Uma encontro com Chaia Zisman

28 05 2012

Hilary at Kalkan, 2010

Austen Pinkerton (Inglaterra, contemporâneo)

Acrílica sobre tela, 30 x 40 cm

Em um apartamento do Rio de Janeiro com vista para um dos pontos mais conhecidos pelos turistas, a Praça General Osório em Ipanema, a escritora Chaia Zisman recebeu o nosso grupo de leitura [Papa-livros] para um bate-papo numa tarde ensolarada de maio.  Esta foi uma ocasião especial.  Não é sempre que temos a oportunidade de nos encontrar, face a face, pergunta a pergunta, com alguém cujo livro lemos e discutimos nos nossos encontros.  O Espelho de Chaia Zisman havia sido a nossa leitura de abril deste ano, e por causa do contexto histórico esse romance  havia atiçado a nossa curiosidade sobre a pesquisa feita pela escritora. A parte passada no primeiro século depois do descobrimento havia nos levado a uma longa conversa sobre a escassez de informações sobre a época e queríamos conhecer mais da escritora que nos familiarizara com os primórdios da nossa história.

A medida que conversamos com  a escritora  descobrimos que sua habilidade literária corre paralela à expressão artística através das artes plásticas.  Em ambas sua sensibilidade é notável.  Formada em Direito pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro, Chaia Zisman depois de anos de prática desistiu da carreira de advogada em parte porque sua veia artística não podia mais ser calada, não podia mais ser contida.  Dedicou-se às artes tendo frequentado o Instituto de Artes Visuais do Parque Lage,  aqui no Rio de Janeiro.  Seus quadros a óleo na sala de estar do apartamento dão testemunho à habilidade da pintora de veia expressionista, senhora de uma palheta vibrante e alegre.  Mas, surpreendentes foram suas xilogravuras policromadas que alargam, dão espaço, empurram os limites da gravura em madeira, frequentemente caracterizados por tonalidades de grande contraste.  As gravuras de Chaia Zisman  têm nuances de cor e de traçado, de grande sofisticação e beleza.

No entanto, a vida interferiu.  Chaia precisou se desfazer do espaço que dedicara ao seu ateliê, enquanto demandas familiares requisitaram sua total atenção por um longo período.   Como passatempo, nessa época, resolveu escrever alguns causos de família, agrupados numa publicação privada para dar de presente a todos.  Foram 100 cópias.  Só.  Mas uma acabou nas mãos de um editor, que reconhecendo o valor de uma narrativa bem feita, tornou esse passatempo no primeiro livro da escritora. Lá se foram mais 3.000 cópias.  Iniciava-se assim, auspiciosamente, a escritora de O Espelho.

A saga da família do judeu português Emanuel Oliveira ,que começa na Europa antes do Brasil ser descoberto, mas continua aqui no Brasil pelas  gerações seguintes até o século XX, é narrada com riqueza de detalhes e  grande dinâmica.  O romance, publicado em 2006, foi até o momento, a última aventura literária da escritora carioca, que consultou de tudo um pouco, de publicações estrangeiras a teses de doutoramento para poder situar o mais corretamente possível seus personagens em situações verossímeis sem trair os fatos históricos. O fio condutor dessa  aventura, que compreende cinco séculos, são os espelhos ricamente adornados, verdadeiras joias trabalhadas com pedras preciosas que Emanuel dá às suas três filhas.  Acompanhamos os destinos desses espelhos e quando chegamos à costa brasileira, começarmos a refletir sobre as fortes raízes de origem cristã-nova e judaica da cultura brasileira.

Chaia Zisman

Quando perguntada sobre seu próximo romance, Chaia Zisman nos disse que “ele está pronto, no computador, mas ainda não sei se irei publicá-lo”.  O segredo é a alma do negócio em qualquer lugar do mundo, por isso esperamos que o novo romance chegue às livrarias em breve.  Fãs da ficção de Chaia Zisman aqui no Brasil e no exterior nós sabemos que existem às centenas.  A própria autora se surpreendeu com a boa recepção que teve nas universidades americanas.  Agora só nos resta esperar.  Enquanto o fazemos podemos nos entreter e aprender muito também com seus outros romances históricos: Além do Tempo de 1997 ou Estórias que fazem história, de 1993, que como sua mais recente obra também vêm repletos de vinhetas retratando não só o comportamento social de uma época como verdadeiros sketches psicológicos de personagens, ricos o suficiente para dar asas à imaginação de quem os lê, como se fossem sementes de futuros contos ou histórias.

A gentileza e tranquilidade com que Chaia Zisman nos recebeu, acompanhada de sua cadelinha Vida,  nos deixou gratos.  E a maneira singela como nos contou de sua vida como artista plástica e escritora serviram para mostrar que de fato a escritora demonstra no seus dia a dia as raízes profundas da tradição oral de contar histórias da qual a cultura judaica tanto precisou se valer para manter a identidade cultural através dos séculos.  Essa habilidade com a palavra continua viva, com passagens bastante interessantes.  Lembram-nos que é sempre um prazer conversar com pessoa tão versada.  Na saída desejamos que esse tenha sido apenas um até logo, e não um adeus; que voltaremos em breve para conversar sobre seu novo romance.


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