Imagem de leitura — Georges Croegaert

2 05 2012

Lendo as notícias, s/d

Georges Croegaert (Bélgica, 1848-1923)

Óleo sobre madeira,  27 x 22cm

Leilão Bonhams

Georges Croegaert,  nasceu na Antuérpia na Bélgica em 1848. Estudou na Academia de Belas Artes e a partir de 1876 passou a exercer a sua profissão em Paris onde passou o resto de sua vida profissional. Sua especialidade consistiu em pequenos retratos femininos de estilo próprio à Belle èpoque e por muitas pinturas anticlericais que fizeram um gênero na época.  Expôs entre 1882 e 1914 no Salão de Paris e no estrangeiro.  Faleceu em Paris em 1923.





Formigas históricas, texto de Viriato Corrêa

2 05 2012

São Luiz do Maranhão, s/d

Fernado Castelo Branco (Brasil, contemporâneo)

Pintura

http://casteloartes.blogspot.com.br/

Formigas históricas

Viriato Corrêa

Naquele primeiro decênio do século XVIII os frades capuchinhos do Convento de Santo Antônio de S. Luiz do Maranhão estavam de um azar horrível.

A horta, a linda horta que cultivavam na gorda e vasta terra do quintal do convento, não dava positivamente nada. A couve era pouca para a sopa e os cozidos, o repolho não chegava sequer a arredondar, o cebolinho não medrava, a alface, o nabo, a bertalha — uma miséria.

E tudo isso por que? Porque as malditas saúvas, as infernais formigas, proliferavam assustadoramente por todos os cantos do terreno dos frades.

Era uma canseira aquilo. Quando a plantinha ia começando a viçar, quando os tomates, os pepinos, a alface, o coentro, a celga, tudo ia dando os primeiros sinais de vida, zás!  lá vinham as formigas e, numa noite, inutilizavam o trabalho de um mês inteiro. Um inferno.

O superior dos capuchinhos fez tudo que era humanamente possível fazer contra formigas: regos em roda dos canteiros de plantas, figi à boca dos buracos, água abundante na “panela mestra” dos formigueiros, mas tudo foi inútil. As formigas desapareciam por uns dias, por semanas, mas voltavam sempre, cada vez mais numerosas e cada vez mais daninhas.

Da horta já tinham passado para o pomar. As laranjeiras ficavam peladas de dia a dia, os tamarindeiros não tinham mais folhas, as jaqueiras já não vingavam uma carga. Um pavor!

Os frades reuniram-se, conferenciavam, tramavam, rezavam à beira dos formigueiros, mas tudo baldadamente. O demônio das formigas voltavam, voltavam sempre, às fieiras, aos milhões, destruindo e devastando.

Uma manhã o irmão dispenseiro acordou alarmando o convento.  Estava tudo perdido para a comunidade capucha de S. Luiz do Maranhão!  As formigas agora já se não satisfaziam com o pomar e a horta.  Tinham invadido (parecia incrível, mas tinham!) a despensa da ordem e estavam (que raios de formigas!) a furtar, rigorosamente a furtar, a farinha com que os frades faziam os seus ricos pirões!

Ilustração: desconheço a autoria.

A fradalhada pôs as mãos na cabeça.  Aquela perseguição dos diabólicos himenópteros iria até à destruição total da Ordem no Maranhão. Era o cerco com todos os característicos, era o assédio da fome.

E os frades vieram à despensa verificar o estrago.  Um deles solta um grito aterrador.  A desgraça não estava somente no furto da farinha: as formigas cavavam os seus buracos, afundavam as suas “panelas” debaixo dos alicerces do convento, e as paredes abaladas nos fundamentos, acabariam por vir abaixo, mais tempo menos tempo.

Aquilo era uma invasão de propriedade!  aquilo era o esbulho de um direito!  Para as situações extremas as extremas medidas.

E qual o remédio? Processar as formigas, e processá-las judicialmente. Talvez que a autoridade do juiz desse um remédio aquele abuso.

E os frades capuchos propuseram a ação no foro eclesiástico de S. Luiz. Quanto à data da propositura da demanda não há nenhuma segurança histórica. João Francisco Lisboa*, que teve o processo nas mãos e que dele tirou uma cópia, não lhe encontrou as primeiras folhas.

O processo segue a marcha regular dos processos comuns. Os frades oferecem a acusação e testemunham-na. São pobres, vivem de esmolas e estão sendo insistente e irremediavelmente lesados pelas formigas “animais de espírito contrário ao Evangelho”. As formigas não só os roubavam, tirando-lhes o pão da boca com a destruição da horta e do pomar e subtração da “farinha de pão guardada para o cotidiano abasto da Comunidade”**, como também os queriam expulsar de casa. E terminavam pedindo que fossem mortas as formigas.

O juiz nomeia um curador para as rés. Este, a 17 de janeiro de 1713, contradiz as testemunhas apresentadas pelos frades. As testemunhas são irmãos terceiros da Ordem de S. Francisco, ligados intimamente aos capuchinhos e, portanto, suspeitas de parcialidade.

A 24 do mesmo mês e do mesmo ano o juiz, o padre vigário geral, o licenciado José Teixeira de Morais, despreza os embargos de contradita oferecidos pelo procurador das formigas.

