As voltas que a vida dá

9 11 2012

Publicado no jornal O GLOBO, 9 de novembro de 2012.

Por que o ensino de história é tão  enjoado para a maioria das crianças e dos adolescentes?  Foi para mim.  Minhas melhores matérias no Colégio Pedro II foram línguas, biologia, química e física.  Cheguei a pensar em fazer medicina.  Mas alguma coisa, inconsciente ainda, me levou a abandonar essa ideia, cursar um ano de vestibular para aprender latim e entrar para a faculdade de letras.

Só mais tarde, quando descobri a história da arte e saí do Brasil para me formar exclusivamente em história da arte, vim a gostar de história. Hoje leio livros de história, secos e documentados, com páginas e páginas de notas de rodapé com um prazer indescritível, como se fossem romances, ainda que meu treino como historiadora da arte, como é feito fora do Brasil, não tenha sido em História, mas sim em Arte.

Gostei muito dos gregos e romanos quando tinha uns doze ou treze anos.  Até então grande parte do meu conhecimento de história tinha suas raízes em Monteiro Lobato, do volume História do Mundo para Crianças, que fazia parte da coleção de Monteiro Lobato, que meus pais haviam nos dado, a mim e a meus irmãos. Mas depois dessas duas fases a história me perdeu.  Naquela época punha-se muito esforço em datas e muito pouco em documentação.   Fiquei impressionada, quando já quase entrando para a faculdade, fui apresentada ao texto completo da Carta de Caminha.  Por que não a conhecera antes?

Só muitos anos depois, descobri que documentos primários como a Carta de Caminha seriam uma das minhas grandes paixões. E assim quase perdi a oportunidade de me dedicar ao conhecimento do passado que se tornou parte das minhas profissões e que me deu tanto prazer.  Quantos mais historiadores perdemos no caminho por não sabermos como atrair a atenção de nossos alunos?

Espero que hoje com as possibilidades multimídia isso tenha se resolvido para melhor.  Sim, tenho esperanças, porque o aluno que não é atraído por um texto pode ser por um filme, ou uma música ou uma pintura.  Espero, porque acredito na antiga profecia de Edmund Burke, filósofo e político irlandês:  “Quem não conhece a sua história tem por destino repeti-la“.  Tenho esperanças de que este augúrio não nos aflija!





Cantigas — poesia de Jorge de Lima

9 11 2012

Lavadeiras no Rio Piabanha em Petrópolis, s/d

Carlos Gomes (Brasil, 1934-1990)

óleo sobre tela, 56 x 48 cm

Cantigas

Jorge de Lima

As cantigas lavam a roupa das lavadeiras.

As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras

ficam tão tristes, tão pensativas!

As cantigas tangem os bois dos boiadeiros!

Os bois são morosos, a carga é tão grande!

O caminho é tão comprido que não tem fim.

As cantigas são leves…

E as cantigas levam os bois, batem a roupa

das lavadeiras.

As almas negras pesam tanto, são

tão sujas como a roupa, pesadas

como os bois…

As cantigas são tão boas…

Lavam as almas dos pecadores!

Levam as almas dos pecadores!

Em: Poesia Brasileira para a Infância, de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968

Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Obras:

Poesia:

XIV Alexandrinos (1914)

O Mundo do Menino Impossível (1925)

Poemas (1927)

Novos Poemas (1929)

O acendedor de lampiões (1932)

Tempo e Eternidade (1935)

A Túnica Inconsútil (1938)

Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)

Poemas Negros (1947)

Livro de Sonetos (1949)

Obra Poética (1950)

Invenção de Orfeu (1952)

Romance:

O anjo (1934)

Calunga (1935)

A mulher obscura (1939)

Guerra dentro do beco (1950)





Palavras para lembrar — Arthur Phelps

9 11 2012

Menina com livro, s/d

Murman Kuchava (Georgia, 1962)

óleo sobre tela

“A leitura às vezes é uma engenhosa ferramenta para evitar a reflexão.”

Arthur Phelps








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