Uma seleção: melhores frases de abertura de romance em língua portuguesa

6 06 2012

Habitante de Patópolis, lendo na biblioteca, ilustração Walt Disney.

No dia 29 de abril publiquei aqui uma listagem, por voto popular das melhores frases de abertura de romances em lingua inglesa, como saiu publicado no jornal The Guardian:

As melhores frases de abertura de romance em língua portuguesa? Dê o seu palpite!

Logo amigos e conhecidos do blog deram alguns palpites e hoje posto essa listagem.  Gostaria de ressaltar, no entanto, que os autores teriam que ser de língua portuguesa.  Alguns se lembraram de obras de Camus e de Flaubert.  Já mais alguém reclamou da lista original não incluir a frase de abertura de Moby Dick, de Herman Melville: “Chamai-me Ismael“.  Mas a brincadeira foi justamente para livros na nossa língua para que pensássemos naquilo que lemos de literatura em português.  A grande surpresa foi o número de autores não brasileiros listados e sobretudo a popularidade dos autores africanos na nossa pesquisa que não tem nada de científica.  Então sem mais delongas, aqui vão as sugestões, lembrando que estarei sempre à disposição de aumentar essa lista a qualquer momento.

Alice sugeriu:

As palavras, como os seres vivos, nascem de vocábulos anteriores, desenvolvem-se e fatalmente morrem.

Em: Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa.

A minha vida se resume a uma larga e sinuosa curva para o amor”.

Em O Planalto e a Estepe, de Pepetela

Elizete sugeriu:

‎”Quem és tu que danças descalço na noite escura?”

Em: Não Te Deixarei Morrer David Crockett, de Miguel Souza Tavares.

‎” Não basta morrer para conhecer o sorriso de Deus – mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira.”

Em: Fazes-me Falta de Inês Pedrosa.

Hira sugeriu:

A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência.

Em: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto

Ladyce sugeriu:

 “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”.

Em:  Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.

“Embora os descaminhos futuros, Sandro Lanari nasceu pintor.”

Em: O pintor de retratos, Luiz Antonio de Assis Brasil

Luca sugeriu:

Tudo no mundo começou com um sim“.

Em: A hora da estrela, de Clarice Lispector

Marilda sugeriu:

“Era uma noite fria de lua cheia.”

Em: O Continente, de Érico Veríssimo.

Nonada”.

Em: Grande Sertão:Veredas, de Guimarães Rosa.

Nanci

A TUA CABEÇA RODOU na direcção do meu rosto, os teus olhos fecharam-se e a tua boca avançou para a minha, através de uma lenta rota de luz, risos e lágrimas”.  Em: Nas tuas mãos, de Inês Pedrosa

Ricardo, do blog O Último Abencerragem:

Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale”.  Em: A Voz dos Deuses — Memórias de um Companheiro de Armas de Viriato, de João Aguiar.

“(Sei que andas por aí, oiço os teus passos em certas noites, quando me esqueço e fecho as portas começas a raspar devagarinho, às vezes rosnas, posso mesmo jurar que já te ouvi a uivar, cá em casa dizem que é o vento, eu sei que és tu, os cães também regressam, sei muito bem que andas por aí.)” Em: Cão como Nós, de Manuel Alegre.

Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento”. Em: A Torre de Barbela, Rubem A.

——-

NOTA:  As citações acredito que estejam todas corretas.  O que estava a meu alcance verifiquei, mas não tenho acesso a todos esses romances.


Ações

Information

13 responses

6 06 2012
RAA

Escolhas muito interessantes, Ladyce!
(O título do livro da Inês Pedrosa, que não li, é «Fazes-me Falta»).

6 06 2012
peregrinacultural

Obrigada Ricardo, erro meu. O título eu era para saber de cor e salteado, porque li esse romance.

Não é interessante que a maioria das pessoas que respondeu é brasileira e ainda assim os romances não o são?

7 06 2012
RAA

É um bom sinal de abertura ao outro (o que, tratando-se do Brasil, não é de admirar).