Antes, em dezembro do ano anterior, tinha havido a inquirição das rés.  Cinco testemunhas foram por elas apresentadas.  De uma delas conserva-se o nome – o capitão Urbano Rodrigues – que, no tempo, dizia ter 94 anos de idade. É uma testemunha a valer. Afirma que as formigas não podem ter malícia nenhuma no prejuízo que estão dando aos frades, pois que não há nelas o uso da razão, visto que são irracionais e, pelo que se sabe, os irracionais não conhecem a diferença do bem e do mal.  Afirma ainda que elas eram naturais da terra: sempre ali viveram, sempre se espalharam por todos aqueles lugares da cidade e dos matos e que (aí é que, segundo a gíria moderna, “matou os frades na cabeça”) quando os religiosos ali chegaram, já ali estavam as formigas.

Ilustração do livro “Palestina Pitoresca”, sem notação de autoria.

Começaram os debates escritos nos autos.  O procurador dos capuchos faz carga sobre as destruidoras dos haveres do convento; o procurador das rés defende-as rigorosamente.

A defesa citada pelo padre Manuel Bernardes é interessante. O Criador dera às formigas o benefício da vida, elas tinham portanto o direito de conservá-lo por aqueles meios que Deus lhes ensinara. Que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos das virtudes que acautelando os futuros, e guardando para o tempo de necessidade: “Formicae populus infirmus qui proeparat in messe cibum sibi”.

E mais: que o trabalho que elas punham na sua obra era muito maior, respectivamente, que o dos frades em ajuntar, porque a carga era muitas vezes maior que o corpo, e o ânimo que as forças. Que, apesar dos frades serem mais nobres e dignos do que as rés (para os autores da ação este argumento devia ter sido decisivo) diante de Deus não passavam eles de miseráveis formigas. As rés não estavam a usurpar direitos: quando os capuchinhos ali chegaram, já elas ali viviam e que, portanto não deviam ser esbulhadas e, se isso fosse tentado,  “apelariam para a coroa a regalia do Criador que tanto fez os pequenos como os grandes, e a cada espécie deputou seu anjo conservados”.

E finalmente: a terra era de Deus e não deles, os frades.

Passam-se seis meses.  Há como uma pedra em cima da demanda.

As formigas, ao que parece, teimam em destruir os cebolinhos, os nabos e os repolhos dos frades. Eles continuam a ação. Recomeçam-na requerendo a reinstauração da instância perempta. O vigário forâneo, o licenciado Manuel Homem, defere-lhes o pedido.  Procede-se a diligência. A certidão, João Lisboa fez conhecida:

“ Eu, escrivão do eclesiástico, abaixo assinado, fui ao Convento de Santo Antônio dos Capuchos, e sendo lá na sua cerca, citei as formigas em sua própria pessoa por todo o conteúdo da petição e despacho acima, lendo-lhes tudo verbum ad verbum, havendo-lhes nesta forma a citação por feita, em fé do que passei a presente em S. Luiz 19 de junho de 1716 – Joseph Guntardo de Backmannz”.

Pelo que diz o padre Manuel Bernardes, a demanda foi até a sentença final. O juiz determinou que os frades sinalassem dentro da cerca do quintal do convento, um lugar para as formigas viverem e que estas, sob pena de excomunhão, não mudassem de vivenda, “visto que ambas as partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo”.

“Lançada a sentença, é o autor da Nova Floresta quem escreve, foi o religioso, de mandado do juiz, intimar, em nome do Criador, aquele povo, em voz sensível, nas bocas dos formigueiros. Caso maravilhoso, e que mostra como se agradou deste requerimento aquele Supremo Senhor, de quem está escrito, que brinca com as suas criaturas: Ludens in orbe terrarum! Imediatamente: It nigrum campie agmen, saíram a toda pressa milhares daqueles animalejos, que formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo, deixando as antigas moradas e, livres de sua molestíssima opressão, aqueles santos religiosos, que renderam a Deus as graças por tão admirável manifestação do seu poder de providência.”

Frade no jardim, gravura italiana 1416.

Nada disso é verdade.  A demanda das formigas não foi até a sentença final.

João Lisboa, que estudou o processo, afirma no Jornal de Timon que a questão  parou a 20 de junho de 1714, quando é nomeado o novo curador ad litem para as formigas. Parou no termo de vista dado ao procurador dos frades.

E há uma circunstância interessante para mostrar a falsidade das afirmações do grande estilista português.

Em 1714, nos autos da demanda das formigas, ainda se escreviam termos de vista às partes e, a Nova Floresta, onde vem a narração do feito, impressa em Lisboa de 1706, já conta da sentença final.

A demanda das formigas houve.  João Lisboa teve-lhe os papéis nas mãos cento e cinquenta anos depois.

Por onde eles andam agora é o que ninguém sabe.

Em 1860, mais ou menos, frei Vicente de Jesus deu-os de mimo a um particular.***

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*           João Lisboa — Jornal de Timon.

**         Padre manuel Bernardes — Nova Floresta.

***       João Lisboa — Obra citada.

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Em: Terra de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, de Viriato Corrêa,  Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1956








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