Imagem de leitura — Cayetano de Arquer Buigas

30 03 2012

Homem lendo jornal

Cayetano de Arquer Buigas (Espanha, 1932)

óleo sobre tela

www.arquerbuigas.com

Cayetano de Arquer Buigas nasceu na Espanha em 1932.  Passou a adolescência entre Madri e Barcelona.  Mostrou talento para o desenho desde cedo.  Antes de se dedicar à pintura, dedicou-se à fotografia e ao cinema. Aos vinte e sete anos finalmente rendeu-se ao desenho e à pintura e o tem feito desde então.





Quadrinha infantil da horta em casa

30 03 2012

Plantando uma horta, ilustração de Kay Draper.

Para ter sempre verduras,

No almoço e no jantar,

No quintal da minha casa

Uma horta eu vou plantar.

(Walter Nieble de Freitas)





Palavras para lembrar — William Hazlitt

30 03 2012

Repouso, s/d

Henri Lebasque (França, 1865–1937)

óleo sobre tela

“Os livros nos deixam entrar nas suas almas e abrem para nós as portas para os segredos das nossas”. 

William Hazlitt





Pralapracá, poesia de Cassiano Ricardo, uso escolar

30 03 2012

Desconheço a autoria dessa ilustração.

Pralapracá

Cassiano Ricardo

E começa a longa história

do navio que ia e vinha

pela estrada azul do Atlântico:

Ia, levando pau-brasil

e homens cor da manhã, filhos do mato,

cheios de sol e de inocência;

vinha trazendo delegados…

Ia, levando uma esperança;

vinha trazendo foragidos de outras pátrias

para a ilha da Bem-aventurança.

Ia levando um grito de surpresa;

————- da terra criança;

e vinha abarrotado de saudade

————–portuguesa…

Em: Martim Cererê de Cassiano Ricardo, Rio de Janeiro, José Olympio: 1974

Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974) foi um jornalista, poeta e ensaísta brasileiro.

Obras:

Dentro da noite, poesia, 1915

A flauta de Pã, poesia, 1917

Jardim das Hespérides, poesia, 1920

Atalanta, poesia, 1923

A mentirosa de olhos verdes, poesia, 1924

Borrões de verde e amarelo, poesia, 1925

Vamos caçar papagaios, 1926

Martim Cererê, poesia, 1928

Canções da minha ternura, poesia, 1930

Deixa estar, jacaré, poesia, 1931

O Brasil no original,  crítica, teoria e história literárias, 1937

O Negro na Bandeira, crítica, teoria e história literárias, 1938

Pedro Luís: visto pelos modernos, crítica, teoria e história literárias, 1939

Academia e a poesia moderna, crítica, teoria e história literárias, 1939

Marcha para Oeste, crítica, teoria e história literárias, 1942  

O sangue das horas, poesia, 1943

Paulo Setúbal, o poeta,  crítica, teoria e história literárias,  1943

A academia e a língua brasileira, crítica, teoria e história literárias, 1943

Um dia depois do outro (1944-1946),  poesia 1947

Poemas murais, 1947-1948, poesia, 1950

A face perdida, poesia, 1950

Vinte e cinco sonetos, poesia, 1952

Poesia na técnica do romance, crítica, teoria e história literárias, 1953

O Tratado de Petrópolis, crítica, teoria e história literárias, 1954

Meu caminho até ontem, poesia, 1955

O arranha-céu de vidro, poesia, 1956

João Torto e a fábula : 1951-1953, poesia 1956

Pequeno Ensaio de Bandeirologia, crítica, teoria e história literárias, 1956

Poesias completas, poesias,  1957

Poesia, poesia,  1959

Martins Fontes, 1959

Homem Cordial, crítica, teoria e história literárias,  1959

Montanha russa, poesia, 1960

A difícil manhã, poesia, 1960

O Indianismo de Gonçalves Dias, 1964

A floresta e a agricultura, crítica, teoria e história literárias, 1964

Algumas Reflexôes Sobre Poética de Vanguarda, 1964

Poesia praxis e 22, crítica, teoria e história literárias, 1966

Jeremias sem-chorar (1964)

Viagem no tempo e no espaço (Memórias) poesia, 1970

Serenata sintética, poesia XX

Sobreviventes, mais um poema Circunstancial , poesia, 1971

Seleta em Prosa e Verso, miscelânea, 1972

Sabiá e sintaxe, crítica, teoria e história literárias,  1974

Invenção de Orfeu (e outros pequenos estudos sobre poesia), poesia, 1974





Imagem de leitura — Nicolas Maes

30 03 2012

A contadora, 1656

Nicolas Maes (Holanda 1634, 1693)

óleo sobre tela

Saint Louis Art Museum, EUA

Nicolaes Maes, (também chamado de  Nicolaes Maas) nasceu em Dordrecht em 1634 e morreu em 24/11/ 1693 em Amsterdã.  Foi um pintor da época barroca na Holanda e se especializou em cenas do dia a dia assim como em retratos.   Filho de um próspero comerciante, Gerrit Maes, foi em 1648 para Amsterdã estudar com Rembrandt.  Só a partir de 1655, no entanto encontra seu próprio estilo, deixando de lado a influência de seu mestre.  Pelos próximos dez anos ele desenvolve o estilo que o faria famoso, especializando-se em cenas do dia a dia,  ou seja da pintura de gênero, onde sua habilidade para coordenar cores e reproduzi-las colocou-o entre os mais importantes pintores da Holanda.