7 06 2012
peregrinacultural

Fiz-lhe uma visita e “peguei” três seleções suas. Dos três o único autor que já conheço é Manuel Alegre. Os outros irão para a minha lista de futuras leituras, principalmente João Aguiar. Não tenho ideia dos assuntos abordados em seu romance, mas a frase que abre A Voz dos Deuses… me deixou intrigada. Quando morei em Coimbra nos primeiros anos da entrada de Portugal para a Comunidade Européia, naquela época ainda chamada de CEE, o fenômeno de vilarejjos abandonados por causa da emigração me causou grande impacto. Cheguei mesmo a escrever uns contos, historietas, a respeito… Obrigada, um grande abraço.

6 06 2012
Luca Bastos

Eu já tinha respondido ao seu post. Sei lá se aqui ou no Facebook.

E vou responder de novo.

Começo de romance que eu certamente incluiria entre os grandes é o da Hora da Estrela da Clarice:

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim
a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a
pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre
houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de
muito trabalho. …”

Vale a pena ver o resto em http://www.gremioifba.com/outros/Clarice-LispectorA-Hora-Da-Estrela.pdf (lá pela 22a página)

6 06 2012
peregrinacultural

Adiconado. Obrigada Luca, não peguei da primeira vez, desculpe-me.
bjnhs,

6 06 2012
Marilda Romani

Ladyce, você é incansável nessa tarefa árdua de exortar a literatura. Feliz iniciativa, parabéns! ;))

6 06 2012
peregrinacultural

Marilda, obrigada pela contribuição. Fico pasma com o desconhecimento.. Mas, vamos em frente.

6 06 2012
Alexandre Kovacs

Muito bom! Fico com o Machado de Assis e o grande Brás cubas, um autor defunto ou defunto autor!

6 06 2012
peregrinacultural

Obrigada!

10 06 2012
Nanci Sampaio

Ladyce:
Machado é meu escritor predileto. O romance é um gênero imperfeito, cujos deslizes deixamos passar em alguns autores e não descobrimos em outros, como é o caso do nosso querido Brás Cubas.

Por outro lado, e longe da pretensão de eleger a melhores abertura, gostaria de trazer novamente o nome de Inês Pedrosa, desta vez com “Nas tuas mãos”. Em 2004 (6ª edição em Portugal), este livro não havia saído no Brasil; li a publicação da Dom Quixote e passei a acompanhar a prosa de Inês, cujos títulos, felizmente, já encontramos com facilidade por aqui.

O texto, que me conquistou (e que vive e acaba bem, em pouco mais de 200 páginas), começa assim:

A TUA CABEÇA RODOU na direcção do meu rosto, os teus olhos fecharam-se e a tua boca avançou para a minha, através de uma lenta rota de luz, risos e lágrimas. Quando os teus dentes morderam os meus lábios alguém gritou “Bravo!” como na ópera e eu soube que nunca uma rapariga havia sido assim amada. “Espere”, dizias tu, “connosco há-de ser diferente.” Travavas-me o corpo todo com um beijo na palma da mão, os meus dedos agarravam-se, entontecidos, à curva funda das tuas pálpebras, e desse canto macio de pele eu inventei um homem para sonhar até ao dia branco da nossa eternidade. António. Dou-te esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade.

Ao Ricardo, agradeço a inclusão dessas outras vozes portuguesas, novas para mim. Ando às voltas (e apaixonada) por José Luís Peixoto, Dulce Maria Cardoso, Lìdia Jorge e Gonçalo M. Tavares que dispensam apresentações.

Um brinde lusófono [trago as taças e vocês, o Porto?!].
Nanci

11 06 2012
peregrinacultural

Nanci,

Mais uma vez muito obrigada por sua constribuição. Suas observações são continuamente sensatas e interessantes. Ja adcionei a sua frase inicial no texto. Dessa vez não pude entrar com todo o parágrafo, porque essa não era a proposta. Quem se interessar verá aqui entre os seus comentários o resto do parágrafo. Muito bom lembrar de Inês Pedrosa, mais uma vez. Sim, levo o Porto. Prefiro os brancos e secos. E você?

14 02 2015
marielfernandes

Maravilhas de aberturas. Grandes lembranças

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