Palavras para lembrar — Victor Hugo

5 05 2012

Alberto lendo, 1915

Giovanni Giacometti (Suíça, 1868-1933)

óleo sobre tela

Museu de Belas Artes do Cantão de Lausanne

“Aprender a ler é acender uma fogueira; cada sílaba soletrada é uma faísca.”

 –

Victor Hugo





Abriu em versos o seu coração, poema de Zalina Rolim, homenagem ao Dia das Mães

5 05 2012

Mãe e filhos no jardim, 1928

René Brimstead

Para House & Garden, Julho de 1928.

Abriu em versos o seu coração

Zalina Rolim

Venha do céu o melindroso Anjinho

— Maravilha de graça e de inocência

De nosso lar a flor e da existência

O rescendente laço de carinho.

Venha do céu na doce refulgência

De um sorriso de Deus ao nosso ninho…

Criatura gentil, meigo entezinho,

Do eterno Bem a misteriosa essência.

Venha… e com ele o resplendor da graça

Que — avezinha ideal — passa e perpassa

E acende em nosso olhar doce lampejo…

Venha… e com ele a vaga de ternura

Que o coração dos pais funde e mistura

Na deliciosa música do beijo.

Em: 232 Poetas Paulistas, antologia de Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





Imagem de leitura — Eastman Johnson

5 05 2012

O pequeno convalescente, 1872

Eastman Johnson (EUA, 1824-1906)

óleo sobre papelão, 31 × 29 cm

Museu de Belas Artes de  Boston, Massachusetts.

Eastman Johnson nasceu em Lovell, no estado de Maine nos Estados Unidos em 1824.   Depois que sua família se mudou para a capital do país, seu pai o colocou como aprendiz de um litógrafo em 1840.  Em 1849 mudou-se para Düsseldorf , Alemanha, onde muitos artistas, incluindo muitos americanos, estudavam arte. Lá, participou do ateliê de Emanuel Gottlieb Leutze, em seguida, mudou-se para Haia onde estudou os pintores mestres do século XVII. Terminou suas viagens européias em Paris, onde estudou com Thomas Couture antes de retornar aos EUA em 1855 por causa do falecimento de sua mãe.  De família politicamente influente, ele foi não só um artista americano mas o co-fundador do Museu Metropolitano de Arte, Nova York, que leva seu nome inscrito na entrada. Ficou mais conhecido por suas pinturas de gênero, de cenas da vida cotidiana, e por seus retratos tanto das pessoas comuns como de americanos proeminentes, entre eles: Abraham Lincoln , Nathaniel Hawthorne , Ralph Waldo Emerson e Henry Wadsworth Longfellow.





O Ateneu, de Raul Pompéia, quem não se lembra?

5 05 2012

A escola da jaqueta azul, Gloucester

John Kemp (Inglaterra, 1833-1923)

óleo sobre tela

Glouscester Museums

BBC

Hoje estive pensando no livro de Raul Pompéia, O Ateneu, originalmente publicado em 1888.  Essa história se enraizou na minha imaginação por dois motivos: li a respeito da reclamação de Fernando Meirelles em Recife sobre a falta de público para seu filme Xingu, e ouvi no rádio uma exposição sobre os bullying, assunto muito em voga no momento.  Às vezes as coisas se embaralham nas nossas imaginações.  Pensei nos motivos de Xingu e Heleno, ambos filmes lançados recentemente, não terem atingido as audiências esperadas.  Analisei meus próprios sentimentos a respeito, as razões de eu ainda não ter visto nenhum deles.  E acho que, no meu caso, não fui a nenhum deles por achar que pareciam, pelas chamadas na televisão, um pouco didáticos, como se fossem documentários dramatizados.  Provavelmente estou errada, mas como vou ao cinema regularmente, pensei muito nas razões porque nenhum desses filmes havia me atraído até agora.

