morta, ajuda a autenticação desta.

Natureza morta com flores do campo e rosas

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela

Museu Kröller-Müller em Otterloo, Holanda.

Realmente é excitante termos a clara autenticação de algum quadro cuja autoria possa estar em debate.  Também é bom sabermos da localização de um quadro que o pintor menciona em suas cartas ao irmão.  Mas tenho muitas dúvidas quanto à divulgação dessas imagens que estão sob as pinturas conhecidas.  A pergunta que preciso levantar é sobre a ética de fazermos públicas imagens que o próprio pintor escolheu deletar de seu acervo.  Não será o mesmo que ir na lata de lixo de um escritor examinar os trechos de um romance que ele desistiu de escrever?  De que serve isso além de satisfazer o nosso voyeurismo, a nossa curiosidade?

Quando Vincent Van Gogh decidiu cobrir com uma natureza morta a tela dos lutadores, e não outra das dezenas de telas que ele tinha em seu quarto, é porque de todas aquelas essa era a que menos o satisfazia.  Ele, assim como dezenas e dezenas de outros pintores escolheu “apagar” aquele trabalho.  Que direito temos nós de revelarmos o que ele escolhera descartar?

A Arlesiana com luvas e guarda-chuva, 1888

[Retrato de Mme Ginoux]

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela,  92 x 73 cm

Museu d’Orsay, Paris

Assim como respeitamos o direito a que ele se deu de manter à vista de todos os diversos retratos de Mme Ginoux, conhecidos com A Arlesiana, sem considerar tapá-los com uma nova pintura, apesar de serem, muito parecidos,  variações sobre o mesmo tema, pergunto se não é um invasão de seus desejos fazer com que essas imagens —  com as quais ele não estava satisfeito o suficiente para mantê-las “vivas”  ao alcance do olhar alheio — sejam feitas públicas.

Acredito que os especialistas, os curadores dos museus e os donos dessas telas tenham o direito de saber o que está por trás.  Mas fica aquele sentimento de que eles são mais ou menos como médicos que têm um paciente nas mãos e o dever de não divulgar dados publicamente das doenças que o aflige.  É como se estivéssemos olhando Van Gogh se despir pelo buraco da fechadura.  É voyeurismo.  Há uma discrição que se faz necessária.  Ou não?  Após a morte vale tudo?


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6 responses

22 03 2012
Maria de Fatima Moraes Rodrigues

Boa noite amiga querida!

Na minha opinão após a morte não vale tudo! Principalmente, porque o maior interessado, não pode defender suas posições e decisões…
É um belo dilema, realmente, a curiosidade x a ética, o respeito a privacidade do artista, das suas preferências….

O pior é que acabamos por ficar espiando pelo buraco da fechadura…. ver novas obras do gênio…. que situação….

Amei querida, bela questão!

22 03 2012
peregrinacultural

Bom dia, Maria de Fátima, obrigada pela visita e por considerar essa pergunta. Não me satisfaço com qualquer uma das respostas. Acredito que muitos dirão que vale tudo pelo conhecimento… E diante das nossas descobertas científicas — do exame do DNA, por exemplo — realmente parece conveniente a todos nós que tudo possa ser aceito pela necessidade de conhecimento. Mas fica, pelo menos comigo, um travo, um pequeno amargor de insatisfação, ao pensar que estaria “desobedecendo” aos desejos de alguém que, como você mesma disse, não pode se defender. Um abraço, Ladyce

22 03 2012
Ricardo António Alves

Grande questão.

Depois de terem publicado as incríveis cartas do Joyce a Norma… (dir-se-á que assim compreenderemos melhor o autor do Ulisses e respectiva obra), já não há nada que se não permita.

Para ser franco, Ladyce, não sei. Há algo que me repugna (eu talvez passasse sem as ridículas cartas do Pessoa a Ofélia); mas, por outro lado, o Van Gogh, o Joyce, o Pessoa e todos desse jaez, deixaram de ter direito ao eterno descanso, se nos desinquietam pelos tempos afora.

