No mundo da lua, poesia infantil de Martins D’Alvarez

4 11 2012

Lua, ilustração David Burk — http://www.dburkart.com/blog.html

No mundo da lua

Martins D’Alvarez

Lá vai a lua…

Lá vai!…

Boiando…

como um limão que flutua.

E eu fico de cá, pensando:

que haverá dentro da lua?

Mas a lua nem me escuta…

fura uma nuvem,

se esconde.

Surge e se põe a me olhar.

Será que de esconde-esconde

ela está me convidando

para brincar?

E a lua

continua…

Lá vai andando,

lá vai!

— Ninguém a está segurando…

Por que é que a lua não cai?

Em: O mundo da criança: poemas e rimas, volume I, Rio de Janeiro, Delta: 1975

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.  Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará.  Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.

Obras:

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

 “Vitral”, 1934 (poemas).

“Morro do moinho” 1937 (romance)

“O Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).

“Chama infinita, 1949 (poesias)

“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)

“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)

“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)





O rebuliço da manhã, texto de Manuel de Oliveira Paiva

4 11 2012

Rua de Barbacena, 1969

Win Van Dijk (1915-1990)

óleo sobre tela, 37 x 61 cm

“O Santo Cruzeiro ia a pouco e pouco emergindo ao sol. Um peixeiro que passava carregado para a Feira parou em frente ao gradil sagrado, de chapéu na mão, aproximou-se, beijou uma das cruzes de ferro cravadas no meio de um círculo no ponto donde sai cada lampião, meteu a mão no uru, tirou um vintém e sacudiu para dentro. O disco de cobre foi tinir no ladrilho, junto a enorme peanha adornada de assuntos religiosos em meio relevo de barro nas faces do prisma.

As cercanias, à distância, por trás do templo, alçavam os seus coqueiros, as suas mangueiras e plantações, uma povoação de folhagens por trás da de casarias. Para além desses blocos unidos de verdura, adivinhava-se o aspecto desolador do extenso bairro do Outeiro. Uma zona irregular e caprichosa de alegrias da vegetação, entre o mundo da cidade e o vasto aldeamento dos pescadores, dos lancheiros, dos trabalhadores da praia, dos homens do ganho, dos operários, e de uma numerosa população decaída, uns habitando cabanas, verdadeiras covas de palha desse esquimós do areal ardente. Através dos ruídos ouvia-se o cantar do galo ao longe.

Para a cidade, os tetos se distendiam esquentando o sol. Na Rua de Baixo, ali pertinho, o Mercado, com as suas paredes cor de sangue de boi, produzia uma zoada alegre, e era assim a modo de uma grande colmeia de gente. De fronte dele, ao meio da rua, estacionavam animais devolutos, quase a dormir em pé, sob as cangalhas. Nos armazéns, carroças carregavam açúcar. Espalhava-se um odor de água ardente, da destilação próxima, de par com o assobio da máquina a vapor.

A Rua das Flores abria diante da igreja. A população se movia, na labutação diária. De quando em vez brilhava a nota rubra de um xale no meio dos transeuntes afastados, que pareciam pisar em veludo.

Maria desce o patamar, e a sua fascinação continua a esperar de cada canto a imagem do primo. A rua, passando os castanheiros da praça, estendia-se ao olhar, com a sua casaria térrea, indo fenecer num horizonte longínquo, de alvo, de verde, de cinzento e de vermelho. O carro não podia partir imediatamente, porque um comboio de algodão nublava com a sua onda loira, a largura do arruado e avançava como a cabeça d’água de uma enchente, com um passo dançado e medido. Sobressaía ao lume da onda um vulto, a cavalo, e os gritos dos camboeiros e a sonaria dos chocalhos. Enfrentando com o Santo Cruzeiro os matutos descobriam, e depois de ter dobrado para a praia, ainda iam olhando religiosamente para trás.”

Em: Obra Completa, Manuel de Oliveria Paiva, Rio de Janeiro, Graphia: 1993.  Texto retirado do livro: Dona Guidinha do Poço, publicação póstuma, de 1952.

Manuel de Oliveira Paiva  (Brasil, 1861-1892).  Escritor e abolicionista nascido no Ceará. Começou seu estudos como seminarista em Crato, carreira que abandonou, vindo para o Rio de Janeiro estudar na Escola Militar.  Maas retorna ao Ceará em 1883 por problemas de saúde.  Teve uma única obra  publicada em vida, na forma de folhetim no jornal Libertador, em 1889, chamada A Afilhada.  O romance Dona Guidinha do Poço, teve um destino tortuoso até chegar à publicação em 1952, sessenta anos após a morte do autor, que deixou o manuscrito inteiramente pronto ao morrer.








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