Em seguida, ainda com filmes na cabeça, ouvi a reportagem sobre bullying e me lembrei de O Ateneu, uma das nossas obras primas da literatura brasileira.  Devo dizer que sou grande apreciadora, fã mesmo, de filmes de época.  E que quando morava fora do Brasil, onde era mais fácil ver não só nos cinemas mas na televisão filmes da Merchant-Ivory Productions ou séries de época da BBC, do mesmo gênero, fazia tudo para não perder estas produções.  E me pergunto porque nossa indústria cinematográfica, que hoje não deve nada a ninguém em tecnologia, que tem centenas de excelente atores  em que se apoiar, ainda não tentou, seriamente, sem os viéses novelísticos, esse gênero de tanto sucesso lá fora.  O Ateneu certamente estaria entre uma das obras que se adaptariam muito bem ao nicho.

Essas observações não pretendem denegrir os esforços de Fernando Meirelles nem do cinema nacional.  São simples questionamentos que têm por intenção ventilar o que está sendo falado no momento.  Para quem ainda não conhece, aqui fica um trecho do romance de Raul Pompéia, que evidentemente já se encontra em domínio público.

A escola da jaqueta azul

John Kemp (Inglaterra, 1833-1923)

[Atribuído]

óleo sobre tela

Glouscester Museums

BBC

CAPÍTULO III

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Entrei pela geografia como em casa minha. As anfractuosidades marginais dos continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu trabalho; os rios dispensavam detalhes complicados dos meandros e afluíam-me para a memória, abandonando o pendor natural das vertentes; as cordilheiras, imensa tropa de amestrados elefantes, arranjavam-se em sistemas de orografia facílima; reduzia-se o número das cidades principais do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de decorar tanto nome; arredondava-se a cota das populações,perdendo as frações importunas, com prejuízo dos recenseamentos e maior gravame dos úteros nacionais; uma mnemônica feliz ensinava-me a enumeração dos estados e das províncias. Graças à destreza do Sanches, não havia incidente estudado da superfície terrestre que se me não colasse ao cérebro como se fosse minha cabeça, por dentro, o que é por fora a esfera do mundo.

A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a prosódia, a ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação. Quando muito, as exceções e os verbos irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados a boca saborosíssimos.

A história pátria deliciou-me em quanto pôde. Desde os missionários da  catequese colonizadora, que vinham ao meu encontro, com Anchieta, visões de bondade, recitando escolhidas estrofes do evangelho das selvas, mandando adiante, coroados de flores, pela estrada larga de areia branca, os columins alegres,aprendizes da fé e da civilização, acompanhados da turba selvagem do gentio cor de casca de árvores, emplumados, sarapintados de mil tintas, em respeitosa contrição de feiticismo domado, avultando do seio, do fundo da mata escura, como uma marcha fantástica de troncos. Até às eras da independência, evocação complicada de sarrafos comemorativos das alvoradas do Rocio e de anseios de patriotismo infantil; um príncipe fundido, cavalgando uma data, mostrando no lenço aos povos a legenda oficial do Ipiranga; mais abaixo, pontuadas pelas salvas do Santo Antônio, as aclamações de um povo mesclado que deixou morrer Tiradentes para se esbofar em vivas ao ramo de café da Domitila.

Cada página era um encanto, prefaciadas pela explicação complacente do colega. Graças à habilidade das suas apresentações, apertei a mão aos mais truculentos figurões do passado, aos mais poderosos. Antônio Salema, o cruel, sorriu-me; o Vidigal foi gentil; D. João VI deixou-me rapé nos dedos. Conheci de vista Mem de Sá, Maurício de Nassau, vi passar o herói mineiro, calmo, mãos atadas como Cristo, barba abundante de apóstolo das gentes, um toque de sol na fronte lisa e vasta, escavada pelo destino para receber melhor a coroa do martírio.

A história santa revelou-me este épico, quem o diria? — o cônego Roquette! E eu bebi a embriaguez musical dos capítulos como o canto profundo das catedrais. Ouvi suspirar a Crença, o idílio do Éden, o amor primitivo do Gênesis, invejado dos anjos, sob o olhar magnânimo dos leões; ouvi a queixa terna do primeiro par banido para a dor, para o trabalho; Adão vergonhoso, vestindo as parras da primeira pruderie, Eva a envolver a nudez jovem de lírios na túnica de ouro das madeixas, cobrindo com as mãos o ventre, obscenidade das mães, estigmatizada pela maldição de Deus.