Uma passagem de Esaú e Jacó de Machado de Assis

30 03 2012

Igreja de Nossa Senhora do Socorro, em São Cristóvão, 1850-1856.

Pieter Godfried Bertichen (Holanda ?, 1796- Petrópolis, Brasil, c. 1866)

Litografia colorida à mão, 18 x 27

Museu Imperial, Petrópolis.

Hoje me peguei relendo algumas passagens de Esaú e Jacó, de Machado de Assis.  E resolvi postar aqui,  parte do capítulo IV,  A missa do coupé, que considero uma jóia representativa do estilo do autor, de sua ironia, de seu modo sucinto, de sua palavra certa.  Não há como não se sair com um sorriso no lábios depois da leitura desse texto tão revelador do comportamento humano.  [ O livro já se encontra em domínio público e há diversos portais oferecendo o texto completo.]

CAPÍTULO IV / A MISSA DO COUPÉ

……………………………………………………………………………………………….

Mergulharam outra vez no silêncio. Ao entrar no Catete, Natividade recordou a manhã em que ali passou, naquele mesmo coupé, e confiou ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na Igreja de S. Domingos.

“Na Igreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de João de Melo, falecido em Maricá.” Tal foi o anúncio que ainda agora podes ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia, o mês foi agosto. O anúncio está certo, foi aquilo mesmo, sem mais nada, nem o nome da pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite. Não se disse sequer que o defunto era escrivão, ofício que só perdeu com a morte. Enfim, parece que até lhe tiraram um nome; ele era, se estou bem informado, João de Melo e Barros.

Não se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguém lá foi. A igreja escolhida deu ainda menos relevo ao ato; não era vistosa, nem buscada, mas velhota, sem galas nem gente, metida ao canto de um pequeno largo, adequada à missa recôndita e anônima.

Às oito horas parou um coupé à porta; o lacaio desceu, abriu a portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a mão a uma senhora, a senhora saiu e tomou o braço ao senhor, atravessaram o pedacinho de largo e entraram na igreja. Na sacristia era tudo espanto. A alma que a tais sítios atraíra um carro de luxo, cavalos de raça, e duas pessoas tão finas não seria como as outras almas ali sufragadas. A missa foi ouvida sem pêsames nem lágrimas. Quando acabou, o  senhor foi à sacristia dar as espórtulas. O sacristão, agasalhando na algibeira a nota de dez mil réis que recebeu, achou que ela provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O mesmo pensaria a caixa das almas,se pensasse, quando a luva da senhora deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostões. Já então havia na igreja meia dúzia de crianças maltrapilhas, e fora, alguma gente às portas e no largo, esperando. O senhor, chegando à porta, relanceou os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objeto de curiosidade. A senhora trazia os seus no chão. E os dois entravam no carro, com o mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram.

A gente local não falou de outra coisa naquele e nos dias seguintes. Sacristão e vizinhos relembravam o coupé, com orgulho. Era a missa do coupé. As outras missas vieram vindo, todas a pé, algumas de sapato roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas de chita ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume,mas a missa do coupé viveu na memória por muitos meses. Afinal não se falou mais nela;esqueceu como um baile.

Pois o coupé era este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquele senhor, cujo nome é Santos, e o defunto era seu parente, ainda que pobre. Também ele foi pobre, também ele nasceu em Maricá. Vindo para o Rio de Janeiro, por ocasião da febre das ações (1855), dizem que revelou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo muito, e fê-lo perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que ia então nos vinte anos e não tinha dinheiro, mas era bela e amava apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Anos depois tinham eles uma casa nobre, carruagem, cavalos e relações novas e distintas. Dos dois parentes pobres de Natividade morreu o pai em 1866, restava-lhe uma irmã. Santos tinha alguns em Maricá, a quem nunca mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez não creio, ele gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria; tirava-lhes o gosto de vir cá pedir-lhe mais.

Não lhe valeu isto com João de Melo, que um dia apareceu aqui, a pedir-lhe emprego. Queria ser, como ele, diretor de banco. Santos arranjou-lhe depressa um lugar de escrivão no cível em Maricá, e despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.

João de Melo retirou-se com a escrivania, e dizem que uma grande paixão também. Natividade era a mais bela mulher daquele tempo. No fim, com os seus cabelos quase sexagenários, fazia crer na tradição. João de Melo ficou alucinado quando a viu, ela conheceu isso, e portou-se bem. Não lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bela assim que zangada; também não lhe fechou os olhos que eram negros e cálidos. Só lhe fechou o coração, um coração que devia amar como nenhum outro, foi a conclusão de João de Melo uma noite em que a viu ir decotada a um baile. Teve ímpeto de pegar dela, descer, voar, perderem-se…

Em vez disso, uma escrivania e Maricá; era um abismo. Caiu nele; três dias depois saiu do Rio de Janeiro para não voltar. A princípio escreveu muitas cartas ao parente, com a esperança de que ela as lesse também, e compreendesse que algumas palavras eram para si. Mas Santos não lhe deu resposta, e o tempo e a ausência acabaram por fazer de João de Melo um excelente escrivão. Morreu de uma pneumonia.

Que o motivo da pratinha de Natividade deitada à caixa das almas fosse pagar a adoração do defunto não digo que sim, nem que não; faltam-me pormenores. Mas pode ser que sim, porque esta senhora era não menos grata que honesta. Quanto às larguezas do marido, não esqueças que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.

Em: Esaú e Jacó de Machado de Assis, Rio de Janeiro, Edições de ouro: 1966.  Original publicado em 1904, hoje em domínio público.








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