Há meia dúzia de anos houve aqui uma discussão interessante: uma antropóloga quis abrir o túmulo do D. Afonso Henriques para tentar saber como seria, como foi, o nosso primeiro rei, o grande “culpado” por estarmos os dois a falar sobre o oceano e a nos entendermos tão bem…
Houve comoção, e o túmulo não foi aberto. Quanto a mim, mal. A dignidade d’O Conquistador não sairia minimamente beliscada, e a nossa ânsia ficaria satisfeita.

Um abraço.

22 03 2012
peregrinacultural

Bom dia,

Ricardo, eu também não sei responder a essa pergunta. Nenhuma das respostas me satisfaz. Se fôssemos levar ao pé da letra as proibições do artista ou do escritor, estaríamos também nos prejudicando, prejudicando os conhecimentos derivados da nossa curiosidade, como foi o caso, do Príncipe Navegador, e até mesmo, por outro lado, dos conhecimentos derivados das múmias egipcias, o exame de DNA do Homem do Gelo, etc, etc.

O travo, o impedimento, é muito mais “emocional” digamos assim, ao saber que alguém como eu e você, ciente de sua habilidade de escolha, intencionalmente escondeu alguma coisas que não queria conhecida e que não faz a menor diferença no valor de sua contribuição para a cultura, para a humanidade, que seja, sabermos ou não desse segredo.

Um grande abraço e obrigada pela contribuição ao diálogo. Ladyce

22 03 2012
Nanci Sampaio

Grande questão!

Van Gogh é meu artista favorito. (Ponto final) Ante a possibilidade de conhecer outras de suas obras, e levando-se em conta que vivemos em épocas diferentes, votaria pela divulgação desses achados, mesmo esbarrando na ética, pois não me parece desmedido desrespeito com o pintor, ou com seus admiradores, mas a oportunidade de fazer reviver aquele momento fugidio e talvez insatisfatório que, embora rejeitado, contribuiu para a arte que conhecemos hoje; afinal o que faz de van Gogh um van Gogh? Sua mente inquieta, sua produção incansável ou a aceitação de padrões e regras e preceitos morais?

Para mim, em contrapartida, quero uma grande fogueira na despedida: meus livros, meus objetos pessoais, fotografias, meu laptop, por fim, meu corpo inerte no alto da fogueira e ponto final. Não sobrará nenhum vestígio para especulações indiscretas e terei cumprido meu papel de reles mortal! (Mas podem salvar essa pequena reprodução de van Gogh que carrego sempre comigo. Contemplar uma obra de arte faz bem ao espírito, não faz?)

22 03 2012
peregrinacultural

Nanci, bom vê-la por aqui. Então é Van Gogh o seu GRANDE pintor. Ótima escolha! Sim, a nossa curiosidade principalmente pelo fugaz que faz de alguém aquilo que reconhecemos, no caso de um pintor genial, o que o faz diferente dos outros, o que o faz brilhar, parece justificar a quebra do sigilo.

Concordo com você, para mim, se eu puder me organizar, tudo irá pelos ares, transformado em pó. Não deixo nada para trás.

Uma das experiências mais cruéis que tive foi ter que me desfazer do conteúdo da casa de um irmão que morreu subitamente, inesperadamente. Foi invasivo descobrir seus segredos. Senti-me muito mal. Mas tinha que ser feito. E lá, naquele momento, decidi que iria começar a cobrir com areia as minhas próprias pegadas, que na medida do possível o que eu deixasse para traz não me poria a descoberto; que fossem comigo para o além os sonhos adormecidos, os projetos inacabados, as esperanças frustradas porque nada disso falaria de mim, só do que não foi, do que não fui. Uma grande lição.

E assim volto aos quadros de Van Gogh, aos quadros sob outros quadros, aos textos nunca publicados dos escritores… eles também são o que não foi… O que não existiu… Não são eles o negativo do que tornou esses artistas, escritores apreciados? Amados?

Obrigada pela generosa resposta aos meus questionamentos. Ladyce

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