E crescia o canto na abóbada e o órgão falava à tradição inteira do sofrimento humano suplantado pela divindade. Modulava-se a harmonia em suave gorjeio, entoando a elevação dos salmos, o êxtase sensual do Cântico dos Cânticos na boca da Sulamita, e a sedução de Booz enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia trágica de Judite, e a serena glória de Ester, a princesa querida.

Subitamente, entreabria-se o quadro sonoro para irromper o coro das lamentações. Acabavam no ar, lucíolas extintas, os derradeiros sons da harpa de Davi; perdia-se em ecos a derradeira antístrofe Salomão; sumiu-se à extremidade do campo a imagem de Rute, ao braço o feixe louro de trigo; entrou a Hebréia sombria na tenda de Holofernes, levando nos lábios o beijo assassino; cobriu-se a aparição luminosa de Ester com o sono da noite de Mardoqueu. Era a gama dolente dos terrores. Clamavam as imprecações do dilúvio, os desesperos de Gomorra; flamejava no firmamento a espada do anjo de Senaqueribe; dialogavam em concerto tétrico as súplicas do Egito, os gemidos de Babilônia, as pedras condenadas de Jerusalém. Vozeava o tenebroso grave das pregações dos profetas. Embalde o fulgor das transfigurações, como o lívido fuzil, escancarava abertas de luz sobre a tormenta noturna; Ezequiel tinha a visão do Eterno; Elias visitava o Mistério numa escapada de chamas. Nada. A música solene era o miserere. Nem o clarão da alvorada de Belém na Judéia debelava a sombra, nem a miragem viva do Tabor. A epopéia agonizava ao rodar do século, ecoava numa caverna onde havia um túmulo; bradava triunfo um momento pela Ressurreição do Justo; morria, enfim, lento, lento com a prece dos mártires do anfiteatro, com a longínqua prece subterrânea dos refugiados das Catacumbas.

A doutrina cristã, anotada pela proficiência do explicador, foi ocasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto, rodeado de altares, para todas as criações consagradas da fé. Curioso encarar a grandeza do Altíssimo; mas havia janelas para o purgatório a que o Sanches se debruçava comigo, cuja vista muito mais seduzia. E o preceptor tinha um tempero de unção na voz e no modo, uma sobranceria de diretor espiritual, que fala do pecado sem macular a boca. Expunha quase compungido, fincando o olhar no teto, fazendo estalar os dedos, num enlevo de abstração religiosa; expunha, demorando os incidentes, as mais cabeludas manifestações de Satanás no mundo. Nem ao menos dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrário, havia como que o capricho de surpreender com as fantasias do Mal e da Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demônio tinha talvez dois metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma vez, que não é tão feio o dito, como o pintam.

O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oráculos obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que metade daquilo era invenção malvada do Sanches. E quando ele punha-se a contar histórias de castidade, sem atenção à parvidade da matéria do preceito teológico, mulher do próximo, Conceição da Virgem, terceiro-luxúria, brados ao céu pela sensualidade contra a natureza, vantagens morais do matrimônio, e porque a carne, a inocente carne, que eu só conhecia condenada pela quaresma e pelos monopolistas do bacalhau, a pobre carne do beef, era inimigo da alma; quando retificava o meu engano, que era outra a carne e guisada de modo especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de indignação contra as calúnias à santa cartilha do meu devoto credo. Mas a coisa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar por mim oportunamente.

Na tabuada e no desenho linear, eu prescindia do colega mais velho; no desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços, divertindo-me a geometria miúda como um brinquedo; na tatuada e no sistema métrico, porque perdera as esperanças de passar de medíocre como ginasta de cálculos, e resolvera deixar a Maurílio ou a quem quer que fosse o primado das cifras.

Em dois meses tínhamos vencido por alto a matéria toda do curso; e, com este preparo, sorria-me o agouro de magnífico futuro, quando veio a fatalidade desandar a roda.

…………………………………………………….

Em: O Ateneu, Raul Pompéia, em dóminio público.

Minha versão: O Ateneu, Raul Pompéia, São Paulo, Ed. Ática:s/d








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